Soft Heart
13 Capítulo XI
Notas iniciais
— Então quer dizer que vocês dois estão juntos? — Noah perguntou ao acaso, sentado na poltrona ao lado da janela.
Beth, que arrumava distraidamente a cortina, apenas sorriu, sentindo suas bochechas corarem.
— Sim. É isso — ela deu de ombros tentando soar natural, mesmo que sua vontade fosse sair cantarolando pela casa.
— Eu não acho que ele seja o cara certo pra você — Noah continuou, dessa vez em um tom mais baixo.
— Eu não acho que alguém tenha alguma coisa a ver com isso, Noah — pela primeira vez ela virou-se pra ele, sentindo o choque pela reação inesperada do amigo.
Beth nunca fora de se irritar facilmente, mas o que Noah lhe dissera havia a deixado ofendida, realmente.
— Ei, Beth! Quer me ajudar lá fora? Eu realmente não sei o que há de errado com aquelas galinhas — Tara a chamou no momento certo, evitando que algum tipo de discussão se desenrolasse ali.
Ela acompanhou Tara até o lado de fora, na varanda.
— O que há com elas? — Beth perguntou curiosa, encarando as galinhas que ciscavam normalmente pelo pátio.
— Nada. Só achei que você não quisesse falar sobre aquilo com o Noah — a morena sorriu gentilmente, esticando o punho fechado em direção à ela.
Beth a cumprimentou com seu famoso “soquinho”, rindo em seguida.
— Você tem razão. Eu realmente não quero discutir com Noah. Eu gosto dele e ele é um bom amigo, mas não quero que ele se meta nos meus assuntos particulares — ela confidenciou, abaixando-se para juntar um dos ovos perdidos que uma galinha havia posto no chapéu de Carl.
As duas caíram na gargalhada antes de livrar o chapéu dos ciscos que a ave tinha depositado ali. Ao longe viu que Carl e Judith brincavam com alguns baldes de água que Glenn pacientemente retirava do poço. Ela estava feliz por ver que todos estavam se reajustando à fazenda novamente.
Abe, Eugene, Rick e Daryl trabalhavam no reforço da cerca. Maggie, Michonne e Carol tentavam em vão capturar uma galinha para o almoço.
Por um momento os olhares de Beth e Daryl se cruzaram e ela sorriu sem jeito enquanto ele acenava sua cabeça em um cumprimento. Era tudo muito recente e nenhum dos dois sabia exatamente como reagir na frente dos outros.
— Vocês realmente se gostam, né? — Tara comentou, chamando a atenção da loira de volta para si.
— Sim. Eu acho que sim — Beth ponderou. Ela claramente gostava dele, mas Daryl não havia dito nada além de um “me importo com você”.
Ela mordeu o lábio nervosamente.
— Não seja boba. Olha lá. Ele não para de olhar pra você — Tara deu um tapinha no ombro de Beth que espiou com o canto dos olhos, encontrando Daryl realmente olhando em sua direção.
Era por isso que Beth gostava tanto de Tara, ela sempre estava animada e aquilo era contagiante.
— Anda, vamos mostrar àquelas três como se pega uma galinha — a morena cutucou o estômago de Beth e as duas riram enquanto corriam em direção as galinhas como duas crianças.
Beth sinceramente não se lembrava da última vez em que tinha se divertido tanto em sua vida.
Daryl ouviu Abe rindo ao seu lado e então se virou para ele.
— Você tá mesmo amarrado na loirinha, não é? — o ruivo gargalhou, seguindo os olhos do caipira em direção às garotas que corriam livremente atrás das galinhas.
— Beth. O nome dela é Beth — Daryl rosnou impaciente, voltando a se concentrar nos arames da cerca, o que fez com que Abe risse ainda mais.
— Eu fico feliz por vocês — Rick adicionou, tocando o ombro de Daryl que acenou em resposta.
Ele não gostava de ter todas as atenções viradas sobre ele, mas tudo o que envolvia Beth geralmente atraía os olhares do grupo. Judith gritava e batia palmas, animada com a correria e era simplesmente impossível que os outros não se animassem também. Daryl resolveu ajudar as mulheres, apesar de secretamente estar adorando ver Beth sorridente e espontânea.
Quando Beth finalmente encurralou a ligeira ave, ela bateu contra a parede em um pequeno estrondo, fazendo com que a loira saltasse com o susto.
— Agora vamos ter almoço — Daryl retirou a flecha que mantinha a galinha presa à parede do estábulo e chacoalhou-a em frente as outras mulheres.
— Obrigada — Beth sorriu abertamente. — Apesar de achar que Judith estava adorando ver nosso sofrimento.
Daryl deu de ombros e conteve um sorriso quando Beth aproximou-se dele suavemente e depositou um beijo casto em seus lábios. Aquele tipo de demonstração pública de afeto não era habitual do arqueiro, mas ele sabia que Beth não tinha problemas em demonstrar nenhum tipo de sentimento em frente aos outros.
— Finalmente! — Maggie comentou atrás do casal, e Daryl não sabia dizer se ela se referia a eles ou ao fato de terem pego a galinha.
Desconfortável com toda a atenção sobre si, Daryl entregou a ave morta para Beth junto com a flecha, retirando-se sorrateiramente de volta para seu trabalho na cerca.
— Então, finalmente deixaram de ser tão teimosos? — Carol questionou enquanto cortava algumas cebolas.
— Como? — Beth respondeu ajudando Maggie a cortar a galinha em pedaços.
— Não se faça de boba, Elizabeth Louise Greene — Maggie riu. — Todos nós estamos felizes.
Beth revirou os olhos com o comentário. Era como se ela e Daryl fossem a atração do momento e ela não se sentia muito confortável com aquilo.
— Deixem a garota em paz — Glenn intercedeu, abraçando Maggie pelas costas. — Não me lembro de toda essa comoção quando ficamos juntos.
— Talvez porque só a Maggie fosse cabeça dura — Beth riu e Maggie lhe deu a língua.
— Ou talvez porque ninguém imaginava que Daryl Dixon se envolveria com alguém além de sua besta, principalmente depois de romper com a moto — Carol comentou, fazendo todos rirem.
— Ou talvez porque você é uma criança e ele tenha idade para ser seu pai — Eugene apareceu na cozinha com sua eventual expressão indiferente.
Um silêncio sepulcral envolveu o ambiente enquanto todos tentavam digerir aquela frase.
Beth sentiu uma pontada em seu coração. Sabia que ele estava certo, mas definitivamente não queria pensar sobre aquilo. Sentindo um mal estar tomar conta de si, ela apenas deixou sua faca no balcão e rumou para seu quarto, sem querer saber sobre o desenrolar daquele assunto.
— Beth! — Rosita chamou atrás dela, correndo pela escada acima. A loira virou-se para ela, escorando-se no parapeito do andar superior. — Ele não teve a intenção. Eugene não pensa antes de dizer o que vêm a sua cabeça. Ele consegue ser um inteligente idiota — ela desculpou-se por ele.
Beth indicou a porta de seu quarto para ela e Rosita a acompanhou. A espânica bonita era uma das pessoas do grupo com quem Beth menos havia conversado e agora Rosita parecia disposta a dizer algo.
— Eu não te conheço muito bem, Rosita, mas obrigada — Beth sorriu para ela, sentando-se na cadeira da penteadeira.
— Sabe, Beth, as coisas que fazemos agora não seguem as mesmas regras de antes. Não importa quem ou o que você era, esse mundo muda você.
"Eu fiz coisas para sobreviver, eu precisei fazer. Mas então eu conheci o Abe. Ele não fazia o meu tipo, sabe, ele é muito mais velho que eu — ela fez uma pausa e sorriu envergonhada. — No começo eu achei que seria fácil, eu sabia o que precisava fazer para que ele me protegesse, mas não. Abe me protegeu e não quis nada em troca. Ele me ensinou a me virar para quando ele não estivesse ali. Ele me ensinou a lutar. Eu acho que gosto dele, de verdade.
"Por isso, não importa o que as pessoas dizem sobre nós, isso não muda o que eu sinto. Talvez ele não sinta o mesmo, mas eu sinto e é o que importa."
Beth identificou-se de alguma forma com aquilo. Daryl havia lhe ensinado a lutar de sua própria forma, um tanto áspero e rude, mas ele estava a preparando para se virar. Ele fez com que Beth crescesse e ela sabia que havia mudado alguma coisa nele também.
— E quer saber? Idade é a droga da coisa que menos importa. Garotos adolescentes são uns babacas. E, Beth, eu não te conheço, mas ouvi muito sobre você. Você é uma garota forte e merece alguém assim.
— Obrigada — Beth murmurou sem saber o que dizer.
— O Daryl realmente gosta de você, se é isso que te impede de ir mais fundo. Ele ficou desesperado quando Noah contou que sabia onde você estava. Por ele, Daryl teria entrado naquele lugar sozinho com sua besta e tirado você e Carol de lá de qualquer jeito.
Beth sentiu vontade de chorar com aquilo. Lembrava-se do desespero de acordar sozinha naquele hospital, sem saber onde Daryl estava. A única certeza que tinha era que ele estava vivo em algum lugar, procurando por ela.
Naquele dia na casa mortuária ela sabia que se tivessem apenas um minuto a mais as coisas teriam sido diferentes. Havia alcançado um nível de envolvimento com Daryl que até aquele momento não havia atingido novamente, mas ela saberia esperar.
— Agora, vamos voltar pra lá. Não confio em uma mulher que destruiu um terminal inteiro cozinhando pra mim — Rosita acenou com a cabeça em direção à porta.
Beth sentiu-se feliz por conhecê-la um pouco melhor. Eles eram família agora, queria estar tão próxima deles quanto permitissem. Ela entendia Eugene, ele não parecia o tipo de cara que media algo antes de falar, como uma versão menos dura do Daryl.
Pensando no arqueiro, Beth encontrou-o subindo as escadas em direção à ela, e Rosita seguiu seu rumo, dando espaço a eles.
— Carol me obrigou a lavar as mãos antes do jantar — ele resmungou como uma criança marrenta, esfregando as mãos em sua calça.
— Acho que isso é seu — ela tirou a flecha do bolso do vestido, estendendo em direção a ele.
Ao invés de pegar a flecha, ele segurou a mão pequena da garota, puxando-a contra seu corpo.
— Guarde. Você vai precisar dela — ele murmurou antes de beijá-la com urgência.
Beth nunca se acostumaria com aquilo. Daryl era tão suave e selvagem ao mesmo tempo. O simples cheiro de cigarro, couro e terra que vinha dele a deixava tonta.
Daryl encarou sua garota por um minuto inteiro. Os lábios avermelhados pelo beijo, as bochechas levemente rosadas, os olhos fechados quando ele tocava seu rosto, como se de fato pudesse apreciar o seu toque áspero.
Ele não sabia no que aquele relacionamento daria, mas queria aproveitar aqueles momentos. Não se achava merecedor da doçura de Beth, contudo, se ela havia o escolhido, ele estaria ali enquanto ela o quisesse.
Tinha se tornado um maldito cachorrinho, rendido por aquela loira tagarela. Merle riria como o inferno daquilo, mas ele não se importava. Tudo o que importava para ele era Beth.
Fale com o autor