Mansão Kido — Japão — 1988


Hideo oferecia um olhar sereno para Saori, embora por dentro guardasse toda sua empolgação. O rapaz ficou surpreso pela modéstia da vestimenta da neta adotiva de Mitsumasa Kido.

— Que bom que recebeu minha carta, querida irmã… adotiva. — Fez uma careta olhando para o lado, pensando na melhor forma de se referir a ela. As mãos nos bolsos.

— Então, você é mesmo filho legítimo de Mitsumasa Kido? — Pergunta Saori.

— Sim, e é uma longa história até eu vir parar aqui na sua frente. — soou um pouco enigmático.

Atrás de Hideo, de pé, havia uma bela jovem ruiva que chamava a atenção pela beleza delicada e enigmática.

Usava um conjunto formado por um blazer e short xadrez, com uma blusa marrom por dentro com gola, e um cinto da mesma cor da blusa segurando o short e com uma fivela dourada, marcando a curva discreta de sua cintura. Ombreiras marcadas, mas sem exagero. Nos pés botas pretas, que combinavam com a bolsa de couro que ela segurava com naturalidade.

O cabelo ruivo, longo e liso, mas com movimento, caía sobre os ombros em uma cascata de fogo e a franja lateral repousava sobre sua testa como uma pincelada cuidadosa. Não havia joias, nem broches, nem qualquer adorno que pudesse sugerir vaidade excessiva, apenas um simples colar, brincos pequenos, uma pulseira no pulso direito e as unhas pintadas de um rosa pêssego, combinando com o batom da mesma cor.

Os olhos verdes que observavam tudo com uma calma que beirava o sobrenatural encontraram os de Saori e os de Hideo.

— Senhor Hideo, prefere que eu os deixe a sós ou ainda precisa da minha presença? — A ruiva pergunta a Hideo. A voz doce.

— Fique próxima à varanda onde eu e Saori Kido vamos conversar, Lorelei. Esteja atenta caso alguém tente nos perturbar.

— Como quiser, senhor. — A jovem o reverencia com a cabeça e também a Saori antes de sair. — Com licença, senhorita.

Lorelei ainda estava confusa. Não entendia o porquê de sua presença, sendo que não sentia nenhum cosmo que pertencesse a alguém que pudesse ser páreo a ela, uma amazona treinada e pertencente à elite dos cavaleiros da coroa do sol. Mas não quis questionar seu senhor. A ruiva andou até o jardim, de onde podia visualizar Hideo e Saori sentados em lados opostos em uma mesa elegante enquanto Mii servia um chá de cor laranja, derramando-o cuidadosamente na xícara do rapaz loiro após servir Saori.

— Obrigada, Mii. — Agradece Saori.

— Com licença. — Mii se retira, levando consigo a jarra com o chá quase vazia.

— Agora que estamos mais à vontade, creio que podemos nos apresentar melhor. — Saori começa, fitando Abel com seriedade.

— Concordo, senhorita Saori. Eu lhe devo explicações da minha presença nesta mansão. — Hideo começa após bebericar um pouco daquele chá e pousar a xícara de porcelana branca no pires. — E embora a senhorita não me conheça bem agora, eu, por outro lado, sinto que a conheço há inúmeras eras.

— Eu realmente não fazia a menor idéia que o homem que me adotou há tempos atrás tinha um filho legítimo como você.

— Imaginei que sim. Por isso enviei aquela carta. Por isso me permita me apresentar melhor.

Saori o ouvia atentamente.

— Eu sou Hideo Auringham Kido, filho de Mitsumasa Kido e Emily Barrett Auringham, aristocrata inglesa. Meus pais se conheceram em um evento de gala em Londres e algum tempo depois eu vim ao mundo. — Hideo beberica mais um pouco do seu chá. Saori prestava atenção.

— A família da minha mãe é muito poderosa, talvez até mais que a de Kido. Os Auringham são muito influentes. — Ele pousou a xícara sobre o pires com um som discreto, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — Não se engane, irmã. O nome Kido abre portas no Japão, mas o nome Auringham abre portas em qualquer lugar do mundo.

Saori manteve o rosto sereno, mas sua mente trabalhava rápido. Auringham. O nome não lhe era familiar, mas algo nele, talvez a sonoridade, a raiz latina, parecia antigo. Parecia pertencer a algo maior que uma simples família nobre.

— A coroa britânica concedeu altos títulos aos nossos antepassados há muitos anos atrás, quando um deles encontrou algumas relíquias no Egito. — Acrescentou Hideo. — Desde então nossa família adquiriu prestígio o suficiente para habitar altas camadas da sociedade.

Saori estava acostumada com pessoas desse tipo, encontrando as em eventos de gala. Julian Solo era um deles.

— Também temos uma organização beneficente chamada Fundação Sol Invictus, que oferece um lar para crianças órfãs e as auxilia no seu desenvolvimento para que tenham um propósito de vida.

— Um orfanato como o da minha fundação? — Pergunta Saori.

— Sim. Esse nome foi dado porque queremos ser como um raio de sol que ilumina suas vidas. Não acha coincidência termos tanto em comum, minha cara Saori?

— Sim, realmente é uma bela iniciativa. — Saori estava ainda reticente. — Então você veio aqui para conhecer a Fundação Graad e a mim?

— Sim, eu a vi pela televisão quando anunciou o Torneio Galático e tive a vontade de conhecer a garota que foi adotada pelo meu pai. E a informação de que veio da Grécia foi o que mais me chamou a atenção.

Saori inclinou ligeiramente a cabeça, os olhos azuis fixos nos de Hideo.

— A Grécia é um lugar de muitas histórias. Mas imagino que a Fundação Sol Invictus tenha muito em comum com a Graad além do orfanato. — Ela pousou a xícara sobre o pires com delicadeza. — Vocês também treinam crianças para lutar?

Hideo não respondeu de imediato. Seu sorriso permaneceu, mas algo em seus olhos escuros se acendeu — um brilho que não era calor, mas fogo contido.

— Que pergunta direta, irmã. — Ele cruzou as pernas, ajeitando o paletó. — Digamos que preparamos nossos pupilos para servir a um propósito maior. Assim como a senhora, imagino, prepara os seus para proteger a humanidade.

A cada palavra, Saori tinha mais certeza de que Hideo poderia ser o mesmo rapaz do sonho. Não apenas pelos traços físicos, mas por algo mais profundo. Talvez a voz, o sorriso ou o cosmo denso e antigo que emanava dele. Era a mesma sensação de familiaridade e alerta, doçura e perigo. Quando ele a chamou de volta, Saori disse apenas que pensava sobre coincidências, e Hideo ergueu a xícara num brinde silencioso, como se soubesse exatamente o que se passava na mente dela.

— Você tem visto os jornais? telejornais? A fundação Graad não previu uma anomalia solar? — Hideo indaga.

— Agora a pouco deu no plantão uma atualização dessa anomalia. É preocupante, mas o que isso tem a ver conosco?

— Nossos recursos unidos podem fazer a diferença frente ao caos que essa anomalia pode trazer ao mundo.

— De que jeito?

— De dois jeitos, na verdade. O primeiro é através da união entre Graad e Sol Invictus e a outra… — Ele faz uma breve pausa, olhando no fundo dos olhos de Saori. — é a união de dois irmãos divinos que não se encontravam há milhões de anos.

— Sim, Saori. Eu sei que você é a reencarnação da deusa Atena. E por ironia do destino eu, Hideo sou a reencarnação de Abel. Filho de Zeus todo poderoso.


Proximidades do Santuário de Atena — Grécia — 1988Seiya estava prestes a pedir o refrigerante quando sentiu.

Foi como uma onda, não de calor, mas de pressão. O ar dentro da taverna pareceu ficar mais denso, mais pesado, como se alguém tivesse aberto a porta de um forno e todo o oxigênio tivesse sido sugado para dentro. O copo vazio na mão de Seiya tremeu levemente sobre a mesa.

— Seiya… — Shun ergueu a cabeça bruscamente, os olhos verdes arregalados.— Eu senti. — Ele já estava de pé, com os óculos escuros esquecidos sobre a mesa.


O cosmo que emanava de algum lugar próximo não era comum. Não era como o de um Cavaleiro de Prata, nem mesmo como o de um dourado em repouso. Era diferente, mais quente, mais seco, como areia aquecida sob o sol do deserto.

Do lado de fora, o som de passos apressados. Vozes. Um grito abafado, depois outro. Turistas corriam em direções opostas, alguns derrubando cadeiras de cafés vizinhos, outros apontando para o alto.

Seiya empurrou a porta de madeira daquela taverna e saiu para a rua, Shun logo atrás. O sol grego cada vez mais vermelho continuava impiedoso, mas agora havia algo mais no ar; uma estática, como antes de uma tempestade. E no centro da praça, onde minutos antes turistas tiravam fotos, um grupo de homens estava parado.

Eram cinco, todos usavam armaduras que Seiya e Shun nunca haviam visto antes. Não eram de bronze, prata ou ouro que ele conhecia. Cada uma delas com seus formatos característicos das constelações que representavam, mas todas tinham uma característica em comum: Apresentavam uma coloração avermelhada e um cinto preto com o símbolo dourado do sol em seu centro.

Mas era o quinto que chamava atenção.

Galahad de Carina era um rapaz loiro, cabelos curtos, mas esvoaçantes. A armadura, mais elaborada que as dos demais, num tom vermelho alaranjado que predominava na maior parte dela e detalhes nas bordas de algumas partes num tom mais escuro comunicando agressividade e a imponência de alguém que ocupa o cargo mais alto na hierarquia da guarda de Abel.

Seus olhos eram azuis gélidos, calmos. Parecendo contrastar com o tom avermelhado de sua armadura. Ele observava a rua com a expressão de quem já viu tudo e não se impressiona com nada.

— Essas pessoas deveriam nos agradecer pelo que vamos fazer pela terra. — Murmura baixinho o jovem cavaleiro loiro.

— Quem são esses? — sussurrou Shun, e sua voz saiu mais baixa do que o normal. — Essas armaduras... nunca vi nada igual.

Seiya cerrou os punhos. A armadura de Pégaso não estava com ele — estava no Santuário, em reparos após os últimos confrontos. Ele só tinha o corpo, o cosmo, e a camisa branca aberta no peito.

— Shun — disse ele, sem desviar os olhos do homem de cabelos escuros. — Você tem sua armadura?

— Está preparada. É só meu cosmo chamar. — Shun respondeu baixo.

Galahad virou a cabeça lentamente, como se tivesse ouvido o sussurro a metros de distância. Seus olhos encontraram os de Seiya, e um sorriso mínimo, quase imperceptível, curvou seus lábios.

— Cavaleiros de Atena — disse ele, e sua voz era calma, mas carregava um peso que fazia o chão tremer levemente. — Que coincidência. Ou talvez não.

Os quatro subordinados atrás dele se posicionaram em semicírculo, as armaduras coloridas refletindo o sol vermelho que pairava no céu. Nenhum deles parecia com pressa. Nenhum deles parecia preocupado.

Seiya deu um passo à frente, os punhos ainda cerrados.

— O que vocês querem aqui?

O homem inclinou a cabeça, o sorriso mínimo ainda nos lábios.

— Haha… Por quê só tem dois de vocês aqui? — Questionou o mais alto e musculoso, com uma armadura que se assemelhava a um Touro.

— Quem são vocês? — Seiya cerrou os dois punhos, aumentando um pouco mais o cosmo irado.

— Eu sou Galahad da constelação de Carina, um Cavaleiro da Coroa do Sol de Abel. Nosso deus nos enviou aqui para que se juntem a nós, assim como Atena fará.

— Deus Abel? — Pergunta Shun franzindo o cenho confuso.

— Então vocês não sabem? — Galahad move a cabeça negativamente decepcionado. — O sagrado deus do Sol, prometido a nós por tantas profecias, retornou e vai se unir com sua irmã Atena.

— Deus do Sol Abel? Que história é essa? Não era o Apolo? — Seiya questiona confuso.

Seiya mal terminou a frase e logo foi atacado por uma esfera de cosmo incandescente como o sol de forma raivosa por Galahad. O Pégaso só não foi atingido em cheio por seu corpo e mente já estarem preparados para o combate desde o momento em que o cosmo dele invadiu o ambiente.

— O verdadeiro Deus Sol, insolente. — Galahad disse trincando os dentes.

— Seiya. — Shun grita.

Seiya consegue desviar do golpe o suficiente para não ser atingido em cheio, embora tenha destruído a blusa que vestia. Não teve dúvidas, o instinto de guerreiro falou mais alto. Assim que ficou de pé seu cosmo chamou por sua armadura de bronze de Pégaso, que vinha chegando voando até o local ao sair da urna e logo cada parte se encaixava em suas respectivas regiões do corpo de seu portador. Shun também teve o mesmo instinto, chamando por sua armadura de cor rosa avermelhada e a trajando instantaneamente.

— Pégaso e Andrômeda… não pensem que nós, Cavaleiros da Coroa do Sol de Abel somos como os fracos dos cavaleiros de ouro que vocês derrotaram. — Galahad em nenhum momento se intimida com a demonstração do cosmo e armaduras dos dois cavaleiros de bronze. A expressão de desdém que Seiya e Shun conheciam muito bem.

— Pois eu duvido muito que Atena vai querer se unir com esse seu deus Abel. — Reage Seiya, em posição de luta. — Nos recusamos a fazer parte dos planos de vocês. Prepare-se Galahad.

Os cosmos de Seiya e Shun elevam se o mais alto e intensamente possível. Galahad ainda os olha com desdém e ordena seus subordinados para atacarem os dois.



Shiryu sentiu primeiro. Estava no alto de Rozan, onde o ar era mais rarefeito e o silêncio só era quebrado pelo vento entre as pedras. O cosmo que atravessou o horizonte veio como uma lâmina; quente, cortante, carregado de uma intenção que ele conhecia bem demais. Não era um treinamento. Não era um cosmo amigável. Era um anúncio de guerra.

Ele desceu a montanha em passos largos, o coração do Dragão pulsando forte no peito. Se Atena estava em perigo, ele precisava estar ao lado dela. Não havia outra opção.

Hyoga, na Sibéria, sentiu o mesmo. Estava ajudando alguns aldeões a reparar um telhado quando o ar ao redor ficou pesado, como se o próprio frio tivesse sido empurrado para longe por uma onda de calor seco. Ele ergueu os olhos para o céu alaranjado, o sol ainda estava errado, ainda doentio, e soube que não podia mais ficar ali.

O reencontro aconteceu no caminho para o Santuário, numa estrada de terra batida entre colinas secas. Os dois se viram à distância e aceleraram o passo, sem precisar de palavras. O olhar que trocaram dizia tudo: você também sentiu.

— O Santuário está em alerta — disse Shiryu, enquanto caminhavam lado a lado. — Mu mandou mensagem. Falou de invasores.

— Invasores com armaduras que ninguém reconhece — completou Hyoga, o rosto grave. — Isso não é coincidência.

— Não. — Shiryu apertou o punho. — E Atena está na mansão Kido. Sozinha, com aquele visitante.

Hyoga parou por um instante, com os olhos azuis fixos no horizonte.

— Você acha que...

— Não sei. Mas vamos descobrir.

Continuaram a marcha em silêncio, o cosmo de ambos vibrando em alerta. As colinas ao redor pareciam mais secas do que o normal, a vegetação ressequida pelo calor anormal. O céu, antes de um azul intenso, agora tinha um tom de ferrugem nas bordas, como se algo estivesse queimando em algum lugar muito distante.

Foi quando atravessaram um desfiladeiro estreito que tudo mudou. O ar à frente deles ondulou, não como miragem de calor, mas como uma cortina sendo puxada. E de repente, onde antes havia apenas a estrada vazia, cinco figuras estavam paradas. Todos com suas armaduras em tons de vermelho e laranja

Quatro estavam em posição de combate, mas não avançaram. Esperavam. O quinto estava à frente, era um rapaz de estatura mediana, corpo esguio mas tenso como uma corda de arco. Seus cabelos eram castanhos avermelhados, e seus olhos castanhos tinham um tom âmbar incomum, quase felino. A armadura que vestia era diferente das outras; mais leve, mais ajustada ao corpo, com placas que se sobrepunham como escamas. Nos ombros, garras metálicas curvas se projetavam para a frente. E na cintura o cinto preto com desenho do sol.

Ele sorriu quando os viu, um sorriso de quem estava se divertindo.

— Shiryu de Dragão e Hyoga de Cisne. — A voz era aguda, quase brincalhona, mas com uma nota de perigo por baixo. — Que sorte. Dois de uma vez.

Shiryu deu um passo à frente, o cosmo do Dragão começando a subir.

— Quem é você?

O homem inclinou a cabeça, o sorriso se ampliando.

— Kaito de Lince. — Ele abriu os braços num gesto teatral. — Um dos Cavaleiros da Coroa do Sol. E vocês... — Ele apontou para os dois com um dedo. — Vocês são o aquecimento.

Hyoga cerrou os punhos, o ar ao redor de suas mãos começando a esfriar.

— Aquecimento para quê?

Kaito riu, um som curto e seco.

— Para a guerra, Cisne. Para a guerra.

Os quatro subordinados atrás dele se moveram, formando um semicírculo. As armaduras avermelhadas refletiam o sol vermelho, e o cosmo que esses guerreiros emanavam era denso, coordenado. Shiryu e Hyoga se posicionaram costas com costas, o instinto criado pelas últimas experiências de batalha falando mais alto.

— Hyoga — disse Shiryu, baixinho.

— Eu sei. — O Cisne respirou fundo, o cosmo frio se espalhando ao redor de seus pés. — Vamos ter que abrir caminho.

Kaito de Lince estalou os dedos, e as garras em seus ombros brilharam.

— Isso mesmo, Cavaleiros de Atena. Abram caminho. — Ele avançou um passo, e o chão sob seus pés rachou. — Se conseguirem.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.