Eram aproximadamente umas oito horas da manhã quando Kyra acorda sozinha em seu quarto de hotel, depois de um sonho estranho e perturbador. Ela vira seu irmão Aereon preso em uma sala escura, sentado em uma cadeira, com os baços e pés envoltos a correntes. Havia pouca claridade, e água sobre o piso. Parecia uma sala escura, mais uma câmara fechada feita de aço. Ele estava desacordado, com o rosto virado para baixo, e Kyra vira sombras, de homens a sua frente. Havia um cabo de energia ligado, que se balançava de um lado para o outro na sala, correndo o risco de tocar o chão molhado e eletrocutar qualquer ser vivo ali presente. Kyra acorda no exato momento em que Aereon ergue o rosto e com os olhos cheios de raiva diz a ela:- “Saia daqui...”.

Ela se senta a beira da cama depressa, colocando as mãos sobre a cabeça, e os cotovelos sobre os joelhos. Respira fundo, com os olhos fechados e quase com lagrimas nos olhos. Havia sido apenas um sonho ruim, mas a sensação que ela sentia era muito real. Estava confusa, com seus sentimentos, imaginando se seu irmão estaria bem ou se estava passando por algum problema. Além de claro estar preso nas mãos daqueles homens.

Kyra decide tomar um bom banho quente, e depois se veste mudando sua aparência como de costume para sair do prédio. Ela da a partida em sua motocicleta e segue caminho ate o hotel afastado onde Jeremy estava. Ela ainda estava chateada com ele. Kyra tinha um temperamento difícil, apesar de ser doce e sensível na maior parte do tempo. Mas ela tentava esconder isso por trás de uma atitude dura, e as vezes fria. Ela não deixava sequer o irmão saber que ela precisava dele, para não parecer vulnerável.

Rapidamente ela chega ao hotel, deixando sua moto no estacionamento e subindo as escadas ate estar a porta do quarto de Jeremy. Ela bate algumas vezes ate que ele abra a. Jeremy abre apenas uma fresta da porta, ficando atrás dela. Estava com cara de quem recém havia acordado, e estava sem camisa, e com a cara amassada. Ele se surpreende:

_Kyra? –ele olha discretamente para dentro do quarto, depois aperta o rosto entre a fresta da porta- O que faz aqui a essa hora?

_São quase nove da manha... Cai da cama... –responde ela com cara de poucos amigos- Posso entrar?

_Não... –ele diz como se estivesse nervoso- Me espera ai, eu já falo com você... -ele faz sinal pra ela esperar e fecha a porta na cara dela, mas ela não o deixa fechar a mesma e segura-a com a mão-

_Jeremy? Ta tudo bem? –pergunta preocupada-

_Ta ótimo! –ele sorri meio sem graça- É que... Eu... Não to vestido!

_Ah... Ta... Eu espero aqui fora...

Jeremy sorri e fecha a porta. Kyra revira os olhos, e espera exatamente na frente da porta sem se mover. Ela espera alguns segundos ali, depois se vira e vai ate a sacada e fica olhando para o céu. Depois de uns vinte minutos Jeremy sai, passando quase que se esmagando por uma fresta na porta e depois a fecha. Ele ajeita a jaqueta preta de couro e olha pra Kyra que estava de costas encostada as grades da sacada. Ela se vira para vê-lo, e virando levemente o rosto, como se quebrasse o pescoço ela olha pra ele e diz:

_Ta pronto?

_Pra que exatamente? –pergunta confuso-

_Pra me pagar um café... –ela diz séria-

_Ta... –ele franze a testa como se estivesse estranhando a visita de Kyra- Quer ir pra onde?

_Você nasceu aqui, não eu... –diz séria- Me surpreenda... –ela passa por ele e começa a descer as escadas-

Jeremy fica pra trás parado, como se estivesse tentando entender alguma coisa, depois se vira e desce os degraus atrás de Kyra. Quando estava logo ao seu lado, ela sem olhar pra ele diz:

_Quem é ela?

_Hein? –ele olha pra ela com os olhos esbugalhados-

_A garota que ta no seu quarto... –ela franze a testa olhando pra ele- Me deixou plantada do lado de fora por causa dela...

_Quem disse que tem uma mulher no meu quarto?

_Você não estava acordado... Nem vestido... Tá todo nervosinho... Colocou a camiseta virada do lado do avesso... –neste momento ele olha pra si e nota que estava mesmo com a camiseta virada- E... Tem uma marca vermelha de arranhão que vai do seu peito ate o pescoço... –ela para no ultima degrau e olha pra ele- Ou tem uma mulher no seu quarto, ou um gato zangado...

_Você conseguiu notar tudo isso em dois minutos que fiquei na porta? –ele arregalou os olhos como uma coruja-

_Sou boa observadora Jem... –ela faz um acara de arrogante depois se vira e segue ate a moto-

_Jem?! –ele sorri empolgadinho feito criança- Tô tentando capturar seu humor... Ele está bom, ou ruim?

_Ainda não decidi... –ela diz subindo na moto- Me paga um café, depois te digo...

_Pra trás... –ele faz sinal pra ela deslizar para a traseira da moto-

_Sinceramente- ela revira os olhos deslizando no banco de couro-

_Não pensei que você viria me ver de novo... –ele sorri colocando seus óculos escuros e subindo na moto-

_Quer saber se ainda to com raiva de você? –ela diz segurando na cintura dele- Sim, eu estou. Você é um babaca. Mas eu senti sua falta...

_Sentiu?! –ele olha pra trás com um sorriso besta nos lábios- Me fale sobre isso!

_Liga logo esse treco antes que a sua namorada misteriosa acorde... –ela fecha a cara e olha para o outro lado-

_Como queira madame! –ele ri enquanto dá a partida-

Jeremy sentiu um pouquinho de ciúmes no tom de Kyra, mas ele sabia que não era disso que se tratava. Era mais um dos momentos carentes de atenção que ela costumava ter, e não sabia como lidar com eles. Mas ele sabia bem... E aproveitava pra ficar mais próximo dela. E esses dias de menina mimada, até divertiam–no. Ele podia assumir o posto de cara mais velho, e até ser um pouco controlador, coisa que geralmente não era fácil, pois ela era bem temperamental.

[...]

Um homem avança por um corredor longo, totalmente iluminado, sendo seguido por dois outros caras. Eles passam por várias celas fechadas com fortes portas de aço, que aprisionavam algumas pessoas bastante distintas. Eles seguem até um elevador igualmente iluminado, que os leva a um nível abaixo do que eles estavam.

Ao descer do elevador, o corredor seguinte era diferente. Ao contrario dos corredores do nível de cima, este era escuro, e estava quase vazio. Havia apenas uma porta no final do corredor, onde um prisioneiro estava sendo mantido com toda cautela. Havia dois guardas no meio do corredor, que se mantinham em posição de sentido. Os três homens se aproximam da porta trancada com códigos e trancas de grande segurança. Uma trava de aço quase indestrutível mantinha a porta bem segura. Com certeza aquele prisioneiro deveria ser de grande importância, e ou, deveria estar sendo mantido ali, pela grande ameaça aos outros.

O primeiro sujeito retira um cartão magnético do bolso, e o introduz na fechadura eletrônica para abrir uma pequena janela. Ele aperta um botão de comunicação, que levava sua voz para dentro da sala pouco iluminada, e diz:

_Como estamos esta manhã... Senhor Riddick?

Dentro da cela, Aereon estava sentado em um canto no chão, com a cabeça baixa, e os braços sobre os joelhos. Ele não ergue o rosto para responder, mas move os olhos na direção da porta. A cela onde Aereon estava era totalmente bloqueada. Não havia sequer uma entrada de ar, a não ser a que vinha pelos tubos do mesmo corredor do lado de fora. O que era suficiente para mantê-lo vivo, mas não permitindo que ele escapasse usando suas artimanhas. Além de tudo isso, o nível era dividido por paredes de concreto e metal extremamente grossos. Riddick estava ainda sendo mantido sob efeito de remédios injetáveis que o mantinham calmo o tempo todo impedindo que ele agredisse qualquer um dos homens que entrassem na sala. O homem do lado de fora prossegue dizendo:

_Vejo que estamos mais relaxados! –ele se refere a noite anterior em que ele começou a socar as paredes com os próprios punhos- Deve ter aceitado sua situação... O que é bom pra todos nós...

_O que você quer? –questiona Riddick ainda com o rosto baixo, mas com o mesmo tom agressivo-

_Tenho boas noticias! –o sujeito sorri- Sobre sua irmã!

_Kyra... –ele ergue a cabeça rapidamente-

_Ela está procurando por você sabia?!

_O que quer com ela? –ele se levanta e caminha até a porta-

_Por enquanto um pequeno servicinho! –ele olha para os olhos de Aereon-

_Se tocar nela- Riddick encosta uma das mãos na porta e com a outra ele aponta para o vidro em direção ao rosto do sujeito- Eu juro que mato você...

_Primeiro você precisa sair dessa cela! –ele ri- Depois disso, eu posso pensar em me preocupar com suas ameaças!

Riddick aperta os lábios um contra o outro com raiva, seus olhos azuis, que haviam se tornado esbranquiçados por conta dos anos em que esteve na prisão em completa escuridão. Fitam o sujeito do lado oposto da porta, com ira, como se ele pensasse em uma maneira bem cruel de acabar com sua vida, se não estivesse preso naquela sala.

_Veja por este ponto de vista! –o sujeito continua- Por enquanto ela está trabalhando pra nós... Até termos o que queremos, ela estará segura! Depois...

_Por que veio me contar isso? –questiona.

_Achei que você ficaria contente com noticias da sua irmãzinha!

_Acha que com isso vou cooperar mais com vocês?

_Acho que podemos entrar num acordo...

_Vá se ferrar... –Riddick se vira e vai ate a parede traseira da cela onde escora os dois braços- Não vou bancar sua cobaia...

_Ótimo! Continue com essa atitude e logo vai perder o privilegio da minha boa vontade...

O sujeito ativa o cartão mais uma vez para fechar a janela, mas antes que ela se feche por completo ele diz:

_Pense bem... Se decidir mudar de idéia, talvez eu traga mais noticias de sua querida irmã!

Assim que a janela se fecha por inteira, Riddick pensa na sua irmã, e no que os homens que estavam o mantendo preso, pensavam em fazer com ela depois que ela fizesse o que eles pediram. Ele fecha os punhos e soca a parede a sua frente sem sentir nenhuma dor. Aereon teria de encontrar uma maneira de sair daquele lugar. Antes que aqueles homens considerassem Kyra inútil para seus interesses, e decidissem usá-la de outra forma.

[...]

Jeremy e Kyra voltaram para o hotel dele, assim que viram que a luz do quarto estava acessa, eles sobem as escadas rapidamente. Kyra olha para Jeremy e questiona:

_Pode ser sua amiga...

_Não... –ele diz sério, enquanto caminha rente a parede- Não é ela...

_Então vamos precisar disso? –ela retira de baixo de sua jaqueta jeens vermelha uma pistola pequena-

_Você anda com isso na cintura é?

_Muito me admira que você não, capitão! –ela franze a testa sorrindo.

_E quem disse que não? –ele se abaixa e retira uma arma de baixo da calça, presa a sua canela.

Ele sorri quando se levanta novamente enquanto olha pra Kyra e pisca. Ela sorri virando o rosto de lado e fazendo sinal com os olhos pra ele seja o primeiro. Ele segue devagar até estar na frente da porta, ele aponta a arma para o centro da mesma, e olha pra Kyra que para ao lado dele, escorando-se na parede, e abaixando-se segurando sua pequena arma carregada. Ela faz sinal de que está preparada, então ele mete o pé na porta e entra rapidamente apontando a arma para todos os lados. Kyra o segue fazendo o mesmo... Mas não havia ninguém no quarto, mas algumas das coisas de Jeremy estavam reviradas, e jogadas no chão. Ele vai até o banheiro, e abre a porta procurando alguém, mas estava tudo vazio também. Kyra abaixa a arma, e olha ao redor dizendo:

_Parece que alguém assaltou você...

_Não foi um assalto... –surge uma voz vinda do lado de fora, logo Trevas aparece na porta.

_Você fez isso? –diz Jeremy estressado enquanto aponta pra bagunça.

_Tenho cara de trombadinha?! –ela ergue as sobrancelhas fazendo cara de pouco caso.

_Como nos achou aqui? –pergunta Kyra depois de se virar.

_Encontrei vocês... –ela adentra devagar ao quarto encarando Jeremy- Pelo cheiro! Ou melhor... Ele... Por alguma razão não consigo achar você com a mesma facilidade... –diz ela olhando pra Kyra.

_Seu nariz te trouxe até aqui?! –diz Jeremy com ar meio irônico.

_Não! Minhas pernas me trouxeram até aqui bonitinho! – ela sorri meio arrogante — Mas foi seu cheirinho gostoso que me deu sua localização!

_Obrigado pelo elogio!

_Vocês querem que eu saia? –pergunta Kyra séria revirando os olhos sem olhar pra nenhum dos dois.

_Nós duas temos um trato! –ela sorri olhando pra Kyra — Infelizmente não posso tocar nele... Sou uma mulher de palavra!

_Então desembucha... – prossegue Kyra se encostando á cômoda.

_Pois bem! –Trevas senta-se a beira da cama- Os caras que fizeram isso, estavam procurando por você... Kyra!

_Por mim? –ela olha para Jeremy.

_Talvez sejam os caras do Markley. – ele responde sério olhando Kyra — Eles souberam que você não estava mais conosco. Estão caçando você.

_Ah que bom! – ela se desencosta da cômoda — E você só me diz isso agora?

_Sinto muito, ainda não tive tempo... – diz ele.

_Ah desculpa, a tarde toda não foi tempo suficiente pra você? –diz ela indignada.

_Você já me pareceu bastante perturbada. – ele afirma com expressão séria — Achei melhor não jogar mais lenha na fogueira...

_Perfeito Jeremy... –ela fecha a cara de vez.

_Devia me agradecer ao invés de reclamar... –diz ele injuriado.

_Hey! – se manifesta Trevas — Eu ainda estou aqui, será que vocês podem discutir a relação depois?

_Tem mais alguma coisa que você saiba? – pergunta Jeremy — Aliás... Por que você veio?

_Se me deixarem continuar... – ela olha pra Kyra.

_Prossiga...

_Ótimo! Estava procurando você Kyra... Então cheguei e vi os caras aqui, revirando tudo...

_E por que não impediu? – questiona Jeremy.

_Não é problema meu! – ela sorri — E tem mais... Não acho que eles sejam amigos seus. Eram daqui...

_Por que viriam atrás de você, se querem a mim? – diz Kyra fitando Jeremy.

_Isso é meio obvio! – responde Trevas.

_Mas como encontraram ele?

_Isso eu não sei... – responde Trevas se levantando — Mas talvez amanhã nós duas possamos descobrir... – diz indo em direção à porta.

_Amanhã? – estranha Kyra — O que tem amanhã?

_Nós duas temos um encontro! – ela se vira sorridente.

_E como te acho?

_Eu encontro você! – ela se vira — Traga seu ponto de referencia, vou precisar dele pra achar você...

Trevas sai porta a fora deixando Jeremy e Kyra no quarto bagunçado. Kyra olha pra Jeremy, depois caminha até a porta. Ele diz:

_Aonde vai?

_Pro hotel... – ela se vira olhando séria pra ela — Vejo você amanhã...

Ela sai pela porta e o deixa sozinho, pra organizar toda a bagunça...