Sol da Manhã
9 Eu junto seus pedaços
Notas iniciais
—Bom dia! — Disse Millena.
Eu abri os olhos e ela estava na borda da cama em pé olhando para mim, esperando que eu respondesse.
—Bom dia, Milly.
—Já está na hora, se você não levantar vai se atrasar!
Eu olhei a hora no celular, e Millena estava certa. Então levantei e fui me arrumar para ir ao colégio. Depois de tomar banho vesti uma calça jeans e uma camiseta colorida sem escolher muito. Terminei de tomar café ao mesmo tempo que Milly, e minha mãe me pediu que a levasse para escola — já que era caminho para o meu colégio — antes de ir para aula, e foi isso que fiz.
Quando cheguei à escola Daniel e Nathan estavam andando pelos corredores.
—Olá! O resto do pessoal não chegou ainda? — Perguntei.
—Não, Karol disse que ia se atrasar, mas Allan e Anna devem estar chegando. — Respondeu Nathan.
—Então tá! E aí, vocês estavam falando sobre o que?
—Sobre o trabalho de Emilly. — Disse Daniel.
—O de biologia? Por quê?
—Porque provavelmente Rebeca teve que fazer tudo, eu já fiz trabalho com Emilly e Matheus e eles não fazem nada, os amiguinhos deles só imitam, então... Como rebeca é a mais inteligente, provavelmente ela fez todo o trabalho escrito e a parte deles também, depois só disse a eles o que apresentar. — Nathan falou.
—E por que vocês estavam falando disso? — Não que eles não devessem, mas fiquei curiosa e questionei.
—Ah sei lá, o assunto surgiu. — Nathan me respondeu.
—Isso é meio injusto. — Daniel disse.
—É, mas se ela quis fazer o trabalho todo não podemos fazer muita coisa. Além do mais, o professor vai dar notas individuais então... Provavelmente eles não vão se sair bem na nota de apresentação. — Respondi.
—Cheguei! — Anna gritou e se jogou em cima de mim, como eu estava de costas não a vi chegar.
—Meu Deus, menina. Que susto! — Falei.
—Foi mal. — Ela disse rindo.
Logo Allan chegou e o sinal tocou. Karol só chegou depois como Nathan disse. O dia estava sendo bem normal, nada de diferente.
...
Depois de umas conversas e aulas o sinal tocou novamente e era hora de ir embora.
—Vão indo que eu vou ao banheiro. — Disse Anna.
—Eu vou contigo, pra dar uma olhada na maquiagem. — Disse Karol.
—Então vou com vocês. — Falei.
—A gente espera vocês no pátio. — Nathan disse, se referindo a ele e a Allan. Daniel deveria estar incluso, mas eu não o vi, ele deve ter saído enquanto arrumávamos nossas coisas.
—Beleza. — Anna respondeu.
E nós fomos ao banheiro. Anna entrou em uma das cabines. Karol não retocou a maquiagem, só deu uma ajeitada no cabelo. E eu só me encostei no balcão da pia esperando as duas.
—Acho que vou platinar o cabelo. — Anna falou de dentro da cabine um minuto depois de entrar.
—Assim de repente? — Perguntou Karol.
—É, mais ou menos. Não sei direito, deu vontade. — Ela saiu da cabine e foi em direção à pia para lavar as mãos. -Vi umas fotos na internet de uns cachos afros platinados, ai fui pesquisando... O que é que vocês acham?
—Eu acho seu cabelo lindo, e acho que ficaria bom de qualquer jeito. — Falei.
—É bem sua cara, eu deveria ter imaginado isso antes. Não necessariamente platinado, mas você é bem dessas que gosta de um diferencial. Pinta que combina contigo. — Karol opinou.
—Fora que se você realmente quiser nem adianta a gente dizer que não gostou da ideia, você faria assim mesmo. — Comentei.
—É verdade. -Anna concordou rindo. -Bom, vou pesquisar, se eu decidir fazer vou procurar um bom cabeleireiro.
Saímos do banheiro e íamos encontrar os rapazes, mas num canto próximo de onde eu e as meninas estávamos eu vi Matheus empurrar alguém no chão e o amigos dele começarem a chutar e bater nele.
—Aquilo não é o Matheus? — Perguntei às meninas, Anna foi a primeira a concordar e ir em direção a ele. Ela não é do tipo que vê algo assim e não faz nada. Eu fui atrás dela e Karol também veio.
Chegando mais perto eu vi Emilly sem reação e Rebecca tentando acalmar a briga, sem sucesso obviamente, quando percebeu que não adiantava insistir ela recuou um pouco. Anna estava andando com passos fortes, ela definitivamente estava com muita raiva. Finalmente pude ver quem estava no... Meu Deus... Era o Daniel! Por que estavam fazendo aquilo com ele?
—Isso é sério, Matheus? Qual seu problema? O que o menino te fez? — Anna mal chegou e já estava falando alto e empurrando os amigos de Matheus, que ainda estavam chutando Daniel. Eu corri na direção dele, depois que Anna afastou os outros meninos eu poderia ajuda-lo, então foi o que tentei fazer.
—Esse bosta estava de gracinha com a Emilly! Todo mundo sabe que a gente namora! — Ele respondeu.
—Eu não estava “de gracinha” com ninguém, idiota... — Daniel disse ainda no chão se contorcendo um pouco.
—Me chamou do que?! — Exclamou Matheus.
Enquanto Anna discutia com Matheus, Rebecca tinha saído correndo, Emilly ainda estava assustada, mas estava quase se estapeando com Karol. Eu estava agachada segurando a mão de Daniel apenas vendo aquele caos, aliás, eu não tinha ideia do que fazer.
—Tá, já chega. Não podemos fazer mais nada. Vem, Karol, não se rebaixe ao nível deles. — Anna falou.
Eu ajudei Daniel a se levantar e eu e Anna o levamos até a diretoria. Karol foi avisar a Nathan e Allan o que tinha acontecido. Estávamos na sala da diretora, sentados nas cadeiras de frente para a mesa da Sra. Maciel. Foi tudo tão rápido, saí do banheiro e lá estava Daniel no chão, apanhando. Depois Anna começou a discutir e logo saímos de lá. Não assimilei tudo direito ainda, só poderíamos entender a história agora.
Eu estava entre Anna e Daniel, não tinha percebido, mas ainda estava segurando a mão dele, pelo menos ele não pareceu se incomodar. Na verdade, ele parecia distante, decepcionado, aquilo estava me deprimindo.
—Então Emilly veio falar com você e ele te agrediu do nada? — Perguntou a nossa diretora, Sra. Maciel.
—É. Eu nem ouvi direito o que a Emilly tinha perguntado, mas ele chegou já irritado e começou a me empurrar... Depois ele me derrubou e os amigos dele fizeram o resto. — Daniel respondeu.
—Eu falarei com Matheus e os responsáveis dele, assim como com todos os envolvidos. Mas agora vou ligar para os seus responsáveis para resolvermos isso. Quem responde por você?
—Minha mãe.
Aline estava trabalhando, então Daniel pediu que a diretora deixasse ele mesmo falar o que aconteceu para ela, e se precisasse da presença de um parente para algo no colégio ela se disponibilizaria, a diretora concordou. Saímos da sala dela e Daniel recebeu atenção de todos nós, mas já estava ficando tarde então eles precisaram ir. Eu acompanhei Daniel pelo caminho de casa.
—Se eu fiquei em estado de choque eu nem imagino como você ficou. — Comentei.
—Ainda estou em choque.
—É compreensível. Eles não tinham motivos para atacar você, são só uns idiotas. Não fica pensando nisso.
—... Posso te pedir uma coisa?
—Mas é óbvio, fala.
—Fica mais um pouco.
—Como assim?
—Eu não quero ficar sozinho em casa, minha mãe não chegou ainda. Eu sei que não seria uma boa ideia e seus pais não gostariam que ficássemos lá em casa sozinhos então me acompanha até a praça, ou qualquer lugar, mas fica mais um pouco.
A expressão dele era de partir o coração, ele precisava de companhia, eu sou amiga dele não vou negar minha presença quando ele mais precisa.
—Tudo bem.
Fomos para uma praça ali perto, não era muito longe. Sentamos lado a lado no banco branco de ferro de frente para uma pequena lagoa. Assim que sentou Daniel escondeu o rosto nas mãos.
—Eu achei... Que ia ser diferente dessa vez, até agora estava tudo tão bem. Eu não queria ter feito nada disso, talvez seja culpa minha, eu sou muito burro...
—Não, Daniel. Não se culpe pelas atitudes de um idiota. Você não fez nada, entendeu? Nada! Ele que te atacou. E não se preocupe, vai passar, e ele vai ser suspenso. Amanhã vamos estar nos divertindo de novo.
Ele estava frustrado. Começou a chorar. Eu não aguentava ver ele assim, é difícil vê-lo alegre de verdade, e quando parece que está tudo normal isso acontece. Ele não merecia isso. Logo me dei conta de que eu estava abraçando Daniel.
—Eu não sei porquê estou chorando. — Ele disse.
—Você acabou de ser chutado por um bando de seres incapazes de pensar, é direito seu chorar. Não tem nada de errado em desabafar, Daniel.
Depois de mais um instante de choro ele parou de me abraçar e secou as lágrimas.
—Melhorou? — Perguntei. Ele assentiu com a cabeça. — Não chora mais, senão eu não me aguento. E você fica mais bonito quando sorri.
Ele riu.
—Viu?... Acha que pode ir para casa agora? — Eu disse.
—Acho que sim.
Eu perguntei se ele queria que eu o acompanhasse até em casa, mas ele negou. Então só fomos juntos até a minha, depois ele ia seguir sozinho.
—Bom, até amanhã, Daniel. Fique bem.
—Day.
—Fala.
—Obrigado.
—Pelo que?
—Eu tava meio quebrado, obrigado por me ajudar, e por me fazer companhia e tudo mais, não queria te atrapalhar nem tomar seu tempo.
Eu sorri.
—Não se preocupe, amizade é pra isso mesmo, quando você estiver quebrado eu junto seus pedaços. Até amanhã.
—Até. — Ele sorriu antes de ir. Pelo menos pude fazer alguma coisa.
Finalmente entrando em casa, vovó e Milly estavam na sala. Meus pais ainda estavam no trabalho.
—Day! Você demorou. — Disse Milly.
—É que aconteceram umas coisas hoje. — Respondi.
Aquele foi o assunto da noite, contei primeiro a Milly e vovó Teresa, e quando meus pais chegaram contei a eles também. Eu os poupei dos detalhes na praça, e fiz um resumo bem enxuto, eles não precisavam saber de tudo. Eu só esperava que amanhã ficasse tudo bem.
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