Sol da Manhã
3 Trabalho de biologia
Notas iniciais
Depois de umas duas semanas convivendo com Daniel, fiquei surpresa com a forma que ele tem de pensar. Às vezes ele parece tão pessimista, às vezes tão confuso. Ele me dá pena em alguns casos, mas gosto de vê-lo sorrindo, distraído com as palhaçadas de Allan, eu tenho a sensação de que essas bobagens o divertem. Isso me deixa feliz, saber que nós o animamos, ele não parecia muito alegre quando chegou nessa escola.
—Dayanne!
—O que?
—Você tava viajando hein, te chamei três vezes e você continuou ai olhando para o nada.- Disse Karol, enquanto mexia nos cabelos.
Estávamos no banheiro do colégio, Karol retocando a maquiagem e eu esperando por ela, Anna e os meninos estavam no refeitório já que era hora do intervalo. Karol tinha longos cabelos ruivos ondulados e olhos claros esverdeados, o rosto dela era bem definido e delicado, ela era um pouco mais alta que eu e também tinha um corpo com mais curvas, enfim, ela era linda. Enquanto eu esperava Karol passar o rímel, fiz um rabo de cavalo no meu cabelo, que era loiro e ia até uma pouco abaixo dos ombros, sempre dizem que o herdei da minha mãe — e era verdade -, o cabelo da minha mãe era igual ao meu, e o corpo também, nós duas somos pequenas e magrinhas. Já os olhos, eu puxei do meu pai, eram quase da mesma cor que os de Karol.
—No que você estava pensando pra ficar tão concentrada? — Perguntou-me Karol.
—Nada não.
—Ah nem tenta disfarçar, eu vi você dando um sorrisinho aí.
Sorrisinho?
—Eu estava sorrindo?
—Sim, quero saber o motivo né, fala! Estava pensando no que?
—É que, lembra quando o Daniel chegou?
—Não sou tão esquecida quanto o Allan. Faz pouco tempo, claro que lembro. Você está gostando dele?
—Hã? Não. De onde você tirou isso?
—Ah sei lá, você tava aí pensando nele toda felizinha e distraída, deduzi.
—Não, nem conheço tanto ele assim. Não era nisso que eu estava pensando.
—E era o que?
—Não sei se foi impressão minha, mas quando o Daniel chegou ele parecia tão pra baixo, e quieto.
—É, eu também achei.
—Eu tenho achado ele mais animado, você acha que foi por nossa causa?
—Se eu fosse uma pessoa um pouco mais sensata, tipo a Anna, diria que ele era só tímido e que fomos pegando intimidade aos poucos.
—Mas você não é uma pessoa sensata, certo?
—Exato, então... Provavelmente foi a gente mesmo. Olha para nós! Não dá para ficar triste perto da gente.
Eu ri, é uma boa forma de pensar, mesmo que seja mais improvável que a versão sensata que Karol citou.
—Tá bom, vamos logo sair desse banheiro, já demoramos muito. -Eu disse.
Voltamos para o refeitório, era relativamente grande, o piso era de porcelanato bege, tinha uma cantina e várias mesas de madeira escura, estava cheio de alunos obviamente. Vimos Anna e os meninos em uma das mesas e fomos em direção a eles.
—O que vocês estavam fazendo naquele banheiro? Que demora!- Reclamou Anna.
—Retocando o rímel, falando de vocês, essas coisas óbvias.- Karol respondeu. Uma resposta bem a cara dela.
—E vocês? Estavam falando sobre o que?- Perguntei ao mesmo tempo em que eu e Karol sentamos.
—Sobre o motivo de as meninas sempre irem acompanhadas ao banheiro, e outras coisas estranhas que vocês fazem.- Foi a vez de Nathan responder.
—Na verdade nem eu entendo o motivo de vocês fazerem isso, eu posso ir ao banheiro sozinha.- Disse Anna.
—Eu também não sei porque faço isso, mas faço. E não é como se os meninos também não fizessem coisas estranhas.- Bom, Karol estava certa nesse caso.
—Todo mundo faz coisas estranhas.- Disse Daniel.
—Também penso assim, não dá pra ser completamente normal— Concordei.
—E mesmo que fosse possível, que graça teria?
—Exato.- Como eu disse, a forma como Daniel pensava me surpreendia, inclusive por ser parecida com a minha, e ser totalmente diferente ao mesmo tempo. Esse menino é mais interessante do que pensei.
O sinal tocou, como sempre. Era aula de biologia mais uma vez. Eu estudava naquela escola há muito tempo, e me habituei com as salas de aula espaçosas e claras — na verdade até gostava -, as paredes eram todas brancas e o quadro e o piso de azulejo também, somente as carteiras eram pretas.
—Bom dia! Tenho uma notícia para vocês pessoal. Trabalho em grupo!- Anunciou o jovem professor Martins. Alguns alunos comemoraram, outros reclamaram.
—Mas logo no começo do ano professor? — Reclamou Matheus, se não me engano ele era namorado de Emilly.
—Já passou tempo suficiente do começo do ano, e nós não podemos perder tempo. O trabalho pode ser feito em grupos de quatro a oito pessoas, e vai valer um terço da média do semestre. Formem os grupos e vou sortear os temas agora.
Quando o professor terminou de falar, todos os alunos da sala começaram a falar ao mesmo tempo, decidindo como seriam os grupos de cada um.
—Vamos nós seis. Beleza?- Perguntou Nathan.
—Por mim tudo bem.- Respondi.
—Obviamente eu concordo também. — Disse Allan
—É, eu também.- Daniel também concordou, e era óbvio que Karol e Anna também participariam do grupo.
—Todo mundo concorda né? Vamos falar com o professor para entregar nossos nomes.- Disse Anna.
Depois que todos os grupos estavam formados e todos os nomes foram entregues ao nosso professor, ele sorteou os temas. Fiquei animada com esse trabalho, era uma oportunidade de nos aproximarmos mais, de conhecer melhor o Daniel, além do mais, qualquer coisa com os amigos ficava divertida.
Quando a aula acabou, todos estavam se organizando para ir embora, inclusive eu.
—Pessoal, precisamos fazer esse trabalho na casa de alguém, e é melhor decidir logo já que só temos uma semana.-Disse Anna, e ela estava certa.-Na minha casa não dá, eu tenho três irmãos mais novos e um mais velho, mas o problema são os pequenos que não ficam quietos. Alguém pode?
—Eu moro em apartamento e é muito pequeno, até posso ver com meus pais, mas acho que não seria muito confortável para a gente.- Avisou Karol.
—Pode ser lá em casa mesmo gente, minha irmãzinha não vai atrapalhar, e acho que meus pais não vão se importar, eles já conhecem a maioria de vocês mesmo.- Eu disse. Eu ainda ia precisar confirmar com meus pais, mas a casa era grande o suficiente para não atrapalharmos ninguém. Podíamos fazer o trabalho no andar de cima.
—Então já está tudo certo, a gente vai lá nesse fim de semana Day?- Perguntou Nathan.
—Sim, pode ser, se todos estiverem livres. Depois eu te passo o endereço, Daniel.- Ele era o único que não sabia onde eu morava então...
—Tá, por mim pode ser.
...
Assim que cheguei em casa guardei minhas coisas e procurei meus pais para falar sobre o trabalho. Mamãe estava no banho, mas meu pai, David, estava no horário de almoço dele, na sala de estar. Então fui falar primeiro com ele, depois falava com minha mãe. Provavelmente meu pai tinha acabado de comer, pois tinha um prato sujo no braço do sofá. A família toda tem mania de comer na sala, vez ou outra jantávamos todos juntos na mesa.
—Como foi o dia hoje?- Perguntou David, notando que me aproximei.
—Foi legal. Nosso professor de biologia passou um trabalho, para semana que vem.
—Em grupo?
—Sim, podemos fazer aqui em casa? Eu imaginei que não tivesse problema.
—Eu acho que tudo bem, confirme com sua mãe depois, mas acho que ela vai concordar também. É até bom, sua avó vai se distrair um pouco.
—Não tinha pensado nisso, cadê ela?
—No quarto dela, quando fui lá ela estava dormindo.
—Hum, então tá. Valeu pai! Vou falar com minha mãe.
Eu procurei minha mãe pela casa, não era tão grande assim, mas tinha vários cômodos. Depois de passar pela porta da frente o primeiro cômodo é a sala, depois vinha uma pequena copa que ficava grudada na cozinha, o que as separava era uma meia parede -usada como balcão -. Logo adiante vinha o corredor, onde tinha um banheiro — que foi o primeiro lugar onde procurei pela minha mãe -, o quarto dos meus pais, o quarto da minha avó e as escadas que levavam para o segundo andar. Lá em cima ficava o meu quarto e o de Millena, tinha também uma varandinha larga que ficava de frente para o quintal de onde era possível ver a rua, e um escritório pequeno. Às vezes minha mãe usava o escritório para trabalhar, mas eu pretendia usá-lo para fazer o projeto de biologia do nosso grupo. Mas antes, eu precisava avisar à minha mãe, encontrei-a penteando os cabelos no quarto, provavelmente ia sair para alguma reunião ou algo do tipo.
—Oi mãe.
—Oi filha! Nem vi você chegar.
-Quando cheguei você estava tomando banho. Você vai sair?
—Vou sim, reunião com meu novo cliente.
Pois é, imaginei que fosse algo assim.
—Olha, eu já perguntei ao papai, agora vim falar com você.- Quando terminei a frase ela pareceu mais atenta.- O professor Martins passou um trabalho em grupo e eu queria saber se podemos fazer aqui.
—Eu acho que não tem problema, e se você já falou com seu pai sobre sua avó...
—Ele disse que seria bom para ela se distrair um pouco.
—Ah então tudo bem. Se quiser as meninas podem até dormir aqui depois do trabalho, elas estão no seu grupo, não estão?
—Anna e Karol? Claro que sim, como sempre. É até uma boa ideia elas dormirem aqui, é perigoso voltar depois de escurecer, principalmente para Anna.
—É por isso mesmo que estou sugerindo.- Minha mãe sabia que Anna morava um pouco distante daqui, é normal ela se preocupar. — Quem mais está no seu grupo?
—O mesmo pessoal de sempre, Anna, Karol, Nathan, Allan... O único que você não conhece é o Daniel.
—Você não tinha me falado dele ainda.
—É que ele é novato. Você pode conhecer ele nesse final de semana, podemos nos reunir aqui no sábado?
—Sim, sem problemas. Mas agora eu tenho que ir antes que eu me atrase, vou pegar uma carona com seu pai. Cuida da sua irmã, ela está lá em cima. Até o jantar.- Ela beijou minha cabeça, pegou a bolsa e saiu do quarto. Ela estava vestindo blazer e calças flare pretas, um look bem advogada.
Depois que minha mãe saiu, eu subi e fui até o quarto da minha irmã, a encontrei brincando no chão e com o cabelo liso e dourado todo bagunçado. A porta estava aberta e ela estava de costas então não me viu. Millena estava brincando de boneca, ela tinha várias bonecas Barbie, mas também tinha bonecos de heróis, e naquele momento ela estava fazendo o homem aranha servir chá para uma Barbie e dois ursos de pelúcia. Eu não quis interromper.
Peguei meu celular e mandei uma mensagem avisando a todos que meus pais tinham liberado fazer o trabalho aqui em casa, e mandei uma mensagem a mais para as meninas pedindo que elas trouxessem roupas e o que mais precisassem para dormir aqui. Depois disso peguei meus materiais de pintura e fui até o fim do corredor. Pintar era meu hobby favorito, e eu preferia fazer isso na varanda, que era o cômodo da casa que eu mais gostava. A varanda era mais larga do que comprida, tinha uma cerca de ferro preta, uma mesa com cadeiras em um canto e uma espreguiçadeira acolchoada no outro. Eu gostava de pintar lá porque parecia que olhando para o quintal e o movimento da rua eu ficava mais inspirada, e minha cabeça estava cheia de ideias e pensamentos. Pensamentos sobre o projeto, sobre Millena, sobre o colégio, sobre Daniel. Ainda estava pensando nele, desde mais cedo, quando eu estava com Karol no banheiro. Eu precisava colocar esses pensamentos para fora, e usei tinta e uma tela em branco para isso.
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