Solidão

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Só uma coisinha que me ocorreu em um momento angst.

O azulejo branco do banheiro estava manchado de sangue. O rastro levava a uma banheira, cuja porcelana estava tão ou mais suja que as lajotas frias. De dentro dela, apenas uma mão pendia inerte, a arma do crime fracamente enlaçada em seus dedos: uma navalha enferrujada.



Com o tempo, a torneira aberta fez com que a água sangrenta transbordasse, lavando o banheiro com o cheiro de sangue. O corpo na banheira boiou.



Cabelos negros, tais quais os olhos que, se abertos, revelariam a mesma cor. Um ébano tão profundo que chegava a contrastar com a alvura da pele delicada de mulher no auge de sua juventude. Dezoito anos. Tão nova...



Batidas à porta do banheiro. “Larissa, saia logo daí!” Ordenou a mãe. Normalmente, a garota teria reclamado pela genitora ter entrado em seu quarto para bater à porta do banheiro. Mas dessa vez, nem tinha como. Um corte preciso em sua jugular evidenciava que Larissa jamais falaria novamente.



Mais tarde, quando a encontrassem naquele estado, a primeira coisa que iriam se perguntar, com aquele tom de desespero, seria “Por que, meu Deus?”. Iriam chorar sobre o corpo, tentando compreender o que faria uma jovem tão bonita e inteligente se matar.



Porque Larissa tinha tudo para ser feliz. Era bonita, a miss da sala. E a primeira em notas. Inteligente demais – tanto que se decidiu por cortar a jugular, ao invés dos pulsos, para uma morte mais certeira. Tirou forças de sua vontade de morrer para cortar a garganta e chegar até a artéria, interrompendo sua vida.



O que ninguém entendia, chorando sobre o seu caixão, era que Larissa era apenas isso. Bonita e inteligente. Só. Era um trofeuzinho moldado pelas mães de uma mãe muito orgulhosa de sua bela e inteligente filha. Mas, tal qual um troféu, era apenas um objeto. Ela não se sentia como um ser humano.



Porque Larissa não tinha amigos. Não tinha namorado. Nunca nem beijou. De tanto que suas qualidades eram arrotadas pela mãe, as pessoas só a viam como uma CDF antipática. Nunca nem queriam se aproximar, temerosas de que fosse mais uma esnobe como a mãe. Ela só sabia o que era ser exibida como um prêmio pela família, mas não sabia o que era ser realmente amada e querida como um ser humano.



Vivendo para estudar, procurando sempre ser a melhor em tudo. As notas mais altas, os melhores desempenhos em tarefas extracurriculares. Indo a salões de beleza com a mãe, se submetendo a tratamentos muitas vezes dolorosos apenas para ficar “mais bonita”.



Tudo isso, não era motivado por uma vontade de ser a melhor, de ter um futuro brilhante.



Era para, quem sabe, ter um pouco de atenção.



Podia ter virado uma rebelde, mal educada, drogada, prostituída... Mas não queria ser uma dor de cabeça para os pais.



Larissa só queria um pouco de carinho.



Mas isso não importava, não era mesmo? Porque ninguém jamais saberia como ela se sentia. Ninguém jamais se importou em perguntar “O que você quer da vida, Larissa?”. Ninguém jamais saberia que, tudo o que ela queria, não era ser bonita, ou inteligente, um exemplo pras filhas de todas as amigas esnobes da mãe.



Era ser amada.



Ninguém perguntou. Ninguém jamais saberia. Deduziram que devia ter algum namoradinho que a abandonou, ou que fosse drogada – afinal, se recusaram a fazer autópsia com medo de descobrir essa mancha.



Agora, enterravam o que julgavam ser apenas mais uma garotinha egoísta e rebelde sem causa. A flor que jogaram em seu caixão foi um narciso, a flor egoísta, mas, assim como ela, solitária. Por ignorância, cometeram o último erro por Larissa.



Porque a flor que brochou em seu túmulo, foi aquela que melhor a representava. O cravo roxo.



Seu significado?



Solidão.


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