Solar dos Cedros

3 Entre Quatro Paredes


Albano entrou no quarto pela manhã, já acostumado com aquele tipo de situação. Na cama, os dois rapazes dormiam, cobertos apenas pelo edredom. O ar ainda carregava o cansaço da noite anterior, um silêncio que só o ritmo lento da respiração quebrada preenchia.

Gustavo abriu os olhos de leve, as pálpebras pesadas, e ao perceber a presença de Albano, seus lábios se curvaram em um sorriso.

— Albano, amigo... — murmurou, mantendo a voz baixa para não perturbar o sono do outro. — Acho que o João não vai se sentir à vontade em acordar e ver você aqui no quarto. Sei o quão discreto você pode ser, mas não sei se ele vai conseguir trabalhar aqui depois de te ver.

A expressão de Gustavo era suave, quase cúmplice, mas havia uma preocupação genuína em suas palavras. Albano permaneceu em silêncio, avaliando a situação com um olhar que já havia testemunhado cenas semelhantes muitas vezes antes. O quarto, agora banhado pela luz matinal, parecia um espaço suspenso no tempo, onde segredos e constrangimentos se misturavam sob o mesmo teto.

A luz suave da manhã dourava parte do quarto, filtrando-se pelas cortinas entreabertas. Albano permaneceu por um momento em silêncio, parado à porta. Impecável como sempre, segurava uma bandeja com café, frutas e pão fresco — como se nada no mundo o abalasse.

Seus olhos percorreram Gustavo e João, observando o modo como o edredom cobria seus corpos, a respiração tranquila do rapaz mais jovem adormecido ao lado. Nada em seu rosto denotava julgamento. Apenas inclinou a cabeça com um sutil sorriso de canto, a velha expressão de alguém que já havia visto tudo — e guardado segredos bem mais escandalosos.

Com movimentos precisos, aproximou-se silenciosamente da cômoda ao lado da cama e depositou a bandeja, com a delicadeza de um camareiro de hotel cinco estrelas. Só então, de costas para João, respondeu em voz baixa e firme:

— O jovem João dorme como quem, pela primeira vez, sentiu que pertence a algum lugar. Isso é raro… e bonito.

Ajustou o colarinho e, antes de sair, lançou um último olhar a Gustavo:

— Deixe o café esfriar, se quiser. Mas não deixe o coração do rapaz fazer o mesmo.

E então, saiu do quarto sem ruído algum, deixando para trás apenas o cheiro suave de pão quente e o som distante da cidade começando seu dia.

João ainda dorme, virado de lado. Os cabelos um pouco bagunçados, o rosto tranquilo. Uma das mãos toca de leve o travesseiro de Gustavo.

Gustavo se levanta, fazendo o mínimo de movimento possível para não acordar o rapaz. Ainda envolto na quietude do amanhecer, ele se move com cuidado, como se o simples ato de respirar mais forte pudesse quebrar a paz daquele momento. Veste um robe que está pendurado próximo à cama, o tecido macio deslizando sobre sua pele como um prolongamento do conforto que deixara para trás.

Sentado à mesa de café da manhã, próxima à cama, ele pega o jornal da cidade, folheando as páginas com um interesse tranquilo. Os eventos do mundo exterior parecem distantes, quase irrelevantes, enquanto ele saboreia seu café, o líquido quente trazendo uma sensação de normalidade ao início do dia. Seus pensamentos vagueiam sem pressa, absorvendo as notícias sem verdadeira urgência.

Tão imerso está nesse ritual matinal que nem percebe quando João acorda. O rapaz permanece deitado por um instante, observando Gustavo em silêncio, como se a cena diante dele fosse um quadro que não deveria ser perturbado. A luz suave da manhã invade o quarto, desenhando sombras delicadas e revelando a calma que ambos, cada um à sua maneira, compartilham naquele instante.

E assim o dia começa, sem alardes, sem pressa—apenas a quietude e a presença sutil de duas vidas que, por um breve momento, se entrelaçam no mesmo espaço e tempo.

O quarto está calmo. O sol invade o espaço pelas frestas da cortina, e o cheiro do café fresco mistura-se com o da madeira encerada, da colônia leve de Gustavo e dos lençóis recém-usados.

Joãozinho desperta devagar — os olhos entreabertos, confusos por um instante, até que tudo volta à mente: a noite, o toque, o gosto do whisky, os sussurros. Vira-se na cama e vê Gustavo de costas, sentado à mesa, de robe de linho claro, jornal aberto, elegante mesmo na casualidade.

Por um momento, João apenas observa. E sorri.

— Você parece saído de um filme, sabia? — diz com a voz ainda sonolenta, rouca, sincera.

Ele se senta, cobrindo-se automaticamente com o edredom. Passa a mão nos cabelos, tentando dar alguma forma à bagunça, e completa:

— E eu pareço o cara que caiu de paraquedas no set de gravação.

Gustavo não ri, mas o olhar é carinhoso, com um toque de insegurança. A tensão da noite anterior não está mais ali — só um novo tipo de silêncio, mais íntimo, mais cúmplice.

— Eu devia… me vestir? Ou cê ainda vai me contar como é o café da manhã dos milionários?

A cidade acorda lá fora. Mas o mundo, naquele instante, ainda pertence só aos dois.

Gustavo dobra o jornal com cuidado e o coloca sobre a mesa antes de se virar para o rapaz. Seus lábios se curvam em um sorriso tranquilo.

— Bom dia — cumprimenta, a voz suave. — Pode ficar sem roupa o quanto quiser... Só não garanto que eu consiga passar o dia admirando sua beleza sem me distrair.

O tom descontraído dura apenas um instante. Ele gira em direção à cama, e sua expressão se torna mais séria, os olhos fixos no jovem que ainda está deitado.

— João... — começa, hesitante por um breve momento. — A noite foi ótima, mas preciso deixar uma coisa muito clara: eu não estou procurando um relacionamento. Não agora. Claro que, vez ou outra, podemos nos encontrar, mas... como eu disse, sou reservado sobre tudo na minha vida e quero continuar assim.

Gustavo se levanta e senta na beirada da cama, os dedos percorrendo suavemente os cabelos do rapaz, como se buscasse amenizar a dureza de suas palavras.

— Não se prenda a mim — murmura, quase como um conselho. — Você e eu somos livres. Viva essa liberdade, aproveite.

Há uma pausa, um silêncio que preenche o espaço entre eles, antes que Gustavo se mova novamente. Abre a gaveta da mesa de cabeceira, retira algumas notas e as estende a João.

— Isso não é um pagamento pela noite — explica, firme. — Não pense que te encaro como um garoto de programa. Só quero saber que você está bem. Pegue esse dinheiro e compre algo para você, algo de que goste. Ou leve alguém para sair, faça algo legal... — Seus olhos se encontram com os do rapaz, e há uma sinceridade inegável em suas palavras. — O melhor investimento que você pode fazer é em você mesmo.

Joãozinho escuta em silêncio, sem interromper. A princípio, seu rosto permanece sereno — mas os olhos… os olhos dizem tudo. Há ali uma mistura de compreensão, orgulho ferido e algo que parece se partir devagar, mas sem fazer barulho.

Quando Gustavo termina e estende as notas, João não recua, mas também não pega imediatamente. Ele olha para a mão de Gustavo, depois para seus olhos, e responde com uma voz baixa — não de raiva, mas de alguém que se recusa a ser reduzido:

— Eu dormi com você porque eu quis. Não por pena… nem por esperança de virar “alguma coisa”. Eu sou pobre, mas não sou bobo.

Pega o dinheiro — mas segura com firmeza, sem desviar o olhar, e acrescenta:

— E eu vou gastar sim. Mas não porque você me deu. É porque eu mereço. E porque você tem razão: o melhor investimento sou eu mesmo.

Ele respira fundo e sorri — triste, mas digno.

— Obrigado pela noite… e pela sinceridade. Eu ainda vou estar por aqui, se precisar de alguém que veja o que os outros não veem. Mas pode ficar tranquilo… não vou bater na sua porta querendo conto de fadas.

João se levanta da cama, segurando o edredom à cintura, e começa a recolher suas roupas espalhadas pelo quarto com gestos rápidos, quase ensaiados.

— Só… só me avisa se for tomar café com a Jurema. Aí sim, vai ser difícil de engolir.

Ele ri — e, apesar de tudo, o riso é leve. Não há drama ali. Só um rapaz que cresceu cedo demais numa cidade pequena e que, por uma noite, teve um gosto do extraordinário.

Gustavo fica parado, observando João se vestir. Há um desejo passageiro de segurá-lo, de prolongar aquele momento, mas as palavras já foram ditas, e o dinheiro, entregue. Tudo o que resta é deixá-lo ir — com a mesma dignidade com que aceitou a verdade.

Gustavo se levanta e se aproxima do rapaz. "Não precisamos ser tão dramáticos", ele diz, dando-lhe um beijo. "Jamais achei que você fosse burro, senão não o teria escolhido para a equipe. E sim, você pode bater na minha porta... Não prometo um conto de fadas, mas uma noitada boa, isso sim eu posso prometer." Ele sorri, afastando-se levemente. "Agora vai, antes que a equipe comece a achar que você faltou ao segundo dia de trabalho."

O tom de voz de Gustavo era suave, mas firme, deixando claro que, apesar da intimidade do momento, os limites entre o pessoal e o profissional ainda estavam lá. O rapaz hesitou por um instante, como se quisesse dizer algo mais, mas, sob o olhar insistente de Gustavo, acabou cedendo. Com um suspiro quase imperceptível, virou-se e saiu, deixando Gustavo sozinho com seus pensamentos.

O ambiente ficou em silêncio por alguns segundos, apenas o som distante do movimento do escritório do lado de fora da porta. Gustavo olhou para o vazio onde o rapaz estivera, como se tentasse decifrar algo que ainda não estava claro nem para ele mesmo. Depois, sacudiu a cabeça, como quem se livra de uma ideia incômoda, e ajustou o punho da camisa antes de retomar sua postura habitual.

Havia promessas no ar, mas também dúvidas. E, pelo menos por enquanto, nenhum dos dois sabia ao certo onde aquilo iria parar.

Joãozinho sorriu contra o beijo, os olhos agora mais vivos, a tensão diluída pela sinceridade de Gustavo. Por um instante, segurou o rosto do homem — breve, como quem ainda queria dizer mais, mas decidiu deixar para outra hora.

— Então tá… fico com a promessa da noitada boa. E com o café — se sobrar algum.

Vestiu-se às pressas, os cabelos ainda desalinhados, a camiseta enfiada meio torta nas calças. Ao calçar os tênis, lançou um último olhar sobre o ombro, o sorriso ainda marcado pela cumplicidade do momento.

— Ah… e se alguém perguntar por que cheguei atrasado, só diz que foi culpa da vista da mansão. De tirar o fôlego.

Com uma piscadinha final, João desapareceu pelo corredor, deixando no ar o traço do seu perfume barato misturado à lembrança da noite que, de alguma forma, inaugurara uma nova era na casa dos Medeiros.

Gustavo agora está só. O quarto, iluminado pela manhã, parece mais vasto, como se as paredes tivessem recuado durante a noite, cedendo espaço aos primeiros raios de sol que atravessam a janela. A cidade acorda lentamente lá fora, e com ela, os rumores, os olhares calculistas e as engrenagens invisíveis da política, da tradição e do desejo começam a se movimentar.

Ele poderia permanecer ali, absorvendo a quietude do amanhecer, mas o mundo lá fora não espera. Se desejasse, poderia descer para a casa principal, onde novos visitantes talvez já aguardassem, trazendo notícias, pedidos ou intrigas. A cidade se estende além dos portões, cheia de possibilidades — ruas a serem percorridas, segredos a serem desvendados, alianças a serem forjadas.

Ou, quem sabe, este seria o momento de dar início às primeiras movimentações sociais e políticas em Boa Ventura do Norte. O dia estava apenas começando, e cada escolha poderia definir os rumos do que estava por vir.

Gustavo respirou fundo, sentindo o peso e a leveza daquela liberdade. Como ele decidiria continuar o seu dia?

O telefone toca apenas uma vez antes de ser atendido. Albano responde com a eficiência de quem já esperava a chamada, sua voz contida e polida como um móvel antigo bem cuidado.

— Perfeitamente, senhor. Um dos utilitários da propriedade já está sendo preparado. Nada que chame mais atenção do que uma bicicleta em dia de procissão.

Ao fundo, ecoam risos abafados — talvez os jardineiros compartilhando alguma piada —, mas Albano não se permite distrair. Sem pausa, continua:

— Dimitre será o motorista, mas seguirá discretamente a uma certa distância. O senhor deseja que Joãozinho o acompanhe ou prefere ir sozinho?

Gustavo hesita por um instante, observando pela janela o movimento tranquilo de Boa Ventura do Norte. O sol incide sobre a praça, onde barracas da feira se espalham como cores em um quadro. O sino da igreja badala com seu habitual atraso, e é impossível não imaginar que, em algum canto da cidade, alguém já comenta a saída do "moço novo da mansão".

— Sozinho, Albano. Só preciso de um pouco de ar.

O mordomo concorda com um breve "Como desejar" antes de encerrar a ligação. Em minutos, um carro discreto aguarda na entrada, com Dimitre ao volante, postura impecável, como sempre.

Ao sair, Gustavo sente o calor do meio-dia e o cheiro de terra molhada misturado ao aroma de frutas vindas da feira. A cidade respira devagar, mas há vida em cada esquina: vendedores apregoando mercadorias, crianças correndo entre as barracas, velhos conversando sob a sombra das árvores.

Para onde ir? A praça, com seu burburinho? O mercado, onde os segredos da cidade circulam entre as bancas? A igreja, silenciosa e imponente? Ou a prefeitura, onde os fios do poder se entrelaçam nos bastidores?

Gustavo decide deixar o acaso decidir. Com um gesto, sinaliza a Dimitre que seguirá a pé, mergulhando naquele ritmo provinciano que, de tão simples, esconde mais do que revela. Cada passo parece despertar olhares curiosos, sussurros disfarçados. Boa Ventura do Norte é assim: uma cidade pequena onde todos observam, mas poucos realmente veem.

E enquanto caminha, Gustavo se pergunta quem, naquela manhã, será a primeira pessoa a abordá-lo — e que histórias trará consigo.

"— Que tipo de pergunta é essa, Albano? Óbvio que vou sozinho. Deço em meia hora."

A resposta veio rápida, quase cortante, mas Albano não hesitou. Sua voz manteve-se firme, ainda que carregada de uma ironia polida — daquela que apenas um criado antigo tinha o direito de usar.

"— Naturalmente, senhor. Foi apenas uma pergunta de protocolo. O senhor já rompeu outras tradições… achei que poderia romper mais uma."

Sem esperar réplica, ele desligou com elegância, como sempre fazia. Em poucos minutos, um utilitário preto e discreto — um SUV impecável, moderno e anônimo — já aguardava na entrada da mansão. No painel, um bilhete sucinto:

"Tanque cheio. Ar ligado. Rota para o centro programada no GPS. – A."

Tudo estava pronto. Era hora de partir.

Meia hora depois, Gustavo desce os degraus da varanda principal sob o sol já alto. A propriedade ao redor parece respirar junto com a manhã — os jardins sendo regados, uma das funcionárias pendurando lençóis brancos no varal, um cachorro dormindo à sombra do galpão. O ar carrega o frescor do início do dia, misturado ao aroma de terra molhada e grama cortada.

Ao ligar o carro e descer pela estrada sinuosa que leva à cidade, ele vê Boa Ventura do alto — casinhas coloridas agrupadas como peças de um quebra-cabeça, o coreto ao centro da praça, a torre da igreja pontuando o céu claro. A vista parece saída de um cartão-postal, tão simples quanto encantadora.

Quando cruza os primeiros limites da cidade, nota os olhares discretos voltados para ele — alguns curiosos, outros disfarçados sob cumprimentos rápidos ou tarefas repentinas. Crianças correm atrás de uma bola desgastada, senhoras arrumam bandejas de bolos caseiros sobre toalhas estendidas na calçada, e um carro antigo, com os vidros abaixados, toca um modão no rádio, a música ecoando pelas ruas tranquilas.

O centro está movimentado, mais do que o habitual. Na praça principal, uma pequena aglomeração chama sua atenção. Entre dois postes, uma faixa improvisada balança ao vento:

"Semana Cultural – Exposição de Arte, Sabores e Tradição"

Gustavo reduz a velocidade, observando o movimento. Pessoas circulam entre barracas de artesanato, enquanto outras se aglomeram em frente a um palco montado. O cheiro de comida de rua — milho cozido, pastéis fritos — se mistura ao perfume doce de flores vendidas em balaios. Ele hesita por um instante, dividido entre estacionar para explorar a praça, visitar algum local específico ou simplesmente seguir adiante, deixando-se levar pelo ritmo lento e observador do cotidiano de Boa Ventura.

A cidade, tão pequena e ao mesmo tempo tão cheia de vida, parece convidá-lo a fazer parte dela, mesmo que apenas por algumas horas.

Gustavo estaciona próximo à praça e, mesmo avistando a faixa, segue direto para a igreja. O lugar não é grande, e uma ou duas senhoras rezam o terço, sentadas nos bancos de madeira. Ao entrar, ele faz o sinal da cruz e caminha em direção ao altar, onde o padre, sentado em uma cadeira, está absorto em sua leitura.

— Com licença, senhor — diz Gustavo, quebrando o silêncio do ambiente.

O padre ergue os olhos do livro, surpreso pela interrupção, mas logo assume uma expressão serena. O diálogo que se segue marcará o início de algo maior, algo que nem mesmo Gustavo poderia antever ao cruzar aquela porta.

O padre levantou o olhar do livro, precisando de um segundo para focar. Diante dele, um homem de uns cinquenta e poucos anos, com o rosto queimado de sol, o nariz grosso e os cabelos já bem grisalhos, penteados com cuidado. O clérigo usava uma batina simples, puída nos ombros, mas limpa. Seus olhos claros e curiosos fitaram o visitante, e sua voz, ao responder, era calma — quase musical:

— Claro, meu filho. A casa de Deus é de todos.

Com gestos cuidadosos, ele fechou o livro — um velho volume com capa de couro escuro, sem título visível — e pousou os óculos no colo, observando melhor o recém-chegado. Havia uma serenidade em seus movimentos, como se cada ação fosse medida e sagrada.

— Você deve ser o moço novo do Solar dos Cedros. O senhor Gustavo Medeiros… estou certo?

Ao fundo, duas senhoras continuavam a rezar o terço em voz baixa, mas uma delas, disfarçando o interesse, virou levemente a cabeça na direção da conversa. O padre sorriu, sem bajulação, seu tom era direto e um tanto pastoral, como se cada palavra carregasse o peso de conselhos dados há décadas:

— O que traz um homem tão bem vestido à nossa igreja numa manhã de terça-feira, senhor Medeiros? Busca perdão… ou orientação?

O silêncio que se seguiu parecia ecoar entre as paredes da igreja, enquanto o forasteiro hesitava diante da pergunta. O ar, pesado com o cheiro de velas e madeira encerada, mantinha-se imóvel, como se aguardasse a resposta que poderia mudar o rumo daquela manhã comum.

Gustavo se aproxima do padre, inclina-se levemente e pede a bênção com respeito. Suas palavras são medidas, quase formais, mas carregam um peso de urgência disfarçada.

— Está correto, senhor. Sou Gustavo, muito prazer — diz ele, fechando a distância entre os dois. Há uma hesitação breve em seus olhos, como se avaliasse a receptividade do padre antes de continuar. — Será que o senhor tem um momento? Gostaria de falar sobre alguns assuntos.

O padre, acostumado a abordagens assim, observa-o com um olhar tranquilo, mas atento. Algo na postura de Gustavo — talvez a firmeza contida em sua voz ou o modo como suas mãos se apertam levemente — sugere que aqueles "assuntos" não eram triviais. O ar ao redor parece ficar mais denso, como se a simples pergunta carregasse consigo um segredo prestes a ser revelado.

— Claro, meu filho — responde o padre, gestoando para um banco próximo. — Vamos conversar.

E assim, sob o silêncio vigilante da igreja, os dois se sentam, enquanto Gustavo prepara-se para dividir o que quer que o trouxesse até ali.

O padre sorriu gentilmente, inclinando a cabeça para abençoar Gustavo com um gesto lento da mão, como quem transmite calma e proteção.

— Claro, meu filho. A igreja está sempre de portas abertas para quem busca diálogo e compreensão.

Ele fechou o livro de vez, ajeitou a batina e fez um gesto para um banco próximo ao altar, convidando Gustavo a sentar-se.

— Diga-me, quais são esses assuntos que o trazem até aqui? Posso não ser um homem de muitas palavras, mas já vi o suficiente para entender que algumas histórias pesam mais que outras.

Enquanto falava, o som das orações das senhoras ainda ecoava baixinho na nave, dando um tom de solenidade e mistério ao ambiente. Gustavo hesitou por um instante, sentindo o peso daquelas palavras. Havia algo na quietude da igreja, na serenidade do padre, que o convidava a abrir o coração. Ele respirou fundo, decidindo finalmente compartilhar o que o trouxera até ali.

— Padre, não sei por onde começar... — disse, baixando os olhos por um momento antes de encarar novamente o religioso. — São coisas que carrego há muito tempo, e preciso de orientação.

O padre assentiu com paciência, seus olhos refletindo uma compreensão silenciosa.

— Fale, meu filho. Às vezes, apenas colocar os sentimentos em palavras já é um alívio.

E assim, sob a luz suave que filtrada pelos vitrais, Gustavo começou a despejar suas angústias, enquanto o padre ouvia atentamente, pronto para oferecer não apenas conselhos, mas também o conforto de quem sabe que algumas dores precisam ser divididas para serem suportadas.

O ambiente tranquilo da igreja era quebrado apenas pelo suave murmúrio de orações distantes quando Gustavo se aproximou do padre, sentando-se próximo a ele com um sorriso acolhedor. Havia algo em sua expressão que desarmava até mesmo os mais desconfiados, e o padre, homem de fé e discernimento, não conseguia pensar mal de alguém que irradiava tanta gentileza.

— Senhor — começou Gustavo, sua voz carregada de uma serenidade que parecia vir do fundo da alma —, meu pai sempre foi um homem profundamente religioso. Agora, após sua partida, sinto no coração o desejo de honrar sua memória dando continuidade à sua missão. Gostaria de ajudar a igreja com parte do que ele deixou.

O padre observou-o atentamente, surpreso com a proposta. Gustavo continuou, sem pressa, como se cada palavra fosse cuidadosamente medida:

— Sei que há um pequeno seminário nas propriedades mais afastadas da cidade... Tenho o maior interesse em conhecê-lo e, se possível, oferecer minha ajuda da maneira que for necessária.

Havia uma sinceridade inegável em suas palavras, uma convicção que não parecia forçada. O padre, acostumado a lidar com as mais variadas intenções humanas, sentiu-se inclinado a acreditar nele. Afinal, quem poderia duvidar de um homem que se mostrava tão generoso e devoto?

— É uma oferta muito generosa, meu filho — respondeu o padre, com um leve aceno de cabeça. — A igreja sempre precisa de boas almas dispostas a servir.

Gustavo manteve o sorriso, seus olhos brilhando com uma satisfação discreta. Havia algo mais por trás daquele gesto de caridade, algo que nem mesmo o padre, em sua sabedoria, poderia suspeitar. Mas, por ora, tudo o que se via era a imagem de um filho piedoso, desejoso de honrar o legado do pai.

O padre escutava atentamente, seus olhos claros fixos em Gustavo, avaliando cada palavra como quem pesa um tesouro escondido. Sorriu, dessa vez com uma doçura que parecia brotar da experiência e da fé.

— Seu pai era um homem de coração generoso, sem dúvida — disse com voz pausada. — Boa Ventura do Norte precisa de almas assim. O seminário, sim, é um lugar humilde, mas cheio de esperança. Fica no antigo sítio dos Campos, no caminho que leva para o rio.

Fez uma pausa, olhando pela janela para o céu azul que já dominava a manhã.

— Muitos aqui são céticos quanto às mudanças e às ajudas externas, mas acredito que o senhor pode ser uma ponte. Uma ponte entre o que é tradicional e o que pode vir a ser.

O padre ajeitou os óculos no rosto, um brilho de otimismo em suas pupilas.

— Posso providenciar uma visita para que conheça o seminário e os jovens que lá estudam. Será uma honra tê-lo como aliado nessa missão.

Estendeu a mão, firme e sincera.

— Conte comigo, senhor Gustavo. A fé é construída em gestos como este — diálogo, apoio e, sobretudo, esperança.

O aroma suave de vela e madeira encerada preenchia a sala, enquanto a igreja permanecia em seu silêncio acolhedor.

Gustavo hesitou por um instante, sentindo o peso daquelas palavras. O que responderia?

Gustavo estende um cartão com seu telefone ao padre, oferecendo-o com um gesto cortês. "Aqui, senhor. Peço que, assim que conseguir agendar uma visita, me avise, por favor. Ficarei muito grato se puder visitá-los ainda esta semana." Suas palavras são medidas, carregadas de um tom respeitoso, quase ansioso. Sem hesitar, ele retira uma nota da carteira e a deposita na caixinha da igreja. O padre, mesmo com apenas um relance, percebe o valor elevado da doação.

"É uma das minhas primeiras contribuições com a comunidade," comenta Gustavo, com um sorriso discreto, como se justificasse o gesto. Levanta-se então, fazendo o sinal da cruz com devoção. "Até mais, senhor padre," diz, antes de se afastar, deixando no ar um misto de gratidão e expectativa.

O padre fica ali, observando sua partida, o cartão ainda na mão, enquanto reflete sobre aquele encontro breve, mas marcante. Algo naquele homem — talvez a generosidade súbita, talvez a urgência no pedido — lhe sugere que há mais por trás daquela visita do que parece.

O padre aceitou o cartão e a nota com um sorriso respeitoso, quase emocionado pela generosidade e pela postura sincera de Gustavo. Guardou cuidadosamente o cartão no bolso interno da batina e, com a outra mão, levou a nota até a caixinha com reverência.

— Que a memória de seu pai seja sempre luz para esta cidade, senhor Gustavo. Sua contribuição será de grande ajuda para os jovens e para todos que buscam um caminho melhor.

Ao ver Gustavo se levantar para sair, o padre fez um gesto de bênção, com a mão direita levantada e os dedos formando o tradicional sinal da cruz.

— Que Deus acompanhe seus passos e abençoe seus dias aqui em Boa Ventura do Norte.

— Estarei em contato para agendar a visita ainda esta semana — respondeu Gustavo, com um aceno de cabeça.

Enquanto isso, as senhoras continuavam em seus terços, e o som das vozes suaves tornava o ambiente ainda mais acolhedor. Gustavo dirigiu-se para a porta, deixando para trás aquele refúgio de paz.

Lá fora, o sol brilhava forte sobre a cidade pacata, que começava a perceber, aos poucos, as mudanças trazidas pelo novo morador do Solar dos Cedros. Cada passo seu parecia ecoar, anunciando que Boa Ventura do Norte nunca mais seria a mesma.

Gustavo caminhava tranquilamente pela praça da cidade, observando os passantes que, vez ou outra, pareciam fitá-lo ao cruzar seu caminho. Ele, porém, não dava importância. Seus passos o levaram até um sorveteiro, onde comprou um picolé antes de iniciar uma conversa.

— O senhor sabe me dizer onde os jovens da cidade costumam se reunir? — perguntou, mordiscando o gelado. — Existe alguma cachoeira, parque ou algo do tipo?

O sorveteiro, um homem de meia-idade com um chapéu desgastado, esfregou o queixo pensativo antes de responder.

— Ah, os jovens... — começou, apontando para o lado oposto da praça. — Se é agito que você quer, costumam aparecer perto do lago, ali atrás das árvores. Às vezes fazem piqueniques ou só ficam conversando. Mas se procura algo mais animado, tem a cachoeira do Sossego, uns quinze minutos daqui. Lá é cheio no fim de semana.

Gustavo acenou com a cabeça, agradecendo. — Valeu pela dica.

Com o picolé quase acabado, ele seguiu na direção indicada, curioso para ver o que — ou quem — encontraria pela frente.

O sol da tarde despejava seu calor sobre a praça, e Gustavo, ainda um forasteiro naquele lugar, aproximou-se do carrinho de sorvetes, onde um homem de meia-idade, com o rosto marcado pelo sol e um sorriso fácil, parecia aguardar por clientes. O sorveteiro observou-o com curiosidade, mas sem a formalidade reservada aos desconhecidos. Havia uma simplicidade no seu olhar, como se já reconhecesse Gustavo como parte da paisagem.

Depois de limpar as mãos no avental colorido, o homem respondeu com voz tranquila:

— Ah, moço, os jovens daqui geralmente se juntam lá perto da antiga pedreira, sabe? Tem uma trilha que leva até uma queda d’água escondida — a Cachoeira do Pica-pau. É meio afastada, mas os moleques gostam de ir lá pra fugir da vista dos mais velhos.

Com um gesto despretensioso, ele apontou para uma direção entre as árvores que margeavam a praça.

— Também tem o campinho de futebol no fim da rua do mercado. Sempre tem uns joguinhos à tardinha, e depois a rapaziada se encontra na lanchonete do Seu Zé — aquele com o carro azul e o rádio sempre ligado.

O sorveteiro deu uma risadinha, como se soubesse mais do que dizia.

— Agora, se quiser mesmo entender a molecada, eu diria pra ir pra cachoeira. Lá é onde eles se sentem livres — coisa que não é muito fácil por essas bandas.

Entregando o picolé a Gustavo, o homem piscou, num gesto de cumplicidade, e acrescentou:

— E cuidado pra não escorregar nas pedras, viu?

Gustavo segurou o sorvete, sentindo o frio contra os dedos enquanto ponderava as palavras do homem. A cachoeira parecia o destino mais revelador, um lugar onde os jovens da cidade realmente se mostravam como eram, longe dos olhares vigilantes. Mas o campinho de futebol e a lanchonete do Seu Zé também tinham seu charme — talvez fossem caminhos mais fáceis para se misturar à turma.

Agora, ele precisava decidir: seguir direto para a cachoeira, dar uma passada no campinho ou dar uma olhada na lanchonete do Seu Zé? Cada escolha poderia revelar algo diferente sobre a cidade e seus habitantes — e, quem sabe, sobre ele mesmo.

Gustavo voltou para o carro e seguiu em direção ao campinho de futebol. Conforme se aproximava, reduziu a velocidade, observando os rapazes que jogavam despretensiosamente, muitos deles sem camisa, suando sob o sol. Por trás dos óculos escuros, seus olhos percorreram os corpos musculosos, acompanhando os movimentos ágeis e as risadas descontraídas. Havia algo naquele cenário simples que o prendia, uma energia crua e jovem que o fazia demorar o olhar.

Logo adiante, avistou a lanchonete do seu Zé, um ponto conhecido na região, sempre movimentado após as partidas. Estacionou o carro, desceu e caminhou até o local. Sentou-se em uma das mesas de plástico, pediu uma cerveja gelada e ficou ali, tomando pequenos goles enquanto aguardava. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, os jogadores terminariam a pelada e viriam até a lanchonete, famintos e sedentos. Enquanto isso, observava o movimento, deixando o tempo passar, com os pensamentos vagueando entre o presente e o que ainda estava por vir.

O sol da tarde aquece a rua de paralelepípedos enquanto Gustavo entra na lanchonete do Seu Zé, um ambiente simples, mas acolhedor, onde o cheiro de café coado e fritura paira no ar. As paredes, decoradas com pôsteres de times locais e fotos antigas do vilarejo, contam histórias silenciosas de tempos passados. Ele escolhe uma mesa próxima à janela, de onde pode observar o campinho de futebol e o movimento tranquilo da rua. O balcão está repleto de embalagens e garrafas, e Seu Zé, um homem robusto de bigode grisalho, atende os fregueses com um sorriso sempre amigável.

Logo chega a cerveja gelada que Gustavo pediu. Ele segura o copo por um momento, sentindo o frescor contra a palma da mão enquanto observa os jogadores no campinho, suados e animados, encerrando a partida. O clima é leve, o ar carregado de risadas e conversas soltas.

Pouco a pouco, o grupo de rapazes começa a se aproximar da lanchonete, rindo alto, trocando brincadeiras e cumprimentos com quem passa. Alguns deles notam Gustavo sentado sozinho e trocam olhares surpresos entre si antes de se aproximarem.

— Ei, você é o cara novo da mansão, né? — diz um deles, com um sorriso aberto e descontraído. — Gustavo, certo? A gente não se conhece direito, mas já ouvi falar bastante. Quer jogar uma partida de truco depois?

Os outros concordam com risadas e acenos, esperando a resposta. O convite parece genuíno, uma porta aberta para algo mais do que apenas um jogo. Gustavo hesita por um instante, avaliando os rostos curiosos e animados à sua frente. A decisão é dele: aceitar poderia significar o início de uma nova conexão, mas também trazer consigo perguntas e expectativas. O que ele fará?

Gustavo sorri ao vê-los entrar. Há uma simplicidade no gesto, uma naturalidade que ele sabe que jamais encontraria em uma cidade grande. Quando um deles puxa conversa, algo tão espontâneo e despretensioso, ele tem a certeza de que está no caminho certo.

— Isso, Gustavo. Estou no Solar dos Cedros — diz para si mesmo, como se precisasse confirmar que aquilo era real.

O grupo se aproxima, e a conversa flui com uma facilidade que o surpreende. Alguém menciona um jogo de cartas, e ele não resiste a uma risada descontraída.

— Bem, eu não sou exatamente bom em jogos de carta — admite, sem constrangimento.

O clima é leve, e Gustavo sente que ali, naquele lugar, pode ser apenas ele mesmo. Mas ainda há uma pergunta pairando no ar, uma curiosidade natural entre estranhos que agora compartilham o mesmo espaço.

— Mas e vocês, quem são? — pergunta, olhando para cada um deles, pronto para ouvir suas histórias.

O Solar dos Cedros, com suas paredes antigas e atmosfera acolhedora, parece ser o cenário perfeito para o início de algo novo. E Gustavo, ali no meio daquela gente desconhecida e tão humana, sente que finalmente encontrou o que procurava.

O rapaz que puxou conversa deu uma risada boa, aproximando-se mais descontraído, como se já tivesse ganhado a confiança só pelo fato de Gustavo responder com sorriso e bom humor.

— Sou o Caio, e esses aqui são o Lucas, o Henrique e o Dudu — apresentou-se, indicando os amigos com um gesto despretensioso. — A gente joga bola, truco, joga conversa fora… é como a gente se diverte por aqui, né?

Os outros acenaram e trocaram sorrisos rápidos, confirmando as palavras do amigo. Caio continuou, meio orgulhoso:

— Se quiser, pode vir com a gente pro campinho depois. A gente até tenta ensinar uns truques no jogo, pra não passar vergonha.

Lucas, o mais baixo do grupo, deu uma cutucada no ombro de Caio, rindo:

— Só não vale jogar muito sério, hein? O Gustavo aí pode ser rico, mas no truco é todo mundo igual!

O clima era leve, acolhedor, e o som da lanchonete misturava-se com as risadas e provocações amistosas. Gustavo se viu diante de uma escolha: aceitar o convite e ir para o campinho com eles, continuar conversando ali mesmo na lanchonete ou, quem sabe, seguir outro caminho. A decisão estava em suas mãos, mas uma coisa era certa — aquela turma parecia disposta a tornar seu dia muito mais interessante.

O bar estava animado, com o burburinho das conversas e o tilintar dos copos criando uma atmosfera acolhedora. Gustavo, sentado à mesa com os rapazes, acenou para o seu Zé, sinalizando que era hora de servir mais cervejas. Os homens se acomodaram ao seu redor, enquanto ele esboçava um sorriso despretensioso.

— Ah, sim, quem sabe mais tarde... — disse Gustavo, erguendo levemente os ombros. — Eu ainda estou conhecendo tudo por aqui. Na verdade, seria muito bom ter alguém que conheça a cidade para me mostrar os lugares... Vocês têm compromisso para hoje?

Os rapazes trocaram olhares, considerando a proposta. Enquanto isso, as cervejas chegaram à mesa, trazidas pelo seu Zé com a habitual eficiência. Sem hesitar, Gustavo pegou uma nota da carteira e a entregou ao homem, sem sequer conferir o valor — mas era evidente que a quantia era maior do que o necessário.

— Pode ficar com o troco — disse Gustavo, recusando com um gesto despreocupado quando seu Zé tentou devolver o excedente.

A atitude generosa não passou despercebida pelos presentes, e um clima de curiosidade e aproximação se instalou na mesa. Gustavo, aparentemente à vontade, bebeu um gole da cerveja enquanto aguardava a resposta dos novos conhecidos. Havia algo nele que inspirava confiança, uma mistura de simpatia e segurança que fazia com que os outros naturalmente se inclinassem a aceitar seu convite.

E assim, entre risadas e histórias, a noite começava a tomar forma, com Gustavo no centro, pronto para explorar a cidade — e, quem sabe, deixar sua própria marca nela.

Os rapazes trocaram olhares rápidos, surpresos com a generosidade de Gustavo, e sorrisos largos apareceram em seus rostos. Caio riu, batendo o copo na mesa com entusiasmo.

— Compromisso? Hoje a gente tá livre! Não tem nada marcado, só a gente se juntando aqui mesmo.

Lucas levantou o copo num brinde improvisado, os olhos brilhando de animação.

— Pois então, acho que temos a companhia perfeita para a noite.

Henrique e Dudu concordaram com risadas, batendo seus copos contra os dos outros. O clima descontraído da lanchonete se intensificou, as conversas fluíram mais facilmente, e o calor da tarde virou pretexto para mais histórias e provocações amistosas. Seu Zé, satisfeito com a gorjeta, deixou a conta de lado e serviu mais algumas cervejas, piscando para Gustavo com um ar de cumplicidade, como quem diz: "Você vai se enturmar rapidinho, rapaz."

Enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu em tons alaranjados e alongando as sombras na praça, a noite prometia ser longa e cheia de surpresas. Havia um mundo de possibilidades à frente: continuar ali, na lanchonete, mergulhado nas conversas e risadas; sair com o grupo em direção à cachoeira, onde a aventura poderia tomar novos rumos; ou, quem sabe, voltar ao Solar e organizar algo que nenhum deles esqueceria tão cedo.

O ar carregava a promessa de algo maior, e Gustavo sabia que, independente da escolha, aquela noite já estava se tornando memorável.

O sol já se posicionava alto no céu, anunciando a proximidade do meio-dia. Gustavo, após longas horas de conversa e trocas de piadas sobre a cidade, olhou para o relógio e deu um suspiro satisfeito.

— Rapazes, foi um bom papo, mas já está quase na hora do almoço e eu preciso ir.

Ele se levantou, mas parou de repente, como se tivesse lembrado de algo. Um sorriso despretensioso surgiu em seus lábios.

— Ah, mas se vocês não têm compromisso, que tal irmos para minha casa e almoçarmos por lá? Ainda não estreiei minha piscina interna, e um dia como hoje merece um bom banho.

Os rapazes trocaram olhares, surpresa e animação se misturando em seus rostos.

— Putz, Gustavo, isso é convite? — Caio soltou uma risada, quase incrédulo.

— Claro que a gente topa! — Lucas afirmou com entusiasmo. — Um banho de piscina e almoço na mansão? Isso sim é novidade boa pra essa cidade!

Dudu já levantou o copo em um brinde improvisado:

— Então tá fechado! Vamos ver esse tal Solar dos Cedros.

Henrique, o mais reservado do grupo, sorriu timidamente, mas não ficou de fora.

— Vai ser bom conhecer um pouco mais de você, Gustavo.

Seu Zé, ao ouvir o convite, piscou para Gustavo e disse:

— Vai ser um dia memorável, rapaz. Só não esquece de avisar quando for o próximo churrasco, hein?

Gustavo riu, acenando com a cabeça. Enquanto os rapazes terminavam suas cervejas e se preparavam para sair, ele pegou o celular e enviou uma mensagem rápida para a cozinheira, garantindo que o almoço fosse reforçado para receber os convidados. Não era todo dia que o Solar dos Cedros recebia uma visita tão animada, e ele queria que tudo saísse perfeito.

Sem revelar muitos detalhes, apenas avisou que teria companhia e que talvez fosse bom preparar algo especial. Afinal, uma piscina, boa comida e amigos novos eram a combinação ideal para transformar aquela tarde em algo inesquecível.

Com tudo organizado, Gustavo olhou para o grupo, satisfeito.

— Prontos? Então vamos lá.

E, sob o sol do meio-dia, o grupo partiu em direção ao Solar dos Cedros, onde novas histórias estavam prestes a começar.

Gustavo deu um tapinha na mesa, como quem finaliza um acordo. "Então, fechado. Estou com meu carro lá fora. Acho que cabe todo mundo." Deixou mais uma nota em cima do balcão e apontou para o seu Zé, num gesto que dizia claramente: Essa é por minha conta. Sem mais delongas, saiu do estabelecimento, seguido pelos outros quatro.

Em poucos minutos, todos estavam acomodados dentro do SUV de Gustavo. O veículo, embora fosse um dos mais simples de sua coleção, não deixava de ser luxuoso, equipado com tudo o que havia de mais moderno em tecnologia. Bancos de couro macio, ar-condicionado eficiente e uma série de funcionalidades controladas por uma tela de LCD sensível ao toque. Enquanto ajustava o cinto, Gustavo deslizou os dedos sobre a tela e ligou para casa. Albano, o fiel mordomo, atendeu prontamente.

"Albano, prepare o almoço no deck da piscina interna. Estou indo com quatro amigos e vamos almoçar lá hoje." Gustavo falou com a tranquilidade de quem estava acostumado a dar ordens. "Certifique-se de que a geladeira está abastecida e que não sejamos incomodados o resto da tarde."

O carro ganhou a estrada, levando-os em direção a uma tarde que, pelo tom da conversa e pelo ambiente preparado, prometia ser longa e descontraída.

O SUV deslizava suavemente pela estrada de terra, levantando uma leve poeira que logo se dissipava no ar. Dentro do veículo, os rapazes trocavam risadas e olhares curiosos enquanto a imponente mansão do Solar dos Cedros se aproximava, sua arquitetura grandiosa destacando-se contra o céu.

Ao chegarem, foram recebidos por Albano, o mordomo, que os aguardava com a habitual eficiência e um tom discreto de respeito.

— Sim, senhor Gustavo — disse ele, com voz calma e profissional. — A equipe já está sendo avisada para preparar tudo conforme solicitado. O almoço no deck da piscina interna será servido em breve, e a casa estará em completo silêncio para sua privacidade.

Um leve som de papel sendo manuseado acompanhava suas palavras, como se estivesse anotando detalhes ou repassando ordens.

— A geladeira está abastecida com as melhores iguarias, incluindo os vinhos selecionados que o senhor solicitou na última compra — continuou Albano. — Também farei questão de informar à equipe para que não haja interrupções durante o período da tarde.

Enquanto os rapazes eram conduzidos para dentro da mansão, a atmosfera de luxo e exclusividade era palpável. A piscina interna, com seu ambiente sofisticado e uma vista parcial para os jardins, prometia ser o cenário perfeito para a continuação daquele dia diferente. A água cristalina refletia a luz suave que entrava pelas grandes janelas, criando um clima ao mesmo tempo relaxante e elegante.

Gustavo e seus amigos se acomodaram no deck, onde os detalhes haviam sido cuidadosamente preparados para atender a todas as suas preferências. O silêncio reinava, quebrado apenas pelo murmúrio discreto da água e pelas conversas animadas do grupo.

Era o início de uma tarde que, sem dúvida, ficaria marcada em suas memórias.

Enquanto dirige, entre risadas e piadinhas, Gustavo pergunta ao grupo, com um sorriso descontraído:

— E aí, galera, o que tem de bom para se fazer nessa cidade? Eu sei que vim pra cá por conta do sucêgo, mas sou acostumado com os grandes centros. Às vezes, preciso de alguma agitação.

Os rapazes se entreolham, sorrindo cúmplices, enquanto o SUV avança pelas estradas que levam ao Solar dos Cedros. Caio é o primeiro a responder, com um sorriso maroto:

— Agitação? Aqui a gente chama de “festas de rua”. Mas pode ter certeza que o que falta em tamanho sobra em animação! Tem a festa de São João, que reúne todo mundo na praça com forró até de madrugada, e o Carnaval da cidade é daquele tipo que faz a gente esquecer que mora em lugar pequeno.

Lucas completa, rindo:

— Sem contar os bailes na antiga casa do seu Jorge — que hoje tá meio abandonada, mas de vez em quando vira ponto de encontro da galera mais jovem.

Henrique dá uma risadinha, meio tímido:

— Ah, e pra quem gosta de natureza, tem as trilhas pela serra e a tal cachoeira do Pica-pau que o sorveteiro falou. É bom pra dar um respiro, especialmente no verão.

Dudu olha pela janela, com olhar sonhador:

— E se quiser algo mais tranquilo, o cinema de praça passa uns filmes clássicos de vez em quando. É simples, mas a galera gosta.

O carro começa a entrar na propriedade do Solar dos Cedros, onde o verde das ártvores e o aroma da natureza parecem abraçar o grupo. Gustavo, visivelmente impressionado com as histórias e o cenário, responde com um sorriso largo:

— Então tá combinado! Vamos ver se essa cidade me surpreende. Pelo que vocês contaram, parece que não vou ficar entediado tão cedo.

Caio, com um sorriso de satisfação, conclui:

— É isso aí, Gustavo. Aqui a gente não tem tudo que tem na cidade grande, mas a gente sabe fazer valer o que tem.

Enquanto o veículo percorre o caminho de terra batida em direção à antiga mansão, os primeiros raios do entardecer iluminam as colunas imponentes do Solar, dando as boas-vindas ao grupo. A chegada promete não apenas um lugar para descansar, mas o início de algo que nenhum deles poderia prever.

"Quem sabe... A parte da agitação fique aqui na mansão mesmo, então," disse Gustavo, rindo, enquanto estacionava o carro. Albano já os aguardava na entrada, e Dimitre pegou o veículo para guardá-lo na garagem. "Albano, providencie sungas pra galera, peguei eles meio desprevenidos," Gustavo completou, ainda sorridente.

"Venham, rapazes, podem me acompanhar."

Gustavo adentrou a mansão, conduzindo-os por corredores amplos e luxuosos até chegarem a um enorme salão. O espaço era dominado por um deck de madeira e uma piscina impressionante, cujas águas levemente aquecidas refletiam a luz que entrava pelas paredes de vidro espelhado. Na cabeceira da piscina, uma hidromassagem desaguava em uma pequena cascata, criando um murmúrio relaxante.

Ao redor, uma mesa farta estava posta para o almoço, acompanhada por um bar repleto de bebidas e geladeiras bem abastecidas. Havia também um espaço reservado para um garçom, mas que, a pedido de Gustavo, permanecia vazio. As paredes de vidro, que permitiam enxergar apenas para fora, elevavam-se em uma curva elegante até se fundirem com o teto, como em uma estufa sofisticada. Num dos cantos, uma porta discreta levava a uma sauna. Espreguiçadeiras e mesinhas estavam distribuídas pelo ambiente, além de banheiros equipados com amplos chuveiros.

"Sejam bem-vindos, rapazes. Espero que estejam com fome," disse Gustavo, aproximando-se da mesa generosamente servida.

O convite estava feito, e o cenário, preparado para um dia de luxo, conforto e, quem sabe, algumas surpresas.

Os rapazes, visivelmente impressionados com o ambiente, trocaram olhares animados e sorrisos contagiantes. Caio foi o primeiro a se mover, dirigindo-se ao bar, onde pegou um copo e encheu-o com suco gelado. Henrique, por sua vez, aproximou-se da piscina, mergulhando a mão na água para sentir sua temperatura.

Lucas deu uma risadinha, olhando ao redor com admiração.

— Cara, isso aqui é outro mundo! Nem parece que a gente tá em Boa Ventura do Norte.

Dudu, ainda surpreso, observava cada detalhe com olhos brilhantes, como se temesse que tudo desaparecesse de repente.

— Essa piscina aquecida é coisa de cinema, hein?

Seguindo as orientações de Gustavo, os rapazes trocaram suas roupas por sungas, rindo das piadas que surgiam sobre o convite inesperado. A descontração era palpável, e a animação só crescia.

— Agora sim, a agitação que a gente queria! — exclamou Caio, pulando na piscina com um splash que respingou água em todos.

O ambiente encheu-se de risadas, conversas animadas e o som da água se misturando à música suave que parecia emanar de algum sistema invisível. A mesa farta, repleta de opções, convidava todos a se servirem à vontade. Albano mantinha-se a uma distância respeitosa, atento a qualquer necessidade, mas discreto como sempre.

— Gustavo, meu amigo — disse Caio, voltando para a mesa com um sorriso largo —, você não tá para brincadeira, hein? Esse almoço aqui tá melhor que o da mãe!

A atmosfera era leve, descontraída, e cada momento deixava claro que aquele seria um dia memorável. Entre mergulhos, brincadeiras e histórias compartilhadas, os rapazes aproveitavam cada instante, longe da rotina comum de Boa Ventura do Norte. Ali, naquela casa, sentiam-se em outro mundo — um mundo onde tudo parecia possível.

O sol estava alto, espalhando uma luz dourada sobre a água cristalina da piscina. Gustavo, relaxado em uma das espreguiçadeiras, usava apenas uma sunga e óculos escuros, seu corpo definido e levemente bronzeado contrastando com o branco do tecido. Ele segurava uma cerveja gelada, os dedos úmidos condensando pequenas gotas que escorriam pela garrafa. Com um gesto discreto, mas familiar, fez um sinal para Albano — um olhar breve, quase imperceptível, que significava "saia e não retorne até eu chamar".

Albano entendeu imediatamente e se afastou, deixando Gustavo sozinho com os outros garotos, que riam e brincavam na água, esbanjando energia juvenil. Gustavo os observava em silêncio, os lábios curvados em um sorriso tranquilo, como se apreciasse não apenas o momento, mas também o controle que tinha sobre ele.

O tempo passou, e a diversão na água deu lugar ao cansaço. Os cinco rapazes, já encharcados e um tanto embriagados, se acomodaram ao redor de uma mesinha próxima à piscina. As garrafas de cerveja se acumulavam, e a conversa fluía sem rumo, como sempre acontecia nessas ocasiões. Mulheres, é claro, eram o tema principal — histórias de conquistas, exageros e competições veladas sobre quem tinha mais sorte no amor.

Quando a vez de Gustavo chegou, ele não se apressou em responder. Em vez disso, deixou o silêncio pairar por um instante, os olhos ocultos atrás dos óculos escuros, mas o sorriso malicioso era visível.

— Bem... — começou, com um tom deliberadamente ambíguo. — Eu sou um homem muito discreto... E acredito que as pessoas devem se divertir como quiserem entre quatro paredes.

A resposta foi propositalmente vaga, carregada de insinuações, e os garotos riram, alguns trocando olhares curiosos. Gustavo riu junto, mas não se alongou. Sabia que o mistério era parte do jogo — e ele sempre jogava bem.

Enquanto o sol começava a declinar, pintando o céu de tons alaranjados, o ar continuava leve, cheio de risadas e a promessa de que a noite ainda reservava mais descontração. Gustavo, porém, permanecia como sempre: no centro de tudo, mesmo quando parecia apenas um observador.

O clima descontraído e a cerveja fluindo ajudavam a quebrar qualquer formalidade entre os rapazes. A resposta de Gustavo provocou risadas soltas, deixando o ar mais leve. Caio, dando um gole na garrafa, não perdeu a chance de provocá-lo:

— Ah, discreto, hein? Aposto que tem umas histórias que você não tá contando, Gustavo!

Lucas, meio desconfiado, mas incapaz de disfarçar a curiosidade, acrescentou:

— Sei não... aqui no interior a gente é mais pé no chão, mas todo mundo tem seu segredo, né? Vai dizer que nunca experimentou coisa diferente?

Henrique, o mais reservado do grupo, coçou a cabeça e falou, num tom que oscilava entre a brincadeira e a seriedade:

— Eu fico na minha, mas admito que essa cidade é pequena demais pra esconder muita coisa.

Dudu, o mais jovem, encarou Gustavo com olhos atentos, como se buscasse decifrá-lo:

— E você, Gustavo? Já teve alguma experiência diferente que possa contar pra gente? Não precisa ser nada demais, só pra a gente entender melhor quem é o cara novo.

Apesar da recepção calorosa e das risadas, um certo desconforto pairou no ar. A dúvida e a surpresa ainda se refletiam nos olhares dos rapazes, que não estavam acostumados a lidar com esse tipo de conversa, especialmente vinda do novo morador. Todos aguardavam, expectantes: qual seria a resposta de Gustavo?

O ambiente descontraído entre os amigos seguia aquecido pela música e pelas risadas, até que Gustavo, com um sorriso malicioso nos lábios, decidiu propor algo que elevou o clima de descontração para um tom mais provocativo.

"Ah, aí vocês já estão querendo saber demais," ele disse, rindo enquanto balançava a cabeça, como se estivesse diante de uma curiosidade que não pretendia satisfazer tão facilmente. "Mas... eu proponho um jogo bem adolescente. Verdade ou desafio, o que acham?" Seus olhos percorreram o grupo, avaliando as reações. "Sei que só entre machos acaba ficando meio chato, mas estamos entre amigos, e tenho certeza que podemos confiar em todos que estão aqui."

O tom era amigável, quase despretensioso, mas havia um brilho de provocação em suas palavras. Sem pressa, ele esvaziou o que restava da garrafa de cerveja e a colocou sobre a mesa com um clique seco, como quem encerrava um assunto para dar início a outro.

"O que acham? Ou não querem contar quantas minas já comeram na cidade?" A pergunta veio carregada de desafio, um convite para quebrar barreiras e mergulhar em histórias que, até então, talvez fossem guardadas a sete chaves. Era o início de um jogo que prometia revelações, risadas e, quem sabe, alguns segredos que nunca deveriam ter saído dali.

Os rapazes trocaram olhares, surpresos e um pouco tensos com a proposta de Gustavo, mas o clima descontraído e a sinceridade no tom dele os deixou mais à vontade. Havia algo naquela noite que parecia convidá-los a quebrar as regras não escritas da rotina, a se permitirem um pouco mais de ousadia.

Caio foi o primeiro a romper o silêncio, sorrindo enquanto soltava uma risadinha despretensiosa:

— Ah, por que não? A gente já tá meio alegre mesmo. Verdade ou desafio, então!

Lucas, com um sorriso maroto, logo acrescentou, como se quisesse estabelecer alguns limites:

— Só vamos combinar que não vai ter nada muito doido, hein? Aqui é cidade pequena, as coisas correm rápido.

Henrique, sempre o mais reservado do grupo, concordou com um aceno tímido, mas havia um brilho de curiosidade em seus olhos:

— É, mas vai ser divertido. A gente pode se abrir mais do que o normal.

Dudu, já completamente animado, bateu palmas como quem anuncia o início de um espetáculo:

— Bora começar, então!

O ambiente ganhou um ar de brincadeira, e os copos se juntaram em um brinde animado, o som do vidro se chocando ecoando como um prenúncio do que estava por vir. Agora, só restava uma pergunta pairando no ar, sugerida por um olhar quase conspiratório entre eles:

— Gustavo, quem começa? Você quer puxar a primeira pergunta ou deixa que os rapazes iniciem?

A expectativa se instalou, e os sorrisos se ampliaram. A noite prometia histórias, confissões e, quem sabe, alguns segredos desenterrados daquilo que sempre ficava por dizer.

A cidade era pequena, mas ali no Solar, as paredes pareciam cegas e surdas. Por mais que, de dentro, tudo transparecesse como se fossem de vidro, Gustavo sabia que, lá fora, ninguém enxergava nada. Os segredos ficavam ali, trancados entre aqueles que estavam presentes.

Com um sorriso no rosto, Gustavo girou a garrafa sobre o chão. Ela rodopiou, desacelerou e, por fim, parou apontando para Caio. Ele olhou para o amigo, os olhos brilhando de divertida expectativa.

— Como fui eu quem girou, eu pergunto e você responde, Caio — disse Gustavo, inclinando-se para frente. — Verdade ou desafio?

O ar ficou tenso por um instante, enquanto todos aguardavam a decisão de Caio. O jogo só começava, e as paredes do Solar testemunhariam muito mais.

Caio ri, um sorriso meio maroto no rosto enquanto olha a garrafa que parou apontando para ele.

— Verdade, então. Tô me sentindo corajoso hoje! — ele responde, se ajeitando na cadeira e encarando Gustavo com um olhar curioso.

O clima fica mais animado e descontraído enquanto ele espera pela pergunta. Gustavo, por sua vez, não perde a oportunidade de provocá-lo.

— Tá bem então, mas depois não vai querer voltar atrás — diz Gustavo, rindo antes de soltar a pergunta. — Quantas meninas da cidade você já traçou?

A pergunta ecoa no ar, e os olhos dos presentes se voltam para Caio, aguardando sua resposta. O sorriso maroto dele não desaparece, mas há um brilho de desafio em seu olhar, como se estivesse meditando sobre o quanto revelar. O jogo, afinal, era sobre honestidade — e ninguém ali pretendia fugir das regras.

O clima descontraído no círculo de amigos era palpável, a garrafa ainda girando lentamente no chão depois de mais uma rodada de perguntas ousadas. Caio soltou uma gargalhada alta, coçando a nuca com aquele jeito meio sem jeito de quem sabe que a resposta vai surpreender.

— Rapaz, vou ser sincero… não sei se é porque aqui é cidade pequena e todo mundo se conhece, mas não sou muito de sair pegando geral não. Acho que umas três, quatro mesmo.

Ele deu uma piscadela brincalhona para Gustavo, provocando risos nos outros rapazes.

— Mas e você? Com esse jeitão de galã, deve ter um histórico maior, né?

Os olhares se voltaram para Gustavo, expectativa no ar. As risadinhas dos amigos ecoavam enquanto a garrafa parava, indicando o próximo jogador. A pergunta pairava no ar, e todos aguardavam para ver se ele responderia ou se a brincadeira seguiria adiante.

Gustavo hesitou por um instante, sentindo o peso da provocação. Seria melhor dar uma resposta espirituosa ou simplesmente deixar a roda continuar? Enquanto isso, a garrafa aguardava, pronta para decidir o próximo alvo da diversão.

O clima na sala era descontraído, envolto em risadas e o som de garrafas sendo abertas. Gustavo balançou a cabeça, segurando sua cerveja com um sorriso divertido.

— Ah não, não é assim que funciona... Só respondo se a garrafa cair apontada pra mim. — Ele riu, abrindo outra garrafa com um estalo. — Mas é sua vez agora, Caio. Você gira e pergunta para quem a garrafa apontar.

Caio não perdeu tempo. Com um movimento decidido, jogou a garrafa no centro da mesa, onde ela rodou sobre a madeira brilhante, emitindo um som que misturava suspense e diversão. Todos os olhos acompanharam seu movimento, enquanto a garrafa desacelerava, até parar, apontando diretamente para Lucas.

Um sorriso se formou nos lábios de Caio, e ele se virou para o amigo, os olhos brilhando de expectativa.

— É sua vez, Lucas! Verdade ou desafio? Vai encar?

Lucas soltou uma risadinha, um misto de nervosismo e empolgação.

— Verdade, bora lá!

O grupo permaneceu animado, o ar carregado de curiosidade enquanto aguardavam a pergunta que Caio faria. O jogo estava apenas começando, e ninguém sabia até onde aquela noite os levaria.

Gustavo permanece imóvel, os olhos fixos em Caio, como se soubesse que algo importante estava prestes a ser dito. O silêncio entre eles era denso, carregado de expectativa. Ele não pressurava, não interrompia—apenas observava, com uma paciência quase infinita, esperando pela pergunta que Caio faria. Havia um peso naquele momento, uma sensação de que as próximas palavras poderiam mudar tudo.

Caio, por sua vez, parecia hesitante, como se medisse cada sílaba antes de soltá-la no ar. Seus dedos tamborilavam levemente contra a mesa, um ritmo irregular que denunciava sua inquietação. Finalmente, ele respirou fundo, como quem se prepara para um mergulho em águas desconhecidas, e abriu a boca para falar.

Gustavo não se adiantou. Continuou ali, calmo, atento—pronto para ouvir.

Caio esfrega as mãos como se estivesse prestes a aprontar e então olha para Lucas com um sorriso malicioso.

— Tá bom, Lucas… agora é a hora da verdade.

Ele se inclina um pouco para frente, aumentando o clima de expectativa.

— Diz aí… é verdade que tu já ficou com a prima do Henrique naquela festa do padroeiro?

Henrique arregala os olhos, os outros dois seguram o riso, e Lucas fica vermelho como um pimentão.

— Eita, Caio! — ele diz, rindo nervoso. — Pô, isso aí foi sem querer querendo, cara! A gente tava dançando, deu uns beijos, mas ninguém precisa saber disso não…

As risadas explodem ao redor da mesa, o clima segue cada vez mais solto. Até Henrique dá uma risada resignada.

— Eu devia ter desconfiado…

A garrafa é puxada de novo para o centro da mesa.

— Sua vez, Lucas! — dizem em coro.

Lucas respira fundo, ainda sorrindo sem graça, e gira a garrafa.

Ela roda, gira… e para.

Apontando diretamente para Gustavo.

O grupo se cala por um segundo e depois explode em risadas animadas.

— E agora, Gustavo? Verdade ou desafio? — Lucas pergunta com um sorriso travesso.

O ambiente estava carregado de uma energia contagiante, a mistura de expectativa e diversão pairando no ar como um convite ao desconhecido. Gustavo sorriu, lambeu os lábios e deu um gole lento na cerveja, como se estivesse pesando mentalmente qual seria a opção mais interessante.

— De primeira... Verdade — decidiu, encarando o grupo com um ar desafiador.

Os quatro rapazes se entreolharam, animados e visivelmente curiosos. Lucas esfregou as mãos, como se tivesse ganhado um presente inesperado.

— Certo então... verdade — ele disse, encarando Gustavo com um sorrisinho de canto de boca. — Mas tem que responder mesmo, hein?

Fez uma pausa dramática, olhando para os outros com cumplicidade, antes de soltar a pergunta:

— É verdade que... você já ficou com homem?

Os outros arregalaram os olhos, entre risos nervosos e uma expectativa quase palpável. Um silêncio divertido pairava no ar, como se todos soubessem que tinham cruzado uma linha invisível — mas, mesmo assim, quisessem ver até onde Gustavo deixaria a brincadeira ir.

O clima estava tenso, mas não hostil. Havia algo de libertador naquela pergunta, como se ela abrisse portas que, antes, ninguém ousava tocar. E agora, todos aguardavam, com os copos suspensos e os sorrisos presos, para ver o que viria a seguir.

As sobrancelhas de Gustavo arqueiam com a pergunta, como se ele fosse surpreendido pela forma direta que Henrique a fez.

— Nossa... Direto. — Ele diz rindo, o tom descontraído contrastando com a franqueza da pergunta. — Se eu disser que sim, vocês saem correndo?

Solta uma risada antes de continuar, sem qualquer hesitação.

— Mas já... um cu e uma boca, seja de homem ou mulher, pra mim é igual, me dá prazer igual.

Levanta a cerveja num gesto despretensioso, os olhos brilhando de divertimento, sem o menor pudor. A naturalidade com que fala parece dissipar qualquer tensão no ar, deixando claro que, para ele, não há tabus—apenas a pura e simples verdade.

Os rapazes caíram na risada, entre o choque e a surpresa — claramente não esperavam uma resposta tão direta, ainda mais dita com tanta naturalidade.

Caio, o mais solto, levantou a cerveja e brindou com Gustavo:

— Rapaz… você não tem papas na língua mesmo! Isso que é sinceridade!

Lucas balançou a cabeça, rindo:

— Mano do céu… se a cidade ouve isso, entra em combustão!

Henrique deu um sorriso tímido, coçando a nuca:

— Acho que... a gente devia beber mais vezes com você, Gustavo. Você é diferente, mas no bom sentido.

Dudu, que estava mais quieto, apenas deu um gole longo na cerveja, claramente com os pensamentos a mil, mas sem dizer nada.

A garrafa girou novamente entre risadas abafadas e comentários nervosos. O clima continuou leve, mas agora com um fio de tensão curiosa no ar — a mistura perfeita entre admiração e provocação. Queriam girar a garrafa de novo ou mudar o rumo da conversa? A resposta estava no ar, tão palpável quanto o gelo derretendo nos copos.

Gustavo ri alto, os olhos brilhando de diversão. "Olha lá, o Henrique ficou interessado!" Ele solta outra risada, provocante. "Achei que tu era hetero." Claro que todos ali são heteros, sem sombra de dúvidas, e Gustavo sabe disso. Mas há um tom de brincadeira no ar, uma provocação leve que ele não resiste em alimentar.

"Tô brincando, Henrique, não precisa ter medo de mim só porque eu comi meia dúzia de cus..." Ele dá um sorriso largo, descontraído, como quem não quer criar tensão. "Sempre que quiser, podem vir beber aqui..." O convite fica pairando, mas o jogo não pode parar.

Gustavo gira a garrafa no chão, e todos acompanham o movimento com expectativa. Quando ela para, apontando para Dudu, ele arqueia uma sobrancelha. "Dudu... Verdade ou desafio?"

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

O clima fica suspenso, aguardando a resposta. A noite ainda é jovem, e o jogo, apenas começou.

Dudu dá um pulo leve na cadeira quando percebe que a garrafa parou bem em sua direção. Ele engole seco, mas tenta manter a pose, meio rindo, meio nervoso com a zoeira da rodada anterior.

— Eita... justo eu? Tá bom, vai — ele cruza os braços e encara Gustavo com um sorriso contido. — Verdade. Mas pega leve aí, hein?

Os outros já se ajeitam nas cadeiras, segurando o riso e esperando para ver que tipo de pergunta Gustavo vai soltar, agora que a mesa está definitivamente mais quente. O clima, que antes era descontraído, agora carrega uma tensão divertida, como se todos soubessem que as próximas palavras poderiam desencadear uma nova onda de provocações e confissões embaraçosas.

Gustavo não perde tempo. Inclina-se para frente, com um brilho travesso nos olhos, e solta a pergunta como quem atira uma bomba no meio do grupo:

— Qual foi a última vez que você chorou e por quê?

Os amigos em volta soltam um "oh" coletivo, alguns batendo na mesa em aprovação, outros rindo da cara de susto de Dudu. Ele arregala os olhos por um segundo, como se calculasse se vale a pena mentir ou encarar a verdade de frente. O silêncio se prolonga por um instante, até que ele suspira, derrotado pelo peso dos olhares curiosos ao seu redor.

— Tá... tá bom. Mas depois não venham me zoar.

E, assim, a noite segue, entre risadas, segredos revelados e a certeza de que, quando a garrafa gira, ninguém escapa ileso.

O ambiente carregado de tensão e provocação parecia se intensificar a cada segundo. Gustavo, com um sorriso que beirava o demoníaco, lambeu os lábios lentamente, como se saboreasse a situação. Seus olhos brilhavam com uma mistura de desafio e diversão enquanto se aproximava de Dudu, reduzindo ainda mais o já curto espaço entre eles.

— Dudu... — começou ele, a voz carregada de um tom gozador, mas ao mesmo tempo penetrante. — Por que você ficou de pau duro quando eu falei que comi uns caras por aí? — Uma risada escapou de seus lábios, e seu dedo indicador apontou descaradamente para a sunga estufada do rapaz. — Deu vontade, é?

A pergunta ecoou no ar, carregada de uma intimidade incômoda e uma provocação que não deixava margem para interpretações equivocadas. Gustavo claramente se divertia com o desconforto — ou talvez a excitação — que suas palavras haviam despertado no outro. A atmosfera entre os dois pesava, cada segundo prolongando a tensão não dita, mas palpável.

Dudu, agora no centro dessa investida, tinha diante de si uma escolha: ignorar, rebater ou, quem sabe, ceder à provocação. Enquanto isso, Gustavo observava, os olhos fixos nele, como um predador que já saboreava a reação de sua presa.

O clima na roda de amigos era descontraído, cheio de gargalhadas e provocações. Quando Gustavo soltou uma piada inesperada, os outros rapazes explodiram em risadas, deixando Dudu vermelho até a ponta das orelhas. Ele cobriu o rosto com as mãos, sacudiu a cabeça e riu, mesmo claramente envergonhado, levando tudo na esportiva.

— Ah, vai se ferrar, Gustavo! Tá doido? — disse ele, ainda rindo. — Isso aqui é só cerveja demais e pouca sunga! Nem vem com essas ideias!

Caio quase caiu da cadeira de tanto rir, apontando para Dudu com diversão malandra:

— Pegou no flagra, hein? Tá ferrado, Dudu!

Lucas, vendo a situação, fez um gesto de zíper na boca e deu um sorriso cúmplice:

— Relaxa, irmão, o Solar é terreno neutro, ninguém vai te julgar… muito.

Até Henrique, que costumava ser mais contido, soltou uma risada mais alta e balançou a cabeça, divertido com a cena:

— Se continuar nesse clima, daqui a pouco vai ter alguém trocando a verdade por desafio só pra fugir dessas perguntas!

Apesar das provocações, o ambiente permaneceu leve, dentro daquele tom de camaradagem que só amigos de longa data conseguem sustentar. Dudu, mesmo sem responder literalmente, virou o alvo preferencial da zoeira pelos próximos minutos — exatamente do jeito que esse tipo de roda de amigos adorava.

E, é claro, a pergunta que não queria calar pairava no ar: será que a brincadeira continuaria com mais uma rodada?

O ambiente estava animado, a conversa fluía entre risadas e brincadeiras. Gustavo riu junto com a galera, integrando-se ao clima descontraído, mas mesmo assim, seu olhar demorou um pouco mais fixo em Dudu, como se houvesse algo não dito pairando no ar.

— De quem é a vez? — perguntou, quebrando o breve silêncio que se instalara. A pergunta ecoou no grupo, trazendo de volta a leveza do momento, enquanto todos se entreolharam, decidindo quem seria o próximo a entrar na roda.

A dinâmica do jogo continuou, mas a hesitação de Gustavo não passou despercebida. Havia ali, naquela pausa, um questionamento silencioso, algo que apenas ele e Dudu pareciam entender. O resto do grupo seguiu na risada, alheio ao que se escondia por trás daqueles segundos a mais de observação.

Ainda rindo, Dudu balança a cabeça e gira a garrafa com firmeza, talvez para tirar logo o foco de si. A garrafa roda, deslizando sobre a mesa molhada de cerveja, até que desacelera… e para, apontando diretamente para Henrique.

A mesa explode em risadinhas e vaias brincalhonas.

— Iiiiih, se esconde, Henrique! — grita Caio, divertido.

Lucas, entre goles, provoca:

— Vai negar ou vai encarar?

Dudu sorri, ainda com o rosto meio vermelho, e lança a pergunta inevitável:

— Tá na sua mão, Henrique... verdade ou desafio?

Henrique dá um suspiro teatral, mas sorri, entrando no espírito da coisa.

— Desafio.

Todos reagem com um coro animado:

— Ooohhh!

Dudu esfrega as mãos, pensativo, enquanto todos esperam pelo desafio que ele vai lançar. O ar fica carregado de expectativa, os olhos brilhando entre gozações e curiosidade. Qual seria a próxima jogada? Algo leve, certamente, mas o suficiente para manter a diversão rolando.

Era só o começo da noite.

Gustavo encara os dois, esperando o que está por vir. O ar pesa entre eles, carregado de tensão, como se cada respiração pudesse desencadear o inevitável. Seus olhos não vacilam, fixos nos adversários, medindo cada movimento, cada intenção oculta por trás daqueles olhares impenetráveis.

Ele sabe que não há volta. As palavras já foram ditas, as decisões, tomadas. Tudo o que resta é o embate, a colisão de vontades que há muito se arrastava sob a superfície. Seus punhos se apertam involuntariamente, os músculos tensos como cordas prestes a se romper.

Os dois à sua frente também não recuam. Há uma frieza neles, uma determinação silenciosa que ecoa a dele. Ninguém pisca. Ninguém cede. O silêncio é quebrado apenas pelo som distante do vento cortando os espaços vazios entre eles, como se a própria natureza soubesse que algo estava prestes a acontecer.

Gustavo respira fundo. Não há mais tempo para dúvidas. O que vier, virá. E ele está pronto.

Gustavo riu junto, divertido com a situação. "Ahh, então o desafio é pro Henrique, e eu que me fodo junto?" Ele soltou uma gargalhada, deixando claro que não levava a sério. "Por que não dá um selinho na cabeça do meu pau, então?" levantou-se, apontando para a sunga com um sorriso desafiador. "Mas beleza, isso não vai fazer ninguém mais ou menos homem. Por mim, pode vir." Sua voz mantinha um tom de brincadeira, misturado com uma provocação leve, como quem não temia o que os outros pudessem pensar.

A mesa explodiu em gargalhadas com a resposta ousada de Gustavo. Caio bateu na madeira, quase derrubando a cerveja de tanto rir.

— Mano! Tu não tem filtro nenhum! — ele conseguiu dizer entre risos, os olhos marejados de tanto se divertir.

Henrique cobriu o rosto com a mão, claramente vermelho, mas não resistiu e acabou rindo também, sacudindo a cabeça em negação divertida.

— Vocês são doidos demais... — respirou fundo, como se buscasse coragem. — Mas quer saber? Um selinho não mata ninguém.

Levantou-se, ainda rindo de nervoso, e caminhou até Gustavo sob vaias e gritos fingidos de torcida dos amigos. Parou diante dele, hesitou por um breve instante... e então deu um selinho rápido, como quem arranca um curativo.

— Pronto! Feliz? — disse, voltando para o seu lugar enquanto o grupo explodia em uma mistura de gritos, aplausos e gargalhadas.

Dudu ergueu a garrafa no ar, brindando ao momento:

— Isso sim é Solar dos Cedros! Aqui a masculinidade é de titânio!

O clima era de pura zoeira e cumplicidade, como se aquela turpa tivesse se tornado mais íntima em poucas horas. A noite seguia, leve e descontraída, pronta para o que mais os amigos decidissem aprontar dali em diante.

O ambiente estava carregado de uma energia intensa, misturando descontração e tensão sexual no ar. Gustavo, com um sorriso provocativo nos lábios, deixou escapar uma risada baixa antes de passar a língua lentamente pela própria boca, num gesto deliberadamente sensual. Seus olhos brilhavam de diversão e desafio, como se soubesse exatamente o efeito que causava.

— Já beijei mulheres que beijavam pior — declarou ele, a voz rouca de provocação, antes de levar o copo de cerveja aos lábios e tomar um gole tranquilo, como se aquela afirmação fosse a coisa mais natural do mundo.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo tilintar do vidro contra a mesa quando ele o apoiou novamente, seu olhar fixo em quem quer que estivesse à sua frente, desafiando, seduzindo, sem pressa. Era um jogo, e ele claramente estava no controle.

Os rapazes explodiram em gargalhadas com a provocação de Gustavo, mas havia um tremor no ar — uma mistura de excitação e tensão que nenhum deles sabia nomear. Caio, sempre o mais desinibido, levantou a cerveja em direção a ele:

"Mulheres que beijavam pior"? Caralho, Gustavo, você é um poeta da putaria!

Henrique, ainda corado pelo selinho, esfregou a boca com o dorso da mão, mas sorriu:

— Pelo menos não foi um beijo de padre, né?

Dudu e Lucas trocaram olhares rápidos, como se tentassem decifrar até onde aquilo iria. Dudu, corajoso, puxou a garrafa de novo:

— Vamo girar de novo! Agora eu quero ver o Gustavo pegar desafio…

A garrafa girou, deslizou na mesa molhada, e parou. Apontando diretamente para Gustavo.

DESAFIO! — gritaram todos em coro, os olhos brilhando de expectativa.

Lucas, malicioso, cruzou os braços:

— Tá na hora de elevar o nível, patrão. Se você é tão sem medo assim…

Ele apontou para a sauna no canto do deck, onde o vapor já escapava pela porta entreaberta.

— Desafio: você entra lá por cinco minutos… pelado. E a gente vai perguntar coisas. Se recusar a responder, bebe três doses seguidas.

Caio acrescentou, rindo:

— E a gente controla o cronômetro! Sem trapaça!

O clima esquentou junto com o vapor da sauna.

O ambiente estava carregado de risadas e a atmosfera, embebida pelo álcool, parecia tornar tudo mais leve. Gustavo, no entanto, mantinha o controle, mesmo quando os outros já estavam visivelmente alterados. Ele era forte para a bebida e, mais do que isso, sabia conduzir o jogo exatamente para onde desejava.

— Hey! Vocês estão roubando... — ele exclamou, rindo alto antes de dar um gole firme em sua cerveja. — Sou eu quem escolhe se é verdade ou desafio!

Os amigos riram, tentando disfarçar a trapaça, m

as Gustavo não parecia realmente irritado. Pelo contrário, seus olhos brilhavam com a perspectiva de um novo desafio.

— Mas já que vocês escolheram — continuou, erguendo a garrafa como quem propõe um brinde —, vou propor um desafio pra todo mundo.

Houve um breve silêncio, seguido por olhares curiosos e desconfiados.

— Os cinco, pelados dentro da sauna — anunciou, com um sorriso malicioso. — E cada um pode fazer uma pergunta pro outro.

A proposta ecoou na sala, misturando surpresa, hesitação e um certo entusiasmo embriagado. Era um daqueles momentos em que a linha entre o constrangedor e o divertido se tornava tênue, e tudo dependia de quem estava disposto a atravessá-la. Gustavo, é claro, já estava do outro lado, esperando apenas que os outros o seguissem.

O ar pesava dentro da pequena casa de praia, uma mistura de álcool, calor e uma tensão que nenhum dos quatro rapazes conseguia nomear. Gustavo levantou a garrafa de cerveja com um sorriso que mesclava desafio e convite, e por um segundo, todos ficaram paralisados, como se o tempo tivesse se suspendido.

Caio foi o primeiro a se recuperar. Soltou uma risada alta, quase forçada, e levantou-se da cadeira com um passo exagerado de bêbado. "Porra, Gustavo, você não faz nada pela metade, né?!" Já puxava a camisa por cima da cabeça, revelando um torso bronzeado de quem trabalhava sob o sol. "Mas beleza, vamo nessa! Só não olha muito, senão eu cobro!"

Lucas ficou vermelho até as orelhas. Engoliu seco e olhou para os outros, como se buscasse aprovação. "Cara… a gente tava zoando, mas você quer mesmo?" Riu nervoso, mas já desabotoava o shorts. "Foda-se, tô dentro. Mas se alguém tocar sem permissão, eu meto o pé."

Henrique permaneceu quieto, os olhos fixos na garrafa. Parecia calcular se valia a pena arriscar ou se deveria inventar uma desculpa. Mas, ao ver Caio e Lucas já se despindo, suspirou e murmurou: "É… já que todo mundo vai…" Suas mãos tremeram levemente ao abrir o zíper.

Dudu foi o mais hesitante. Ficou parado, mastigando o lábio, até que Caio deu um empurrão brincalhão nele: "Ei, Duduzinho, tá com medo? Vai ficar de sunga igual criança na praia?" Dudu revirou os olhos, mas acabou cedendo, tirando a camisa com movimentos rápidos, como se quisesse acabar logo com aquilo.

O vapor escapava pela porta de madeira quando entraram, e o calor úmido os envolveu imediatamente. O espaço era apertado — bancos de cedro, luz baixa e o cheiro de eucalipto pairando no ar. Gustavo foi o último a entrar. Fechou a porta com um clique suave, e o som do mundo lá fora desapareceu.

"Regras simples," ele disse, a voz rouca pelo álcool e pelo calor. "Cada um faz uma pergunta. Quem não responder, bebe depois. E nada de mentiras… a sauna sempre descobre."

Os rapazes se encolheram no espaço, tentando não se tocar, mas era impossível evitar o roçar de ombros, o toque acidental de joelhos.

Quem começaria?

Caio, destemido, foi o primeiro: "Gustavo, qual foi a coisa mais selvagem que você já fez com alguém?"

Lucas, mais cauteloso, virou-se para Henrique: "Você realmente nunca ficou com um cara antes do selinho?"

Dudu, encolhido no canto, olhou para Gustavo e soltou: "Por que você realmente veio pra essa cidade?"

Henrique, com os olhos fechados contra o vapor, perguntou para todos: "Alguém aqui tá duro agora ou só eu tô quase morrendo de vergonha?"

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo chiado das pedras quentes, enquanto o jogo começava de verdade.

Os jogos só começavam...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!