Sol de Inverno

1 Capítulo Único


Tinha nevado mais cedo naquele dia e ainda fazia muito frio, mas não no Acampamento Meio-Sangue, onde a temperatura era magicamente regulada para se manter amena. Em dias como aquele, Nico ficava feliz por não viver mais como um órfão sem-teto. Era bom poder deitar numa cama macia e quentinha, que não mais parecia um caixão e que lhe pertencia, para variar.

Com a nova decoração mais razoável que ele escolhera, o Chalé de Hades estava perfeitamente habitável e às vezes, o garoto até conseguia pensar que realmente encontrara o lugar ao qual pertencia. Quando ele pensava nisso e fechava os olhos, por algum motivo irritante, a imagem de Will Solace vinha a sua mente. Ele grunhiu e afundou a cabeça no travesseiro, socando-o. Por que tudo para ele tinha que ser tão complicado?

Nesse momento, ele ouviu batidas na porta do chalé. Meio a contragosto, se levantou e foi ver quem era. Assim que abriu a porta, um coro de vozes anunciou:

— SURPRESAAA!!!

Nico sentiu o rosto arder. Falando do diabo, ali na entrada estava Will Solace com um bolo de aniversário nas mãos. Percy, Annabeth, Jason e Piper também estavam ali e ainda Hazel e Reyna que abriram caminho entre os colegas e correram para abraçar Nico.

— O-o quê? C-como? – foi tudo que Nico conseguiu dizer com os braços das duas garotas ao redor do seu pescoço.

— Você me disse que está há uns setenta anos sem comemorar seu aniversário – esclareceu Will, sorrindo para ele. — Isso tinha que acabar.

— Mas eu não cheguei a lhe dizer a data...

Mesmo sendo provavelmente o semideus vivo mais pálido na face da Terra, Nico sentiu que estava alcançando a façanha de ficar da cor de um pimentão.

— Ah, eu tenho meus truques – retrucou Will.

— E eu estou tão feliz de poder estar ao seu lado hoje! – disse Hazel, finalmente largando-o e dando uma olhada em seu rosto. – Estava com saudades, irmão. Desde o verão que não nos víamos...

— E-eu também estava com saudades, Hazel... – ele disse, beijando o rosto dela.

— Awn! Gente! – disse Jason. – Abraço coletivo no Di Angelo! – ele declarou como se ainda fosse um pretor dando uma ordem a sua legião.

“Grace, seu desgraçado, você vai me pagar!” pensou Nico, quando todos os sete semideuses irromperam pela porta e foram para cima dele. Por que as pessoas tinham tanta dificuldade em entender que ele não gostava de ser tocado?

— Aaaaaahhhhh! – ele gritou, abrindo os braços e fazendo todos se afastarem.

— Tudo bem, tudo bem – alguns disseram.

— Não precisa ficar nervoso – Will falou, depositando o bolo no criado-mudo de madeira negra de Nico.

— Vocês vieram até aqui só por causa disso? – Nico se dirigiu a Hazel e Reyna, que moravam do outro lado do país e a Percy e Annabeth que tinham voltado para Manhattan com o fim das férias de inverno.

— Mas é claro! É o que se faz por um amigo – disse Reyna.

“Amigo”. Nico sentiu uma fisgada no coração. Ainda não estava muito acostumado a ser associado àquela palavra, mas não era tão ruim.

— Frank também queria estar aqui – disse Hazel, — mas, sabe, o acampamento Júpiter não podia ficar sem seus dois pretores e Reyna não deu muita escolha sobre quem ia ficar – disse Hazel sorrindo para a pretora.

Reyna encolheu os ombros e estendeu o embrulho que carregava a Nico.

— Mas ele ajudou a escolher seu presente.

Nico pegou o embrulho vermelho e sentou na cama para abrir. Ali havia um cachecol de tricô todo preto, cheio de caveirinhas brancas estampadas.

— Err...

Antes que ele pudesse se recuperar daquilo, Percy se aproximou dele com outro embrulho.

— Esse aqui é dos gregos. Foi Annabeth que escolheu...

— Espero que goste – Annabeth disse, sorrindo para Nico.

O pacote era bem mais pesado. O garoto soube do que se tratava antes mesmo de começar a abrir, mas a surpresa não foi menor quando ele se viu segurando uma edição capa dura toda preta com letras douradas de “O morro dos ventos uivantes”.

Nico não queria ser mal educado, mas a primeira coisa que pensou em dizer foi: “Vocês estão tirando sarro da minha cara com esses presentes, não é?”. Só que ele não conseguia falar nada. Depois que conseguiu tirar os olhos dos presentes em seu colo e os levantou para os amigos, só conseguiu ficar ali com a boca meio aberta e provavelmente uma expressão nada boa.

Os semideuses o encaravam e trocavam olhares entre si, parecendo um pouco temerosos e nervosos. Depois de um tempo, Nico percebeu que eles também estavam se segurando para não rir, até que não conseguiram mais e caíram na gargalhada.

— Desculpe, Nico. É que foi um pouco difícil pensar no que você gostaria de ganhar – disse Hazel, fazendo esforço para falar enquanto ria.

— Demais! – concordou Piper, no mesmo tom. – Nós não fazíamos ideia...

— Mas “O morro dos ventos uivantes”? É sério Annabeth? – disse Reyna com uma mão na barriga.

— Eu achei que ele podia gostar dos clássicos...

— Eu disse que devíamos ter comprado aquele “O sol é para todos”... O título parecia melhor – disse Will.

Nico não aguentou mais, também começou a rir. Ultimamente, ele vinha praticando essa expressão e seu rosto já não doía tanto.

— Vocês são todos loucos! Fala sério! – Ele pegou o cachecol preto e colocou no pescoço só porque sabia que todos iam voltar a rir.

— Own, ficou uma gracinha – disse Hazel.

— Certo – disse Nico, tirando-o. – Certifique-se de dizer ao Frank o quanto eu adorei o presente! E Annabeth, farei o possível para... err... tentar ler o livro...

— Tenho certeza de que não vai se arrepender! – Annabeth levantou o polegar para ele, sorrindo.

— Ei, Nico, você tem que soprar as velas! – disse Piper.

— E não esqueça de fazer um pedido! – acrescentou Jason.

— É sério isso?

Eles levaram o bolo para bem perto dele e começaram a cantar “Nico é um bom companheiro”. O filho de Hades teve vontade de se enterrar, literalmente se encolher num canto escuro do chalé até se fundir com as sombras e se transportar para qualquer lugar. Ele teve que lembrar a si mesmo várias vezes que estava tentando seguir o conselho de Will e Jason Grace e “deixar as pessoas serem suas amigas”.

Enquanto soprava as velas, ele pensou no último aniversário que tinha comemorado até aquele dia. Com a mãe e Bianca, na Itália, comendo doces e tomando chocolate quente perto da lareira num dia nublado. Pela primeira vez, lembrar das duas não o fez se sentir mal, a sensação era de uma saudade boa, como se aquela lembrança o tivesse aquecido por dentro. Ele desejou que Bianca fosse feliz na nova vida que escolhera viver e que os problemas ficassem longe dele e seus novos amigos por um bom tempo.

Todos ficaram ali por um tempo se empanturrando de bolo, cupcakes azuis que a mãe de Percy fizera e Coca-Cola contrabandeada por algum filho de Hermes. Hazel e Reyna contaram as novidades do acampamento Júpiter. Enquanto as ouvia, Nico pensava no quanto aquela situação era um tanto surreal. Ali estava ele comemorando seu aniversário no Acampamento Meio-Sangue depois de todos aqueles anos, com amigos gregos e romanos conversando animadamente.

Ninguém estava com muita fome depois daquilo, mas como os outros poucos campistas que estavam ali no inverno, dirigiram-se ao refeitório pouco depois para o jantar. Hazel e Reyna sentaram-se com Nico na mesa de Hades. Depois de Will, elas eram as pessoas com quem ele menos tinha dificuldade de estar. Apesar de só Hazel ser filha de Plutão, ele considerava as duas como irmãs.

Terminado o jantar, a maioria dos campistas voltou aos seus chalés. Apesar de estarem protegidos do frio, ninguém parecia muito disposto a ficar do lado de fora. Percy e Annabeth voltaram para Manhattan. Hazel, que depois de alguma prática estava conseguindo fazer viagens nas sombras, desde que não fosse mais de uma por dia, decidiu aproveitar a chegada da noite e usar sua nova habilidade para que ela e Reyna pudessem voltar para a Califórnia sem ter que enfrentar as estradas cobertas de gelo.

Depois das despedidas, Nico subiu no telhado do chalé de Hades, como costumava fazer no templo do pai no Campo Júpiter. Sentado com o braço em volta dos joelhos, ele observava o acampamento quase deserto. A neve caindo por todos os lados, mas sem tocar o chão o fazia se sentir num tipo de globo de neve ao contrário.

Mordeu o cupcake que levara consigo, o último dos que Percy tinha levado. Ele estava impressionado com o que acontecera a seu apetite desde a guerra com Gaia. Hazel até brincara que ele estava quase atingindo o peso certo para sua idade, o que em parte não era tanto uma brincadeira.

Enquanto devorava o doce azul, ele tinha certa vontade de rir porque estava se lembrando da reação de Percy Jackson quando ele confessara seus antigos sentimentos pelo filho de Poseidon. Nico desconfiava que Annabeth tivera uma longa conversa com o namorado depois daquilo. Das vezes seguintes em que os dois se viram naquele verão, Percy parecia já ter entendido muito bem o que Nico quisera dizer e não parecia saber como agir perto do garoto mais novo. Demorou um tempo para que ele conseguisse olhar nos olhos de Nico sem ficar vermelho e para voltar a falar normalmente perto dele.

Nico respirava aliviado ao pensar que tinha superado sua queda por Percy. Agora ele até conseguia vê-lo ao lado de Annabeth e pensar que os dois ficavam bem juntos, decididamente se completavam perfeitamente. No entanto, isso não significava que seu coração o tinha deixado em paz.

Às vezes, Nico ficava se perguntando quanto tempo ia demorar até que Will Solace arranjasse uma namorada. Quando esse dia chegasse, Nico provavelmente não suportaria mais permanecer no Acampamento e teria de retornar a sua antiga vida errante.

— Oi – ele se sobressaltou ao ouvir aquela voz tão perto.

Will Solace, o próprio, também tinha subido ao telhado do chalé de Hades e se aproximava, para sentar-se ao seu lado. O coração de Nico deu uma cambalhota, mas ele tentou disfarçar sua reação.

— O que está fazendo aqui, Will?

— O mesmo que você. Nada.

Depois de se sentar, Will puxou o último pedaço de cupcake da mão de Nico e o comeu.

— Ei!

Como se nada tivesse acontecido, o filho de Apolo, falou depois de engolir:

— E então, como está se sentindo com seus 15 anos de vida?

— Igual ao que eu sentia com os 14.

Will deu uma risadinha.

— Di Angelo, você não existe... E então o que está esperando para me dizer?

— O quê? – Nico de repente se sentiu alarmado. O outro sorriu com a reação dele.

— Que tal “Obrigado, Will. Por descobrir a data do meu aniversário e reunir meus amigos para uma surpresa tão legal”?

— Hum – Nico procurou disfarçar o alívio. – Devo agradecer também pelos presentes?

— Ei, poderia ter sido pior. Eu dei a ideia de comprarmos um daqueles chaveiros de caveirinha que ri e dança. Achei que era a sua cara.

— Haha – disse Nico, sem emoção, depois acrescentou, encolhendo os ombros: — Tudo bem. Obrigado por me lembrar que hoje é meu aniversário. Eu meio que tinha esquecido. Por algum motivo isso me ajudou a ter vontade de sorrir ao lembrar de mamãe e Bianca.

Ele olhou para Will que o olhou de volta parecendo meio emocionado com o que ouvira e o que aconteceu a seguir foi muito rápido. Num instante, Nico estava encarando os olhos de Will, de um azul claro da cor do céu num belo dia de verão, e no instante seguinte, o garoto louro tinha se inclinando na sua direção e encostado os lábios nos de Nico.

Will se afastou muito depressa e passou a olhar para o chão abaixo do telhado, evitando o olhar arregalado do outro.

— P-p-por que fez isso? – balbuciou Nico, assim que conseguiu falar.

—Foi só uma coisa que me deu vontade de fazer. Na verdade, eu venho tendo vontade de fazer isso há algum tempo – ele voltou a olhar para Nico, seu olhar estava muito sério. – Eu ia dar um beijo, tipo... de verdade, mas achei que você ia ficar assustado.

— Eu estou assustado. Isso é normal para você, sair por aí beijando garotos? Ou está só brincando?

— Eu estou com cara de quem está brincando?

Nico encarou Will longamente. O garoto estava corado e parecia meio nervoso, mas sustentou o olhar de Nico e acrescentou com muita dignidade:

— E eu não saio por aí beijando garotos, Nico Di Angelo. Eu queria beijar você, e... eu não quero mais esconder isso. Pensei que talvez, quem sabe, você... sentisse o mesmo.

Ele estava corando cada vez mais. Quanto a Nico, este sentia que todo o sangue do seu corpo tinha ido para o rosto. Estava tremendo e suas mãos suavam, mas ainda assim pensava na possibilidade de estar sonhando. Era difícil, mas às vezes os semideuses tinham sonhos bons. Foi então que sua cabeça conseguiu formar um pensamento sensato: Se estava sonhando, não queria acordar agora, queria ver até onde seu subconsciente iria.

— E você quer mesmo? – ele perguntou a Will, meio cabisbaixo ao seu lado. Pela primeira vez, o louro não parecia muito confiante.

— O quê? – o filho de Apolo se virou para ele.

— Me beijar, tipo... de verdade?

Já era noite, mas o sorriso que Will Solace abriu ao ouvir aquilo pareceu trazer o sol para o sombrio telhado do chalé de Hades. Ele chegou mais para perto de Nico e pôs a mão em cima da mão do filho de Hades apoiada no telhado. Nico sentiu uma fisgada subir por seu braço e se espalhar por todo seu corpo com o toque. Ele reformulou mentalmente sua opinião sobre ser tocado. A última coisa que ele viu antes de fechar os olhos foram os cílios claros de Will muito perto. Será que beijos pareciam tão reais em sonhos?

Notas finais
Quando comecei a escrever essa fic, eu só queria escrever algo leve e meio engraçado com (meu lindo, maravilhoso e gostos... quer dizer, meu querido irmão) Nico ♥, mas acabou que Solangelo se meteu no meio da minha fic rs... e eu gostei dela assim... fazer o quê? Solangelo é vida!Por favooor digam o que acharam!! Gostaram? Odiaram? Nunca tinha escrito nada yaoi, então peguem leve comigo, ok? ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!