Sol da meia-noite: Midnight Sun
85 T-Final- Bella- Vou machucar o coração da mamãe
Ser imortal me roubou a capacidade de chorar, mas não a dor que me habita.
Muitos pensam que nossa espécie não sente. Que somos frios como a pele que carregamos. Mas enganam-se. Nós sentimos — apenas aprendemos a silenciar as ondas para que não nos afoguem.
Hoje, enquanto Clara caminha ao meu lado pela floresta silenciosa, consigo ouvir o som das folhas sob os pés dela. Pequenos estalos que se repetem como o tambor de um coração que eu conheço... o meu.
Ela é tudo que imaginei. Tudo que sonhei. E tudo que temi perder para sempre.
O vento balança os galhos, e à distância, o som sutil das patas de **Seth** me tranquiliza. Ele está ali, fiel, atento. Sei o que ele representa para ela. O mesmo que Jacob representa para Renesmee. O elo que não se desfaz.
— É bonito aqui — disse Clara, olhando para cima, os olhos dourados captando cada feixe de luz entre as copas.
Eu a observo de soslaio. Os traços dela são suaves, mas a força... essa força silenciosa... veio toda da mãe que a criou.
— Eu costumava vir aqui quando era humana — confesso. — Antes de tudo mudar.
Ela sorri. Um sorriso tímido, mas verdadeiro.
— E mudou para melhor?
Respiro fundo. Mesmo sem precisar, me permito esse resquício da minha humanidade.
— Mudou porque você veio ao mundo. Mesmo que tenha custado tudo.
Ela se senta sobre uma pedra coberta de musgo e me olha com um ar curioso.
— Você pode me contar? A história real?
Eu me sento ao lado dela.
— Noite da minha lua de mel — começo, sentindo a lembrança me consumir como brasas adormecidas. — Eu ainda era humana. Edward e eu estávamos em uma pequena ilha. E então... Clara aconteceu. Foi um milagre. Impossível. Mas real.
Ela não diz nada, apenas escuta.
— A gestação foi rápida e brutal. Me consumiu. Carlisle e Esme tentaram conter os danos. Mas eu sabia... eu sentia... que ela precisava viver, nem que eu morresse.
Olho para Clara, e mesmo sem lágrimas, meus olhos doem.
— Quando você nasceu, eu não tive forças. Edward me transformou para que eu não morresse... mas o preço foi deixar você. Eles disseram que era perigoso. Que o mundo veria você como uma ameaça. Que os Volturi...
Clara abaixa os olhos. Vejo a dúvida nela, o vazio de quem cresceu com perguntas que ninguém respondeu.
— A pandemia foi a desculpa perfeita — continuo. — Carlisle anunciou minha “morte” para protegê-la, para que ninguém a procurasse. Renesmee... ela acreditou. Ela te criou. E, mesmo longe, mesmo no exílio, eu acompanhei de longe. Ouvi cada suspiro seu. Vi seus primeiros passos. Edward lia os pensamentos de quem via você. Cada cena era uma tortura e uma dádiva
Ela se aproxima, as mãos entrelaçadas sobre o colo.
— Por que não voltou?
Fecho os olhos
— Porque amava você demais para arriscar. Se soubessem o que você era, o que carrega no sangue... Clara, você é um milagre. Um sol que não deveria existir. E milagres... assustam. Mesmo os imortais.
Ela se move devagar e encosta a cabeça no meu ombro. Meu coração morto bate só por ela.
— Eu queria ter crescido com você — sussurra. — Mas também sei que, se tivesse, talvez não tivesse Seth. Talvez não fosse quem eu sou.
Pouso a mão em seus cabelos e acaricio com calma.
— E você é perfeita. Do seu jeitinho. E eu estou aqui agora. Nunca mais vou embora, se você não quiser.
Ficamos em silêncio por um tempo. O som dos pássaros, das folhas. O farfalhar suave do mundo à nossa volta.
— Mamãe... — ela murmura, quase num sussurro.
Meu peito explode em pedaços invisíveis.
— Sim, meu amor?
— Eu queria te chamar assim desde que ouvi sua voz pela primeira vez.
Fecho os olhos. E mesmo sem lágrimas... eu choro por dentro.
Ali, com Seth à distância como um guardião silencioso, e Clara encostada no meu peito... eu me permiti sentir. Amar. Viver.
Depois do momento com Clara, Edward se aproximou. Ainda havia hesitação em seus passos, mesmo para alguém que podia mover-se como o vento. Eu sabia o quanto aquilo significava para ele. O quanto ele havia sofrido com o afastamento, silencioso em sua dor, como sempre foi.
Clara levantou o olhar quando ele parou diante de nós. Ela o encarou sem medo, mas com a curiosidade de quem quer descobrir se o laço de sangue também é capaz de despertar afeto.
— Oi — ela disse, simplesmente.
Edward sorriu. Um sorriso real, contido, mas carregado de uma ternura que só Clara podia despertar.
— Oi, Clara. Você... é ainda mais incrível do que eu imaginava.
Ela sorriu, desconcertada.
— Você é meu pai — disse, como se ainda testasse o som daquelas palavras em sua boca.
Edward abaixou a cabeça e assentiu com um brilho dourado nos olhos.
— Sou. E sempre fui. Mesmo de longe... mesmo quando não pude estar com você.
— E por que não podia? — Ela perguntou, direta, como sempre.
Ele suspirou, e eu sabia que ele preferia a verdade nua e crua.
— Porque o mundo tem medo do que não entende. E você é algo que o mundo ainda não entende. Nós tentamos te proteger da única forma que sabíamos. Não foi certo com Renesmee. Nem com você. Mas era a única escolha que tínhamos.
Ela assentiu, o rosto ainda expressando dúvida, mas sem julgamento.
— Renesmee me deu tudo. Mas estou feliz por poder te conhecer agora. Mesmo que tarde.
Edward sorriu e se ajoelhou à frente dela, mantendo o tom suave.
— Nunca é tarde demais quando o amor é real.
Antes que mais palavras fossem ditas, um trovão de passos se aproximou. Emmett, animado, irrompeu pela clareira.
— Muito bem, chegou a hora de mostrar para a nossa menina como se caça à moda antiga!
— Caçar o quê exatamente? — Clara perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— Cervo! Alce! Talvez um urso, se você tiver coragem — ele respondeu com um sorriso largo.
Clara se virou para mim, e seus olhos brilharam.
— Posso?
Assenti, mesmo sentindo o coração que eu não tinha apertar no peito.
— Só fique perto de Emmett. E de Seth.
— Sim, senhora — ela respondeu rindo.
Os vampiros se agruparam, rindo, preparando a pequena expedição. Clara correu ao lado de Emmett e Seth. Rosalie ajeitou o cachecol da menina com delicadeza. Alice comentou sobre a forma como Clara se movimentava — "leve como uma folha ao vento, mas com a graça de uma pantera".
Mas então, tudo congelou.
Um cheiro diferente cortou o ar, vindo do norte. Todos pararam. O vento trouxe consigo um aroma conhecido... e perigoso.
Irina.
Ela surgiu por entre as árvores, os olhos arregalados, a expressão tomada pelo pavor.
— O que é isso...? — Ela sussurrou, olhando fixamente para Clara.
Edward se virou imediatamente, colocando-se à frente da menina. Rosalie e Esme fizeram o mesmo. Emmett franziu o cenho.
— Irina — Carlisle começou, com a voz calma —, não é o que parece.
Mas era tarde demais.
— Vocês... criaram uma criança imortal? Isso é uma violação imperdoável! — ela gritou, recuando.
Clara deu um passo para trás, assustada.
— Eu não sou... — ela tentou dizer, mas Irina já havia desaparecido na floresta com velocidade ofuscante.
Edward virou-se para todos, o rosto sombrio.
— Ela vai aos Volturi.
Um silêncio mortal se fez entre todos.
— Não temos muito tempo — ele disse, os olhos encontrando os meus. — Precisamos nos preparar.
Eu segurei a mão de Clara. Mesmo diante do caos, ela se manteve firme, o coração batendo com força contra o peito. Era minha filha. Nossa filha. E agora, o mundo viria atrás dela.
Mas eu não deixaria ninguém a tirar de mim. Não de novo.
O clima dentro da mansão estava carregado. O aroma fresco da floresta já não trazia paz. Ao redor da grande sala, os Cullen estavam reunidos em um semicírculo, os olhos dourados fixos uns nos outros, tentando processar a ameaça que surgira com a fuga de Irina.
Edward andava de um lado ao outro, inquieto.
— Envolver os lobos nesse momento só vai complicar as coisas — disse Jasper, de braços cruzados. — Os Volturi já nos veem como uma ameaça. A presença dos Quileute... será interpretada como provocação.
— Mas Renesmee também é a mãe dela! — protestou Esme com doçura. — Não podemos simplesmente deixá-la de fora.
— Os Volturi não irão aceitar qualquer explicação à distância — disse Edward, a mandíbula tensa. — Eles vão querer ver Clara com os próprios olhos. Aro não permitirá apenas palavras. Ele deseja verdade. E vai querer tocá-la.
Recuei um passo.
— Isso jamais vai acontecer. Nem Jacob, nem Renesmee permitirão. Eles vão lutar antes de deixar que Clara seja levada para aquele lugar.
Alice, em silêncio até então, franziu o cenho. Seus olhos ficaram vidrados, e o ambiente se calou.
— Eles já sabem — murmurou ela. — Aro está nos esperando. Está calmo, curioso... mas não hesita. Se não formos, ele virá.
Carlisle falou com a serenidade de sempre, mas havia preocupação em sua voz.
— Se Renesmee for, estará em perigo. Ela é humana. Não sabemos como os Volturi irão lidar com ela. Irina pode ter dito mais do que vimos. Pode ter mentido.
— Ela não é só humana. E está protegida por uma matilha inteira. Ela é muito mais do que humana.
Nesse instante, uma voz vinda da escada interrompeu a discussão.
— E eu não vou deixar que machuquem minha mãe.
Clara descia os degraus com passos firmes. Usava uma blusa preta simples e cabelos soltos, mas seu olhar decidido carregava uma maturidade além da idade.
— Eu vou com vocês. Vou mostrar que não sou um monstro. Vou olhar nos olhos de Aro, e ele verá que sou real, que sou filha de amor — disse ela, parando diante de todos.
— Renesmee jamais permitirá. Ela vai surtar, Clara.
Clara respirou fundo. Olhou diretamente nos meus olhos de vampira e respondeu com doçura:
— Eu sei como fazer ela permitir.
O silêncio caiu como uma cortina. Todos a observaram, surpresos com a calma e força da menina.
— Eu não quero mentiras. Não quero guerras. Só quero proteger minha família. E se isso significa enfrentar os Volturi, então é isso que farei.
Edward a olhou com admiração e pesar.
— Você... tem certeza disso, filha?
Carlisle assentiu.
— Então precisamos começar a nos preparar. Mas isso... isso muda tudo.
Bella olhou para Clara e sussurrou:
— O que pretende fazer, meu amor?
Clara sorriu.
— Vou machucar o coração da mamãe...
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