Soft Heart

6 Capítulo V


Notas iniciais
Sim, eu sei que estou uma semana atrasada, mas dessa vez não foi falta de criatividade, e sim, de tempo. sjaisjaishu' Aproveitem o capítulo. ♥

Estamos chegando perto, Carol. Mais ou menos oito quilômetros — Beth ouviu a voz de Rick pelo rádio.

Carol, que estava sentada ao seu lado, prontamente respondeu:

— Certo. Estamos logo atrás. Avisem se tiverem problemas.

A loira, que até o momento estava com seu pescoço inclinado em direção a mais velha, logo recostou seu rosto cansado na janela. O trailer abarrotado de pessoas trazia a ela uma sensação claustrofóbica e nauseante, ou talvez fosse apenas a ansiedade lhe cobrindo como uma nuvem. Ela realmente odiava estar presa ali dentro quando poderia ajudar lá fora. Beth havia prometido que levaria Noah até lá, não que esperaria pacientemente dentro do carro enquanto sua família corria perigo.

As pessoas estavam em silêncio, como de costume. A testa de Maggie estava crivada em uma expressão permanente de preocupação, muito parecida com a de Sasha. A jovem Greene logo concluiu o porquê: Tyreese e Glenn estavam no outro carro, colocando suas vidas em perigo.

Judith remexeu-se em seu sono e Beth apertou-a contra seu peito, numa tentativa de acalmar não só a pequena, como também de fazer seu próprio corpo relaxar com o cheiro que exalava do bebê. Aquilo costumava funcionar quando estavam na prisão.

Daryl tinha seus olhos fixos na estrada, os tendões em seus braços estavam repuxados, fazendo com que Beth concluísse que ele estava segurando o volante com muito mais força do que o necessário.

Vamos parar, estamos perto agora. Estacionem fora da estrada, na floresta Rick chamou novamente pelo rádio.

O Dixon acenou à frente, os ouvidos estavam a todo o tempo atentos no que o Grimes dizia.

Quando o trailer finalmente estacionou em um solavanco abaixo das árvores, o grupo lentamente começou a descer. Beth pôs-se de pé desajeitadamente. A atadura no seu tornozelo limitava seus movimentos, a dor irradiando-se pela perna inteira. Ela não iria reclamar, todos eles tinham trabalho a fazer, independentemente do seu estado.

— Vem cá — Daryl surgiu ao seu lado, ajudando-a a descer os degraus do trailer.

Ela apenas sussurrou um agradecimento, preocupada demais com os outros para deixar-se ser dominada pelo calor que vinha do arqueiro.

Beth estava inquieta demais para simplesmente sentar e esperar. Sua cabeça trabalhava a mil, seus pensamentos voando freneticamente por sua cabeça. Ela definitivamente gostava de Noah, mas ela gostava ao ponto de pôr todos aqueles que amava em perigo pelo sonho dele? Era errado pensar assim e ela sabia, mas quase podia sentir no fundo do seu subconsciente que aquilo não acabaria bem. A esperança, que era a sentimento mais presente em sua vida desde o começo, começava a se esvair.

— Beth — Daryl resmungou ao lado da loira e ela pulou assustada, virando-se em direção a ele. — Abrir um buraco aí não vai fazer com que eles voltem mais rápido.

Com um risinho nervoso a loira percebeu que em seu surto de pensamentos ela havia acabado por andar incessantemente de um lado para o outro. O rastro de seu pé arrastando pela terra marcado em uma linha mais funda.

— Eu sei — ela sussurrou de volta, como se repetir em voz alta pudesse fazer as coisas darem certo.

Carl, que parecia mais contido que qualquer pessoa naquele lugar, estendeu os braços em direção a irmã, tirando-a do colo de Beth.

— Pode deixar, eu cuido dela. Você pode descansar, Beth — Carl disse para a loira em seu tom maduro demais para um adolescente.

— Obrigada — ela acenou de volta, forçando um sorriso.

Sem pensar muito sobre o que estava fazendo, Beth simplesmente arrastou os pés em direção a Daryl que estava sentado com as costas escoradas em uma árvore. Sem dizer nenhuma palavra ela sentou-se ali ao lado dele, sentindo-se mais calma com a proximidade.

Daryl remexeu-se inquieto ali, sem saber como reagir. Ele simplesmente odiava ver a loira tão nervosa, era inquietante. Ela estava diferente da Beth que ele conheceu naqueles dias, mais séria, mais ciente de que o mundo não era um lugar cor de rosa. Ela fechou os olhos, a expressão de quem travava um conflito interno, a mão esquerda apertando as folhas secas do chão com bastante força. Ele não gostava daquilo. Não gostava de vê-la tão abalada e quieta. Que ela chorasse, cantasse, falasse alguma bobagem esperançosa... Aquela foi a primeira vez na vida do Dixon que o silêncio realmente lhe incomodou.

Levado por um impulso desconhecido, ele pousou a mão sobre a da Greene, fazendo com que ela parasse de esmagar as folhas e lhe olhasse profundamente, os olhos grandes e azuis demostrando um carinho que Daryl nunca havia sentido. Ela sorriu e ele sentiu calor. Não um calor de excitação, sexual, o único que ele estava habituado, e sim, um calor confortável, acolhedor. Eles não disseram mais nada, apenas permaneceram daquele jeito, de mãos dadas, como havia sido naquele dia no cemitério.

Envoltos no silêncio do momento, Beth sequer percebeu que muito tempo havia se passado desde que o grupo de Rick tinha partido. O sol estava a pino no céu e já devia se passar do meio-dia, e ela tinha certeza disso pela forma como seu estômago protestava por alguma coisa que não fossem as bolachas envelhecidas que tinham no trailer.

— Vou caçar alguma coisa — Daryl disse ao levantar-se, esfregando as mãos pelas pernas possivelmente dormentes.

Beth pensou em se levantar e segui-lo, mas o choro agudo de Sasha fez com que um arrepio cortante percorresse o corpo da garota. Enrolado em um cobertor acinzentado estava Tyreese. Michonne, Rick, Glenn e Noah tentavam sustentar o peso do corpo sem vida do maior.

Em meio a tantas perdas ela sentiu que manter a sua esperança em um mundo tão podre como aquele era quase estúpido. Pessoas boas não sobreviviam, o mundo não pertencia mais a elas, e encarar o rosto pálido e inexpressivo de Tyreese encheu o corpo dela de um ódio profundo pela situação em que estavam. Não, ela não queria chorar; ela só queria socar alguma coisa com tanta força que suas mãos doeriam. Apesar de seus olhos arderem em uma fúria silenciosa, nenhuma lágrima foi derramada.

Ninguém, além de Sasha, derramou uma lágrima sequer. Perder alguém agora era tão corriqueiro quanto o nascer do dia, mas no fundo ela sabia que apesar de tudo cada um dos presentes estava se culpando. Conhecia muito bem a expressão no rosto de Rick, a expressão de alguém que se culpa por não ter protegido aqueles que precisavam, por não ter pensado melhor, por não ter feito o suficiente.

Daryl estava calado, as mãos enfiadas nos bolsos com força. Maggie amparava a irmã, uma mão entorno da cintura da mais nova enquanto todos observavam em um silencioso pesar cada membro do grupo que se aproximava da cova improvisada e depositava ali alguma quantidade de terra, ao som das palavras de conforto não tão reconfortantes do padre. Beth sabia que Tyreese gostaria de tê-las ouvido, ela própria teria gostado, em outro momento. No fundo, ele tinha mais sorte do que qualquer um deles, não precisaria mais lutar.

— Beth — Maggie resmungou enquanto a loira saía do aperto dela para tomar a pá das mãos de Daryl. — Você não precisa fazer isso.

Sim, ela precisava. Ela queria. Apesar de se arrastar lentamente por causa do tornozelo ferido, Beth se moveu até o monte de terra, enchendo a pá e jogando o conteúdo sobre a cova profunda. Ao terminar, entregou a pá para Rick, que em ritmo mais rápido terminava de preencher o buraco.

Sentindo uma maré de desesperança pesar como uma onda negra sobre seus ombros, ela obrigou seus pés a levarem-na em direção a uma árvore distante do tumulto, onde ela recostou suas costas, deixando que algumas lágrimas grossas aquecessem suas bochechas.

Lembrou-se de uma conversa distante com Dawn.

"Eu não choro mais", Beth havia dito a ela. "Eu choro. Só não deixo que eles vejam", a policial confidenciou.

— Você está bem? — Daryl apareceu a sua frente, a boca nervosamente entorno do polegar, roendo a unha em um gesto inquieto.

— Só cansada de perder pessoas — Beth parafraseou o arqueiro, lembrando-se de como tudo parecia mais fácil quando ela ainda tinha um pouco de fé.

Notas finais
Comentem, meus amores ♥