Sobre prótons, elétrons e Shakespeare
1 E sobre Augusto também.
Notas iniciais
Sobre átomos, prótons e Shakespeare
Capítulo I
(E único)
Eu lembro de ter comparado como nós existíamos tão perto e tão longe ao jeito como os elétrons e os prótons ficam em seu próprio ciclo vicioso. Mas agora tenho uma visão diferente da nossa pequena tragédia, do nosso momento “Romeu e Julieta” da Ciência.
Nessa visão minha, você continua sendo um elétron, mas a carga negativa não é o seu humor sarcástico ou o puro egocentrismo que te rodeia e sim tudo pelo o que passou. Porque hoje sou capaz de perceber: as coisas ruins que te mantêm de pé, te impulsionam. E considerando a quantidade delas que já suportou, se isso fosse diferente, você teria caído há muito tempo.
É meio como se você risse na cara da realidade e dissesse, erguendo a cabeça “Já acabou, Jéssica?” ou algo do tipo e é fisicamente impossível, até aqui na minha metáfora estranha, que tu demonstres melancolia em vez de esconde-la bastante, onde só quem gosta muito de ti e em quem possa confiar sempre, consiga enxergar. Gosto de pensar que sou uma dessas pessoas mesmo que seja estupidez, afinal você não tem uma consciência clara de que eu existo do jeito que existo. Você apenas me vê como seu oposto e mais sente a minha presença do que realmente se dá conta dela, assim como eu faria com você, se o próton que sou não estivesse meio danificado. O que nos leva de volta à metáfora.
Enfim, imagine isso: lá está você, pequeno elétron, ainda perto do núcleo e tudo parece ok, até um próton te notar, mas te notar de verdade; essa garota-próton vê você em todas as nuances, em todas as suas formas de energia e tenta se aproximar, mas não pode. Não pode porque você está se distanciando e a carga negativa que te impulsiona, não dá certo pra ela. E mesmo que conseguisse, mesmo que contra todas as probabilidades, ela te alcançasse, seria o fim. Não só para vocês dois, mas para toda a matéria. Curto circuito; como dois fios de cargas diferentes, vocês fariam faísca, mas independentemente da beleza da chama, perderiam coisas demais no incêndio.
E aí está: uma tragédia digna dos mais imortais e centenários livros de romance e que por isso é tão eternizada de formas variadas na maioria deles. Mas eu me recuso a continuar exercendo o mesmo papel nela; me recuso a ver os elétrons indo embora e esperar que superem tudo de mau que lhes aconteceu e voltem para a estaca zero, pro ponto de partida, atraídos pelos contos de fadas dos quais os prótons nunca saem, até que se deem conta de que ignorar a verdade não faz sentido para eles e os abandonem outra vez. Mesmo que com inúmeras recaídas, cobrir os olhos de vendas que exigem uma perfeição irreal jamais será parte de um elétron. E não quero que continue sendo uma parte de mim.
Vai ser uma mudança difícil, eu sei. Ilógica na química, eu sei. Provavelmente estragou a porcentagem científica da metáfora, eu sei. E não me importo. Ou pelo menos estou cansada o suficiente de não suportar a carga negativa e permanecer no mesmo lugar para que isso pareça menos assustador e mais necessário.
E eu agradeço a você; a você e todos os elétrons que passaram pela minha vida e me mostraram como é bonito ser assim: irreverente, realista e alguém que insiste em manter uma paixão pela existência do jeito que ela é e não do jeito que queria que ela fosse. Obrigada por, entre tantos prótons iludidos com o mundo, terem rasgado a minha ilusão. Também desejo que, um dia, no futuro, nossas órbitas façam sentido e possam mostrar a outro próton uma nova maneira de ver as coisas, ainda que elas nunca se cruzem outra vez.
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