Solidão é só um desperdício de fôlego. | Cobrina
1 Capítulo Único
― Me lembro de todas as lutas meu bom companheiro. ― Cobra escondeu um sorriso quando ouviu as palavras cantadas de Karina saírem desajeitadamente de seus lábios enquanto assistiam a raivosa tempestade do lado de fora da Aquazen. ― Você muitas vezes provou ser um grande guerreiro.
O braço dela se estendeu para além da tenda, captando metade de um copo de água da chuva e entregando a ele.
― Toma de uma vez. Afogue suas mágoas me ouvindo cantar fora do tom. ― Os olhos dela se estreitaram em dúvida. ― Na verdade eu não lembro de mais nenhuma outra parte dessa música.
― O seu coração é uma casa de portas abertas. ― Cobra ergueu o copo, o queixo baixo e os olhos erguidos para Karina. Ela pegou sua própria dose de água de chuva e ergueu na direção do amigo antes de virarem de uma vez. ― Amigo, você é o mais certos das horas incertas.
― Amiga. ― Ela o corrigiu. ― Quer saber de uma coisa? Eu nem estava afim de ficar naquela festa mesmo.
― Devia ter corrido para a sua casa quando todo mundo saiu correndo da praça.
Karina deu de ombros, deixando um sorriso escapar entre os lábios ao se lembrar da cena. Era um show exclusivo da Galera da Ribalta. Por causa do iminente sucesso da banda, estava cada vez mais difícil ver seus integrantes por ali. E quando eles finalmente tiveram uma brecha na agenda decidiram presentear seus primeiros fãs ― amigos e vizinhança ― com uma apresentação na praça. Na verdade ela se sentira muito esquisita por ter ido até lá prestigiar Pedro. Porque eles não estavam mais juntos, mas era como se ela não pudesse ignorar que ele fora importante em determinado momento de sua vida. E ela fora importante para o começo da banda.
E quando toda aquela chuva torrencial caiu inesperadamente e ela se viu encurralada em uma multidão desesperada que corria para salvar o penteado e a roupa nova, o primeiro lugar que encontrou para se proteger do tumulto foi o Aquazen, aberto por causa dos sucos Majeff. Estava quase alcançando a porta quando viu Cobra estático na chuva, olhando para o nada. Conhecia aquele olhar perdido. Aquela maneira de tentar esconder a derrota. O modo como seus dedos se apertavam nas palmas de suas mãos. Foi até lá, no meio daquela confusão de ventos e trovões e o puxou pelo braço.
Ele simplesmente não resistiu. E lá estavam eles, debaixo de uma das tendas do Aquazen, vendo Mari e Jeff correrem para longe e deixa-los ali praticamente na escuridão, já que a energia do bairro acabara.
― Já ouviu uma música que fala mais ou menos assim... ― Ela tentou se lembrar, recostando-se em uma pilastra. ― Eu estarei lá por você. Quando a chuva começar a cair. Eu estarei lá por você. Como eu já estive antes. Eu estarei lá. Porque você estará lá por mim também.
― Você está bastante musical hoje. ― Cobra se recostou ao lado dela.
― Se há alguma coisa que aprendi com Pedro durante o tempo em que estivemos juntos foi que música ajuda muito. Independente da situação. As pessoas cantam o que o seu coração precisa ouvir em determinado momento. Por isso não corri para casa. Porque achei que você precisasse ouvir uma playlist motivacional. Então, qual o tema?
― É meu aniversário. ― Cobra admitiu depois de um longo momento em que a melodia ríspida da tempestade foi a única coisa que ouviram.
Ele não tinha planejado mencionar aquilo para ninguém. Talvez para Jade. Mas ela parecia não estar muito disposta a ouvi-lo. Já tinha um bom tempo em que ela determinara outras prioridades em sua vida. E Cobra nunca estava incluído entre elas. E, além do mais, ninguém nunca comemorava o aniversário dele. As pessoas seriam capazes de comemorar seu enterro, mas ninguém nunca se lembrava do fatídico dia em que viera ao mundo. Era como se não pudesse ser lembrado. Como se precisasse ser apagado.
― Que? ― Karina escorregou pela pilastra, seu braço tocando o braço dele. Cobra desviou os olhos para ela por um momento e lá estava aquele sorriso zombeteiro de quem não está disposta a acreditar nos jogos dele. Era um daqueles sorrisos que o fazia pensar que não importasse o quanto o vento da tempestade congelasse seus ossos, ele sempre sentiria uma chama acesa dentro de si aquecendo de sua garganta até as pontas dos dedos sempre que ela sorria de forma sincera e natural. ― Por que você não me contou?
Ela lhe deu um soco no braço, tirando-o da distração que era fitar aquele rosto molhado pela chuva.
― Ninguém gosta do meu aniversário. Por que eu iria gostar?
― Comigo acontece mais ou menos a mesma coisa. ― Karina prendeu a respiração. Seus olhos pararam em um ponto fixo das águas turbulentas de uma das piscinas. ― Pedi para que eles deixassem de me parabenizar aos seis anos, quando entendi o que aquela data significava. Ei, parabéns Karina! Hoje faz tantos anos que você matou a sua mãe!
― Você não matou a sua mãe. ― O ombro de Cobra empurrou o dela com cuidado. Karina arrastou os lábios em um sorriso conformado. Ele quase sorriu com ela. ― Não pode se apegar a esse momento como se ele fosse apenas o final da vida dela. É o começo da sua. Ela queria que você respirasse o mundo com a mesma intensidade com que ela pôde respirar.
Karina soltou o ar dos pulmões e os puxou de volta com força. Cheiro de asfalto molhado, cloro, grama e aquela fragrância mentolada de Cobra. Deslizou pela pilastra, encostando seu ombro no mármore frio e encarando-o de forma sincera.
― Ela teria gostado de conhecer você. ― Karina percebeu aquele sorriso de quem não acreditava naquela possibilidade se arrastando pelo rosto dele. A incredulidade dele se devia ao fato de que Lucrécia não o aprovava, mesmo depois de seu esforço para se parecer mais com o mundo de Jade. Na verdade, a maioria das pessoas que o conhecia não o aprovava. ― Quer saber por que eu sei disso?
Ele ergueu as sobrancelhas esperando qualquer desculpa que Karina pudesse inventar.
― Porque naquele dia um pedaço do coração dela se uniu ao meu. E o meu coração por inteiro gosta de você, Cobra.
Os lábios dele se entreabriram, mas as palavras não vieram. Por um segundo os olhos azuis de Karina pareceram mais agitados do que as águas das piscinas do Aquazen, lutando contra a tempestade insistente. Ela piscou devagar, desviando o rosto antes que ele percebesse a vermelhidão em suas maçãs do rosto e agitou os braços.
― Sabe o que a gente devia fazer? ― Voltou a encará-lo com aquele jeito sugestivo e animado. ― Arrumar alguma coisa pra socar. Porque isso sempre funciona quando estamos nessa vibe horrível. Aquela parada da endorfina.
― Não. ― O rosto de Cobra pendeu de lado. Seus lábios acompanharam o movimento, deixando vincos perto de seus olhos. ― Tem mais uma coisa que nós fazemos muito bem juntos.
As pálpebras de Karina se afastaram deixando seus olhos levemente estatelados. Ela lutou para manter os lábios pressionados, mas eles se soltaram um do outro com a lembrança que lhe atingiu em cheio. A conversa esquisita após terem se beijado no QG.
“Aí. Posso te contar um segredo nosso? Até que cê beija bem.”
“Brigada. Cê também.”
Ela engoliu em seco. As sobrancelhas de Cobra se mexeram em uma expressão de dúvida. Ele não havia entendido o assombro de Karina. Ela esperou que ele se aproximasse, ouvindo seu coração bater contra suas costelas. Mas Cobra deu uma olhada por cima do ombro e pegou o próprio celular.
― Do que você está falando? ― Karina tentou encontrar a própria voz no fundo de sua garganta.
― De dançar. ― Ele sorriu um pouco mais. ― Admita. Fazemos uma boa dupla.
Karina piscou rapidamente enquanto Cobra escolhia uma música aleatória. Ele tinha razão. Ela gostava de dançar. Mas só havia feito aquilo com ele. Era algo único que compartilhavam. Então se lembrou de Jade. Claro que ele já havia dançado com ela. Claro que dançar não era uma exclusividade de estar com Karina. Jade era uma bailarina. Precisa arrancar aquela dúvida que lhe causava um incômodo incomum que não soube dizer.
― Você costumava dançar com a Jade?
Cobra parou subitamente de mexer no próprio celular, erguendo os olhos para Karina.
― Não. ― Ele sorriu como se achasse aquilo estranho. ― Não. Ela dançava para mim. Mas eu nunca dançava com ela. Até porque o meu tipo de dança é outro. ― Ele piscou um dos olhos. ― Você sabe.
Karina balançou a cabeça afirmativamente deixando um sorriso enorme preencher todo o seu rosto quando Slipknot soou assustadoramente do celular de Cobra. Envolvidos naquele misto de tensão e expectativa eles mal notaram que a chuva havia diminuído o suficiente para que pudessem ouvir a música do celular mesmo que se afastassem enquanto pulavam. E eles realmente pularam. Em poças formadas ao longo do chão, de encontro um com o outro, ao redor dos próprios corpos. Até aquela emoção única sucumbir a razão e Cobra saltar para a piscina.
Karina sentou-se no chão gargalhando da cara de surpresa que ele fez ao notar que não havia sido de propósito.
― Caramba que sensação horrível! ― Cobra gritou, se arrastando de volta para fora da piscina, cambaleando confuso. ― Foi tipo correr no escuro e cair de um penhasco de surpresa.
― Que exagero! ― A música parou. Karina se levantou, jogando os fios frontais do cabelo dourado para trás. ― E você já caiu de um penhasco antes?
― Já. ― Cobra revirou os cabelos, jogando água sobre ela. ― Todas as vezes que você me sorri.
Karina inflou as bochechas numa tentativa vã de segurar aquela risada só para não dar ao amigo o gostinho de cair de outro penhasco por causa de seus sorrisos. Seu coração batia forte por causa daquelas palavras, mas ela ignorou se concentrando na batida pesada de outra música da mesma banda que voltou a soar.
― A gente devia tentar umas coisas novas além de socos e pulos. ― Cobra gritou, pegando o próprio celular. ― Não que eu tenha outra ideia. Mas temos que nos superar sempre. Nada de estabilidade.
― Fechado. ― Karina apontou o indicador para ele. ― Coloca em uma rádio aleatória e vamos ver no que vai dar.
Podia ser divertido. Apesar de sentir as roupas pesadas e os poros eriçados com o frio, Cobra considerou a ideia de Karina. Já era tarde e ninguém fora procurar por nenhum deles. Nem Gael, nem Jade. O mundo os esquecera. E para ele tudo bem. Porque Karina conseguia fazer com que ele se esquecesse do mundo. Era como se com ela a solidão significasse apenas um desperdício de fôlego.
― A gente já não dançou isso? ― Ele balançou o telefone assim que a rádio começou a tocar uma música comum.
― Ok. Sem socos agora. ― Karina mexeu os ombros de forma engraçada. ― Você vai ter que se superar, Cobreloa. Porque eu fiz um curso intensivo de coreografias sofisticadas.
Ele sorriu com a graça que era vê-la girar naturalmente ao redor de seu próprio corpo. Cobra engoliu em seco, levando a mão à nuca e tentando não permanecer com os olhos por muito tempo nas pernas de Karina, nos seus quadris. Não soube o que fazer para dançar sem parecer um maluco lutando com o ar. Sua primeira ação foi correr até Karina, enganchar um braço em sua cintura e ficar girando com ela enquanto a ouvia rir.
― Você está trapaceando me deixando zonza!
― É só o efeito da dose pesada de água da chuva!
Ela nem se importava se as roupas molhadas dele estavam deixando-a ainda mais encharcada. Empurrou-o com força e continuou mexendo os ombros e estralando os dedos enquanto se afastava de costas. Cobra girou no lugar e esticou o braço para Karina. Ela fez o mesmo movimento. Os dedos do amigo se mexeram. Ele a estava chamando. Ela movimentou os braços em ondas como se pensasse sobre a proposta. Então girou mais uma vez, ganhou velocidade na corrida e pegou impulso para saltar sobre ele.
Karina pesou mais do que Cobra previra. Seus joelhos cederam quando os pés dele escorregaram no chão molhado. Ela caiu sobre ele assim que a música acabou, deixando a sonoridade de sua risada ser a próxima melodia a embalar seus pensamentos. Karina escorregou de lado, puxando Cobra para cima assim que se levantou.
― Somos péssimos. ― Ela concluiu quando ele voltou a se endireitar e a encher os pulmões de ar. ― Sei o que estamos tentando fazer. Estamos nos distraindo para não pensar no que dói de verdade.
― Karina não é...
― Não, Cobra. Tudo bem. Eu estou feliz agora, espero que você esteja um pouco menos triste. É seu aniversário. ― Ela chegou mais perto, empurrando as costelas de Cobra com os dedos e ganhando um sorriso.
― Eu estou feliz. ― Ele segurou a mão dela, prendendo os dedos de Karina com os seus. ― Não ia conseguir isso sozinho. Mas não estou aqui só porque não queria passar esse aniversário como os outros. Nem para me distrair sobre qualquer outra coisa que estivesse me chateando.
― Então porque está aqui? ― Ela sorriu de forma inocente.
― Porque você é minha amiga. ― O sorriso infantil de Karina foi se perdendo nas palavras lentas de Cobra. ― Porque está aqui por mim. Porque eu sei como é viver como se um pedaço seu estivesse faltando. ― Karina desviou os olhos. Com a mão que não estava esmagando seus dedos, Cobra arrastou os cabelos dela do contorno de seu rosto para além da orelha. ― E porque quando você disse que éramos como irmãos, foi a pior coisa que ouvi em muito tempo.
Parte dela lutou para fugir dali, mas outra parte fez Karina erguer os olhos para Cobra e sustentar o olhar apreensivo dele. Puxou o ar devagar. Ele havia concordado anteriormente. Mas ela não vira sua expressão. Não sabia como ele lidara com aquilo. Agora ela entendia que Cobra só sustentara aquela história de irmãos para que ela não se afastasse dele.
―Acho que ambos sabemos que nunca achei que você tivesse potencial para ser meu irmão.
A voz de Karina mal saíra. Mas Cobra conseguiu ouvir cada palavra sussurrada por ela. Os olhos fixos em seus lábios. O coração atento ao que ele sempre quisera ouvir. Com os olhos de volta aos dela, deixou a mão escorregar por aquele pescoço quente, deslizar pelo ombro e alcançar sua outra mão. Karina esticou os dedos antes de fechá-los com força ao redor dos de Cobra. Ele deu dois pequenos passos até ela enquanto seus lábios se entreabriam.
Suas bocas se tocaram devagar. Como se a boca dela abraçasse o lábio inferior dele e desse permissão para que fossem adiante. Quando Karina abaixou o queixo, pegou uma lufada de ar e impulsionou o corpo contra o dele, capturando Cobra com outro beijo. Dessa vez mais intenso.
De um jeito que os obrigou a separar as mãos dadas para que ele mergulhasse os dedos no emaranhado dourado de fios de Karina e para que ela apoiasse as mãos sobre o peito de Cobra, sentindo as batidas descompassadas de seu coração. Foi um beijo lento e domado por expectativa e tensão. E quando finalmente suas bocas se afastaram e Karina colocou os calcanhares de volta no chão, demorou alguns segundos para abrir os olhos e encontrar a intensidade do olhar de seu amigo.
― Um de nós devia dizer alguma coisa agora.
― Não. ― Cobra piscou um dos olhos, trazendo Karina para perto novamente. ― Não agora.
Não havia nada que pudessem dizer naquele momento. Então ela sorriu e deixou que ele a beijasse novamente debaixo da garoa fina. E nem o ar mais gelado conseguia quebrar a aura de calor que os rodeava. Uma aura que não podia ser limitada em simples palavras. Uma aura composta de duas almas. Não eram almas gêmeas. Não cabia mais nenhum conceito fraternal entre eles. Suas almas se pertenciam. Sem rótulos. Aquilo bastava.
[Citações/Sugestões/Inspirações Musicais: (1) Amigo – Roberto Carlos| (2) I'll Be There For You — The Rembrandts | (3) Slipknot]
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