Sociedade Anônima dos Livros

6 Capitulo 5: Um prólogo muito longo, Parte Final


LETÍCIA

Naquele dia maravilhoso, minha manhã começou como todas as outras. Ou até ao menos eu ver o que me esperava pelo resto do dia. Eu havia ganhado o ingresso para acompanhar o show do meu ídolo nos dias que aconteceriam os shows. Primeiro porque as musicas dele retratavam a realidade em que a sociedade vivia de um jeito irônico, de um jeito que fazia você dançar, cantar, adorar e ainda com um tom crítico. A nova música dele “Everytime” que vazou na internet há dois dias era um retrato clássico disso. Dizia que ele tinha tantos fãs, que ele mal podia ver todos um por um. Não acreditava que todos estariam acompanhando a caminhada dele desde os guetos de Salvador. Eram tantos sonhos, mas ele só tinha somente um. Todos estavam unidos, ao entorno de um. Um mundo melhor, um mundo a qual nossas escolhas possam ser livres. O refrão expressava que ele sonhou. Que ele via. Que ele realmente dizia aquilo. Podia ser um pouco magro, mas era inteligente. Tudo que uma mulher como eu implorava.

Só não gostava das fofocas que o rodeavam. Como assim ele poderia está namorando uma vadia que nem a Hannah Lee? Logo que soube procurei me informar rapidamente. Iria ser a defensora dele, custe o que custasse e por isso fui pesquisar mais sobre a cantora pop, que escandalizava o Brasil por suas musicas sensuais e a já comparavam como a versão feminina do Kai. Se ele era o topo da Billboard por onze semanas seguidas, ela alternava entre a terceira e a quinta posição. Mas era tão conhecida quanto ele quando o assunto era Ásia e aqui eis o porquê.

Ela era filha de dois militares sul-coreanos que vieram ao Brasil para treinamento com o exército brasileiro. Antes do Índex se tornar uma ditadura forte, ela era a representante da equipe feminina de Taekwondo Brasileira. Era até prodígio ganhando medalhas, mas insatisfeita com a tal lei, mudou de ramo e foi cantar. Cresceu na mesma época que o Kai. Só que diferente dele, não subiu do nada afinal sua família era rica. Não posso negar que era bonita e que com as roupas sensuais que vestia chamava mais atenção do que um menino magrelo. Mas o que a ditadura da espada não fazia? Uma mulher com um corpanzil rapidamente ascendeu ao sucesso em apenas um ano enquanto um garoto favelado levou anos para atingir o sucesso.

Parecia que aquela mulher queria roubar o sonho de milhões de adolescentes. Mas não só eu como várias, não aceitaríamos aquela garota. Não poderia ser uma vadia daquela a enfeitiçar um garoto simples como o Kai, mas ninguém manda no coração. Só iria ficar de olho naquela... Já disse o apelido dela não?

Então... Como ia dizendo a manhã começou muito boa. Só que eu tinha que buscar minha prima, Manuela Ricci no aeroporto e isso não era legal, justamente porque eu não queria sair de casa naquele momento. Convidei minha amiga Barbara para vir comigo, aliás, ela tinha a mesma opinião que a minha sobre tudo. Eram quase como gêmeas e foi à pessoa que mais me apoiou quando aquilo aconteceu.

Aquilo era algo que eu costumava não contar, mas que aqui contarei... Todas as amigas tinham blog, e o meu era o maior, tinha mais seguidores, mais visualizações, etc. Barbara e eu escrevíamos textos e uma pequena história que agradava a todos que liam e perguntavam-se quando nós iríamos publicar. Foi aí entrou duas garotas, atualmente ex-amigas nossas, as quais são gêmeas e elas tinham carinhas de anjo, só que aquele ditado “Lobo em pele de cordeiro” cabia apropriadamente para aquelas as quais não quero nem dizer o nome.

Elas eram muito certinhas, santinhas, inteligentes, uma família linda e feliz. Mas no fundo, elas eram duas malucas, a mãe depressiva e o pai é outro louco. Sem contar que tinham dinheiro e quem tem dinheiro nesse país sempre se dá bem. Não importa qual seja a sua índole. Enfim... Elas começaram a plagiar nossas histórias e claro, naquela época, aquilo era meu tudo. Nos matávamos pra escrever aquela droga pra duas pseudoamigas virem e plagiaram na cara dura? Primeiro conversamos como humanos, e pedimos a elas que parassem...

Só que elas não pararam e começou o que chamamos posteriormente de rolo. Elas deixaram de andar com a gente na escola, sendo que nunca falamos nada. Daí, outra amiga minha – essa muito rebelde – começou a discutir e a fazer a maior confusão dentro do colégio. Como se fosse ela a ofendida e amava amigas dessa forma. Era assim com as minhas amigas e amigos e gostaria que eles fossem assim comigo. Dada às atitudes das partes, elas ficaram sozinhas, o povo começou a isolá-las, afinal quem queria por perto pessoas que poderiam lhe apunhalar pelas costas? Por isso, foi quando as “santinhas” puseram os pais delas no jogo. Eles começaram a falar que eu e minhas amigas éramos criminosas, que iam à polícia, porque isso era bullying entre outras coisas mais.

Só que a gente nunca fez nada. Claro, teve momentos que nos exaltamos e brigamos com elas, mas nunca ofendemos. Somente espalhamos o que aconteceu para deixar com que o povo decidisse o destino. Para que eles julgassem quem estava certo e quem estava errado. E outra! Plágio era crime, mesmo que não fosse obra registrada, elas já estavam praticando. Os pais delas gravaram todas nossas conversas sem autorização, o que poderia ser invasão de privacidade.

Ele foi à escola, ameaçou minhas amigas e eu, falando que se não fossemos na casa dele se desculpar, ia à diretoria e além de tudo, iria nos entregar a polícia especial. Ele chegou a mim e disse que por ele ter dinheiro, as filhas dele passariam ilesas pelo crime de postar histórias que colocassem em xeque a ditadura da espada. Eu, uma simples ralé, iria apodrecer na prisão pelo resto da vida e sabe lá o que a ISIS poderia fazer comigo.

Como não fomos, no outro dia, ele foi à diretoria pedir pra diretora expulsar a gente. Nossa! Isso foi o pior, nós sempre fomos umas das melhores alunas. Sempre participávamos dos eventos, apresentávamos teatros, etc. e por fim, ele ligou para os nossos pais e teve toda uma discussão. Acho que nunca chorei tanto na minha vida. Meus pais ficaram decepcionados e eu não tinha culpa total. No último dia da semana, fomos pra escola, todo mundo perguntando o que tinha acontecido e visando guardar segredo da ameaça, não contamos nada. O povo sabia quem estava certo e quem estava errado, porém não deveria saber o que tinha acontecido entre a gente e a família das gêmeas.

À noite o pai das gêmeas apareceu em casa. Acho que primeiro ele queria me desmoralizar em frente a minha família antes de me denunciar. E sinceramente, eu queria isso. Por que iria fazer questão de afundar a família dele junto. Só que minha mãe foi incrível! Não me defendeu, mas também não deu razão pra ele. Daí eu acho que a ficha dele caiu...

– É, mas vocês espalharam para escola o que tinha acontecido, vamos deixar pra lá e voltem ser amigas – foi isso que ele disse após a discussão com minha mãe terminar – Por causa de uma simples história, tudo virou uma confusão e ninguém consegue dormir. Que tal aceitar minha proposta?

Eu olhei bem pra cara dele.

– Não. Não vai voltar. Porque olha o que vocês causaram! – disse com lágrimas... Lágrimas de raiva — Quando fomos ameaçadas! Eu e minhas amigas em frente da escola, na hora da saída! E além do mais, nunca vou esquecer o que você disse para mim em particular... Que eu iria apodrecer na cela de uma policia especial. Se eu cair, meu senhor, suas filhas vem comigo... Darei minha vida por isso.

Ele deu um muxoxo e se retirou. Passou-se duas semanas e teve reunião de pais e mestres e o que eu sei, foi minha mãe que me contara. Ele pediu a palavra e após isso começou a falar de internet e bullying/cyberbullying. Terminado o minidiscurso, a diretora virou pra ele e falou:

“O que acontece do portão pra fora da minha escola, não é da minha responsabilidade”.

E deu às costas pra ele. Só que é da responsabilidade dela sim, conscientizar os alunos que isso é errado, todavia ela sabia que eu e minhas amigas não tinha feito um terço do que ele nos acusava e, portanto, fez vista grossa. Só que eu não posso considerar isso uma vitória – ele terminou não me denunciando. Meus pais hoje, não confiam mais em mim, mesmo se eu disser a verdade eu estou mentindo. Tive que acabar com o meu blog, com o intuito de evitar novas ameaças do tipo...

Porém pelo menos, serviu pra mostrar quem são os verdadeiros amigos e fortaleceu ainda mais minha amizade com as outras meninas apesar de que não ter confiança dos pais é a pior coisa na vida de uma pessoa... Enfim, uma coisa tão bobinha, deu nisso. Agora, eu estava atrasada para buscar minha prima e ainda tinha que ir de ônibus e isso demandaria um tempo grandioso.

Levou quase quarenta minutos para chegar ao aeroporto de congonhas e eu já sabia que minha prima já havia aterrissado por causa da mensagem que recebi em um aplicativo que possuía em meu celular. Ela estaria esperando em frente do guichê de uma das empresas aéreas de maior nome nacionalmente.

– Sua prima costuma ler escondido que nem você, Lea?

A Barbara – ou Babi como eu costumava chamar – sempre se referia a mim pelo apelido que recebi por um idiota do terceiro ano do ensino médio de meu colégio.

– Não – respondi ao descer do ônibus e retirar meu celular do bolso do meu short – Ela até gosta da leitura, mas é indiferente com toda a situação. Prefere as coisas eletrônicas entende?

– Ela faz o que?

– Terminou o ensino médio e vai passar férias aqui... Mas passou na universidade para Análise de Sistemas.

– Então gosta mesmo da tecnologia.

– Ela é meiga, ela sempre me segue no que eu faço, porém não acha graça de muita coisa que fazemos. Considero-a meio preguiçosa.

Nós caminhamos um pouco e sem dificuldades a encontramos. Por quê? Cabelo acobreado de tamanho médio e franja, olhos cor de mel, magra e branquíssima com poucas sardinhas... Ela se destaca a aonde vai, e ainda mais com o que vestia. Parecia realmente uma turista com uma blusa simples meio transparente no qual o biquíni que usava aparecia entre as frestas da blusa. Esta ultima parecia um vestido de grande que ocultava o microsshort colorido que vestia. Óculos Ray Ban e estilo patricinha que gostava de estar nas festas e bocadas. Essa era minha prima Manuela Ricci.

– Olá Letí – disse retirando os óculos e pondo-os na bolsa da Chanel.

– Oi Manu – me dirigi e a abracei forte.

Não disse antes, mas a Manu era mais briguenta que eu. Tinha um namorado oculto, supostamente alguém ligado à mídia chamado Vinícius. Ninguém sabia quem era esse cara e ela nunca mostrara a foto. Só que todos acreditavam por causa justamente de uma coisa: Manu nunca mentia, era sempre sincera. E quando era para mentir, ela contava uma meia verdade... Se for esse o caso, das duas uma: Ela realmente tinha um namorado, mas não chamava Vinícius. Ou ela tinha alguém chamado com esse nome que ela gostava tanto que o chamava de “Boy Magia” ou de “Mô”.

Foi quando eu vi...

Primeiramente não acreditei. Sinceramente, quais as possibilidades de no mesmo aeroporto onde eu pegaria minha prima, eu visse a mulher que eu mais odiava na face da terra? Tudo bem, odiar é uma palavra forte, não gostar suavizava a situação sem perder o sentido desta... Ver Hannah Lee naquele momento, cruzando o saguão de desembarque foi demais para mim. Não iria fazer nada de inicio, só que a provocação fora grande. Ainda relevei quando ela e a bela empresária dela – Pâmela Mussoi – passaram por nós. Só que, como ninguém é de ferro, eu me virei a ponto de escutar o final da conversa das duas.

– Que horas você quer marcar com o Kai? – perguntara Pâmela manuseando seu tablet com a mão direita.

– Quem escolhe é o homem – disse ela ajeitando seus óculos de aviador – Aquele moleque das favelas já ligou?

Aquilo me fez cerrar os punhos. Manu e Babi se entreolharam e começaram a tentar me segurar, falando que nada viria de bom em brigar com uma cantora que tinha parte do mundo a seus pés. Todavia...

– Só o empresário dele – disse a companheira da cantora sem tirar os olhos do aparelho que segurava – Igor Oliveira, um gatinho até por sinal.

– Então o pobretão tá se fazendo de difícil né?

Aquela resposta, com uma voz fina e irritante, me fez tomar a ação. Desvencilhei-me de minha prima e de minha amiga e fui em direção das duas.

– Quem é você para falar do Kai – dei uma pausa magistral – vadia?

Hannah se vestia como uma. Um vestido curtinho preto com um generoso decote e um casaco de xadrez para combinar com os acessórios vermelhos e botas que vestia. Para os homens, uma deusa caminhando na terra. Para as mulheres, uma vaca que usa o corpo para conseguir o que quer. Pessoalmente, prefiro mil vezes a minha prima a aquela mulher, em termos de beleza.

Após eu gritar com ela, a cantora se virou e me analisou. Eu vestia uma jaqueta jeans sobre uma camisa da banda americana One Direction, e um short curto jeans. Eu calçava uma sandália branca.

– Oh – ela sorriu sarcasticamente – Eu te conheço, insignificante?

– Sou Letícia Mantovani – respondi devolvendo o sorriso – E você ainda não respondeu minha pergunta.

Ela tirou os óculos e os entregou à empresária. Os traços orientais de Hannah ficavam mais visíveis com o delineador que utilizava.

– Eu sou uma das amigas próximas dele – cruzou as mãos e esticou um pouco a perna – Posso chamar ele do que eu quiser.

– Pode é? Se eu tivesse um nome como aquele próximo a mim, eu estaria é elogiando, o apoiando, oferecendo carinho e não apedrejando com palavras duras e cruéis.

Hannah aquiesceu.

– Garanto que dessa forma não consegue um relacionamento duradouro, baranga.

– Ao menos, não preciso vestir roupas provocantes para chamar a atenção deles.

–A beleza é para se mostrar – ela voltou a me analisar – Coisa que você não tem, me desculpe pela verdade, recalcada.

– Vejo que o que tem de corpo, não tem de cabeça.

O clima estava tenso. Percebi Manu sorrindo e Babi desesperada. Curiosos começavam a se aproximar pensando que haveria uma briga no meio do aeroporto e talvez fosse essa a razão para que minha amiga ficasse agitada e querendo me tirar dali. Ela não sabia, mas eu não iria arredar o pé daquela posição... Ou Hannah continuava seu caminho, ou brigaríamos ali mesmo.

Eu me perguntei se seria possível enfrentar alguém que já participara e vencera torneios de luta, entretanto deveria confiar mais em mim. Quando mais jovem, fiz dois anos de balé e capoeira, deixando mais rápida e ágil apesar do fato de que fazia um ano que eu deixara de ir às aulas. A noção estava lá e graças a deus eu vim de short. Se eu fosse de vestido ou saia longa, não teria a menor chance.

– Pâm! – gritou a tão falada amiga próxima de Kai – Cartão.

A faz tudo de Hannah então retirou um cartão da bolsa e veio entregar a mim. Sem tirar o pé do lugar, a princesa do pop latino colocou as mãos na cintura.

– Espere ligação desse número. Resolveremos mais tarde.

Eu tornaria a encontrá-la mais Tande. O problema era o que ela queria dizer com resolver... Voltei para o lado de minhas amigas enquanto a multidão se dispersava tão rapidamente quanto se formou. Levei reprimenda da Barbara, afinal enfrentei de igual para igual uma representante da alta classe brasileira, uma pessoa com contatos, uma que poderia tornar a minha vida um inferno. Já a Manu adorou a situação – briguenta como era – e queria ficar a par de todos os detalhes, desde a ligação até o encontro com aquela mulher.

– E ainda há os rumores dela ser a namorada do Kai! Pode isso?

– Não – respondeu Manu com um sorriso cínico – Ela não é namorada dele.

– E como sabe?

– Eu sei.

Tinha a impressão que minha vida não seria mais a mesma. Nunca vi a Manuela misteriosa daquele jeito. E ainda tinha a Hannah Lee...

E minha impressão... Eu estava certa em relação a ela...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.