Sobrevivente

3 Capítulo 3 - 1o mês


No dia seguinte a maioria parecia exausta, acho que também não dormiram ou tiveram muitos pesadelos. O café foi simples, só o básico e ali já vimos os grupos se formando, alguns de famílias, outros de perdidos, círculos sobre assuntos variados. Nós estávamos com nossa mãe que fez amizade com outras famílias e estavam falando sobre a vinda de uma equipe de resgate. Sinceramente acho ótimo as pessoas estarem otimistas, mas neste momento não consigo seguir a mesma linha de raciocínio, o que vejo é devastação para todos os lados, não tenho ideia do limite disso para poder imaginar que alguma equipe de resgate esteja inteira e possa vir com seus mega helicópteros nos buscar. Não é que seja pessimista, mas sempre fui realista, gosto de pensar em todos os fatores e ser o mais realista possível, e aqui acho que todos deveriam é pensar em como vamos racionar o que temos e quanto tempo pretendemos permanecer neste lugar, ao invés de pensar que vamos ser salvos a qualquer momento.

E como o realismo previu, nos dias seguintes nada aconteceu, ninguém apareceu, e a paz já não reinava entre nós, já discutiam sobre racionamento e coisas básicas para o caso de demorarmos por ali, mas nem todos queriam pensar em ficar por lá por muito mais tempo, alguns queriam fazer equipes de busca para procurar pelos desaparecidos e ao mesmo tempo ver se havia outros abrigos próximos com mais informações, outros queriam seguir rumo as saídas da cidade para buscar ajuda e ver a extensão do estrago, descobrir mais sobre o que houve, eram poucos os que realmente queriam seguir ali por se sentirem seguros.

E para piorar a situação, em nossa família também tínhamos uma divisão, minha mãe queria ficar lá, em segurança, esperando por nosso irmão chegar sei lá de onde, meu irmão queria ir buscar por outros abrigos e ver se encontrava Luca e ao mesmo tempo que queria seguir com Liam, estava nervosa de tantas perguntas dele sobre como eu posso ter melhorado tão rápido, e descobrir mais sobre o que aconteceu me chamava atenção, então ir para as cidades vizinhas me parecia uma boa, queria ficar sozinha. Então era claro que em pouco tempo íamos acabar nos separando por alguns dias. E assim se fez, 2 dias depois estávamos com nossos novos grupos, me lembro das lagrimas de minha mãe ao se despedir de nós, ela pediu para voltarmos a salvo e o quanto antes, e claro, trazer Luca. Ela me beijou no rosto, passou as mãos sobre meus cabelos e sorriu dizendo, sempre soube que era uma guerreira, que iria ser forte quando precisasse, e meu irmão por sua vez me deu um soco no ombro e disse, forte mesmo, está inteira para outra, nos vemos em alguns dias pirralha, era assim que ele me chamava, a caçula, a pirralha. Nos abraçamos e seguimos nossos grupos.

Nem todos do meu grupo estavam preparados para andar tanto, acho que esqueceram deste ponto ao decidir explorar, não íamos andar apenas por um bairro, iriamos cruzar a cidade em subgrupos para cobrir mais áreas e descobrir a dimensão do estrago, e isso eram muitos quilômetros a pé nos escombros, e com isso na primeira parada já tivemos desistentes, meu subgrupo começou com 10 e no final éramos apenas 3. Nós 3 chegamos a divisa da cidade e vimos que a cidade vizinha também estava destruída, tudo que avistávamos eram escombros, então andamos até um parque que conhecíamos e vimos lá um abrigo, e descobrimos que também estavam explorando tudo e que até o momento não haviam encontrado até onde ia os impactos da explosão. Uma semana depois já havíamos encontrado grupos de cidades vizinhas e fomos marcando em um mapa os lugares que cada um já havia vistoriado, em 2 semanas já sabíamos que o estrago havia tomado muito mais do que se imaginava, eram estados diferentes já mapeados, esqueça equipe de resgate tão cedo, não temos um estado se quer na divisa que não esteja na mesma situação.

Andamos muito durante quase 1 mês, andávamos por grande parte do dia, e ao retornar ao abrigo descobrimos que quase todos voltaram bem antes, e com isso vieram mais perguntas de meu irmão, sobre a super atleta que me tornei ao andar tanto, principalmente quando mostramos o mapa que fizemos, e expliquei que a maioria dos locais foram marcados por informações passadas por outros grupos, mas realmente andamos muito e pensando agora, vejo que quase não paramos. Mas também, o que esperar de um grupo de desesperados, cada informação que achávamos nos levava a mais desespero, a esperança de que ainda havia algum lugar seguro, alguém para nos salvar se perdia a cada palavra ouvida, e isso nos motivava a ir cada vez mais longe, correndo contra o tempo para achar alguma notícia boa, para mim isso explicava perfeitamente como esquecemos de tudo, incluso do cansaço e da dor.

No dia seguinte outro subgrupo chegou, e com ele veio uma surpresa, meu irmão Luca estava com eles. Não consigo descrever a emoção, após quase 1 mês, meu irmão chegou, vivo e bem. Após longos abraços, beijos, choros, ele nos contou que encontrou o grupo havia 2 semanas, e sabia que estávamos com o pessoal do abrigo e também soube que eu e o Liam estávamos em exploração, então achou que deveria seguir com o grupo para ajudar. Luca contou que estava bem quando encontrou o grupo e foi de muita ajuda, pois eles eram em poucos, haviam contado a ele que a maioria havia desistido por não suportar mais andar tanto, eles foram a muitas cidades, e assim como eu encontraram muitas pessoas pelo caminho e fizeram um mapa também, pelo descritivo dele parecia que tinham andado ainda mais que eu, tentei fazer sinal para ele não falar tanto, ou seria questionado por Liam também, mas Luca era atleta na faculdade, então acho que pensaram ser normal para ele, embora Liam tenha colocado o mesmo olhar ao ver o mapa.

Naquela noite perguntei a Luca sobre o dia da explosão, sobre seus ferimentos e depois expliquei os questionamentos de Liam. Luca disse que passou a maior parte do tempo sozinho, pois não haviam quase sobreviventes na área da faculdade, muitos estavam dentro do prédio quando o mesmo veio abaixo, ele acabou seguindo sozinho, e não notou nada de estranho, nem se lembra quanto tempo levou para melhorar, ele se concentrou em seguir rumo a nossa casa, para ver como estávamos, e só pensava nisso até encontrar o grupo e descobrir aonde estávamos, levou um choque ao perguntar de papai e saber que ele não estava no abrigo, não disseram a ele o que ocorreu, mas ele sabia que se papai não estava lá conosco, estava morto.

Ele me disse para não me preocupar, que Liam estava apenas cuidando de todos, se sentia responsável por ser o homem da família agora. Eu sempre fui muito mais ligada a Liam, talvez porque estava mais próximo, já que Luca passou os últimos anos mais com os amigos e depois praticamente se mudou para a faculdade, mas naquele momento me sentia mais segura com Luca.

E como Luca disse, as coisas se acalmaram, ficamos mais tempo juntos, e estávamos conversando sobre o que faríamos, sabíamos que não teríamos ajuda tão cedo, e ir embora seriam dias de caminhada e poderíamos não encontrar nada diferente do que Luca e eu já vimos, destruição sobre destruição, mas tínhamos que fazer algo, e foi quando vi Jake pela primeira vez.

Jake chegou com um grupo de 15 pessoas, estavam sujos mas pareciam bem. O líder deles, Gabriel, contou que vinham do país vizinho, e que lá também estava tudo devastado, mas que conseguiram um sinal fraco de rádio e ouviram dizer que a explosão consumiu muitos lugares, que haviam destroços por todos os lados, mas que as pessoas deveriam seguir rumo ao hemisfério norte.

Não era muito, mas as pessoas viram isso como uma luz, uma esperança, finalmente sabiam que existia algum lugar, mesmo que longe, ainda havia algo que estava a salvo.

Jake fazia parte deste grupo mas assim como os demais ficou mudo o tempo todo. Perguntei a Gabriel, se os demais do abrigo deles ficaram para esperar pela ajuda, e ele disse apenas que é uma decisão de cada um, você precisa confiar em si e no seu grupo para seguir uma viajem tão longa dessas, você pode decidir ficar, pode ir em grupo ou até mesmo sozinho, a decisão é de cada um, afinal é sua vida que está em jogo.

Estranhei a resposta complexa, mas pensando bem, é como nosso subgrupo, cada um em seu devido momento decidiu voltar porque sabia que não ia conseguir mais, então cada um decidiu o que era mais seguro para si naquele momento, basicamente o mesmo que deve ter ocorrido com o grupo deles, faz sentido.

Liam para variar estava de cara amarrada, já Luca estava animado em sair novamente para explorar. Minha mãe, como qualquer outra, estava refletindo as feições de cada filho e procurando, ou melhor, rezando, para que desta vez a decisão fosse unanime, e que não nos separássemos de novo.

Naquela noite convidamos eles para jantar e pernoitar em nosso abrigo, mas preferiram dormir do lado de fora, segundo Gabriel, era para não serem vistos como intrusos e aproveitadores, já que era nítido que não tínhamos mais espaço. Achei educado da parte deles, mas na manhã seguinte fiquei furiosa, eles simplesmente haviam ido embora, nem esperaram ou perguntaram se alguém gostaria de se unir ao grupo, simplesmente sumiram, sem deixar rastros.

Luca disse que eles já formavam um grupo e estavam acostumados com o ritmo e se incluíssem mais pessoas poderia atrapalhar, então que fizeram a parte deles avisando o que sabiam e que agora seria responsabilidade de cada um decidir o que queriam fazer. Ele estava certo, Gabriel mesmo disse que cada um deve pensar o melhor para si, ele havia dito nas entrelinhas ontem, já devíamos esperar por isso.