Sociedade Anônima dos Livros

3 Capítulo 2: Um prólogo muito longo, parte II


MEI

– Acorda Melanie! Acorda logo!


Foi assim que minha querida amiga Andréa me acordou no meio da madrugada.


– Que… foi…? – respondi, obviamente, sonolenta.


– A ISIS está aqui.


Não foi preciso de mais que alguns minutos – ou melhor, segundos – para me fazer levantar da cama.


– O que eles estão fazendo aqui? – perguntei trocando meu pijama por uma blusa vermelha e uma calça jeans. Eu me vesti tão rápido que impressionei até mesmo a minha amiga – Pegaram alguém?


– Pior que isso… – Andréa estava aos prantos – Olhe pela janela.


Fui em direção a uma das janelas do quarto, a que dava para a entrada do prédio o qual morávamos. De lá – eu e minha amiga vivemos no térreo – observei uma cena que vai marcar a minha vida. Dois rapazes discutiam ao redor de uma fogueira a céu aberto à medida que outros dois seguravam uma mulher de aparentes vinte e cinco anos ou mais, que clamava para que eles não fizessem o que disse que iriam fazer…


Ainda que de longe, eu conseguia ouvir a conversa.


– O que vocês querem? – perguntou a mulher aos prantos.


– Somente seus livros – respondeu o loiro que parecia ser o líder daquele grupo de pessoas – A ISIS é o instrumento de deus para proibir os hereges como você de possuir o conhecimento.


ISIS… Organização secreta a qual surgira após a criação da lei do Índex. Era como uma polícia liderada por um fanático cujo intuito seria o recolhimento de livros considerados proibidos e se não fosse possível isso, as ordens tornavam-se cruéis. Seus membros eram ordenados a destruírem aqueles preciosos. Aqueles que nos passavam conhecimento. Aqueles que nos fazia fugir da realidade.


Após dizer aquilo, o loiro caminhou um pouco e pegou uma mochila. Deu um leve sorriso ao abri-la, mostrando para o que estava ao seu lado. Este o fitou por instantes e devolveu o sorriso ironicamente a pobre e indefesa mulher. Logo ao sorrir,
encaminhou-se a seu amigo e retirou um livro de dentro da mochila. A partir dali, foi como se eu assistisse a um show de horrores. Um macabro teatro.


– Meu nome é Ian – ele disse antes de fazer o que ele fez – Se quiser vingança.


Ian simplesmente jogou o livro no chão e começou a pisá-lo constantemente gargalhando. Após cinco minutos e meio, ele parou e cuspiu no livro que ele acabara por maltratar.


– Realidade… Livros nunca vão se tornar realidade. Cresça mulher, a vida real é mais dura e cruel do que pensa. Aquilo ali – ele apontou para o livro surrado – não te traz nada.


Ele ajeitou a camisa.


– Jake! Me dê isso!


Ele pegou a mochila das mãos de seu amigo e a jogou na fogueira. Tive que tapar minha boca com a mão para não gritar com a pobre mulher que teve seus livros queimados.


Andréa me olhou com decisão.


– Temos que fazer alguma coisa…


– Mas o que? Não temos força para lutar contra brutamontes que ao perder em um debate irão vir com violência para cima de nós…


– Podemos utilizar nossa inteligência. Sei lá. Você é melhor que eu nisso.


Nesse momento, eu tinha realmente decidido o que fazer. Não poderia ficar parada, estática esperando que eu fosse à próxima. Tinha que fazer alguma coisa e foi nessa hora que na confusão um de nossos livros caiu de cima da estante e ficou aberto numa página com uma das mais celebres frases que eu já vi em algum livro.


“Quando os adultos dizem: ‘Os adolescentes se acham invencíveis’, com aquele sorriso malicioso e idiota estampado na cara, eles não sabem quanto estão certos. Não devemos perder a esperança, pois jamais seremos irremediavelmente feridos. Pensamos que somos invencíveis porque realmente somos. Os adultos se esquecem disso quando envelhecem. Ficam com medo de perder e fracassar. Mas essa parte que é maior do que a soma das partes não tem começo e não tem fim, e, portanto, não pode falhar.”


Com a nossa decisão tomada, decidimos montar um plano para fazer com que aqueles rapazes, para não dizer algo pejorativo, pagassem pelo que eles fizeram. Só que a pergunta que pairava no ar era: como? Pensar em alguma coisa era complicado…


– Vamos atrair eles para o prédio?


– Sim, eu pensei nisso, mas o que fazemos depois. Espalhamos bolinhas de gude para que eles caiam? Isso parece traquinagem e não algo que o farão pagar por terem queimados algo tão precioso quanto conhecimento.


– O que você deseja fazer então Melanie? – perguntou Andréa fazendo uma cara de poucos amigos.


– Isso…


Cheguei à mesma janela onde vi tudo o que acontecia e gritei. Gritei tão forte que pareceu estourar os tímpanos das pessoas que estavam por perto.


– EI SEUS OTÁRIOS! POR QUE NÃO ENFRENTAM ALGUÉM DO SEU TAMANHO!


Eles após taparem seus ouvidos olharam para de onde saiu minha voz e sorriram. Não porque eu era uma garota de dezoito anos. E sim por que eu era baixinha. Tinha um metro e cinquenta e dois de altura e uma pele clara o qual na visão deles não oferecia sequer resistência. Eu agradeci a Deus naquele momento, pois eles não sabiam o quanto eles estavam errados.


– O que você está fazendo Melanie Mei? – Andréa não acreditava no que estava acontecendo – Você quer morrer?


– Não – eu sorri sarcasticamente – não irei morrer. O que acontece que eu atraí a atenção deles, eu sou atlética, eu sei correr, sei me virar. Mas queria que você fosse até aquela mulher e a ajudasse a escapar com os livros que restaram dela.


– Mas…


– Já cansei de ver injustiça, amiga. Eu quero fazer algo que me deixe orgulhosa. Quero fazer com que o conselho dos doze, aqueles que se reunirão em São Paulo para ver o show daquele cara, caia.


Vendo a decisão do meu olhar, Andréa desistiu e passou a compactuar com meu plano. Ela saiu imediatamente para se localizar em um vão do térreo em frente à entrada a fim de, assim que os homens passassem pela entrada, ela fosse ajudar a indefesa mulher. Por minha vez, eu peguei uma vassoura e pedi a quem quer que estejam me ouvindo para me dar forças, pois o primeiro que entrasse por minha porta viria a sofrer mais que os outros.


O rapaz chamado Ian, o mesmo que queimara os livros há instantes atrás, apontou com os indicadores para que os homens fossem em direção onde eu estava. A janela era gradeada, portanto eles teriam que passar pela entrada e contornar o corredor por trás das escadas para adentrar em minha casa. Com a vassoura me escondi atrás da porta e, ao menos, o primeiro iria cair. Iria acertá-lo tão forte que ele nem imaginaria o que lhe atingiu.


O problema era realmente o Ian. Ela não veio me perseguir, ele ficou. De longe dava para o ver ajeitando o casaco e pegando o livro que ele maltratou… Porém, eu não poderia pensar em mais nada já que os homens – capangas daquele maldito já se aproximavam. Eu escutava os passos. Segurei forte em minha vassoura e esperei pelo momento certo.


Ouviu-se um rangido seguido de um grito.


Andréa havia gritado e alertado dois dos rapazes que vieram para me pegar. Eles se viraram e o último ficou indeciso…


Com minha amiga em perigo não pensei duas vezes. Sorrateiramente caminhei pela porta com cuidado e quando o aquele homem se virou eu acertei uma vassourada no meio da testa dele.


O impacto foi tão forte que a vassoura quebrou e fez com que o garoto, o qual parecia ter a mesma idade que eu, desmaiasse. Imediatamente após a queda do amigo, os dois vieram para cima de mim com raiva e a primeira coisa que pensei foi em correr para cima. Eu tinha a vantagem, eu poderia despistá-los ou algo do tipo. Eu conhecia aquele local. Só que talvez pelo medo, talvez pelo cansaço, minhas passadas estavam pesadas enquanto as dos rapazes estavam muito mais velozes e leves. Uma hora, eles chegariam.


Foi quando, de onde eu tirei isso, eu não sei.


Após a virada de um lance de escada, fiquei encostada bem próxima à parede. Bem perto da subida de modo que eles não me vissem logo que subissem. O primeiro, um rapaz de cabelos loiros, levemente magro e consequentemente mais rápido, se aproximou perigosamente, só que com uma esperteza acima do normal para a situação, eu coloquei o pé. O rapaz tropeçou, e de acordo com a lei da inércia, só foi parar na parede. Menos um para a minha lista negra, pois ele tinha sido a pessoa que mostrara a mochila para o tal Ian.


Eu sorri um pouco ironicamente e aliviada, não sem antes confirmar se aquele homem estava realmente desacordado.


O último era levemente pesado e estava com dificuldade para subir as escadas. Então eu decidir subir até o terraço, iria exaurir todos os esforços daquele homem. Depois quando ele subisse, eu iria descer novamente em alta velocidade… Ele não teria chance…


Assim que cheguei ao terraço dei uma olhada para o líder da situação. Ele havia se desfeito do livro de alguma forma e estava no telefone. A loira ainda estava lá aos prantos e se indagando se iria para cima dele ou se fugia enquanto ele estava distraído. E por incrível que pareça, não tive sinais de vida da Andréa e isso me deixava agoniada.


Depois de seis minutos demorados com uma fixação acima do normal por Ian, coisa que eu já estava começando a me assustar, o último capanga acordado chegou ao terraço com uma cara de cansaço e de poucos amigos. Ele olhou para mim como se fosse me matar assim que chegasse perto de mim. Realmente não havia gostado daquilo que fiz, mas pouco me lixava para isso. Consegui ao menos despistar os três da visão da Andréa e fazer com que ela ficasse tranquila. Tinha certeza que ela não fez movimento nenhum por conta do Ian, que perigosamente ficava circulando ao redor da fogueira.


– Desculpe cara. Você foi o único que não maltratou os livros – eu sorri sarcasticamente enquanto caminhava em direção ao homem – Mas você é capacho do homem que atualmente é o primeiro da minha lista negra…


Ele correu até mim. Eu corri até ele. No momento antes de nos encontrarmos, peguei um leve desvio e continuei até a porta. Já aquele homem patinou um pouco e foi atrás de mim, mas quando viu era tarde demais… Eu já desci em disparada pelas escadas deixando-o para trás. Ele teria que descer novamente tudo o que subiu cansando e provavelmente ele não conseguiria chegar ao térreo a tempo de fazer alguma coisa.


No momento que estava na junção do terceiro com o segundo andar escutei um grito da Andréa e fiquei com o coração na mão… E imaginando mil coisas que poderiam ter acontecido. Corri mais do que realmente corro e agradeci a deus por ter um corpo que me proporcionava um preparo físico – acho que já disse isso né?


Cheguei ao térreo e vi a loira sendo arrastada pelos cabelos por Ian. Tentei gritar, mas foi em vão. Ele retirou uma arma da cintura e disse para mim.


– Não curto heroínas. Bem como pessoas que se intrometem nos meus assuntos — ele se virou para mim, guardando sua pistola – Você derrotou todos meus homens, não sei como, mas seu nome será guardado por mim bem como por toda a ISIS.


– Eu não lhe disse meu nome seu porco – respondi rispidamente.


– Eu sei o nome de todo mundo, Melanie Mei. Você pode não saber como eu sei. Mas eu sei.


E nesse momento eu percebi… Minha vida mudou para sempre.