Solemnia

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Me atrasei, mas aqui está o tema 4! Boa leitura! :3 q

Odete escutava aqueles sorrisos em muitos cheiros. Perfumados, ou açucarados, ou eletrizantes. Eram reconfortantes, calorosos, claros, mostravam-lhe que nada teria sido em vão. O esforço, o aperto no coração, a resistência na vontade de desistir. Porque tinha um sonho tão doce para ela como os chocolates que sua madrasta vendia na loja.

Por isso, sorria bastante, a ponto que seu rosto doía um pouco pela falta de costume. Ah, mas não era como se fosse alguém muito fechada em si mesma, pois ainda tentava olhar pelo lado de fora, pelos olhos mágicos das portas, pelas janelas. E nada teria contra viver uma vida mais reservada, o jardim de casa era tão verde como outros, mas ela tinha sido atraída pelos raios de sol que via nos rostos deles quando não a estavam julgando.

Não sair de casa, ter companhia e auxílio de seus amigos próximos, ela poderia ter se encontrado ali também, e se apaixonado naquele dia a dia. Contudo, viver naquela cidade mais aberta, e mais fechada, na cidade grande, ela com alguma sorte e muito esforço conseguiu chegar aquele palco. Aquele palco tão semelhante a outro que encontrou a pessoa com quem dividir suas correspondências, a vida, e muitas sabores que ainda teriam no prosseguimento do tempo.

Dessa forma, temia, mas deixava os rascunhos de possíveis existências e vivências que poderia ter para trás, que tinha feito antes de encontrar qualquer paixão. Uma vez que não, não reconsideraria, a caneta fazia da sua assinatura a final. Ainda que outros chegassem a vir querer lhe mostrar diferente. Não, não.

Ela v-i-v-e-r-i-a, porque ela tinha um sentido no mundo. Mesmo que às vezes ficasse difícil de acreditar, pois tinha momentos que lhe era muito trabalhoso se fazer entender. Com ou sem língua de sinais, desenhos, e a própria escrita. Às vezes ela tinha que se lembrar que as pessoas, de vez em quando, ou sempre, não querem ouvir. Engraçado como haviam muitos opostos existindo em um mesmo espaço, pois tinha vezes que ela, em desespero, poderia oferecer tudo em troca de ouvidos que pudessem escutar.

E o que escutaria? Talvez o próprio som de sua voz. Era um pensamento meio bobo de querer ter c e r t e z a, de querer provar de que não estava se traindo. Quem sabe sua voz fosse contrária e a obrigasse a retroceder? Realmente, um pensamento estranho, como se estivesse se enganando aquele tempo todo e seu sonho se esmigalharia a qualquer momento, uma vez que “não era aquilo que devia estar fazendo naquele momento”.

Não, não. A própria voz pode ser enganosa, amigos já lhe disseram. “Talvez seja bom que você não consiga ouvi-la”. Contudo... provavelmente também queria dizer que a própria música que tocava deveria ser enganosa, um sonho...

“Não há nada de mal em querer sonhar, mesmo que um pouco” Monique chegou a lhe escrever uma vez. É, provavelmente era isso.

Com uma harmonia tocando no coração, a flauta ainda com ela, Odete agradeceu aqueles que a ouviam os cumprimentando.

Seu pai aplaudia sua performance de onde estava. Gostava de imaginar que ele seria o que mais se poderia ouvir naquele momento entre todos os outros, Monique e sua madrasta também não ficavam para trás se tivesse de escolher, mas era com seu pai que ela apreciou aquela visão de instrumentos sendo tocados, e os lábios se mexendo em um canto belo.

Ainda que houvesse aqueles que falavam que ele teria “merecido tudo aquilo”, uma filha surda, o acidente de carro que lhe fez perder a movimentação das pernas, e uma ex-esposa amargurada que não quer que ele a esqueça, onde volte e meia ia nas redes sociais para “queimar a imagem” dele, Odete ainda o respeitava.

Sabia que em parte as pessoas não estariam erradas quando no dia do acidente ele estava alcoolizado quando dirigia, e tinha sido um marido desatento para sua ex-esposa. Mas o que aquilo tudo tinha haver com ela?

Nunca se viu como uma forma de “pagamento” pela forma como o pai agiu, e ele também sempre evitou que ela se visse assim, mesmo quando ainda agia da forma de “antes”. Por isso, Odete só via aquela pessoa como um bom pai.

Não sabia se continuaria a sentir o mesmo se ele não tivesse decidido mudar sua vida, assim que se separou de sua primeira e antes de conhecer sua segunda esposa, mas ele era como era naquele momento, e ela apreciava isso.

Não era mentira. Nada daquilo era apenas um sonho. O “sonho” já tinha acabado com o fim da performance, mas seu pai ainda estava ali, e logo sua madrasta se junto a eles, quando terminou o seu período de trabalho na chocolateria, bem como Monique, depois de sua própria apresentação no teatro nas proximidades dali.

Ela queria gravar aquela visão em uma fotografia, mas nada guardaria tão bem as emoções do momento do que o próprio sentir do corpo. Estava contente de que ainda estivesse andando ali com eles, no mundo presente. Ainda podendo ver o final do dia e o início da noite, até o amanhecer...

Notas finais
Até ~
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!