Sobrenatural
10 Capítulo 9
– Mas como isso é possível?
Meu pai me interrompeu e senti a mão de Jásper firme na minha cintura.
– É verdade, ainda é meio dificil acreditar que alguém como o Jásper possa...
Jásper interrompeu.
– Não importa. Vamos deixar de lado essas coisas. Pretendo me unir a você daqui a 2 dias, o que vocês acham?
– Ótimo – disse meu pai.
– Muito cedo – contestei.
– Minha querida, não vamos adiar a felicidade. — ele sorria pra mim, nem parecia aquele ogro em forma de homem.
Minha mãe entendeu meu desespero. — 5 dias.
Todos olharam pra ela. — Sim senhor Jásper. Vai ser um momento muito lindo, todos do povoado estarão presentes, não queremos algo de ultima hora. Quero cuidar disso pessoalmente. E fazer eu mesma o vestido dela. Por favor, senhor. Compreenda, ela é minha única filha. Não me prive desse prazer.
– Tudo bem, daqui a 5 dias. Enquanto isso ela continuará aqui, sob os meus cuidados. Não se preocupem, respeitarei ela.
Era muito pouco. Cinco dias. O que aconteceria depois do casamento? E até la? Me despedi de minha mãe. Eles sairam e eu continuei naquela cela, por pouco tempo. Pensei bastante, onde estaria Symon agora? Será que descobriram sobre ele? Perguntei-me sobre Juditt e seu filho, meu meio irmão. Quando saberiam? Será que saberiam? As indagações não terminavam. Parecia que essa dor no meu peito também não. Jásper retornou, para minha infelicidade. Não conseguia me imaginar ao lado dele.
– Teremos cinco longos dias para nos conhecermos melhor.
– Por que comigo? Voce poderia ter escolhido qualquer outra mulher, uma garota rica, soberba como você. Por que eu?
– Voce pode ser um perigo, Alyah. Se não for domada direitinho. Mas comigo não será um risco. Ou se casa comigo ou morreria. Me agradeça.
– Preferia a morte.
– Voce não tem ideia do que esta pedindo. Mas vou relevar. Esta cansada. Adrian chegará mais tarde. Vou providenciar uma roupa melhorzinha pra você conhece-lo. Enquanto isso descanse.
Me deitei pra dormir. Pouco tempo se passou quando acordei com uma batida na porta e mais papel por debaixo dela. A batida era apenas um sinal dos guardas.
Me abaixei sem vontade, as cartas sempre diziam as mesmas coisas. Voce envergonhou nosso povoado. Voce merece a morte. Ingrata. Ovelha negra. Alem das cartas que vinham cheias de lição de moral. Peguei uma delas. A letra não me era desconhecida.
SOUBE de tudo que voce tem feito. Voce não se envergonha? O CASAMENTO de seus pais, as renuncias que eles fizeram. Isso é abominavel. Depois NÃO RECLAME de tudo que pode acontecer. Talvez ainda haja tempo pra voce se redimir. FUJA dessas ideias loucas. Faço ORAÇÕES por VOCE. Pra que nao caia no mundo dos rebeldes. Por que se cair, VOCE NAO ESTArá SÓ.
Ass.: Dona Estrela.
Ri. É claro que era o Symon, senti o cheiro do papel, o mesmo perfume de uma das flores do seu jardim. Havia um codigo muito bobo que passou despercebido pelos guardas. Estrela era o nome que estava escrito na sua gaita. Não sei de quem era. Mas sei que foi o Symon. Meu amigo estava comigo. Orando por mim. Ele soube do casamento com o Jásper. Meu amigo, que saudades. A porta foi aberta, um dos guardas jogou uma roupa em cima daquele prototipo de cama.
– Se arrume. O pátio esta livre.
Fui para o meu ritual. Tomar banho na banheira publica. Dessa vez só tinha um guarda. Jásper provavelmente estava se arrumando. Me enrolei na toalha e voltei pra minha cela. Vesti aquela roupa sem muita vontade. Era um vestido bonito, mas simples. Havia um pedaço de espelho colado na parede. Fiz questão de bagunçar o cabelo. Talvez o Adrian nao permitisse esse casamento louco. Sentei e esperei. Aproveitei pra falar com Goel mais uma vez. Jásper interrompeu.
– Voce vai assim? — Ele me olhou surpreso.
– Sim.
– Se voce acha que isso ai vai conseguir causar uma má impressão esta enganada. Adoro garotas selvagens.
Ele me puxou pelo braço e me levou ate a sala. Adrian, o sumido estava la. Ele era mais alto e mais forte do que Jásper. Seus olhos azuis e a roupa bem alinhada demonstrava autoridade. Sempre impecavel. Rigido. Diferente do Jásper que sempre brincava, até mesmo nos momentos mais improprios.
– Senhor, perdoe-me o jeito que ela esta.
Quando ele olhou-me de cima a baixo me senti corar. Ambos eram mais novos que meu pai.
–Tudo bem, Jásper. Ja vi piores.
Ele trocaram piscadelas e riram. A reunião foi rápida. Eles conversavam sobre mim como se eu não estivesse presente. Adrian assumiu que nunca se casaria comigo. Mas que respeitava a opinião do Jásper. E que se fosse para fazer aquilo, que fizessemos logo. Jásper me levou de volta para a cela.
– Até nosso casamento voce vai ficar aqui. Tomará banho todos os dias, e nada de rebeldia.
Ele me deu um beijo rapido forçado. Antes de sair consegui limpar minha boca.
– Eu tenho nojo de voce. Me deixe em paz. — gritei.
Ele parou ainda de costas, riu e voltou, com raiva. Acho que ofendi alem do que imaginei ser possivel. Me jogou na cama e me beijou outra vez. Não correspendi ao beijo. Eu odiava aquele homem. Ele se levantou da cama e saiu, sem dar uma só palavra. Me levantei tentando correr atras dele, mas em vão. A porta tinha sido fechada e eu estava só novamente. Chorei até adormecer.
Aqueles dias passaram arrastando-se. A mesma rotina, as vezes visita de minha mãe. E meu pai tentando saber onde estava o livro. Recebi mais algumas cartas do Symon me encorajando. Em algumas ele fazia piadas com o jeito do Adrian e do Jásper. Em uma delas ele deixou claro que poderia confiar no mensageiro, só poderia ser o menino Carlos. A cada dia conseguia falar mais com Goel, e o sentia mais proximo. Aprendi a confiar que assim como no sonho, ele estava a frente de tudo. Parece loucura, quando uma menina se ver forçada a se tornar mulher de um crápula. Quando o seu exemplo de paternidade se desfaz levando o exemplo de mulher virtuosa junto. Parece loucura, conseguir dormir dentro do território inimigo. Mas confiar é uma escolha. E eu escolhi confiar em Goel.
O dia enfim chegou. Fui para um quarto ainda melhor, no andar de cima. Parecia ser um quarto para hospedes importantes. Havia uma varanda, que não me dava a chance de fuga. Por esse motivo fui colocada ali. Minha mãe chegou com meu vestido, e com lagrimas.
– Filha, eu tenho tanto medo. Sei o quanto é ruim casar com quem não se ama. Ou descobrir que não amamos mais a pessoa com quem casamos.
Abracei ela.
– Mãe, olha para mim. Eu acredito que tudo dará certo. Acredite comigo.
– Goel, não é? — Tomei um susto, não havia falado com essa liberdade toda. — Não precisa ter medo. Devemos seguir nosso coração, filha. Venha, vamos vestir esse vestido.
Era de manhã, o casamento aconteceria após o almoço. Até la ainda sou uma prisioneira, não imagino que isso va mudar muito depois. Minha mãe estava dando os ultimos ajustes no vestido. A linha da agulha acabou e ela foi buscar mais na sua sacola. Fui até a varanda, algumas pessoas passavam e não notavam minha presença. O quarto era alto. Passei meus olhos por aquela parte da vila. Será que andaria ali novamente em paz? Um brilho fez meus olhos doerem. O brilho insistia e vi que era alguem com espelho, fazendo sinal. Alguem corcunda. Esbanjei um sorriso largo no rosto. Se tivesse assas voaria até ele. Lembrei da carta e fiz o que achava que deveria.
– Mãe, por favor, me ajude.
– Como eu puder, filha.
– As cartas não chegaram mais, provavelmente Jásper impediu. Eu quero vê-las, mas nao posso sair daqui. Os guardas não me deixariam. Vai até la embaixo, procure por Carlinhos sem que ninguem te note. E pergunte se ele tem alguma carta de dona Estrela para mim.
– Mas quem é dona Estrela? — ela me olhava confusa.
– Mãe, não da pra explicar. Vai la.. por mim.
Ela desceu, disse aos guardas que precisava de mais algumas coisas para o ajuste no vestido. Vi pela janela ela encontrando o Carlinhos. Esse lhe deu um papel como o previsto. Jásper apareceu no meu quarto de repente.
– Bonita vista, minha noiva? — Quase caí com o susto, me virei e tomei um rumo diferente. Não poderia deixar ele ver minha mãe la embaixo.
– Sim, linda vista. Aquela é minha realidade. Me deixa voltar para la.
– Agora? não não. Voce será minha. Preciso de um herdeiro. — Aquela ideia me embrulhou o estomago. — Mas... onde está minha sogrinha?
– Foi providenciar algumas coisas para o vestido.
Seus olhos passearam por mim de cima abaixo.
– Ainda precisa de alguma coisa? A noite ele não servirá mais para nada. — Ele se aproximou de mim, quando perdi o equilibrio e caí na cama. Minha mãe chegou.
– Filha, cheguei. — Ela olhou assustada para nós dois.
– Que bom, agilize logo isso. Quero minha noiva linda. — Me deu um beijo na testa e saiu.
– Esse homem não é confiavel.
– Ah, mãe, conte uma novidade. Cadê a carta?
Ela me entregou duas. Ambas de Estrela. Ou melhor, de Symon. Em uma delas entendi que deveria atrasar o casamento até a noite. E foi o que fiz. Expliquei a minha mãe. Ela disse que iria me ajudar. Esperamos o almoço chegar. Comemos a vontade. Ela foi até sua sacola, tirou pessegos e estendeu na minha direção.
– Ah não mãe... Odeio pessegos.
– Pois bem, é a unica coisa que pode garantir que voce vai passar mal sem ter nada grave.
Alergica desde criança. Tomei em minha mão e comecei a come-los, um a um. Senti ansia de vômito, comecei a ficar tonta e só ouvia minha mãe se perguntando se não tinha feito besteira. Ela guardou o resto em uma sacola embaixo da cama. Até que os guardas entraram.
– O senhor Jasper aguarda a menina la embaixo.
– Ela não se sente bem. Esta ardendo em febre.
Os guardas se olhavam, e olhavam para mim. Eles sairam, possivelmente pra explicar ao senhor deles. Queria ver a cena. Em alguns instantes eles voltaram. O senhor disse que era para a menina descer, ainda que carregada. Eles me tiraram da cama e tentaram me fazer andar apoiada neles. Chegamos na ponta da escada onde pude ver Jásper elegante la embaixo. Elegante e impaciente. Seus olhos me fitavam estressados. Ele subiu até onde estávamos.
– Alyah, não estou com muita paciencia para dramas.
Como resposta vomitei proximo aos seus pés. Eu estava realmente mal. Minha mãe interveio.
– Voce nao vê que ela esta doente? Deve ter sido algo que comeu no almoço. Por favor, espere só um tempo. Ela vai melhorar. Minha filha é forte.
– Estou vendo — ele murmurou. — Tudo bem, leve-a para o quarto novamente. Vou mandar limpar essa sujeira.
Ele desceu visivelmente alterado. As horas passaram e fui melhorando aos poucos. Tomei muita agua como quando era criança. Não estava me sentindo bem por completo. Mas era uma noiva casavel. Os guardas me levaram até o salão cerimonial. Algumas muitas pessoas estavam la. Ja era noite. Me posicionei confiando em Goel e Symon. Estava na porta do salão pronta para entrar quando fechei os olhos e novamente pedi ajuda a Goel. Vi o Jásper inquieto. E os guardas tambem. O Jasper era compreensivel, mais e os guardas? Me dirigi ao altar. Jásper estava se sentindo sufocado. Ele estava vermelho. Adrian tentou ajuda-lo. Mas ele era teimoso.
Antes do casamento ser efetivado, Jásper saiu do altar tossindo. Os guardas demonstravam o mesmo incomodo. De repente as janelas uma a uma foram abertas. E mais uma vez o vento me ajudava. Tudo escureceu, senti uma mão pequena puxando meu braço
– Vamos, vamos. Por aqui.
Fui guiada pelo desconhecido, mas confiei nele. Nem sempre conhecemos quem pode nos salvar.
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