Notas iniciais
esse prólogo se passa por volta de 10 anos antes dos demais capítulos

A lua cheia estava alta no céu, e nenhum outro ser vivo que não fosse um lobo como ela poderia entender o êxtase e a alegria que invadia Siyeon por esse simples fato.

Okay, havia uma pitada a mais de felicidade para ela especificamente desde o mês anterior, já que sua irmã mais nova finalmente alcançara a idade da transformação e estava junto de si. A alcateia sempre se isolava em trilhas que humanos não alcançavam para gastarem a energia extra que seus corpos ganhavam toda semana de lua cheia, e era ótimo ter Hyeju explorando novos caminhos consigo.

Visto que era apenas sua segunda lunação desde seu aniversário de doze anos, a loba quase não tinha controle sobre seu instinto, mas isso apenas a fazia mais agitada e curiosa. Ao contrário do que muitas histórias humanas diziam, lobos não eram em si maus. Os casos conhecidos que terminaram em tragédias eram apenas reflexo de lobos inexperientes e solitários que não conseguiam lidar com tanta energia armazenada, ou pessoas que já eram más recebendo mais poder do que deveriam ter em vida. Lobos que cresciam em alcateias como elas eram educados desde cedo, e entendiam sua natureza bem o bastante para nunca oferecer perigo a ninguém – até porque, havia todo o suporte do grupo para lhe orientarem e ajudarem caso algo ameaçasse sair do controle. Humanos conviviam com vários sem sequer suspeitar.

Quando sua irmã desviou da trilha que a alcateia seguia, logo se encarregou de acompanhá-la. Geralmente, quando um lobo se afastava do grupo, era imediatamente trazido de volta, mas, como Hyeju ainda era uma “filhote”, era permitido que explorasse um pouco os arredores – apenas tendo certeza que alguém mais velho acompanhasse, para que não se perdesse ou se colocasse em perigo.

Em primeiro momento, a loba mais nova apenas seguia sem rumo, aproveitando para descobrir a floresta – e Siyeon certamente não reclamaria daquilo, visto que era um ambiente novo para ela também. Contudo, em algum ponto, ela pareceu ser atraída por alguma coisa, pois começou a caminhar de maneira mais resoluta, e vez ou outra farejava o ar. Imitando esta ação, Siyeon percebeu que estavam próximas de uma trilha humana, o que abria muitas possibilidades de atrativos e também muitos perigos. Estava pronta para interceptar a irmã quando percebeu um cheiro diferente – quase humano, mas certamente diferente –, e era no foco dele que Hyeju seguia.

Como a irmã era mais rápida, ela alcançou primeiro a árvore de onde o cheiro vinha, logo apoiando suas patas dianteiras no tronco e ganindo, o rabo abanando em curiosidade e seu olhar focado em um galho bem acima, de onde logo pode se ouvir uma exclamação assustada. Um garoto com idade próxima a sua estava deitado ali, quase escondido por um casaco que cobria a maior parte do seu corpo, mas o barulho o despertou e a visão da loba logo abaixo com certeza tinha o surpreendido.

Siyeon observou a cena por um minuto mais antes de se fazer visível na clareira. Com o ambiente escuro, talvez aquele detalhe passasse despercebido, mas um pouco de neve tinha se acumulado no topo da cabeça dele, delineando o cabelo negro e o par de orelhas felinas de mesmo tom. E, pelo estado das roupas, com certeza estava afastado da civilização por mais do que poucos dias, então provavelmente não era um caso de ter se perdido em uma caminhada. Ele continuava a tentar repelir Hyeju, a vendo como uma ameaça, mas não tentara feri-la de nenhuma maneira, o que achou sinal de um bom coração. Decidiu que deveria ajudá-lo, e voltou para sua forma humana para fazê-lo – não só porque o garoto provavelmente só ficaria mais assustado, mas porque ele não a entenderia de outro modo.

—Hey! – chamou, se aproximando com um sorriso doce – Tudo bem aí?

—Moça, toma cuidado, o lob...

—Não se preocupa. – como se Hyeju quisesse lhe dar razão, ao que se colocou em frente à árvore, ela foi para seu lado, afetuosamente se recostando na mais velha – É minha irmã.

—Ah... – o garoto ficou sem palavras por uns segundos, mas não resistiu à curiosidade – Não era pra você ser um lobo também?

—Eu sou mais velha, consigo ficar como humana por um tempo mesmo debaixo da lua cheia. – informou Siyeon – Essa filhote aqui tá apenas na segunda lua dela, ainda é inexperiente.

—E por isso ela queria me morder?

—Não, não! – riu a mais velha – Ela queria fazer amizade com você. Okay, admito que pra gente isso às vezes envolve mordidas, mas juro que ela não queria te machucar. – houve uma breve pausa, mas voltou a questionar — E, de verdade, tá tudo bem aí?

—T-tá sim. – a voz dele tremeu, e provavelmente não era pelo frio

—Tem certeza? Não tá perdido?

—Ah... não. – havia um toque triste em sua expressão ao responder – Eu to morando aqui mesmo.

No meio de uma floresta, dormindo em um galho de árvore? Não chamaria isso de moradia. Se estava ali, sozinho, por vontade própria... ou tinha fugido de casa, ou não tinha uma. E podia imaginar o que uma cidade faria com um adolescente híbrido como ele sem refúgio para recorrer – talvez ele mesmo já soubesse, não duvidaria da possibilidade. Ele não se afastara tanto de onde humanos poderiam ser alcançados porque provavelmente roubava suprimentos deles, mas não se arriscaria a mais do que isso.

Porém, como a camada branca em que pisava demonstrava, o inverno estava prestes a se instalar, e aquele não era um ambiente ideal para ninguém desprotegido. Siyeon se recusava a deixá-lo ali, a própria sorte, quando sabia o caminho para um teto que poderia abrigá-lo.

—Olha... minha alcateia tá numa casa um pouco acima dessa trilha. Tem espaço pra mais de dez pessoas, então... cabe mais um lá tranquilamente. – o garoto pareceu não entender porque ela estava lhe contando aquilo, então foi mais clara – Posso te levar até lá e você fica com a gente.

—Não, eu não quero incomodar...

—Imagina, a gente adora conhecer gente nova! – rebateu a mais velha, e nem estava mentindo – Você só vai ficar sozinho de noite, e de manhã a maioria tá dormindo, mas no resto do dia fica todo mundo jogando conversa fora ou se desafiando em alguma disputa, vão adorar ter mais um! E prometo que a gente não vai te morder.

—Lobos não detestam gatos?

—Cachorros detestam gatos. Alcateias acolhem todo mundo.

Ele ainda hesitou, mas talvez o vento frio que lhe alcançou o tenha feito reconsiderar, pois logo estava descendo da árvore. Ao que ele se colocou em terra, um segundo lobo alcançou o terreno, o fazendo se esconder atrás de Siyeon – e seu coração ficou feliz em perceber que ele já a reconhecia como proteção.

—Tudo bem, tudo bem, é minha melhor amiga. – ela se dirigiu pra loba ao prosseguir – Oi, Yoo... a gente deve ter demorado, né? Mas ótimo que você veio atrás da gente, pode levar a Hye de volta pra alcateia? Eu preciso levar alguém pra casa.

A recém-chegada a fitou confusa, e deu um passo para o lado para mostrar o híbrido, mas segurou a mão dele para demonstrar que continuava lhe apoiando.

—Esse é o... – foi apenas naquele momento que percebeu que ainda não tinha o nome dele, mas felizmente ele compreendeu sua intenção

—Seonghwa.

—Seonghwa. – repetiu, apreciando como o nome dele soava – Ele vai ficar com a gente essa semana.

Yoohyeon respondeu com um latido que só poderia ser classificado como feliz, mas talvez só outro lobo conseguisse interpretar isso, porque o híbrido apenas se encolheu mais.

—Tem certeza que posso?

—Absoluta. E ela entendeu tudo o que falamos, não se preocupe. – ao que se voltou para a amiga, não conteve um tom de repreensão, mesmo que não estivesse tão séria – Inclusive já deveria ter voltado pra trilha. Vai, vai!

Ambas as lobas pareciam desapontadas por não poderem acompanhá-los por mais tempo, mas acataram ao comando.

—Então... tudo bem se eu te levar como loba? O caminho vai ser mais rápido assim.

E também porque, por mais que pudesse se colocar como humana, a magia da lua cheia ainda inundava sua pele, fazendo seu corpo tremer por cada minuto afastado de seu chamado. Achava que conseguiria alcançar a casa antes de perder as rédeas de sua transformação, mas seria inegavelmente mais confortável se pudesse correr sobre quatro patas, e quase pulou de felicidade quando o garoto acabou por assentir.

Sem pensar duas vezes, deixou a energia lunar lhe preencher mais uma vez, assumindo a forma de pelos escuros e olhos de âmbar. Seonghwa deu um passo para trás, e conseguia ouvir seu coração pulsando mais agitado, mas ele conseguiu se encorajar a estender a mão, ao que ela se apressou em aceitar o afago. O garoto sorriu com isso, e Siyeon apreciou aquela alegria, mas sabia que deveria levá-lo para um lugar propriamente aquecido o mais rápido possível, então logo se abaixou para que ele pudesse se acomodar em seu dorso. Assim que sentiu que ele segurava em seu pelo, disparou pela floresta, ganhando um grito assustado no primeiro instante, mas não demorou para que estivesse ouvindo exclamações mais alegres – bem, não era todo mundo que podia contar que uma vez teve um lobo como montaria, e deveria ser uma experiência muito divertida.

Menos de vinte minutos se passaram antes que estivesse na varanda da casa que sua alcateia tinha alugado. Ao que o garoto estava de pé no chão novamente, voltou à forma humana para poder guiá-lo pela casa.

—Vem, entra! – chamou, vendo ele parado na porta, apenas fitando o ambiente – Não fica tímido não, a casa é sua. – seu olhar vagueou por alguns copos esquecidos pelo cômodo da entrada, assim como um jogo de tabuleiro largado na mesinha de centro, e se apressou em pegar os objetos da cozinha para levar de volta – Liga pra bagunça não, a gente é meio caótico, mas fica melhor conforme a semana passa.

Aproveitou que já estava a caminho da cozinha e a mostrou para o convidado, dizendo e reforçando que ele poderia pegar qualquer coisa da geladeira a qualquer momento – sentia que ele provavelmente não se encorajaria a fazer isso por si só, mas não deixaria de dizer. Inclusive teve que insistir em perguntar se ele não estava com fome no momento, por fim conseguindo fazê-lo aceitar um pequeno lanche. Então, o conduziu para o quarto que dividia com a irmã.

—E esse é meu quarto e da Hye... – começou, e, ao percebê-lo confuso com o apelido, se deu conta de algo fundamental – Ah, nossa, nem me apresentei! Foi mal. Eu sou a Siyeon, e a lobinha que te achou é a Hyeju. A gente divide esse quarto, até por isso tem duas camas, mas a gente sempre acaba dormindo juntas mesmo, então você pode ficar com a cama “extra”.

Nem precisava apontar qual era a cama não usada, visto que era a única arrumada. O garoto caminhou em silêncio até ela, se sentando meio sem jeito, como se fosse um intruso prestes a ser capturado pela segurança.

—A cama também não morde. – brincou, se aproximando – Pode deitar, viu?

—Você já vai dormir também? – perguntou ele

—Ah, não, ainda devo correr por aí um pouco mais... Mas vou ficar por perto!

—Eu não te atrapalhei, né?

—Não, não... a gente não tem nenhuma rota específica, só precisa gastar energia.

O garoto assentiu para demonstrar que entendera, e não demorou para que se rendesse à hospitalidade ofertada e se deitasse, ao que a mais velha o cobriu com um edredom extra que achou no armário. Siyeon saiu com passos rápidos, ansiosa por deixar a energia da lua lhe tomar novamente, mas nem por isso deixou de murmurar um gentil boa noite ao que fechou a porta do quarto.

Notas finais
eu amo muito esses irmãozinhos, ai *^*
então, o que acharam? o que esperam daqui pra frente? vejo vocês na lua nova com o primeiro capítulo!