Sobrenatural
4 Capítulo 4 - Um inimigo dentro de casa
A noite estava alta, acordei com alguem me chamando. Um manto que usava com certa frequencia estava sobre mim, me aquecendo.
– Lyah, menina. Acorde, o que faz aqui a essa hora?
Finalmente ele havia chegado. Levantei e dei-lhe o primeiro abraço da nossa vida como amigos.
– Simon, que bom que você chegou. Eu… estava te esperando.
– O que houve, hein? Levante-se, vamos entrar. Voce esta tremendo.
Ele me levou para sua choupana e comecei a lhe explicar o que houve.
– … Foi isso que aconteceu. Depois dessa discussão eu só tinha esse lugar pra ficar, mas você não estava aqui e acabei pegando no sono.
– Desculpe-me, pensei que sua reunião fosse pela manhã. — Ele falou enquanto ia para um dos comodos.
– Algumas vezes… Mas por que voce chegou esse horario?
– Estava ocupado. Isso basta...
Me aproximei da lareira que ele ja havia acendido enquanto falava, e me perdi na dança que o fogo fazia. Como voltaria pra casa? Alias, será que eu voltaria? Como prosseguir… Essas duvidas nao me deixavam em paz. Deixei mais algumas lagrimas rolarem.
– Tome um cobertor, sua cama ja esta arrumada. Voce dorme la no quarto e eu ficarei no sofá.
– Simon, não precisa se incomodar…
– Claro que preciso, e não é incômodo. Vamos comer alguma coisa e dormir, voce precisa descansar.
Assenti com a cabeça, no final das contas ele estava certo. Pelo menos no que se referia a eu precisar descansar.
***
Não consegui dormir direito, o Simon acabou percebendo e preparou um chá que ajudou, pelo menos deu para pegar no sono.
Acordei cedo, mas não mais cedo do que ele. Me levantei e vi ele cultivando um jardim proximo. Com aquele silencio pude prestar atenção nos detalhes. Apesar de se mover com dificuldade, Simon era ágil no que fazia. Ele cantarolava enquanto fazia seu serviço.
– Cabeça de vento, o que faz acordada tão cedo? — Ele sorriu pra mim.
– Eu ouvi o canto dos passaros… Aqui tem tanta paz.
Seu sorriso se alargou, mas terminou em um olhar triste. Limpou as mãos em um pano, e chegou perto.
– Aqui fora sim — olhou para o jardim -. Mas... e aqui dentro? — Ele apontou para o meu coração — Esta tudo em paz?
– Não Simon, mas tenho certeza de uma coisa. Eu quero ler o Livro.
Seus olhos se encontraram com os meus.
– Voce fez a melhor escolha de todas, voce sentirá paz.
Ele me abraçou e me senti acolhida. Queria que meu pai fosse como ele.
– Simon, me adote.
– Não posso cabecinha de vento. Voce me daria muito trabalho. Ja imaginou eu andando assim atras de voce pelas ruas?
Me sentia calma perto dele.
– Agora vai comer alguma coisa, tem frutas na cozinha. Estão fresquinhas, peguei a pouco tempo.
– Hummm… que delicia. Amo fruta fresca.
***
Mais tarde me aproximei dele com o livro nas mãos.
– É ele? — Assenti. — Posso ver?
Suspendi o livro até ele, seus olhos brilhavam. Ele abriu e folheou com extremo cuidado, como se fosse a coisa mais importante do mundo.
– Não me lembrava dessa parte… ó céus.
Simon começou a chorar. Estava visivelmente emocionado. Fechou o livro suspirando e me indagou.
– Esta pronta?
– Mas do que pronta, estou ansiosa.
Me recordei de algumas coisas que poderiam mudar. Eu poderia receber algum dom, nada comparado a magia, segundo ele. E teria que estar pronta para qualquer futuro.
– Alyah, voce não estará só.
– Eu sei que tenho a voce…
– Oh pequena Alyah. Essa companhia vai alem da minha. Se eu por acaso não estiver por perto, Ele estará.
– Ele quem, Simon? Como é isso?
– Calma, uma coisa de cada vez. Vamos la?
O livro foi aberto no 2° texto. Senti a mão de Simon segurando a minha. Para minha surpresa o trecho era bem menor que o outro.
Aceito ser guiada pelas palavras do Livro.
E cumprirei meu proposito seja ele qual for.
Me arrependo pelo caminho errado
E decido começar um novo.
Não posso abrir mão do meu livre arbitrio,
Mas usarei ele para beneficio Maior.
– É só isso? — Falei abismada.
– Por enquanto sim. Lyah, aprendi que as coisas mais importantes vem em embalagens simples. Pelo menos na sua maioria. Ja notou o amor e a amizade? Como pode existir em seres como nós? As coisas mais importantes não exigem grandes palavras. Apenas sinceras, grandes não.
– Tudo bem.
O dia passou de forma normal, tirando a parte que li muito do Livro. Só que grande parte não conseguia entender. Simon explicou-me que era com um certo tempo. E que o Dono do Livro decidiria quando eu estaria pronta para entender cada coisa. Achei meio injusto. Me senti manipulada por alguem que eu nem conhecia, mas que segundo ele ja morava em mim. Tudo era confuso e novo. Muita informação, e pouco uso. Mas algo não havia mudado: meus pais. Não sabia o que fazer. Pedi ajuda a unica pessoa por perto.
– Voce precisa fazer o que o Livro manda voce fazer.
Verdade. Havia esquecido que toda minha vida seria mudada. Ele me falou sobre honrar meus pais.
– Sempre honrei, Simon. Mas dessa vez será mais dificil.
– Nunca te falei que seria facil, e ainda assim voce aceitou.
Me afastei dele. Ouvir e aceitar uma verdade nem sempre é facil. Decidi que sairia a noite. No escuro seria dificil alguem me identificar e descobrir de onde saí. Preferi deixar o livro na casa do Simon. Me pareceu mais correto e seguro naquele momento.
***
Consegui chegar até a rua de casa sem chamar atenção. Mas naquele momento meu coração gelou. Coloquei a mão sobre meu rosto e lembrei da dor do tapa que meu pai tinha me dado. O que ele falaria depois disso? Será que ainda me aceitaria em casa? Esperei até ver que minha mãe sairia. A noite ela sempre ia para o lado de fora da casa. E foi nesse momento que abordei ela.
– Mãe… — Chamei com voz baixa.
– Lyah, minha pequena. Onde voce estava?
Nos abraçamos, eu e dona Salette sempre fomos mais do que mãe e filha. Sempre fomos amigas. Senti falta dela nesse pouco tempo distante. Ela me analisou procurando algum ferimento, olhando se realmente sua filha sobreviveu sem ela.
– Isso não importa. Eu estou bem, mãe, fique em paz. Cadê o pai?
– Esta la dentro. Ele esta preocupado com voce. Vamos entrar…
Ele estava de costas, na mesa. Fazendo a refeição da noite. Friederich provavelmente ja tinha ido dormir, ou estava nas casas dos amigos.
– Pai...
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