Soldado 37

3 Elizabeth Stein: Uma doce vítima


Notas iniciais
Preparem os lencinhos pessoal!

Já do lado externo de Dachau, Müller caminhava vagarosamente por ruas tortuosas, ruas que com toda a certeza teriam inúmeras histórias tristes para contar, rolando as pedrinhas do chão com os pés ele sorria, não pelo ato cruel que acabara de cometer, mais sim de uma doce lembrança dos tempos de criança, de quando ainda era só um menino feliz e sem preocupações, em sua mente vinham-lhe as lembranças de sua antiga casa, não muito grande, mas suficientemente confortável para ele e seus pais, a penúltima casa da rua alemã tranquila, pintada de branco e verde-folha, com dois andares. Fredrich se recordava detalhadamente de seu quarto, de seus amigos, das brincadeiras, e Beth, a pequena Elizabeth Stein, com quem possuía uma grande amizade, lembrou se também que alguns dias antes de Beth sumir de vez ele tomara coragem de dizer que a via mais do que como amiga. Ah sim, um amor de infância, desde que vira aqueles olhos castanhos escuros o pequeno alemão de 13 anos se apaixonou, porém parece-me que as circunstâncias não o queriam com a jovem judia, que morava na casa que se erguia ao lado da casa branca e verde-folha, a última da rua, pintada de branca e laranja, era maior que a da família de Müller, e bem mais agitada, não se recordando bem do que acontecia lá, ou talvez fosse melhor não recordar-se, mas sem dúvidas, era um lugar agitado e feliz...

Abruptamente retirado de seu delicioso devaneio, Müller ergueu os olhos azuis angelicais para ver quem fora o inconveniente que o tirou do seu passado perfeito, era o Sgt. Hubberman, que dizia a Fredrich algumas palavras de incentivo:

_Muito bem soldado Müller, muito boa mira, aquele rato poderia ter apedrejado algum de nossos homens se não tivesse sido rapidamente eliminado, meus parabéns, foi realmente um belo tiro!

Hubberman dizia essas palavras com tamanha empolgação, que chegava a causar ânsias no soldado que com um sorriso extremamente forçado agradecia o sargento. O mesmo então deu um leve tapa no ombro esquerdo de Müller e se retirou de perto do soldado que continuou a sua caminhada, agora sem ter suas felizes lembranças, apenas pensando em coisas de seu “trabalho”.

Chegando à sua cama, Müller deitou se ligeiramente, com a mente perturbada e uma sensação terrível o corroendo por dentro, sentia que o seu dia ia ser ainda pior a partir daquele momento.

Realmente, Fredrich mais uma vez estava certo, uma mensagem anônima entregue à seu grupo apontava uma casa alemã que, poderia estar servindo de local para esconderijo à judeus com o consentimento dos donos do imóvel.

Revirando os olhos de forma irritadiça Müller levantou-se e passando a mão pelo bolso esquerdo, checou se seu passaporte para a liberdade ainda encontrava-se ali _Ora que idéia idiota, quem ia pegar um saquinho cheio de pedras negras?_ Pensou consigo mesmo enquanto sentia o volume do embrulho no bolso desejado.

Em 5 minutos juntou-se aos companheiros e dirigindo-se ao local que era um pouco distante, iniciaram uma conversa cheia de emoção, em que cada monstro nazista mostrava que ainda possuía um pouco de humanidade em si, conversavam animadamente sobre suas respectivas famílias, menos, é claro, quem não tinha família, que preferiam ficar olhando as partículas de pó flutuarem pelo ar.

Depois de incontáveis lamentos de soldados com saudades de casa, chegaram ao local indicado no recado, era uma casa simples, que possuía janelas e portas muito bem fechadas, não sei se era por conta do recado, mas ela realmente parecia muito suspeita, silenciosamente o grupo nazista esgueirou-se para a frente da porta frontal da casa, duas batidas, e uma moça loira de olhos claros e surpresos abriu um fresta da porta, era claramente ariana, e parecia muito irritada com a visita dos soldados, tanto que quando Müller perguntou-lhe se poderiam checar a casa ela bateu a porta em seu rosto alvo e serio, acertando de leve seu nariz, sem pensar duas vezes os soldados que se encontravam atrás de Fredrich arrombaram a porta com certa facilidade e já apontando as armas para a jovem loira adentraram o lugar, Fredrich Müller e o restante do grupo vasculharam cada pedaço da casa, e foi no porão, numa parede falsa que encontraram a “recompensa do esforço”, uma judia, e um judeu, ambos apavorados, com um expressão de verdadeiro terror estampada nos rostos que estavam de uma forma encobertos pelos cabelos longos, de quem não os cortava a anos, os nazistas saboreavam o achado, Muller não, ele apenas queria sair logo dali, aliás, de alguma forma aquele local afetava-o, sentia ali uma energia que já havia experimentado antes, então apontou sua arma para o homem, puxou e gatilho, e atirou sem remorso, porém o tiro não acertou o lugar desejado, já que foi desviado na hora de partida, quando um dos nazistas bateu o braço na arma de Müller.

O tiro acertou o peito da mulher, que soltando um grito de dor caiu no chão, nesse momento seu rosto foi totalmente revelado e por um maldoso capricho do destino, aquela mulher era Elizabeth...

Um grito masculino foi ouvido da parte de cima da casa, então outro soldado deu dois tiros no judeu que se atirou ao lado do corpo feminino às lagrimas, o mesmo morreu imediatamente, e todo o grupo subiu para ver o que havia acontecido, exceto Fredrich que permaneceu estático vendo sua Beth ferida, talvez até morta, e por suas mãos, ele sentia-se um verdadeiro monstro, essa sensação nunca fora tão forte, remotamente ele chegou perto do corpo que fez um leve movimento com as mãos reacendendo a esperança que talvez ainda houvesse vida ali, olhando os mesmos olhos castanhos escuros que faziam seu coração acelerar quando era mais jovem, ajoelhou se afastando um pouco o corpo do judeu morto e olhou fixamente para Elizabeth derramando suas lágrimas carregadas de dor, a moça então deu um doce sorriso e sussurrou:

_Fred? Posso pedir algo a você?

Sem forças para falar Fredrich apenas balançou a cabeça positivamente ainda sem controlar o choro e Beth sorriu novamente antes de dizer:

_Por favor, cuide do meu sobrinho Max Stein, acho que você me deve essa não?_ Disse docemente olhando as lágrimas escorrendo pelos olhos de Fredrich.

Chorando com ainda mais força, ele novamente fez um movimento positivo para Beth e apenas perguntou onde estava o menino. Com dificuldade ela levantou o dedo indicador direito e apontou para um pequeno aglomerado de cobertas que tremia, e sorrindo mais uma vez ela disse:

_Creio que ele está escondido ali.

Apesar do doce sorriso, seus olhos derramavam lágrimas amargas e uma vez que eles se fecharam não se abriram mais.

Com as mãos tremulas Müller chorou ainda mais e se debruçou pelo, agora morto, corpo de Elizabeth, deu-lhe um beijo delicado nos lábios, com o qual sonhou por muito tempo, e com dificuldade pegou uma das pedrinhas negras do seu bolso e delicadamente inseriu em seu ouvido direito...

Notas finais
isso é tudo pessoal! até semana que vem!