Hans Braun e Joseph Hesse postaram-se parados à frente do aeroporto internacional de Frankfurt, Alemanha. O dia estava claro e bonito, e a face corada de Hans resplandecia. Joseph, apesar de tentar arduamente manter a pose, não podia conter uma leve insinuação de sorriso no canto esquerdo do rosto firme.

—Olhe bem para esse céu, Braun. Na SOL, quando você sai do seu país uma vez, nunca sabe se um dia vai voltar. – Joseph disse, emocionado.

—Deixe de baboseiras, Johe. Claro que vou voltar.

Neste momento, duas pessoas chegaram por trás de ambos. Uma voz feminina disse, atrás de Hans:

—De fato, Hesse, nunca se sabe.

Hans olhou para trás, incrédulo. Uma careta se formou em sua face.

—Você... A moça daquele dia?! – Hans gritou.

—Boa tarde, aprendiz do Hesse! Volto a me desculpar pela semana passada...

—Não peça desculpas, Helena. Se ele realmente quiser ser da SOL, deve aprender. – Disse a outra pessoa, um rapaz de mais ou menos vinte anos em vestes escuras e de cabelo ruivo, também escuro. Ela tinha um sotaque asiático forte e os olhos um pouco puxados e serenos.

—Não seja tão dramático, Jun. A propósito, eu sou Helena Klein, ex-aprendiz de Joseph. – E a moça sorriu, jovial, brilhante em seus diversos acessórios de beleza.

Hans não respondeu.

—Hans... – Joseph reclamou, calmo. – Responda a Helena.

—Não tenho porque responde-la. Eu treinei muito semana passada. Já te superei, moça! – Hans bradou.

—Eu sou Takahashi Junnichi, japonês. Responda à meu parceira em meu nome, Hansu, se desdenhas do nome dela. – Disse o rapaz ruivo, taciturno.

—Haha! “Hansu”. Que piada! Por que eu deveria respeitar você também? – Hans ameaçou, divertindo-se com a situação.

Junnichi deu um passo à frente, ameaçando um ataque. Porém, Helena o impediu com o braço.

—É um menino interessante, não Hesse? Deve ser muito trabalhoso treiná-lo. – Helena disse, sorrindo.

—Herena, você deixar um pirralho desses fazer o que quer? – Bradou Junnichi.

—Tenha paciência, Jun! Eu acredito que a SOL carece de gente desse tipo. Determinada e irreverente. Eu gosto disso. – Sorriu.

—Baka! Na minha terra, é bom ter disciplina.

—Nesse aspecto, tenho que concordar com seu parceiro, Helena. Hans é muito desobediente... Eu tentei convencê-lo a não participar do campeonato, mas ele não me escutou...

—Nós fizemos um trato, velho! – Hans falou a Joseph. – Eu consegui pegar a pulseira dessa mulher. Agora, você me deixa ir pro campeonato!

—Sim... – Suspirou Joseph. – E é por isso que os chamei. Helena vai lhe ensinar a ultima técnica básica de um Assassino, lá na América, enquanto você se prepara para o campeonato. Espero que você não ache que será fácil...

—Não tenho nada a aprender com essa mulher...

De repente, Hans gelou. Havia uma pequena dor no centro de sua nuca, como uma agulha que se pressionava contra sua vida, e um terrível sentimento de estar sendo observado. Helena suspirou, decepcionada. Joseph suspirou, concordante.

—Chame Helena de mulher de novo, maldito, e esse punhal entrar em seu pescoço. – Disse Jun, abaixando a faca e entrando no aeroporto logo em seguida.

Helena correu para perto do companheiro, brigando com ele, enquanto Joseph bateu nos ombros de seu discípulo e seguiu os dois, rindo. Hans também sorria, hediondo. Na primeira vez, havia sentido um medo mortal. Dessa vez, porém, o que sentia era uma terrível e diabólica ansiedade.

—- X –

Esperaram pelo avião em um silêncio incômodo que apenas Hans e Helena souberam aproveitar. Enquanto a moça sorria estupidamente e se deleitava com tudo ao seu redor, Hans divagava em seu pensamento, viajando entre pães de queijo, facas e o campeonato. Junnichi passou todo o tempo em uma meditação mal sucedida. Joseph sentiu-se solitário e, portanto, leu jornal.

O vôo de avião, porém, foi mais confortável socialmente. Joseph, prevendo conflito, enviou Hans à cadeira mais distante do aeroplano e sentou-se com Junnichi e Helena, e os três conversaram animadamente sobre a situação política da SOL. Depois, quando o assunto se voltou a Hans, Joseph disse, cauteloso:

—Ele é uma pessoa estranha de habilidades estranhas. Ele tem uma péssima luta corpo-a-corpo. Seus golpes são precisos demais, e por isso é fácil prevê-los. Além disso, sua velocidade não é nada excepcional. Sua espreita é fraca por ele ser muito agitado, porém há um potencial nessa área se ele se concentrar.

—Hesse, já se perguntou se ele não seria melhor como um espadachim, ou mesmo um lenhador como você? – Perguntou Helena com gentileza.

—Já, Helena, e já disse isso a ele também. Mas ele não escuta. Ou ele é um assassino, ou simplesmente não é da SOL.

—Acho melhor ele desistir da SOL, então. – Comentou Jun.

—Jun! – Helena censurou.

—Falo sério, Helena![i] Kuso[/i]... aquele moleque realmente me irrita. – E Jun voltou-se para a janela, seus olhos escondidos pelo longo cabelo de fogo.

Helena suspirou.

—- X –

O grupo chegou ao aeroporto de Nova York às cinco da tarde, enquanto o sol se punha dourado pelas brechas dos edifícios. Hans ficou maravilhado com a cidade grande, impressionado com os imensos prédios e com o ar de marginalidade que perfumava as ruas à noite. Os três foram até um bom hotel e alugaram dois quartos em um dos andares superiores do edifício. Enquanto subiam o largo elevador, Hans perguntou a Joseph:

—Onde vocês arranjam esse dinheiro?

—Não se preocupe com isso por enquanto. Você tem cinco horas para descansar. Meia noite nós vamos sair para treinar. – Respondeu Joseph.

—Sim, sim, Johe! O que treinaremos hoje?

—Segredo! – Sorriu Helena. Então, seu semblante se tornou sério e ameaçador: — Mas é melhor que você esteja preparado...

—Como se eu tivesse medo... – Hans falou, de voz trêmula, porém confiante.

Durante as cinco horas seguintes o garoto ficou limpando seu boné na cama e assistindo televisão. Joseph limpava seu grande machado na varanda, enquanto lia um pequeno livro de bolso. No quarto ao lado, Helena dormia enquanto Junnichi meditava na varanda. Uma hora antes da meia noite, Helena acordou e, junto com seu parceiro, eles se alongaram no escuro silente do quarto, como em uma dança fluida e agradável, sem música, sem nada. Exatamente na hora marcada, os dois bateram na porta do quarto de Hans e Joseph e eles desceram os 11 andares que os separavam do chão em um hotel silencioso.

Assim que saíram da construção, Junnichi correu até um beco na calçada oposta ao hotel e se fundiu às sombras. Hans estranhou de início, mas depois relevou. Sabia que aquilo era parte da estratégia de Jun e Helena, onde ela andava á vista pela rua e ele espreitava, atento à qualquer observador oculto. Joseph, como de costume, andava a frente do grupo de peito estufado e com ares grosseiros, postura típica de um lenhador.

Enfim, chegaram a uma praça escura e fria, iluminada por um único poste. Hans notou com interesse que os postes de Nova York possuíam uma cor mais branda e alva, ao contrário das luzes amareladas e doentias da Alemanha. E o fato não o agradou muito: gostava da aura underground e marginal que aquela luz amarela cedia às suas noites.

—Então, o que tempos para hoje? – Perguntou Hans, enfiando-se ainda mais em seu casaco. A noite estava realmente fria.

—Treino de mira. Arremesso de adagas. – Respondeu Helena em seu tom sério e ameaçador. – O Jun irá te ensinar. Ele é muito bom nisso.

De trás de uma árvore grossa, o vulto negro e quase invisível se aproximou do grupo. Junnichi estava mais obscuro e taciturno do que nunca, e o próprio clima, percebeu Hans, havia se tornado um tanto pesado e sério.

Estava tudo ao seu mais profundo gosto.

—Vamos começar com cinco metros. Se posicione aqui... Vou lhe ensinar a mirar e a jogar da maneira correto. [i]Kore[/i], nessa caixa temos vinte adagas. Primeiro, você pega no cabo assim...

Porém, antes que Junnichi demonstrasse a pegada, Hans atirou a faca com desenvoltura e ela se fincou no tronco em uma posição perfeita. Os três mestres observaram, espantados.

—Fácil. – Hans suspirou. – Quem foi que disse que eu tenho golpes precisos mesmo?

—Hans, escute as indicações antes de sair atirando! – Reclamou Joseph.

—De vinte metros, agora. – Cuspiu Jun, irritado.

Andando quinze metros para trás, Hans se virou, pegou uma das facas, calculou seu peso e a atirou contra a árvore. O punhal fincou-se contra o tronco em uma batida seca e suave, precisa. O garoto sorriu vendo a incredibilidade no rosto dos mestres. Não tivesse o poder subido à sua cabeça, seria uma ótima noite. Era a primeira vez em todo seu treino que conseguia dominar uma técnica com tamanha destreza, talvez pelo fato do trabalho na loja de seu irmão ter lhe dado precisão e método.

—Você ser bom, mas falta técnica. Com a técnica, você pode se tornar muito bom... – Disse Jun. Porém, Hans interrompeu-lhe.

—Técnica? Você acha que pode me ensinar algo, Taka-chan? – Hans provocou, malicioso.

Helena contraiu o semblante, atenta ao conflito iminente. Joseph pegou seu machado e se aproximou de Hans, a fim de acalmá-lo. Jun, porém, já havia se segurado demais. Enrubescido de raiva, Takahashi Junnichi avançou para tomar as adagas de Hans. Antes que se aproximasse, porém, o garoto concretizou a atitude que instalaria a desordem: ele arremessou em Jun uma lâmina afiada que não lhe violou a pele clara por apenas cinco centímetros de distância. Helena e Jun estancaram, atônitos. Foi a vez de Joseph se descontrolar, porém, e num movimento retumbante ele acertou Hans com a face do machado e o fez voar metros e cair perplexo ao chão.

—NUNCA, EU DISSE NUNCA APONTE UMA LÂMINA PARA UM MESTRE SEU! – Joseph gritou e se adiantou para continuar a punição, porém Helena o parou.

Hans se sentou, entorpecido, e levou a mão à face distorcida. Sentiu o inchaço imediato e o sangue que lhe escorria aos montes sob os beiços. Parecia que havia sido atropelado, tamanha a força do lenhador Joseph Hesse. Surdo a qualquer pensamento, Hans levantou-se e correu o mais rápido que pode. Junnichi tentou alcançá-lo, porém fosse ruim o quanto fosse na arte do assassinato, Hans era um exímio corredor.