Solitária.
2 Terça
Notas iniciais
Terça, sim, já posso ver que é terça-feira. Apesar de que eu estou cansada de escrever tudo que sinto aqui, ninguém se importa, nem mesmo você. Explosões, tiros, gritos... Tudo isto sendo executado ao mesmo tempo, estou ficando louca... E tudo que tenho é você, diário. Eu jurei a mim mesma que lhe daria um fim nos fins dos meus dias, juramentos não são apenas juramentos... São juramentos. Falta pouco para isto acontecer, na sexta já não irá mais fazer frio... Não estarei tão solitária... O calor virá para você, virá para mim. O fogo irá nos consumir. Sim, ele irá. Não falo do calor maternal ou fraternal, falo do calor, da ardência que irá nos levar para a eternidade. Não quero voltar para casa, este apartamento abandonado me satisfaz, como me satisfaz... Posso me lembrar de quando tinha 6 anos. Eu brincava de boneca aqui, fazia planos, até cheguei a escrever nas paredes que eu dominaria o mundo. Esta parede já não existe mais, virou pó. O tempo tratou de derruba-la. Assim como ele também tratou de me maltratar, satirizar. Não sou a médica que sonhei, mas minha irmã é. Não sou a favorita. Ela é. Eu não sou nada. Ela é. Quem sou eu afinal? A sombra de minha irmã?! Ela se parece tanto comigo, tem o mesmo sobrenome, o mesmo tipo de sangue, os mesmos pais... Uma cópia de mim, até nascemos no mesmo dia, mas... Eu cheguei atrasada. Mamãe quase morreu por minha culpa, eu demorei a sair... Não queria nunca ter saído e sequer ter sido gerada. Não queria nunca ser a causa de seus sofrimentos. Sinto-me culpada por muitas coisas, mesmo sabendo que lá no fundo eu não tive culpa. Não pedi para ser a desprezada. Tão pouco a responsável por seus problemas de saúde, mas... Eu sou, querendo ou não eu sou.
Queria viver ao lado de uma piscina. Lá tudo é feliz, é alegre. É colorido. Não tem tantos tons cinza. É azul, misturado com as cores que estampam os biquínis das garotas “super-legais”. Não queria viver neste quadro triste, onde só se enxerga preto e branco. Queria ter vida, queria ser vida. Queria ser a rainha do baile de outono, mas... Sequer me inscrevi, nunca tinha um par. Ninguém queria sair comigo, me chamavam de “Garota dos olhos tristes”, todos tinham medo de minha tristeza e melancolia ser contagiosa. Uma andorinha sozinha não faz verão, mas eu sozinha faço um inverno eterno. Eles só sabiam meu nome, apenas a droga do meu nome. Dinheiro para cá, para lá. Era tudo que eu via quando terminei a faculdade. Isto faz uma garota ficar triste, por que ela não escolhe por quem irá se apaixonar... Ela nunca escolhe. É você ou seu dinheiro. Violência, morte, drogas e sexo. Tudo por seu maldito dinheiro. Vá com ele e deixe esta garota do norte em paz. Não sei o que é dinheiro, também não quero saber. Talvez, seu eu pudesse mudar sua mente, espere... Se?! É tão tolo criar expectativas com você. Sim, é tolice. Você não tem salvação, nem eu tenho. Somos feitos do fogo, não temos sangue nas veias... Temos larvas... Larvas que uma hora saem e queimam todos. Somos vulcões ambulantes. De qualquer forma... Se você me chamar eu irei, você sabe que eu irei. O poder da juventude está na minha mente. Não tenho mais 17 anos... Mas por você... Eu posso voltar a ter. Não tenho mais aqueles olhos pretos cheios de vida, ele ficou cinza... Sem vida. Eu morri, o amor me matou. Sim, ele me matou. Sou a outra mulher, a mulher que você nunca se importou. Sou a outra. Sou a segunda. Sou a intrusa. Mas, por você... Por você eu continuo sendo a segunda, por você eu crio vida... Por você eu ressuscito. Ah... Por você... Eu faria tudo por você... Mesmo sabendo que você não faria nada por mim. Isto sim é uma poesia... A beleza negra, o gosto amargo da minha boca tocando na sua... A sensação ruim de quando você vai embora... A tristeza que você me deixou quando foi embora. É tão poético que chega a ser patético, mas poético. Até por que, a vida é bela... É o que aquele folheto que usei de travesseiro dizia. Estarei esperando por você... Olhos negros.
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