Sol da Manhã

2 Quinteto de pseudo-loucos


Notas iniciais
Oi! Então... Quem narra este capítulo é o Daniel, só isso mesmo. Boa leitura!

As pessoas costumam ficar nervosas quando mudam de colégio, ficam pensando no que vão pensar sobre eles, se vão fazer amigos, se vão tirar boas notas e essas besteiras. Não é meu caso, só quero que me deixem em paz. Já tive experiências demais em muitas escolas e são todas iguais, todas as escolas e todas as pessoas, todas iguais.

Eu tenho o costume de esperar o pior, assim evito me decepcionar quando perco as expectativas, então imaginei que nesse colégio aconteceria o mesmo que no último, bullying. Na época do fundamental me zoavam por eu ser uma criança gorda, os apelidos eram bem infantis, “baleia”, ou só “gordo” mesmo. Eu acabei tendo problemas alimentares e emagrecendo, depois mudei de colégio, e me zoaram por ser magro demais — me chamavam de “saco de ossos”, até acho que ficou mais sofisticado — mas dessa vez me batiam também, provavelmente acharam que por ser magro não conseguiria me defender, e infelizmente estavam certos. Mudei de escola de novo, não mudou muita coisa, não me bateram, mas ainda me zoavam. Me criticavam por ser magro e por ser “esquisito”, eu não sabia bem porque era tão estranho mas acho que era porque não tinha amigos então... Talvez eles só precisassem de alguém pra perseguir. Tive uns problemas com alguns caras e eles me espancaram, troquei de colégio mais uma vez, e agora estou aqui.

É por isso que não quero chamar atenção — na verdade é a última coisa que quero que aconteça — mas acho que não dá pra evitar alguns olhares curiosos quando você é o novato. Eu ia preferir que me ignorassem, e no geral estavam me ignorando. Ou eu pensava que estavam, porque um grupo de alunos veio falar comigo no intervalo.

—Oi! Você é novo no colégio, certo?- Uma menina de pele e cabelos negros me perguntou.

Você ainda pergunta se sou novo?

—É... Oi.

—E aí? Qual o seu nome?- Disse o loiro que estava do lado dela.

Pra que querem saber? Vão esquecer depois.

—Daniel.

—É um prazer te conhecer. Meu nome é Anna, esse é Allan. E esses três são Nathan, Karol e Dayanne.- Ela disse apontando pra cada um.

Bom, talvez ela não esqueça meu nome.

—Só Day mesmo.- Uma loirinha falou. Como se fizesse diferença...

Acabei passando o intervalo inteiro com esses cinco, não estava prestando muita atenção neles, mas até que eles são engraçados.

Eu estava esperando o pior desse dia, mas não foi tão horrível, o que mostra que minha técnica funciona. Quando voltei pra casa minha mãe estava me esperando para o almoço. Atualmente moramos só eu e minha mãe, meu pai não mora com a gente, eu não cheguei a conhecer ele, e nem quero. Minha mãe me contou que quando ela engravidou de mim ele não aguentou a responsabilidade de ser pai tão cedo e ela teve que me criar sozinha. Eu odeio meu pai por ter deixado minha mãe sozinha naquele estado, e por culpa dele ela fica se embebedando e saindo com caras que não a merecem, se não fosse por ele, tudo seria melhor.

Aline, também conhecida como minha mãe, tinha cozinhado. Eu realmente não estava com fome, mas eu nunca estou com fome. Eu costumava tentar comer pelo menos metade do prato para evitar que minha mãe se preocupasse. Depois que meu corpo se recuperou da anorexia — que eu tive depois de um bom tempo sendo chamado de “baleia” -, ela faz questão que eu tenha todas as refeições diárias, e eu ainda me esforço para fazer isso, nunca tenho apetite. Mesmo assim, eu e minha mãe sentamos para comer.

—Como foi o dia? Gostou da escola nova?

—É normal. Não teve nada demais.

—Alguém fez algo com você?- Ela parecia preocupada.

—Não, não precisa se preocupar. Até conheci umas pessoas.

—Ah conheceu? E como eles são?

—É... São divertidos...- Na verdade não sei bem se essa era a melhor palavra para definir, eles são meio estranhos, mas não exatamente ruins, ah sei lá, são só umas pessoas.

—Que bom que você fez amizades.

—Não diria que somos amigos, mas tudo bem.

—Amizade vem com o tempo. Conheça eles, filho, vai ser bom para você.

Talvez ela estivesse certa.

—Tá, vou tentar.

...

No outro dia eu fui para aula de novo. Chegando lá, o loiro e a loira — Allan e Dayanne se me lembro bem — que falaram comigo ontem já tinham chegado, eu não vi os outros.

—Ei, Daniel!- Allan me chamou, ele estava sentado junto com Day numa mesa do pátio.- Senta aqui!

Eu me sentei, a aula ainda ia demorar um pouco para começar então, por que não?

—Oi.- Cumprimentei, não sabia exatamente o que dizer.

—Olá, você não conheceu a escola toda ainda né? Quer que a gente te mostre?-Perguntou Day.

—Ah é, boa ideia!- Allan concordou.

—É, pode ser!

—Então vamos! A gente começa pela parte de dentro, já que o pátio você já conhece.- Disse a loirinha.

Eles levantaram e foram em direção às portas do colégio, eu os segui pelo corredor.

—Essa sala é o laboratório de química, a outra ali é a sala de psicologia e pedagogia.- Dayanne explicou.

—Até hoje não entendo pra que essa sala serve.- Disse Allan. Eu ri, para ser sincero eu concordava com ele.

—Nem eu.

—Eu também não tenho certeza, mas deve servir pra alguma coisa. Vamos pular o refeitório já que você também já conhece, certo? Daniel?-Disse Day.

—É, pode pular.

—Então vamos direto para a quadra.

Chegando a tal quadra, uns caras sentados na arquibancada chamaram por Allan.

—Ei Allan! Lucas pediu para você se encontrar com ele lembra? Sobre o treino de futebol?

—Ah é, eu esqueci!

—Isso não é novidade.- Brincou Day, ou talvez ela estivesse falando sério.

—Olha, eu já volto, vou procurar o Lucas.

Dayanne abriu a boca para falar alguma coisa — Ela parecia um pouco envergonhada -, mas Allan já tinha saído correndo, um pouco desesperado e tropeçando.

—Ele não é muito... Discreto.- Comentei.

Day riu, o sorriso dela -que inclusive era muito bonito — me fez sorrir de volta.

—Bom, a gente continua sem ele, só falta te mostrar a biblioteca.

-Então tá.

Fomos caminhando pelos corredores.

—Você não fala muito, é seu jeito mesmo ou tem algo de errado? — Dayanne perguntou, fiquei um pouco surpreso.

—Eu acho que só não tenho muita coisa pra falar, mas com o tempo melhora.

—Hum, bom, fala de você então.

—Tipo o que?

—Tipo... Qual sua cor favorita?

—É... Preto.

—Você tem irmãos?

—Não, Nenhum.

—O que está achando daqui?

—Do colégio?

—Sim.

—Nada de diferente, eu acho.

—E o que te fez vir para cá?

Tava demorando pra perguntarem.

—Só uns problemas com uns caras da escola onde eu estudava. Mas eu já estou acostumado com isso.

—Acostumado com os problemas?

—Não- Eu respondi rindo. — Aliás, com os problemas também. Mas estava me referindo à mudança de colégio.

—Ah, entendi. Espera, — Ela parou de andar em frente a uma porta. — A biblioteca é aqui.

Nós entramos na sala. Era relativamente grande, tinha várias estantes e algumas mesas. Em uma das mesas eu reconheci o rosto de uma menina que estava lendo um livro sobre geometria, provavelmente estava estudando.

—Aquela não é sua amiga? Anna?- Perguntei apontando para a mesa onde vi a menina.

—É! Não tinha visto ela chegar.

Ela foi em direção a Anna, e eu a segui.

—Ah, você está aí. Te procurei pela escola toda, onde você... Ou melhor, vocês estavam?- Perguntou Anna.

—Eu estava mostrando o colégio pro Daniel, Allan também estava com a gente, mas foi falar com o Lucas e não vi mais ele.

O sinal tocou, as aulas iam começar.

—Vamos?- Disse Anna, se levantado da cadeira.

...

Depois da aula eu fui direto para casa. Estava com uma dor de cabeça insistente e queria dormir. Quando entrei em casa, minha mãe estava procurando a carteira e as chaves do carro, e prendendo os cabelos castanhos num rabo de cavalo, percebi que ela estava de saída.

—Mãe, aonde você vai?

—Vou ao supermercado comprar algumas coisas, quer algo?

—Não. Vai demorar?

—Acho que não. Ah, não esqueça que amanhã é sua consulta.

—Que consulta?

—Você já esqueceu. A consulta no psicólogo, Daniel. A gente combinou de continuar fazendo, é importante.

—É, eu sei.

—Estou indo, até mais tarde. — Ela saiu tentando evitar que a sua bolsa batesse nas laterais da porta.

—Até.

Eu realmente tinha esquecido completamente disso. Eu faço essas consultas desde o fundamental, não tenho certeza se ajuda em algo, mas faço. Tinha parado um pouco com elas nas férias, mas mamãe insistiu para continuar, porque como ela mesma disse, é importante.

Depois de tomar banho eu me deitei na cama e coloquei meus fones de ouvido, estava tocando uma música do Nirvana. Fiquei pensando no quinteto de pseudo-loucos que veio falar comigo no primeiro dia de aula, aquilo era novidade para mim. Por que será que eles se interessaram em mim? Não sou do tipo que chama atenção, nem consigo ser legal com eles, fico sem saber o que falar, fico sem saber o que fazer, na verdade nunca sei o que fazer... Isso faz de mim inútil?

Talvez eu devesse me enturmar, fazer amizade com eles como minha mãe tinha aconselhado. Eles parecem não se importar com o que os outros pensam sobre eles, admiro isso. Aliás, todos eles se divertem, todos são alegres, enfrentam os problemas... Eu mal os conheço e já estou tentando decifrar como eles são. Qual meu problema?

Peguei no sono pensando nisso, nos cinco e em mim. Eu continuo confuso, mas agora tenho vontade de me aproximar deles.

Notas finais
Me diz o que achou, se gostou, se não gostou, o que pode melhorar... Obrigada por ler e até o próximo capítulo :)