Sobrenatural

9 Capítulo 9 - A vergonha da familia


As mãos de dona Salette se apertaram ao meu redor. Pude sentir seu medo.

– Você não pode fazer isso...

Sua voz era como sussurro, como um pensamento alto. Ela não conseguia acreditar no que estava acontecendo, e eu não conseguia entender.

– Senhor Albert?

– Oh, sim... sou eu. Me desculpem o incomodo — dizia enquanto se cumprimentavam — . Não pensei que isso pudesse acontecer comigo... Enfim, só queria fazer uma denuncia de...

Ele falava tentando prender um choro falso.

Os guardas se olhavam com um misto de compreensão e impaciência.

– É ela? — Um deles perguntou enquanto apontava na minha direção.

– Sim sim…. Só a menina.

Eles desceram os poucos degraus que faltava.

– Por favor, tenham paciência com minha mulher, ela está muito abalada, não consegue pensar direito.

Meu irmão via tudo um pouco assombrado. Minha mãe gritava enquanto eles me levavam, meu pai ficou segurando-a. O que aconteceria a ela? O que aconteceria a mim. A denúncia que meu pai fez era muito grave.

Eu estava sendo acusada de blasfêmia, de traição. De ir contra o que meu povoado acreditava. E mais do que isso, de ir contra o que Adriane e seu braço direito Jásper. Adrian era o governante dos Perushins, e Jásper era seu cão guia cego. Ambos nojentos e insuportáveis, nunca consegui confiar na aparência de justiceiros. Provavelmente os encontraria antes da sentença. Meu coração gelou. A realidade era outra. Dessa vez estava sofrendo de fato por Goel, nada comparado àquelas renúncias bobas que achei ser o fim do mundo. Saí de casa acorrentada. Depois da queda na escada, das discussões e das mãos presas, passar por louca não era muito difícil. As pessoas me olhavam como se tivesse cometido um grande crime. De fato, para elas era um grande crime. Para grande parte dela. Vi os olhos de Simon no meio da pequena multidão que estava se formando. Seu olhar era preocupado e transmitia muita dor. Eu nunca tinha visto ninguém sendo acusado de traição. Sempre ouvia os gritos de acusação, mas nunca saía de casa para ver. Independente dos erros sempre achei muita humilhação. E quem diria, agora eu ouço os gritos. E todos eles destinados a mim. Minha maior tristeza era saber que estavam todos cegos, todos errados. No caminho até o grande salão vi uma nuvem negra sobre aquelas pessoas. Provavelmente resultado da visão embaçada pela poeira. Antes de ser levada para falar com Adrian fui colocada numa cela. Tudo escureceu.

Passaram-se 1:30 hr até que ouvi passos firmes e a luz invadindo aquele breu. Ainda acorrentada fui levada a sala de Adrian, atravessamos o salão principal e subimos algumas escadas. As portas foram abertas e eu fui levada até mais próximo da mesa central. O homem sentado não era desconhecido, mas também não era o esperado. Jásper. Ele estava elegante, como sempre. Com uma espada na cintura, os cabelos negros um pouco bagunçados. Mas estava la. Sua postura era mais relaxada do que a do Adrian.

– Pensei que encontraria o Adrian.

Ele fez um gesto com a mão, o que levou os guardas a esperarem do lado de fora.

– Pode sentar. — falou com educação — Preferia que o Adrian estivesse aqui? Cuidado com seus desejos, podem ser realizados.

Sentei sem muita vontade.

– O que voces querem?

– Queremos negociar, Alyah. Queremos entrar em um acordo. Voce quer sair daqui, e eu quero ter m pouco mais de reconhecimento pelo que faço. Sendo assim querida Alyah... — ele despejou um pouco de chá quente numa xícara — Quer chá? — balancei a cabeça negativamente. — Sendo assim, voce diz onde esta o livro, nos entrega para queimarmos e faz uma declaração pública do seu arrependimento.

Olhei cética para ele.

– Do que voce esta falando?

Ele respirou fundo, colocou mais chá quente na xicara e se aproximou.

– Vamos, Alyah. Não me faça ter muito trabalho. Ou voce aceita esse acordo pacifico ou ficará encarcerada durante muito tempo.

– Mas senhor Jasper. Eu realmente nao sei do que esta falando, tudo não passou de uma grande confusão. Um grande mal entendido.

Ele caminhou na minha direção e ficou entre a mesa e a minha cadeira. O pequeno espaço não me dava chances de me mexer. Ele chegou ainda mais perto e tocou no meu rosto. Suas mãos eram como pedras... Me davam arrepios. Em um movimento rapido ele derramou o chá no meu colo, escorrendo por dentro do meu vestido. Tentei gritar, mas ele apertou meu pescoço me deixando sem ar. E nessa posição me levantou e me prensou contra a porta.

– Alyah, ouça bem. Te darei mais um tempo pra pensar. Voce é só uma criança. Esta iludida com muita coisa. Mas se voce não quiser aceitar o acordo, nos veremos por um bom tempo, até que eu use voce como exemplo para os perushins. Estamos entendidos?

Balancei a cabeça positivamente. Fui jogada porta afora como um cão. Os guardas me pegaram e me levaram de volta a cela.

Dois dias se passaram, a comida era escassa. No segundo dia recebi um pedaço de pão com agua. Nesse tempo nao pude ver a luz do sol, senão pela brecha minima de luz que passava por baixo da porta. Apenas um candieiro trazia iluminação suficiente para que eu pudesse ler os recados que iam sendo deixados por debaixo da porta. Eram ameaças de morte, de vingança. Nenhuma carta de consolo. Provavelmente os guardas liam antes de entregarem. Apesar de tentar demonstrar força o medo era iminente. Senti tanta saudades de minha mãe, de Symon, do Livro...

Goel. Tentei falar com Ele.

– Ainda não sei bem quando me ouve... Mas acho que mesmo sendo sussurros é possivel chegar onde voce esta. Eu estou com medo, suja, me sentindo humilhada... O que eu fiz pra merecer isso? Sinceramente nao consigo entender o por que. — as lagrimas era o unico liquido que me molhou durante esse tempo. — Me tira daqui, Goel, por favor.

Apertei minhas pernas contra o corpo, fechei meus olhos e senti uma brisa. Esqueci de onde estava e me vi no mesmo lugar do sonho, olhando para os meus pulsos, eles estavam soltos. Sem nenhuma corrente. Olhei novamente para a arvore, e os corpos estavam mais longe de mim. No entanto estava seguindo alguem, um homem. Sem nenhum medo, pavor, receio... eu simplesmente o seguia. De repente meus olhos se abriram e uma luz externa, apesar de ser fraca me causou certo desconforto. Só assim pude descobrir que era noite e que como sempre dormi. Não da pra saber quanto tempo dura meus sonhos. Um dos guardas me puxou pelo braço com rispidez.

– Vamos, hora de falar com o senhor Jasper.

Entrei novamente naquela sala. Durante o trajeto não ouvi nenhum ruido. Tudo indicava que o salão e todo o pátio interno estava as escuras. A iluminação causava um certo temor. Os guardas ficaram fora como antes.

– Querida Alyah. Como voce esta? Aho que os guardas não deram o devido tratamento a voce. Pensou bem sobre o nosso acordo, eu creio.

Seus olhos me fitavam esperando uma resposta. Abaixei a cabeça olhando para minhas proprias mãos. Ouvi seus passos e outra vez ele ja estava proximo de mim.

– Voce é uma garota bonita, Alyah. Bonita e burra. Responda... — ele se inclinou ficando com seu rosto proximo ao meu. Sua mão estava sobre o meu joelho. Sua voz era rouca. O que ele pretendia? Nunca nenhum homem chegou tão perto de mim. — Aceite o acordo enquanto esta comigo. O Adrian esta muito ocupado...

– Não sei do que voce esta falando.

Ele se levantou com um sorriso impaciente. Pegou uma trouxa, jogou para mim e chamou os guardas.

– Levem a senhorita Alyah para tomar um banho. Ela fede.

Os guardas usaram uma outra porta que nao tinha notado. Estava na propria sala do Adrian. Me deparei com algumas tochas acesas embaixo. Desci as escadas e no centro havia uma banheira. Os guardas me largaram ali e se afastaram. No andar de cima pude ver o insuportavel do Jasper. Seu sorriso de canto. O que ele tinha de beleza tinha de maldade.

– Eu não vou tomar banho com vocês me olhando.

– É claro que vai, aproveite enquanto eu escolhi a noite para isso. Se quiser posso te forçar a tomar banho durante o dia, quando esse patio estará cheio de soldados querendo se divertir.

A vergonha era enorme. A humilhação era muito grande. Tirei meu vestido e entrei na banheira com as roupas de baixo, que não passavam de uma camiseta e um calção feminino. Entrei na banheira o mais rapido possível. A agua gelada me causou arrepios, peguei um sabão que estava na beira, lembrei do cheiro das roupas que minha mãe lavava. Chorava enquanto via os olhos do Jásper me observando enquanto descia as escadas, e as risadas dos dois guardas. Me levantei e me inclinei para pegar a toalha que estava próxima da banheira, quando Jásper a apanhou e se afastou, isso me faria andar mais, e me expor a eles.

– Por favor, me dê a toalha...

Ele sorriu e deixou a toalha cair, saindo e se aproximando dos outros dois. Eles se divertiam as minhas custas.

– Goel, por favor... me ajude.- sussurrei.

Um vento como a brisa do sonho fez as tochas se apagarem. Aproveitei o momento e saltei para fora na direção da toalha e da trouxa. Peguei meu vestido velho e o agarrei contra meu corpo. Ouvia a voz de Jásper xingando os guardas, insultando-os enquanto eles reacendiam uma por uma. Quando a iluminação voltou ao normal, eu estava de pé, esperando eles me levarem para a cela.

***

Mais alguns dias se passaram, recebi a visita de minha mãe. Antes disso, claro fui levada a uma cela muito melhor. Chorei no colo dela. Ela dizia que tudo ia se acalmar. Que provavelmente eu sairia daquele lugar com honra. Realmente não entendi porque ela disse aquilo. Até que o senhor Albert entrou na sala.

– Minha filha, como voce esta? Espero que tenha pensado melhor...

Ele tentou me abraçar, mas fugi das suas garras.

– Tenho uma boa noticia. Voce sairá daqui.

Olhei para minha mãe que tinha dor em seus olhos.

– Como assim?

– Agradeça, minha flha. Um homem, viu sua situação, e se encantou por voce. Ele pediu sua mão em casamento. O universo conspirou para acontecer. Voces ja se conhecem, e ele cuidou de voce durante esse tempo.

Pensei em Symon, ele era muito mais velho, mas talvez estivesse tentando me ajudar. Mas como ele fingiu ser um homem aceitavel para os padrões de meu pai?

Minha mãe pegou em minhas mãos. — Filha, acho que voce vai sair hoje mesmo.

A porta se abriu, dando espaço para Jásper entrar.

– Com licença. Desculpe atrapalhar. Queria saber se estava tudo bem.

– Claro. Estou contando a ela a novidade! — Disse meu pai com orgulho.

– Eu imaginei, por isso vim presenciar — ele sentou do meu lado e colocou uma mecha do meu cabelo por detras da minha orelha — . Eu disse que passaríamos muito tempo juntos. — Ele se virou para meus pais, eu nao acreditava, tudo parecia piorar. — Ela é uma garotinha dificil, mas nos daremos bem.

Notas finais
Gente, sei que tudo isso parece surreal. Uma garota ser presa e humilhada por não ser igual a todos os outros, mas deixo claro que esse tipo de coisa infelizmente acontece. Nao peço mais que creiam no que todos creem, mas que haja respeito. Meninas são forçadas a casar com 13 anos de idade, eu estou pegando leve nessa historia. Tudo isso fora do Brasil. Quem crer, ore. Quem não crer, lute por ao menos um pouco de respeito, que essa liberdade de expressão que temos possa invadir os 4 cantos do mundo. Quem quiser conhecer mais sobre historias do tipo é só acessar o site www.portasabertas.com.br , vai em noticias > testemunhos. Beijinhos e até o próximo.