Sobrenatural
12 Capítulo 11
– Pensou que ia escapar de mim?
Desejei, pensei. Seus olhos brilhavam de raiva. Ser largado na igreja por sua noiva plebeia foi como um golpe fatal no seu orgulho. Senti sua raiva, tentei contornar mas nao houve opção. Eu estava em suas mãos outra vez. Seus passos na minha direção me fizeram vacilar. Comecei a caminhar para tras, saindo da clareira. Eu estava tão perto.
– E olhe só onde voce veio parar... — ele falou estendo os braços com um sorriso no rosto.
– Senhor Jásper? — uma voz desconhecida falou por detras de mim.
– Quem é?
Um rapaz saiu do escuro com as mãos para cima. Não dava para nota-lo bem, mas a claridade que a lua trazia mostrava que sua altura e força excedia a do meu ex noivo. Ele tinha cabelo liso, bagunçado naquele momento, e aparentemente loiro. Suas roupas eram simples, e ele parecia que estava voltando de alguma atividade fisica.
–Calma, sou eu. Nicholas.
O tal Nicholas passou em minha frente, pude vê-lo por completo. Ele continuou falando.
– Por que não terminamos as ofensas por aqui? Senhor, já não estamos mais no seu reino. Se não fizer nada, prometo-lhe que a garota não voltará a te importunar.
– O que ganho com isso? — seus olhos esquadrinhavam a situação.
– Consciencia limpa. Voce sabe que não volto atras com minha palavra. Por favor.
Eles pareciam se conhecer. O que aquele rapaz queria comigo? Sua idade parecia ser menor que a do Jásper, mas sua força excedia a dele. Pelo menos ganharia tempo.
– Voce sabe o que essa garotinha me fez? Me largou no altar. Me envergonhou.
– Dou-lhe minha palavra que ela não vai mais interferir em seu reino. — sua voz ficou mais grave.
Um tempo que pareceu a eternidade passou com um silencio cortante entre os dois. Até que Jásper o quebrou.
– Alyah, aproveite bem. — ele olhou ao redor — Sua liberdade durará pouco.
Ele deu as costas indo embora, e todo o resto de força que sustentavam-me de pé foi se perdendo. O loiro desconhecido me segurou, apoiando meu braço ao redor do seu ombro largo.
– Voce esta bem?
– Um pouco fraca. O que voce quer comigo? — ele poderia ser mais um a tentar me matar.
– Quero te ajudar. Vamos...
– Porque? Pra que? — Me afastei dele, encarando-o.
– Quero conhecer sua historia, ja acolhi pessoas como voce por aqui. Se eu quisesse te matar teria passado direto quando ouvi os sussurros. Por favor, me deixe te ajudar. Jásper me conhece, porque outras pessoas ja chegaram aqui na mesma situação que voce, algumas eu consegui salvar.
Ele estendeu a mão e permiti que me apoiasse contra seu corpo. Estavamos indo pelo caminho oposto a trilha que possivelmente daria para a cabana que o Symon havia falado. Retesei meu corpo.
– O que houve? Sentindo alguma coisa?
– Não Nicholas, é que eu estava indo para o caminho que fica atras da gente.
– Ah, a trilha. Não se preocupe, era o caminho errado.
– Não. O caminho esta completamente certo. — Symon estava proximo a arvore onde eu estava minutos atras.
Corri ao seu encontro com um sorriso de satisfação no rosto.
– Meu amigo...
– Eu disse que estaria por aqui, não foi? — Ele me abraçou e olhou minha roupa. — Caiu como uma luva. Que bom! Quem é ele?
Ia falar quando o proprio se apresentou.
– Sou o Nicholas, mas pode me chamar de Nick.
– Symon, ele salvou minha vida. O Jásper me encontrou. Mas o Nicholas conseguiu convence-lo a não me atacar.
– Interessante- disse sem muita expressão.- Agora vamos.
Continuamos a andar até que chegamos a cabana. Era mais simples do que a do Symon. Nicholas pareceu surpreso.
– Não sabia da existencia dessa choupana.
– Porque não era para saber mesmo. — Symon respondeu um pouco mais rude do que deveria.
Decidi conversar sobre isso no dia seguinte. Estava muito cansada. Symon trouxe pouca iluminação a casa. O suficiente para não nos batermos em nada. Me despedi do Nicholas e fomos dormir. Custei a pegar no sono. O medo de alguem invadir aquela casa era eminente. Tive pesadelos com minha mãe chorando, com meu pai me agredindo, com o Symon morrendo. Acordei. Estava amanhecendo. Preferi me levantar. Já não sentia mais enjôo mas tambem não foi a melhor noite da minha vida.
Sentei no chão, encostada a cabana e respirei o ar puro. Aquilo sempre me fez bem. Parar por segundos e lembrar que estou viva, e que há muito mais a fazer. Normalmente chego a conclusão de que minha maior preocupação no momento é não é fator determinante para chegar em meu objetivo de vida. Sempre tropeço nas pequenas pedras, pequenos problemas, pequenos desvios e atalhos. O maior caminho normalmente leva a melhor recompensa.
Comecei a caminhar por perto da cabana, tudo parecia verde, verde, e… verde.
O que teria depois de tudo aquilo? Fui seguindo a trilha para o lado oposto de onde tínhamos entrado.
– Alyah! O que voce esta fazendo ai?
– Eu só estava conhecendo mais, eu não iria muito longe Symon.
– Sempre começa assim, de pouco em pouco se faz o grande.
– Voce anda muto preocupado — falei beijando sua mão -. Quando vou conhecer o povoado?
– Agora. Vamos comprar comida. Caso contrario morreremos de fome.
Seguimos a trilha pegando alguns desvios no meio do caminho. Saimos no fundo de um casarão abandonado. Passamos por alguns becos até chegar na praça principal. Deserta se não fosse a presença de alguns mercadores. Mas parecia cenario das historias de terror que ouvia quando criança. Uma senhora que parecia ter acordado a base de agua gelada atendia o Symon. Sua falta de educação era notoria. Seu mau humor transbordava e sinceramente tive medo que molhasse meus pés.
Nos afastamos e eu não resisti.
– Como voce consegue ser tão amável com esse povo? Eu já teria dito umas verdades a ela, voce viu como ela te tratou?
– Ela ja sofreu muito, Alyah.
– Como voce sabe? Conhece-a?
Sentamos e aproveitei pra comer uma maçã que estava na sacola.
– Não. Mas um coração só é tão frio por medo de se aquecer.
– Como assim, Symon? Como uma pessoa pode ter medo de ser feliz?
– Da mesma forma que voce tem medo de continuar no caminho certo, pelas renuncias. Ao contrario do que se pensa, renunciamos muito para ser feliz de verdade. E no meio do caminho, quando acontece algo inesperado, nós culpamos a todos, e tememos continuar tentando, por que a dor de falhar parece maior que a alegria de sorrir outra vez. Não podemos chamar um adversário de gigante enquanto não nos dispusermos a descobrir o nosso real tamanho.
Ele sorriu pra mim e eu pude entender, que apesar da deficiência física que diminuía seu tamanho visivelmente, ele era o maior homem que ja conheci.
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