Sociedade Anônima dos Livros

5 Capitulo 4: Um prólogo muito longo, parte IV


HELENA

Sou uma garota aplicada, por isso acordei cedo neste dia maravilhoso. Meus pais não poderiam fazer isso justamente por encontrarem-se nesse momento fora do país – meu pai era diplomata e minha mãe roteirista de filmes. Tirando isso, um novo amanhecer me esperava e com ele, uma excelente notícia. Num sorteio, feito em um site muito confiável da internet, eu ganhei um ingresso para o show do príncipe do pop latino, a maior revelação mundial dos últimos tempos. Tinha três letras, só que três letras de formosura, fofura e outros adjetivos que pudessem destacar aquele garoto das favelas de Salvador chamado Kai.

Logo que acordei, fui verificar meu email como de costume e vi. Não pude segurar meu grito, queria fazer o mundo inteiro saber que tinha sido uma das três escolhidas a ver a apresentação dele na praia de Copacabana. Ainda em cima do palco! Não acreditei totalmente até ver a autenticidade da mensagem – claro! Tinha que ter muita calma nessa hora – e, portanto compartilhar a minha felicidade com minha irmã gêmea mais nova. Stephany – a qual carinhosamente chamava de Teca. Ela dormia profundamente, afinal estudara a noite e acabara por chegar tarde à noite anterior. O único problema? Eu não ligava para isso. Iria acordá-la a fim de compartilhar a notícia.

Diferente de muitos, eu e a Teca passamos relativamente bem a despeito da implantação da Lei do Índex. À época da instauração meu pai era o vice-presidente do Brasil e por causa desse status social, ninguém fez nada conosco e por vezes a Teca nos comparava a um oásis no meio do deserto. Visto que ainda possuíamos coleções e coletâneas literárias – já reduzidas – pois a ISIS, liderada por um franco americano chamado Luís Pasteur, recolhera boa parte. Tudo culpa dos meus pais que nos obrigaram a dar a ele muito dos nossos livros. Contrabandeamos alguns com o intuito de que eles chegassem a uma suposta sociedade a qual se dizia ter um acervo grandioso.

E eu era testemunha de como era grande.

Tudo começou numa festa de comemoração aos cinco anos de sucesso da ditadura da espada, da ignorância – ops... A instauração da Lei mundial de combate aos pensadores. Ocorreu na linda e maravilhosa Paris, na embaixada russa. Lá estava eu, sentada junto a minha irmã, a qual possuía uma cara de tédio maior do que se ela estivesse num shopping, e da nata da sociedade mundial quando recebi uma mensagem. Vinha de um tal de P, pedindo a que eu fosse ao terraço...

Veja bem o pedido: eu – linda e maravilhosa, com um vestido vermelho da Chanel, uma bolsa da Louis Vitton e um sapato alto da Prada – deveria ir ao terraço! Obviamente ignorei... Só que minutos depois, a Teca recebeu a mesma mensagem do P. Isso era estranho e excitante ao mesmo tempo, por isso a curiosidade matou o gato.

Subi com dificuldade, já minha irmã que vestia uma caça jeans simplória, uma bota, uma blusa branca e uma jaqueta de couro preta, subiu com certa facilidade. Mas ela não estava se vestindo como uma garota deveria se vestir num evento como aquele. Por isto decidi, naquele momento, dar aulas de moda para ela.

Lá em cima a Teca estava sorrindo ao ver um homem alto, magro, de pele levemente escura cujos cabelos eram ocultados por um bonito chapéu. Era bem vestido – reconheci o terno Armani de longe – e possuía um dos livros que havia sido pegos em nossa casa: Harry Potter e a Ordem da Fênix. Como eu sabia disso? A capa daquele livro estava levemente desgastada e eu como uma fã sabia os locais os quais ele estava mais “amassado”. E não só eu, minha irmã também sabia.

– Onde você conseguiu esse livro? – perguntei ajeitando meu vestido à medida que aproximava – Roubou foi?

– Não sou o menino que roubava livros – ele sorriu ao fazer um trocadilho com o nome de uma obra famosa – Eu ganhei.

– De quem? – continuei, agora ao lado da minha irmã – Posso saber?

– De você...

– Como assim?

Então eu lembrei quando ele se virou de costas e olhou por cima do ombro... Aquele rapaz fez parte do grupo que viera pegar os livros para a ISIS. Ele continuou com seu sorriso esbranquiçado e sarcástico.

– Nenhum dos rapazes que foram buscar seus livros era da polícia especial – ele coçou o nariz como se gabasse do que havia feito – nos disfarçamos para coletá-los.

– Por quê? Para ficar para vocês?

– Engraçadinha... Eu sou o líder da Sociedade Anônima dos Livros.

– Mentira – dessa vez foi a Teca que disse – O que lhe faz dizer que é da Sociedade? E ainda mais o líder?

– Quero e pretendo provar... Mas vocês tem coragem suficiente para tal fato?

Tínhamos. Só que eu ainda não acreditava nas palavras daquele homem. Será que ele não era infiltrado visando conseguir alguma confissão nossa? Eu possuía várias dúvidas, só que a Teca sorriu para mim. Posso ser a esperteza, mas ela era a inteligência. Redundante não? Mas refiro-me a que ela possuía textos maravilhosos e tinha um sonho. Sonho este que ao entrar para essa seita secreta poderia ser realizado.

– Sim! Nós temos! – ela respondeu segurando meu braço – Agora nos surpreenda P...

Dalí, seguimos as instruções dadas e nos retiramos de fininho da festa. Eles nos esperavam com um furgão, a qual abrir a porta traseira, ficar bem animada. A diversidade de livros que havia ali me faria viajar para diversos mundos, observar diferentes histórias, ser fanática pelos personagens... O que ele estava fazendo era algo maravilhoso. Após isso ele disse que quando voltássemos ao Brasil, nós viríamos a Biblioteca deles.

Duas semanas depois fomos apresentados a uma maravilha.

Recebemos a mesma mensagem e rapidamente saímos para encontrarmos com P. Ele nos esperava no Parque de Educação Professor Mello Barreto, na Avenida Juan Manoel Fangio, próxima a nossa casa que ficava na Barra da Tijuca.

– Está mais calma morena dos olhos azuis? – P me ironizava a cada vez que me encontrava e isso me irritava na mesma proporção – Ou diria fã do Kai?

– Para seu governo o Kai é muito melhor que você. Ele subiu na vida, foi procurar um emprego no meio de tudo isso, e ele ainda é a voz do povo. Então lave sua boca para falar do Kai.

– Mas eu não falei nada – ele sorriu amarelamente e depois se virou dizendo – Eu sei... Eu tenho orgulho daquele cara.

– Calma maninha – A Teca se virou para mim – Ele não disse nada demais.

Foi então que sussurrei no ouvido dela.

– É que não gosto do jeito que ele me trata.

– Tá certo – ela disse indicando os dois polegares dela para mim. Tinha ironizado minha irritação e isso me fez esboçar um leve sorriso.

Depois disso, nós adentramos em no carro trazido pelo P. Com um pedido gentil, colocaram vendas nos nossos olhos e com isso ficamos literalmente como aqueles três macaquinhos. Cega – por que não podia se enxergar nada. Surda – devido à barulheira que vinha do lado de fora. E por fim muda – pois a ansiedade de ver uma grande biblioteca comera minha língua. Só imaginava coisas as quais no mundo em que vivíamos eram proibidas: como ler, praticar seus pensamentos... O corpo e a as armas valem mais que a mente e a oratória, mas sempre me perguntei por que não unir a beleza que é o ser humano com a inteligência? Ser mais um rostinho bonito na multidão me incomodava, afinal todos os homens que se aproximavam não sabiam a diferença de “mais” e “mas” ou falavam coisas sem sentidos para um primeiro encontro. Pensavam que sou qualquer uma que se preocupa com a beleza somente. Isso era o que me irritava genuinamente... Só não mais que o líder da tão aclamada Sociedade Anônima dos Livros.

Ao chegarmos, retiraram nossas vendas. Nos encontrarmos em alguma viela subterrânea da cidade maravilhosa. Percebi os olhares diferentes dos membros da organização a mim e a minha irmã. Talvez por causa de nosso status social ou talvez porque eu estava com uma camiseta azul e uma sai jeans meio curta. Já minha irmã vestia com uma camisa dos Beatles e uma calça preta.

– Você se veste como uma puta, como a Hannah Lee – comentou uma garota que surgia de uma entrada no fim do corredor.

– Se uma puta nos dias de hoje pode arcar com blusas e camisetas da Prada você me diga – respondi rispidamente... Como alguém poderia dizer isso de mim? – E quem é você?

– Priscylla Di Miranda, segunda em comando aqui – ela me olhou como se me ironizasse – E quem é você?

A ênfase na palavra quem me deixou incomodada.

– Helena Evans – caminhei lentamente e murmurei no ouvido daquela garota – A maior doadora de livros à sua coleção particular...

Ela me incomodava. Eu a incomodava. Estávamos quites.

– As princesas podem parar de brigar? Isso não é um lugar para tretar e sim um local para a transmissão de conhecimento – disse P caminhando a porta de onde viera Priscylla.

– Você e sua língua né maninha? – a teca sorriu e acompanhou o P. Ela parecia mais empolgada do que eu em relação a estar ali.

– Doadora! – exclamou a minha desafeta – Tens noção de defesa pessoal

– Todos que frequentaram o planalto na administração de Luís Gustavo Neto têm noção – respondi com certa naturalidade – Por quê?

Assim que terminei de falar Priscylla sorriu... E eu não gostei daquele sorriso.

P me chamou e vimos algo deslumbrante. Um abrigo subterrâneo de seis andares dava-nos o cartão de boas vindas. Seis lances de prateleiras cheias e repletas de livros, os quais milhares de pessoas poderiam ter acesso. O fundo era branco e apesar de se localizar embaixo da terra era muito bem arejado. O único barulho que se escutava além dos passos das pessoas, as folhas de livros passando me trazia um sentimento primoroso. Ali você poderia debater sobre qualquer coisa sem se preocupar com a onomatopeia do “Shiu” usada pelos governantes. Conhecimento transferido. Conhecimento que não se perdera com o passar do tempo. Histórias as quais nos faziam passear e viajar em diversas aventuras. Conhecer novos amores, namorados, depressão pós-livro... Tudo o que eu podia fazer escondido, ali eu poderia fazer abertamente. P, aquele chato e irritante, também deveria ser chamado de gênio por fazer tudo aquilo.

Voltando aos dias atuais, eu sorri antes de entrar no quarto da Teca. Por causa de: Um, eu me lembrei da nossa caminhada até ali e de como viramos membros da sociedade e ajudávamos a retirar livros das mãos da polícia especial. Dois, eu queria acordá-la e irritá-la com minha notícia.

– Teca! – me joguei na cama e a remexi – Não sabe o que aconteceu!

– O qu... – ela respondeu ainda com uma voz sonolenta – que fo.?

– Acorda garota! – comecei a pular na cama

– O QUE É? – disse um pouco irritada.

– Agora levantou foi?

– E como é que não acorda com isso? – ela se virou na cama e coçou o olho antes de continuar – Quem morreu?

– Ninguém – eu desci da cama e me preparei ao que vinha a seguir – Eu vou ao show do Kai. Irei ver ele do palco. P-A-L-C-O.

– E você me acordou por isso – ela cerrou os punhos e pegou um travesseiro.

– Sim!

– EU VOU TE MATAR HELENA EVANS!

E ao meio a gritaria e a minha irmã vir atrás de mim com um instinto assassino, armada – pasmem! Com um travesseiro – nós continuamos a viver nossas vidas como criminosas – afinal ler era crime e passível de punição – mas com muito orgulho do que fazíamos.