Sobrevivendo ao ensino médio

2 Jamais enfrente a namorada troglodita


Assim que entramos no colegial, muitas coisas mudam. E quando digo muitas coisas, estou falando de uma lista quase infinita.

As pessoas mudam. A comida muda. As responsabilidades mudam. Muita gente começa a te ver como um quase adulto, os professores ficam extremamente rigorosos e seus pais pegam ainda mais no pé. Isso, sem citar que serão três anos decisivos em sua vida. Decisivos, pois, irão determinar seu caráter; seu ser. Assim como sua vida profissional e, possivelmente, financeira.

Irá parecer que a terra inteira te pressiona para que escolha algo que renda, que te dê um status na sociedade, afinal, você vale o que tem.

Bem vindo ao capitalismo e seus rótulos.

O ensino médio é um pouco mais conturbado que o fundamental. O menor deslize pode gerar um efeito borboleta pode ser uma teoria do caos, propriamente dita.

E por este motivo, eu preferi viver meus primeiros duzentos dias quieto. Sentia como se não fizesse parte daquela massa gigantesca de gente socialmente acessível, ou daquelas pessoas que tinham uma penca de seguidores e um montão de likes em suas publicações. Minha autoestima tinha sido esmagada com o passar dos anos, não sei bem por que, mas talvez fosse só a adolescência e seus conflitos batendo na minha porta.

No último ano do fundamental, eu mal ia as aulas, apenas fazia as provas para que pudesse passar sem muitas dificuldades, e isso funcionava muito bem, devo admitir. Entretanto eu já não poderia aplicar esta conduta, o ensino médio não é um mar de rosas.

Como eu disse, as coisas mudaram.

Eu tinha que me dedicar a construir um futuro. Um futuro que eu nem fazia ideia se um dia chegaria.

Por um grande acaso, havia conquistado um amigo – não estou reclamando. JunMyeon não me dava tédio, ele sempre tinha assuntos curiosos, entusiastas, até mesmo informativos. Gostava de conversar com ele tanto por meio de redes sociais como pessoalmente. De certa forma, havíamos construído uma boa relação de companheirismo.

Kim gostava de estudar, buscava curiosidades e se empenhava bastante em tudo que fazia. Sempre muito metódico; estranhamente perfeccionista e ainda assim carismático. Ele era conhecido por quase toda a escola. Sempre o buscavam para ajudar com as provas semanais. Se eu pudesse citar uma característica predominante seria o sorriso em seu rosto e a persistente expressão com uma vibe positiva.

Decidimos andar juntos naquela primeira semana, coisa que apenas serviu para que eu descobrisse vários gostos em comum. Certo que a gente discordava em algumas coisas; Ele achava que o Batman é melhor do que o Flash. Dá pra acreditar? Isso é uma grande ofensa.

Posso até parecer aquele tipo de pessoa que paga de antissocial e amante do grunge que normalmente são encontradas no fundamental. E é exatamente esse o caso. Não precisa se remexer inconformado na cadeira, abrir um sorriso ou coçar qualquer parte do corpo, apenas... Apenas continue a escutar.

O sinal tocou.

Com certeza é uma cena comum ver alunos desesperados para chegar à cantina e serem os primeiros da fila para conseguirem o melhor da comida ou para garantirem os melhores lugares. Juntei meu material na mochila e lá o deixei.

Quase fui atropelado por um bando de adolescentes que, desesperados, tentavam atravessar a porta. Passei os meus próprios dedos pelos cabelos, os desarrumando um pouco mais.

Minhas roupas estavam amassadas e com certeza minha cara exibia uma expressão de sono.

Temos que concordar que nenhum ser humano normal é uma princesa logo pela manhã.

Assim que sai da sala, deparei-me com o meu então colega.

JunMyeon, que estudava na sala ao lado, me esperava no corredor. Seus fones de ouvido estavam num volume altíssimo e bolavam por cima de seus ombros cobertos pelo uniforme escolar cinzento.

— Cara, dá pra acreditar? Microbiologia é incrível. — ele parecia realmente empolgado.

Vesti o meu melhor sorriso. O mais educado que consegui.

— Já eu não vejo a hora de estudar genética. — Afirmei. Eu tinha uma paixão por biologia, devo confessar. Kim sorriu de volta.

Andamos até o refeitório que estava numa gigantesca confusão. Parecia que um dos alunos discutia com a merendeira e, pelo visto, aquilo renderia boas fofocas nos corredores no dia seguinte. Jun tentou aproximar-se, mas puxei-lhe pelo braço na tentava de contê-lo, o que foi praticamente em vão.

Muitas pessoas esticavam seus pescoços curiosos para saber da gritaria. Outros que acabavam de chegar, perguntavam o motivo de tamanha balburdia.

E eu... Bem, eu não sabia se corria se ficava ou se sentava e assistia.

Não conseguia ouvir direito os jorros de palavras ofensivas, mas, aparentemente, se tratava de um troco passado incorretamente.

Por algum motivo, até então desconhecido, uma bandeja de comida voou até a outra extremidade do local. Eu sobressaltei assustado. O barulho do objeto ecoou junto aos gritos amedrontados. Certo... Sentar e assistir, definitivamente, não seria uma boa opção.

Correr talvez fosse bem sensato. Fiquei na ponta dos pés a procura de meu colega e não foi muito difícil encontrá-lo. JunMyeon tocou no ombro do tal cara que estava com seu rosto avermelhado devido a gritaria.

O garoto da confusão era um pouco baixinho e tinha bochechas gordinhas (meio carinha de criança) além de que era muito branco. Seus cabelos me chamaram a atenção; eram fios arroxeados em meio a um bando de padrões. JunMyeon, pareceu convencê-lo a largar a discussão. Kim arrastou aquele que parecia ser seu amigo e com um manejo chamou-me para ir com eles.

Apenas os segui meio incerto. Parecia que geral estava me julgando mentalmente por acompanhá-los. Nos acomodamos em uma mesa quadrangular distante. Confesso que fiquei na expectativa de que os dois esclarecessem o acontecido. A curiosidade já me consumia.

Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, nem mesmo quem era aquele cara de cabelo estranho e incrivelmente foda. A única coisa que estava em meu conhecimento, era a quantidade de gente olhava em nossa direção.

Não nego ter ficado incomodado com o silencio que pairou sobre nós, nem mesmo como foi um bocado estranho vê-los de cabeça baixa. Pareciam esperar momentaneamente a poeira baixar. Ambos encaravam-se, outrora vislumbravam os arredores até que, finalmente, JunMyeon decidiu se manifestar; ele vestira expressões enraivecidas.

— Minseok, você ficou louco? Nunca foi de sair brigando! Sem falar que passa uma semana sem vir a escola e quando vem, arruma confusão com quem? Com a namorada do diretor!

— Ela roubou quase vinte do meu troco! Aquela maluca tem que entender que não é porque ela namora com o diretor que pode sair explorando a gente desse jeito! — replicou. — E disse que eu pareço uma tulipa roxa! — surrava perigosamente.

Pestanejei surpreso. Engasguei com um riso contido, logo tratei de tomar uma pose madura ao notar que ri em um momento errado. Umedeci os lábios e procurei algo que pudesse disfarçar meu constrangimento. Abri e fechei a boca até que finalmente uma ideia me surgiu.

— Aquela grandona ali namora com o diretor? — indaguei falsamente atônito.

— É! Dá pra acreditar? Ele poderia ter ao menos um bom senso de não escolher uma ex-presidiaria como namorada! Eu detestaria a ideia de ser esfaqueado enquanto durmo. — claramente bravo, o adolescente direcionou as pontas dos dedos para a cabeleira colorida.

— E você deveria ter o bom senso de não discutir com uma! — Kim JunMyeon deu-lhe uma tapa na nuca.

— Ai, caralho. — lamuriou o adolescente estapeado.

Soltei ar pelo nariz com quê de graça.

JunMyeon remexeu-se e bufou. Ele estava suado em função da grande vozeria.

— Baekhyun, esse aqui é o Minseok. Ele faz o segundo ano, mas não aprendeu como funcionada a hierarquia da escola — lançou lhe um feroz olhar — Nos conhecemos a algum tempo... Tipo... Dois três anos.

— Jogos on-line — Completou MinSeok que deu de ombros e estendeu-me a mão. Eu a apertei de bom grado. Por algum motivo, sentia que aquele cara era o tipo de amigo ideal. Pode soar estranho, mas sabe quando tu mete o olho na pessoa e já bate aquela química? — Você deve ser primeiranista também, né?

Anui lentamente. Existia um sorriso que persistia em manter-se no meu rosto.

— Boa sorte.

Suas palavras soaram tão sarcásticas que eu me senti na obrigação de analisá-las com cautela e aos poucos, meu sorriso se desfez. Pestanejei algumas numa expressividade diante dos fatos.

[...]

As aulas de matemática são definitivamente as piores.

No primeiro ano nem tanto, porque acredite, se você acha que tá ruim agora, vai piorar e como vai. Os matemáticos nunca estão satisfeitos, tomamos como exemplo a criação dos números complexos que geralmente se estuda no terceiro ano.

Não existe coisa mais sem nexo do que esse conjunto numérico. A pessoa que inventou estava sem muito que fazer da vida. Se você ama matemática e está se sentindo ofendido, mil desculpas — ou não.

Ao decorrer do dia, tudo parecia normal. A não ser por um mero detalhe.

Por algum motivo infernal o diretor solicitou não só minha presença na coordenação, mas também a de JunMyeon e Minseok. Não sabíamos ao certo o que estava acontecendo ainda que fosse óbvio.

Mesmo assim, me senti grato por ser tirado de sala de aula. Alguns dos alunos da minha sala me fitaram com expressões pensativas, do tipo “o que esse idiota fez?” ou “Olha lá, o cara mal começou a estudar e já está se metendo em encrenca”.

Retirei-me mesmo que a contragosto do professor e segui para a sala do diretor. Não era muito longe e assim que entrei, apenas acomodei-me em uma das cadeiras que ficavam no canto da sala. Observei o homem baixinho e gorducho. Seus cabelos precocemente grisalhos pendiam sem vida sobre seus olhos negros e irredutíveis.

Sua expressão nada amigável erradicou toda e qualquer esperança que eu sentia de sair vivo dali.

Sua sala estranhamente arrumada cheirava bem. Algo como polidor de lavanda. Sua mesa rejubilava tal como sua porta canetas de metal. Seus dedos faziam um batuque irritante sobre a madeira e nem preciso citar a pose de superioridade extremamente irritante.

Parecia estar envolto numa massa de inervação que me deu até arrepios.

— Senhores — o homem juntou ambas as mãos na mesa envernizada — Vocês estão cientes de que temos um código penal a seguir, não somente na nossa estrutura educacional como em nosso país.

Sabe aquela sensação de que fodeu e você nem sabe o motivo?

— Desacatar funcionários públicos é um crime, tanto que é uma das primeiras regras que apresentamos em nosso regime escolar. Exigimos que os alunos colem o regulamento na capa do caderno justamente para que não haja esse esquecimento.

— Senhor. — Minseok interviu. JunMyeon dobrou seus olhos de tamanho — Eu entendo que a situação é extremamente desconfortável, não só para você, mas para a... Tia da merenda que eu esqueci o nome — o homem de terno e gravata fechou a cara — Com certeza o senhor conhece minha conduta e quem sou. Sabe que eu aceito erros, sou tolerável, mas se eu perdi a cabeça foi por algum motivo. Meus professores me conhecem sabem dos acontecidos por aqui. Por isso, é completamente injusto que haja uma análise da situação com base em apenas um dos lados da história por motivos evidentemente pessoais.

— Senhor Minseok... — o diretor murmurou. Por um breve momento, tive a vontade de contar a quantidade de segundos que levaria para dar merda. Remexi na cadeira e inclinei-me num intuito de prestar atenção. Uma de minhas nádegas estava afastada do assento de tão inclinado que eu estava.

— Por favor, escute. — continuou o de cabelos coloridos. Esse cara daria um ótimo advogado, devo admitir — Baekhyun e JunMyeon chegaram na cantina depois que o ocorrido, se assim podemos chamar, já havia estourado. Então, presumo que eles não deveriam estar aqui, eles nem dirigiram uma palavra a... Desculpe, eu realmente não lembro o nome dela.

— Minseok — coçou a lateral do rosto. — Eu torço para que você não esteja testando minha paciência nem mesmo minha autoridade ou capacidade de reger uma escola.

— Jamais. O senhor está à frente da escola há muito tempo, trabalha na parte executiva do negócio, mas está realmente a par de tudo que ocorre na escola? Sugiro que converse com o professor de sociologia do 2º-B.

O homem massageou suas têmporas vagarosamente. Inspirou fundo, anuiu e apenas manejou com suas mãos um gesto que indicava seu desejo de nos ver bem longe. De fininho, fomos levantando como se estivéssemos andando em um campo minado, mais desconfiados que cachorro depois de fazer bagunça.

JunMyeon, que foi o último que passou pela porta, a fechou e mirou o amigo com feições tão perplexas quanto as minhas.

— Caralho, mano, o que aconteceu lá dentro? — segurou os ombros do amigo que ria.

— Eu fiz o que? Eu fiz o que? — Minseok comemorava elétrico com uma dancinha meio escrota — Advoguei! — bateu nas palmas de Kim e em seguida fez o mesmo comigo. Um High Five. Começamos a gargalhar e nos guiar pela escola. Com toda certeza eu ainda tinha muito o que aprender com eles.

Ainda que a felicidade evaporasse por nossos poros, ainda existia uma pequena parcela de nervoso. O diretor TayWang metia medo em qualquer um.

Alguns estalos de lucidez tomaram conta de minha mente numa gritante subtaneidade.

— Porque você mandou ele falar com o professor de sociologia Min?

— A primeira regra para não ser apanhado pela coordenação é: Saiba domar as palavras e bajule o professor correto. — Soltou uma piscadela no ar.

Apenas abanei a cabeça aos risos.

Depois de algum tempo, descobri que MinSeok era o gênio da computação da escola. O amigo de geral. Poucas pessoas tinham apatia por ele. Isso explicava o motivo de eu ter gostado dele assim... Logo de cara.

MinSeok gostava de ajudar as pessoas, estava sempre disposto dentro de um certo limite, é óbvio. O tipo de pessoal com a qual você pode contar em todo tipo de situação.

Algum tempo depois, acabei descobrindo que Minseok odiava conflitos. Ele sempre buscava resolver seus problemas na conversa — coisa que é bem irônica, visto que; MinSeok se meteu em uma confusão diante da escola inteira, mas convenhamos, todo mundo tem seus dias ruins.