Soft Heart
2 Capítulo I
Notas iniciais
— Não olhe, Beth — Carol murmurou ao enfiar a faca que haviam furtado da cozinha na garganta do policial que tinha as encontrado.
Beth não quis comentar, mas não se assustava mais com essas coisas. Ao menos não quando se tratava dessas pessoas que fizeram tanto mal.
Com uma das mãos segurou firmemente a alça da mochila onde estavam suas coisas e apertou com força sua faca que havia recuperado em meio as coisas de Dawn.
Ela simplesmente não podia acreditar que estavam com tanta sorte, mas também não queria atrair pensamentos negativos. Carol era uma mulher forte, e se havia alguém podia tirá-las dali era ela.
Beth lembrou-se de quando a mais velha chegou ali, aparentando estar em estado gravíssimo. Dr. Edwards disse não compreender a situação, já que os sinais da mulher estavam quase perfeitos. É claro que estavam, Carol fingiu estar gravemente ferida o tempo todo, quando na verdade seus ferimentos era apenas a nível superficial. Dores aqui e ali não a impediriam de completar sua missão.
Carol contou a ela que definitivamente não estava nos seus planos ser atropelada e capturada, mas que havia contornado a situação como podia, principalmente após ter visto Beth sã e salva.
A loira as conduziu até a única saída que conhecia, com Carol eliminando os errantes mais efetivamente que Beth. Nenhum policial havia sido atraído ainda, e elas pararam por um momento dentro do elevador, seu tornozelo reclamando.
— Você está bem? — Carol perguntou em um tom baixo.
— Estou — Beth resmungou tentando parecer indiferente. Carol soltou um riso anasalado, não acreditando na menor.
— Eu tenho um plano, mas não sei se você vai concordar — Carol continuou receosa, e Beth apenas acenou com a cabeça.
Carol contou a ela sobre sua camuflagem no Terminus, mas que agora pensava em usar algo diferente, um pouco nojento, mas efetivo. Ao fim do discurso ambas acabaram cobertas com tripas e sangue podre, os cabelos loiros de Beth em um tom avermelhado e pegajoso. Recordou-se de uma conversa que havia tido com Glenn, sobre como ele e Rick haviam passado pelo meio de uma horda em Atlanta.
Beth soltou os cabelos e bagunçou-os, surrupiando um casaco nojento de um dos muitos corpos amontoados no poço do elevador.
— Pronta? — Carol perguntou. Seu olhar parecia estranhamente animado.
— Pronta — Beth respondeu, seu estômago revirando como o inferno; agradeceu aos céus por não ter comido nada naquele dia.
Caminharam lentamente pelos corredores de acesso ao pátio, o coração de Beth parecia bater dentro de seus ouvidos, especialmente quando chegaram ao espaço aberto. Escutou alguns policiais conversando alto em uma das janelas, e tentou ao máximo não olhar naquela direção. Sabia que eles não atirariam, eles não eram tão burros, e tinham consciência de que o som do disparo poderia atrair ainda mais walkers pelo grande buraco na tela.
Ela olhou de soslaio para Carol, errantes esbarrando nelas como se fossem invisíveis. Seu instinto dizia para correr como uma garotinha, mas empurrou-o para o fundo de seus pensamentos, tentando imitar perfeitamente seu andar trôpego.
Esbarraram na cerca e grunhiram como os outros, logo as vozes dos policiais cessaram, e elas souberam que eles haviam entrado.
Devagar e sem movimentos bruscos as duas atravessaram o buraco da cerca, caminhando sem pressa até a estrada. Os errantes ainda não se aproximavam delas, mas não arriscaram correr e por seu disfarce a perder.
Longe o suficiente do Grady elas adentraram em um prédio. Carol disse que ali era seguro, e que havia passado uma noite ali com Daryl, enquanto procuravam por ela.
O nome do caipira fez cócegas no estômago de Beth. Saber que ele procurava por ela fez com que sua esperança se acendesse como uma lâmpada.
Carol conduziu-as até o quarto onde havia passado a noite, e assim que conseguiram bloquear a porta a tensão pareceu desaparecer de seus ombros.
— Chuveiro? — Beth permitiu-se rir enquanto jogava o casaco imundo no chão.
— Acho que não — Carol relaxou e deu de ombros. — Lençóis? — ela sorriu enquanto puxava o lençol da cama debaixo e esfregava seu rosto com ele, tirando um pouco do sangue nojento.
Beth apenas imitou seu gesto, puxando o lençol da cama de cima e tentando limpar um pouco seu rosto. Retirou a mochila que havia permanecido em suas costas sob o casaco sujo e resgatou sua camisa polo amarela e uma calça jeans. Pegou também suas botas que estavam amassadas por serem colocadas displicentemente no fundo da bolsa.
Olhou para Carol sem jeito enquanto tirava seu uniforme do hospital e vestia suas roupas, percebendo que ela não tinha nada além da roupa do corpo.
— Acho que precisamos ir as compras — Beth brincou quando viu Carol tentar limpar inutilmente seu casaco.
— É, acho que sim — a outra respondeu com um riso anasalado. — Tem um banheiro ali, se você precisar — ela apontou para uma porta pequena ao lado esquerdo.
Beth acenou em agradecimento, entrando no pequeno cômodo que não possuía nada além de um espelho rachado, uma pia e um vaso sanitário.
Abriu a torneira e deixou a água correr um pouco, lavando o rosto em seguida. A água estava mal-cheirosa, mas era o máximo que conseguiria fazer naquela noite.
Olhou-se no espelho e suspirou frustrada, percebendo os pontos que contornavam sua bochecha e testa. Esperava que aquele sangue nojento não tivesse a contaminado.
Fez uma trança desajeitada em seu cabelo e não pode segurar o riso ao constatar que sequer precisaria prendê-lo, de tão duro e pegajoso que ele estava.
Voltou para o quarto e ajeitou-se na cama de cima da beliche, sentindo seu corpo relaxar.
— Você acha que eles estão nos procurando? — perguntou inclinando-se para a beirada da cama para que pudesse ver Carol.
— Tenho certeza de que Daryl está.
Beth sorriu bobamente, e constatou que Carol também estava rindo, pelo chacoalhar de seus ombros, mas não pode ter certeza, já que ela estava de costas.
— E Maggie? Ela está bem? — Beth continuou após longos minutos de silêncio.
“Você nunca mais vai ver a Maggie de novo.”
A voz de Daryl lhe acertou como um soco, fazendo com que ela se encolhesse na beliche. Ela sabia que ele não queria dizer aquilo, ela sabia que era mentira. Ele só queria esconder tudo atrás daquela fachada de durão. Era isso, não era?
— Beth? Você está me ouvindo? — Carol questionou, chamando a atenção de Beth de volta para o presente. Beth acenou negativamente com a cabeça. — Estão todos bem, todos vivos. Vamos encontrá-los amanhã.
Carol ajeitou-se na cama de baixo da beliche, e Beth tentou manter os olhos fechados, mas a ansiedade fazia seu coração bater forte. Revirou-se na cama por algumas horas até finalmente cair no sono.
Beth acordou cedo pela manhã, saltando da cama animada. Seu tornozelo ainda incomodava, assim como seu punho e os pontos em seu rosto, mas a ansiedade para reencontrar sua família escurecia todas as dores.
— Você acha que eles virão atrás de nós? — Carol indagou, encarando o horizonte pela janela, referindo-se aos policiais do Grady.
— Eles são covardes demais pra isso. Devem ter reparado na nossa bagunça, mas não acredito que eles realmente vão colocar suas bundas em risco — deu de ombros calçando suas botas.
— Bundas? — Carol riu, virando-se para a menor. — Acho que você passou tempo demais com Daryl.
Beth sorriu constrangida, sentindo suas bochechas esquentarem. Ela sabia que Carol havia notado algo, mas com toda a certeza não comentaria. — Vamos lá.
Armando-se com sua faca e mais ainda de coragem, as duas tiraram o bloqueio da porta e rumaram para fora do prédio, onde tudo parecia extremamente quieto, ou talvez fosse apenas Carol guiando-as pelos lugares certos.
Caminharam várias horas pelas ruas, e então pela floresta, quando o sol já estava a pino. O tornozelo de Beth parecia adormecido, e Carol logo fez uma pausa.
Carol escorou-se em uma árvore e Beth sentou-se, descalçando a bota e massageando seu pé.
— Não estamos longe da igreja — Carol comentou ao acaso.
— Carol?! — uma voz surpresa chamou há alguns metros. Beth reconheceu como sendo de Rick.
Levantou-se em um salto, não importando-se com a dor, e parou ao lado de Carol, sentindo as lágrimas queimarem em seus olhos.
Eles estavam lá. Rick, Sasha, Tyreese, Michonne, Carl, Noah e Daryl. O Dixon estava mais ao fundo, mas era como se o olhar dele queimasse diretamente sobre o dela.
Todos a abraçaram, um a um, menos Daryl. Ele permanecia ao fundo, parecendo preso ao seu lugar.
Beth sentiu gelo em seu estômago, pensando que toda a proximidade que haviam adquirido tinha simplesmente sumido. Não, ela não deixaria isso acontecer. Eles haviam mudado um ao outro, isso simplesmente não podia acabar.
A loira encurtou a distância entre eles, correndo em direção a Daryl e jogando seus braços entorno do pescoço dele. O corpo do Dixon endureceu por um momento, mas logo relaxou quando ele enlaçou sua cintura, forte demais, sem nenhuma delicadeza, como Beth esperava que fosse.
De repente as mãos grandes dele seguraram seus ombros, afastando-a bruscamente, mas seus olhos ainda estavam presos nos dela.
— Você — ele disse ao acaso, a voz rouca e baixa, como se tivesse contando um segredo.
— O que? — Beth respondeu, tonta com a intensidade do olhar dele no seu.
— Uma vez você me perguntou o que me fez mudar de ideia.
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