­Zadine não era do tipo de homem que deixava trabalho pra depois. Naquela manhã, entretanto, limpar o laboratório do setor 34 parecia uma tarefa impossível.

Com dez anos trabalhando para a ReCon Energias e Tecnologias, sabia identificar quando algo não estava certo. Podia sentir os ânimos exaltados na empresa. Cochichos, burburinhos, pessoas andando apressadas de um lado para o outro, passos ecoando pelos corredores sempre silenciosos. Alguma coisa estava fora do lugar.

Por sorte, não tinha curiosidade nenhuma para descobrir do que se tratava.

Costumava se sentir um peixe fora d’água naquele universo de máquinas estranhas e vidrarias com substâncias químicas de nomes complicados. Sua filha Laila o chamava de ingrato, dizia que ele deveria agradecer por estar empregado e pelos dois terem um lugar seguro para dormir enquanto o mundo se despedaçava em sangue e fogo lá fora. Mas Zadine não se importava, foi graças ao seu suor que conseguira aquele serviço. Por mais que odiasse o emprego, era merecedor de estar ali, de ganhar a proteção enquanto limpava a sujeira daqueles homens arrogantes. Os malditos cientistas. Chegam com o nariz arrebitado e não dão à mínima se o faxineiro ainda está limpando. Pisam, quebram, desfazem... Detestava aquela gente mais do que qualquer coisa ali dentro. Apesar de tudo, sabia que a filha tinha razão.

O preço a pagar por todas aquelas humilhações era muito pequeno comparado ao horror de morar em uma zona de perigo.

Zadine empurrava o carrinho de limpeza pelo corredor principal, esbarrando em um ou outro cientista desgovernado que nem sequer tiravam os olhos dos papéis que traziam. Suspirou. O dia seria cansativo e sua paciência estava se esgotando. O funcionário da limpeza do Setor 34 ficara doente, então não foi uma surpresa para Zadine ter que substituí-lo, nem foi surpresa ver que o lugar parecia uma zona pós-guerra. Como se não bastasse, Benedite, a faxineira do 25, torcera o pé e lógico que tudo havia sobrado para o bom e velho Zadine. O funcionário mais prestativo da ReCon. Era o que os metidinhos diziam. O velho mal humorado que todos adoravam.

No laboratório central do Setor 34, os cientistas se amontoavam diante de um quadro de avisos. Zadine parou o carrinho de limpeza há dois metros do grupo e estendeu a placa de “Cuidado! Piso molhado” no chão, enquanto ouvia sem muito interesse os sussurros de dois cientistas que ele conhecia de vista.

— Eu estou falando. Ele convocou todos nós. – Disse um deles. Era gordo, careca, e usava uns óculos de fundo de garrafa.

— Você tem alguma ideia do que se trata? – Perguntou o segundo homem. Era o oposto, alto e jovial.

O cientista careca deu de ombros e balançou a cabeça.

— Não tenho certeza. Ouvi o Walter comentar que ele estava querendo nos propor um acordo.

— Um acordo?

­— Psiu! Fale baixo. Essas paredes têm ouvidos, Doutor Joan. Se ele descobre que a gente saiu por aí abrindo a boca...

— Mas eu não faço a mínima ideia do que significa. Mesmo que eu quisesse sair por aí espalhando, eu não sei do que se trata.

— Veja bem. – O cientista careca endireitou os óculos e aproximou-se, falando mais baixo ainda. – Há rumores...

Zadine nunca tinha curiosidade em saber das coisas que os cientistas paspalhos fofocavam. De vez em quando ele ouvia algo que não entendia, como resultados de equações químicas, novas bactérias sintetizadoras, radiação, enzimas e outra infinidade de nomes estranhos que Zadine aprendera a decorar de tanto ouvir, mas que possuíam um significado vazio para ele. Era sempre a mesma coisa, daquela vez não. Sentiu uma vontade de se inclinar para ouvir melhor. Jogou um pouco de água sobre o piso da área comum. Aproximou-se sorrateiramente sem que os homens percebessem e continuou atento ao que diziam.

— ...De que o Doutor Certinho andou discutindo com Ele.

— Doutor Certinho? — O cientista bonito chamado Joan franziu a testa. – Está falando do Doutor Hermes?

— Ernest – corrigiu. – O doutor Ernest.

— E porque estavam discutindo? Ernest Snyder não me parece do tipo que afronta autoridades. Ainda mais o diretor...

— Estão dizendo que eles se desentenderam por causa do projeto Amazônia.

O Doutor Joan paralisou. Zadine viu o rosto de o cientista ficar pálido feito leite.

— O projeto... A- amazônia? – gaguejou ele. — Mas não votamos em acabar com aquela loucura?

— Não. – respondeu o careca. – Nós votamos em adiar a decisão. Uma medida provisória para não decidirmos nada precipitadamente. O que dizem por aí é que ele quer retomar os experimentos. Pior... Que ele quer acelerar a abertura da coisa.

— Isso é completamente inviável! – Retrucou Joan, exasperado. – Todos aqui sabem que aquilo é uma bomba relógio. A capacidade incontrolável de reprodução daquelas coisas. A variação dos efeitos nos testes in vivo.

— Não preciso falar da instabilidade dos armazenadores de energia. É uma ação muito impensada. Pode ser que traga benefícios, existem as vantagens, é claro, mas...

— Benefícios, Doutor Sanderson? – interrompeu Joan. – Vantagens? Não é possível que isso possa estar sendo cogitado. É uma insanidade, uma completa falta de senso.

O doutor Sanderson olhou de um lado para o outro. Uma gota de suor escorregou pela sua têmpora direita.

— Olha só, Doutor. Estamos do mesmo lado aqui, não precisa se exaltar. Além disso, os outros pensam exatamente como nós, não é mesmo? Não devemos entrar em pânico agora antes que alguma decisão seja tomada. Veja, precisamos ir, já está quase na hora da reunião. – Disse ele, apontando para o relógio. – Vai agora?

Joan encarava Sanderson com incredulidade. Algo no seu semblante fez os ossos de Zadine gelarem. Em seus dez anos, nunca ouvira uma conversa tão confusa quanto aquela. Fosse o que fosse o teor daquele assunto, pareceu provocar no jovem cientista um desconforto profundo. Por fim, vencido pela dúvida, Joan assentiu discretamente. Os dois cientistas deram as costas e caminharam para o elevador, seus jalecos balançavam enquanto cruzavam a porta de saída da área comum do Setor 34, deixando para trás marcas de pegadas sobre o piso molhado.

Zadine praguejou baixinho. São todos iguais, esses cientistas malditos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.