Sobre pessoas e cidades

1 sobre pessoas e cidades


Uma grande cidade é feita de pessoas e pessoas são feitas de histórias cotidianas, o dia-a-dia, que muitas vezes só interessa aqueles que o vivem, mas outras guardam grande poesia. A história que trago é comum, mas é desse tipo de histórias que a grande cidade é feita e refeita todos os dias, é sobre dois personagens, sim, mas talvez diga mais sobre a cidade do que sobre os dois.

A metrópole a que me refiro é São Paulo, grande centro comercial, conhecida por ser uma cidade fria, sem coração e sem dó, que engole os inocentes e justos e os transforma em algo que nunca sonharam em ser. Mas existem pessoas que sabem viver ali, manter a poesia da vida simples acima da atmosfera geral da cidade. Assim são essas duas almas de quem me refiro e prefiro deixar anonimos.

Ele, nascido e criado em São Paulo, vida toda denunciada no sotaque cantado paulistano que ele jurava não ter. Tinha no rosto uma expressão feliz o tempo inteiro, o sorriso grande iluminando o rosto mais do que o sol ilumina a Terra e os olhos brilhando junto para acompanhar. Cachos castanhos caíam despreocupadamente pelo seu rosto branco, o cabelo tão bagunçado quanto sua personalidade era divertida. Tinha nos olhos algo a mais, uma faísca de esperança na vida que não se vê sempre.

A mesma faísca se via nela. Era bonita, e sabia disso. Mas olhando em sua expressão, a beleza não parecia importante. Seus grandes olhos castanhos mostravam que queria mais da vida, queria aproveitar cada momento em que estivesse viva e que assim o faria. Sua pele clara era perturbada por sardas eventuais e tatuagens bonitas e coloridas que combinavam com suas roupas sempre bem pensadas. Não era de São Paulo, como ele, vinha da calma cidade de São Bernardo do Campo, que guardava no coração com cheirinho de casa, mas que não amava.

Era uma tarde quente de início de dezembro e encontraram-se, junto a um grupo de amigos em comum, em um bar próximo à Rua da Consolação. Conheceram-se como pessoas normais, trocando nomes e informações banais e logo perceberam que não tinham muito em comum: ela do interior, ele da capital, ela gostava de séries de tv e de ler, ele tinha preguiça, mas mesmo com as diferenças, conversar dava tão certo que não perceberam as horas passar. As 16 horas, eram conhecidos. Às 23, eram grandes amigos que se abraçavam demais e trocavam carinhos demais.

Poderia ser perfeito para um início de romance naquela tarde escaldante no meio da cidade, porém, nenhuma bela história sobre amor é bela se não houver um problema, e havia. Ele namorava outra garota, a quem amava profundamente e não pretendia magoar. Sendo assim, conversaram enquanto as horas passavam.

Ela sabia que não poderia fazer nada se ele amava a namorada mas parecia que um imã trazia os dois para perto, sempre os rostos colados durante as conversas casuais, as vezes os lábios aproximavam-se e a única coisa que os separava era a culpa da traição, que o fazia se afastar e dizer entre suspiros que não sentia muito e queria muito, mas não podia. Ele a abraçava e dava beijos cheios de significado em sua bochecha, deixando-a irritada com a provocação. A irritação, porém, não durava mais do que dois segundos e ela já estava em seus braços novamente. Ambos sabiam que estavam errados e ele torcia para que sua namorada nunca descobrisse o modo como tratava aquela garota que era especial para ele: não sentia vontade de trair com ninguém, mas aqueles olhos redondos o olhavam e não havia nada que pudesse fazer além de se entregar.

Já no fim da tarde que virou noite, os dois ficaram sozinhos, longe dos amigos. Ele a convenceu a sair do bar onde estavam e ir para outro, do outro lado da rua, para conversarem melhor.

“Não é divertido isso?” Ele disse enquanto pairava o rosto a dois centímetros do dela, olhando fundo em seus olhos, perdido. “É a parte mais divertida, na minha opinião. A conquista, quero dizer.”

Ela avançou com a cabeça para beijá-lo, certa de que ele queria, mas ele afastou-se novamente e ela riu, um riso misturado de desespero e graça.

“Não é que não quero mais do que isso” ele continuou “eu quero e você sabe. Mas de verdade...”

“Eu sei, não pode.”

Ela completou sua frase e afastou o rosto, abandonando a esperança e cansando-se do jogo que eles jogavam há horas. Ele ao ver seu olhar desistindo e se afastando dele, segurou-a pela cintura e a trouxe para perto novamente, os olhos castanhos arregalaram-se e mudaram de volta para o prazer.

Ficariam ali a noite inteira nesse jogo de provocações que não levaria a lugar nenhum, mas tinham que ir embora, pois logo passaria da meia noite e o metrô pararia de funcionar. Levantaram-se apenas para descobrir que seus amigos á tinham ido embora e os deixado ali e que já havia passado do horário de funcionamento do transporte publico. Estavam sozinhos, na Consolação, de madrugada. Ela havia combinado de dormir na casa de uma amiga na Vila Mariana, mas não sabia direito como chegar lá. Ele morava no Ipiranga, mas prometeu que a acompanharia.

Ele sugeriu que ela pegasse um ônibus, mas ela era apenas uma menina um pouco mimada demais, e reclamou que não saberia onde descer se estivesse sozinha. Então, iriam os dois para a casa da amiga deles e iriam a pé. No primeiro cruzamento de ruas, havia uma grande árvore, ele mediu a árvore com os olhos enquanto ela inocentemente brincava de subir e descer das enormes raízes.

“Quantos anos você acha que essa árvore tem?” Ele perguntou.

“100, ou menos.” Ela respondeu, desinteressada, já atravessando a rua.

“Você ta louca! Tem pelo menos 200. Aquela outra ali deve ter 50.”

Ela riu, divertida. Ela era o tipo de pessoa que se perguntava quantos anos as árvores tinham, mas não era sempre que as pessoas acompanhavam esse tipo de pensamento sem importância. Afinal, em São Paulo, quem tem tempo de se perguntar quantos anos a árvore em uma esquina da rua da Consolação tem?

Em pouco tempo, estavam na Paulista. Ele perguntou se ela sabia andar por ali, ela sabia um pouco, já havia ido lá várias vezes, mas disse que não, não sabia. Ele pegou sua mão e começou a apontar para os lugares, explicando-lhe como chegar e para que direção ir. Andaram de mãos dadas por um tempo, conversando sobre tudo. A certo ponto, perto do parque Trianon, ela lembrou-se da última vez que estivera ali e riu sozinha:

“Posso te contar uma história triste?” Ele a olhou interessado. “A última vez que eu vim aqui, foi pra terminar meu namoro. Não era bem um namoro, mas eu era completamente apaixonada, foi ali no parque Trianon, voltei o caminho todo pela Paulista chorando, foi horrível” E riu, como costumava fazer sempre que alguma coisa a incomodava.

Ele contou suas próprias histórias de amor e ambos riram juntos de como a vida é estranha e como o amor não significa nada. Ele então pegou sua mão com mais força e disse que teve uma ideia, tirando-a dos pensamentos tristes sobre amores passados:

“Vamos entrar naquele hotel.”

“Pra que?”

Sem resposta, apenas a guiou pela entrada de um hotel com aparência de caro, passaram pelo segurança conversando normalmente, fingindo-se de hóspedes. Passaram pela porta dupla de vidro automática, deram boa noite para o recepcionista e subiram a escada que levava aos quartos, ele inteiro se divertindo e ela parte se divertindo e parte perguntando-se o que estava fazendo ali. Andavam pelo hotel de mãos dadas e rindo de tudo, claramente não pertenciam ao lugar.

“Preciso ir ao banheiro” ele anunciou enquanto procurava um.

“Eu entro no masculino junto com você?” ela perguntou, acompanhando as palavras de um sorriso cheio de inocência e um olhar provocativo, enquanto deixava ele se aproximar novamente como se fosse beija-la. Novamente, os lábios pararam a poucos centímetros de distância e se separaram, deixando na boca o gosto do que poderia ser.

Saíram do hotel rindo e de mãos dadas, mas pouco depois ele soltou sua mão e pela primeira vez na noite não estava sorrindo. Ele sempre dizia seu nome antes de começar as frases:

“Depois de hoje, a gente não vai mais se ver. Eu vou ter que evitar os lugares que você estiver, não consigo ficar perto de você, mas tem sido divertido, não tem?”

“Nunca mais? Não podemos ser nem amigos?” Ela disse com ironia, fingindo que não se importava com isso. Ele sorriu novamente e disse que sim, podiam, tinha exagerado em dizer nunca mais.

“Mas na verdade, eu não conseguiria ser mais que isso enquanto você namora. Ontem conversei com uma amiga sobre quem eu sou, chegamos a conclusão de que sou uma cebola.”

“Cheia de camadas?” Ela se impressionou com a facilidade que ele teve em entender a referência.

“Sim, camadas. A de cima é boazinha, essa que todo mundo vê. A do meio... nem tanto, é minha parte ruim, não gosto dessa parte. E eu não consigo saber se essa é a mais profunda, mas agora eu acho que não é. A mais profunda é boa também e é por isso que prefiro que não tenha nada entre a gente mesmo. Eu me sentiria mal.”

A partir dali, já no final da Paulista, não deram mais as mãos. Ela, que se dizia livre e odiava sapatos, tirou seu tênis e ele, para acompanhar, tirou também e andaram o resto do caminho descalços. Ela confessou que tinha medo de morrer atropelada e ele que tinha medo de pontes. Naturalmente, quando passaram por uma ponte ela ameaçou se jogar e ele a forçou a correr na frente dos carros quando precisaram atravessar. Falaram sobre esportes, que ela amava e deu para ele uma bola pequena qualquer que achou em sua bolsa, para que se nunca mais se vissem, ele se lembrasse daquela noite.

“Não me importo se não ficarmos juntos agora” Ele voltou ao assunto. “Penso que quando a gente sente que vai ficar com alguém, acaba ficando. Eu não sei de nada, só sinto isso” Ela concordou entusiasmada.

“É o suficiente pra mim por agora.”

Andaram em silêncio por um tempo e a essa altura já estavam no Paraíso. Passaram por uma praça, onde alguns moradores de rua haviam montado suas barracas e um gato preto estava preso por uma coleira a uma delas. Ela amava gatos e se aproximou do bichinho falando manso e fazendo carinho nele. A princípio, ele achou uma má ideia, mas logo se juntou, dando ao gato desconhecido o nome de Fifi e acariando-o. Seguiram caminho, falando de gatos e deixando Fifi para trás.

Chegaram à Ana Rosa e ele abraçou-a, sem dizer nada, não houve quase beijos dessa vez, apenas um abraço aconchegante e seguiram andando abraçados pelo caminho até a rua de bairro da casa da amiga. Sentiam-se metade felizes e metade culpados, a felicidade escondendo-se atrás do sentimento de traição.

Finalmente, depois de quase duas horas no caminho, chegaram para dormir. Deitaram-se cansados num sofá, um no colo do outro, trocando carinhos como namorados. Ela deitou-se sobre seu peito, enquanto ele elogiava seu cabelo e o acariciava, mas foi além aquilo já tinha ido além do que ele estava disposto e ele suspirou pesado. Não é uma história de amor, é apenas uma história sobre o amor, que muitas vezes não tem sentido e nem racionalidade. Não poderiam continuar com aquilo, os dois sabiam, aquela paixão duraria apenas o tempo que durasse aquela noite, mas no momento a noite parecia infinita.

“Você quer que eu suba pro quarto?” Ela perguntou, pela primeira vez tímida na noite inteira.

“É, quero, sim. Por favor.” Sua expressão não era feliz, mas ela foi, levantou-se e se afastou, sem saber se voltaria a vê-lo e, na verdade, sem se importar.

Não se importou de se afastar por que não era importante que aquilo continuasse, havia acontecido e isso que era importante. Não havia tido nada físico, mas o que é o toque físico quando se tem uma história dessas para contar? A vida é feita de momentos e não há, no mundo, algo que substitua um momento tão único. Talvez seja enxergar poesia demais na vida do cotidiano e essa não tenha sido nada além de uma noite qualquer, mas talvez tenha, sim, alguma beleza nessa história.

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