Sociedade do Elevador
1 Único
Era uma segunda-feira como todas as outras, até eu entrar naquele cubículo de metal de um metro e meio quadrado com um espelho que, para todo adolescente pré-festa, era um atrativo de fotos.Me apertei entre seis pessoas para ir à escola. Apesar do limite máximo naquele elevador ser de oito pessoas, não me sentia confortável fazer a decida com seis. Aparentemente a namorada do meu amigo também não, quando o elevador parou ela foi a primeira a gritar por socorro.
-A eu vou morrer aqui! – disse a menina como um pretexto para abraçar seu namorado.
-Calma todos, tenho certeza que foi apenas uma queda de energia e logo tudo ira se resolver. – disse o sindico do prédio imponente, como se naquela situação, estivesse acima de todos.
- Isso você diz agora, mas quero ver na hora que estivermos caindo em alta velocidade apenas esperando para sermos destroçados junto com o elevador. Nunca confiei nessas maquinas modernas- falou com sua voz irritante de uma velha aposentada e pessimista, a ex-professora de português do terceiro andar.
Ficou escuro durante alguns segundos antes de a luz de emergência acender, uma luz branca que deixava todo ambiente com um aspecto mais sombrio. O grito da menina despertou o choro do bebê. A babá não conseguia calar a criança de 3 anos que , logicamente, ia continuar chorando até sair daquela caixa metálica. Então não adiantava a mulher ficar dando pulinhos, chacoalhando-o como se fosse um objeto.
-Não se preocupem ele deve estar apenas com fome – disse ela na tentativa falha de nos acalmar – Oxi menino para de chora que tu não vai morre não.- Aquele sotaque nordestino impregnando todo o ambiente.
Por mais ridículo que pareça, o casal caiu na tentação do espelho.
-Amor...Empresta seus celular? Vamos tirar uma foto...Vocês podem sorrir também se quiserem- ofereceu a menina que até agora pouco iria morrer. Hashtags: presa, no elevador, com meu amorzin. A ex-professora olhou com o canto do olho e teve a “audácia” de corrigi-los:
-O correto seria amorzinho. – comentário desnecessário que veio seguido por mais do mesmo, dizendo ao sindico- Na minha época eu estaria beijando meu lindo namorado – provavelmente nunca existiu – dizendo que o amava imensamente – provavelmente nunca o fez – com medo de morrer em um elevador – o que provavelmente na sua “época” não existia.
O bebê não parava de chorar e a babá continuava a mexer seu corpo na tentativa de acalmá-lo, mas nunca tomando uma providência eficaz ou de algum valor. – Calma minino nois já vai sai daqui.
- O correto seria menino, nós já vamos sair daqui. Uma realidade que eu considero muito distante.- corrigiu a professora.
-Então vamos morrer aqui?! – desesperou a menina das fotos – Eu ainda tenho muito o que viver!
-Calma amor vamos sair daqui.- o namorado tentou acalmá-la.
-Sim muita calma, a energia logo voltará, não precisam se desesperar — disse o sindico olhando para seu relógio Omega.
- E é o senhor que vem me dizer isso? – começou a berrar a professora, que se voltou para o sindico, mudou o tom de voz e levantou seu dedo magro e cheio de rugas para a cara dele.- O senhor é que é o total responsável por isso, não venha pedir calma!!!
-Calma, o que a senhora que dizer co...-péssima escolha de palavras senhor sindico.
-Já disse calma é o caramba!!!O senhor sabe muito bem a que eu me refiro!
-Desculpe , mas eu realm... – quem você que enganar senhor sindico?
-Você sabe sim!!! Eu estou falando sobre o desvio de verbas que eram destinadas a instalação dos geradores!!! – A babá resolveu se intrometer, deu uma bolacha para o bebê para fazê-lo parar de chorar, o que não aconteceu, apesar de o bebê ter comido a bolacha. Não é só fome.
-É se não fosse pelo o senhor já estaríamos todos fora dessa tralha!
-Eu realmente não sei do que as senhoras estão falando. – disse o homem que antes superior, no comando, ficou intimidado cruzando os braços e virando o rosto. A velha não ia desistir tão facilmente. Pôs a mão em seu ombro e puxou-o para começar a discussão.
Bebê chorando, menina dizendo que iria morrer sem ter vivido o máximo da vida, menino confortando-a dizendo que iam ficar bem, como se só houvessem os dois embaixo da luz branca de emergência. Babá quase espancando o bebê para calá-lo, homem se sentindo desconfortável pelas acusações da senhora aposentada , enquanto a mesma ia corrigindo a gramática de todos.E eu, que estava na minha, no meu canto, apenas apreciando a euforia que era suportável, até eu sentir aquele cheiro horrível. Todos sentiram.As pessoas saíram do controle, se debatiam na parede, acusavam uns aos outros.
-Seu porco! – disse a baba tampando o nariz com uma mão e com a outra apontando para o namorado da menina que logo dizia:
-Hei poderia ter sido qualquer um – e o menino concordou enquanto a menina já se virava para ele. – não foi você né amor? – o menino nega com a cabeça.
A professora que já estava no embalo das acusações apontou para o sindico.
- Além de ladrão é nojento. Vai peidar na casa da sua mãe homem! – o sindico se defendeu apenas apontando para o bebê.
-Deve ter sido esse bebê que não para de chorar.
- Não é culpa dele se elevador parou né – respondeu a babá com aquele sotaque e apontando a cabeça para o homem.
As acusações não paravam, era uma gritaria imensa, um caos só.
E eu ali, quieto no meu canto. Onisciente de tudo e “quase” inocente.
Quando o elevador abriu todos saímos e seguimos com nossas vidas, uma vez que era insuportável ficar no elevador. E o cheiro também saiu, ninguém o sentiu mais, ele se perdeu na atmosfera.
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