Perto da minha casa, passava um rio que se chamava solidão. Sem peixes, flores ou folhas à margem, de uma água escura e densa. Ninguém se banhava ali, nem acampava pelas redondezas. Era o tipo de lugar que as pessoas gostariam de ficar longe e até fingir que não existia. Tudo em sua volta era feio e solitário. Ninguém nunca parou pra olhar a beleza, pra entender porque o rio gostava tanto de ficar só. Porém, sempre me cativaram muito os tempos sozinha.

O tempo foi passando. Meu gato morreu, minhas plantas também, meus móveis ficaram velhos e perderam aquele ar campestre. Eu morri. Mais tempo se passou. Minha casa foi vendida, os amigos aos poucos superaram e esqueceram. Passei pela vida rapidamente, sem deixar grandes marcas ou feitos. Sem filhos, sem netos, nem bisnetos. O único sinal de importância que minha mera existência deixou, foi o cuidado que tive com meu querido rio solidão.

Reguei sua árida grama marginal, passeei e lhe fiz compainha durante as estações. Mesmo com a dificuldade causada pela rigidez de meu corpo — parte pela doença que me circundava cada dia mais, parte pelo frio de todas as estações -, me levantava cedo e ia conversar com solidão toda manhã. Esse aspecto da minha vida, não partiu comigo.

Depois do meu falecimento, virei solidão. Eu e meu amado rio viramos um só espírito, um só coração. Agora, os dias são delimitados pelas espumas das minhas margens, como cabelos sendo penteados ao longo da vida. E assim é a minha solidão, e assim sou eu por inteiro.

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