Sobre gatos, lobos e amizade
3 [II] tentativa
Notas iniciais
Considerando o tanto de tempo que passava dentro do apartamento, Seonghwa não podia dizer que tinha dias cheios. Conseguia arrumar momento para manter a ordem do lugar, momento para se atualizar nas séries e filmes que gostava, momento para tentar uma receita nova... Vez ou outra, era visitado também pelo inegável vazio, mas o ignorava – ou assim dizia para si mesmo. Era apenas questão de se distrair até que a irmã estivesse de volta.
Naquela tarde, estava preenchido por aquela sensação mais uma vez, encarando a tela do notebook no seu colo sem realmente vê-la. Coisas demais passando por sua mente, pesando em sua respiração. Tentando escapar daquela teia antes que estivesse enredado demais nela, clicou no primeiro botão que alcançou no navegador, e acabou no site da galeria. Ao que as telas que organizara naquela semana o encararam de volta, um sentimento quentinho faiscou em seu peito, lembrando a conversa inesperada que ocorrera três noites antes.
Seonghwa não conseguiria explicar, mas algo naquela interação tão simples tinha deixado uma marca dentro de si. Uma conversa tão casual, tão poucas palavras trocadas, mas se sentia tão confortável só de lembrar. Havia algo em Hongjoong que o cativara, e queria passar mais tempo com ele. Conversar só mais um pouco. Quando se deu conta, tinha clicado na aba sobre a exposição das pinturas dele, sabendo que Siyeon sempre deixava informações para contato com o autor das artes expostas. Bem, se o autor quisesse, claro, e felizmente Hongjoong tinha deixado uma ponte de conexão com o endereço de seu twitter.
De algum modo, o perfil dele era como esperava, ao mesmo tempo que era uma perspectiva nova sobre aquele garoto. A header era uma pintura de borboletas azuis, e no avatar uma foto dele mesmo recostado contra uma parede colorida. Na borda desse último, a foto era delineada por uma sequência de linhas nas cores laranja, amarelo, branco, azul-claro e azul-marinho, e levou alguns segundos para lembrar que era a bandeira aroace – e sorriu com isso, pensando que Hyeju com certeza ia gostar dele. Observou alguns de seus tweets, percebendo que ele não usava muito aquela rede, ou talvez quisesse manter esse perfil mais profissional, porque a maioria dos retweets era sobre arte.
Não demorou muito para clicar no botão para seguir o perfil, pensando que ele provavelmente tinha ganhado seguidores novos com a exposição, então nem deveria notar. E também não teria como identificá-lo, pois era bem incógnito em seu perfil. Assinando como “Estrela Jedi” – simplesmente porque gostava de ser associado à palavra ‘estrela’, pura coincidência que combinasse com seu filme preferido – e com o desenho de um coelho rosa como avatar, Seonghwa não deixava escapar muito sobre si nos tweets, apenas se concentrando nas notícias das mídias que acompanhava. E gostava que fosse assim.
Contudo, se pegou tentado a mandar uma mensagem para Hongjoong. Seria tão simples. Hey, sou eu, o irmão da dona da galeria que você conversou três noites atrás. Seria tão fácil. Eu gostaria de ser seu amigo. E então o quê? Já estava com a caixa de mensagens aberta, mas aquele eco o parou. O que viria depois? Talvez uma conversa que nem progredisse muito. Ou talvez aquilo pudesse dar certo, e isso o apavorava. Quão próximo poderia chegar antes de ser arriscado demais? Quão próximo era o bastante para construir uma amizade e manter a distância segura?
Seonghwa sabia que não precisava ser assim sempre. Ele sabia que existiam humanos que tratavam híbridos como qualquer outra pessoa. Ele tinha plena noção de que os demais híbridos estavam seguindo sua vida, se expondo, caminhando por entre humanos que eram indiferentes a eles.
Assim como sabia bem demais como alguns humanos faziam questão de demonstrar o quanto não eram indiferentes, nem receptivos.
Quando percebeu, já era tarde demais. Sua respiração já estava desregulada, e sua mente perdida em algum lugar uma década antes, quando estava sozinho e indefeso. Nem conseguiu discernir quando deitou na cama, quando se abraçou, apenas estava lá, se recolhendo, tentando sumir, se esforçando para se repetir que tinha alguém a quem se segurar.
Acabou adormecendo, como se seu corpo não soubesse outra maneira de silenciar aquele turbilhão, ou talvez cansado pela tentativa. Felizmente, um sono sem sonhos – porque sabia que qualquer visão que aparecesse naquele momento não seria boa –, mas ainda assim agitado, e despertou como se adrenalina corresse por suas veias. Não sabia se tinha apagado por cinco minutos ou cinco horas, mas logo percebeu que a luz do sol se despedia, então pelo menos duas horas tinha perdido. Achou melhor se levantar e focar na refeição que precisava cozinhar.
Foi um início de noite silencioso até captar o barulho de chaves e logo em seguida a porta se abrindo. Uma saudação animada ecoou antes mesmo que Siyeon aparecesse na cozinha, com um largo sorriso.
—Cara, você não vai acreditar... – mas, de repente, ela se parou, prosseguindo em um tom mais comedido – Tá tudo bem?
—Está? – a afirmação lhe escapou como uma indagação pela confusão genuína da pergunta inesperada
—Você geralmente fica cantando quando cozinha. – apontou ela
Era verdade, e perceber como ela capturou tão fácil seu desatino foi um acalento. Se ainda havia algum resquício daquela sensação ácida de horas antes, ele foi varrido ao ser lembrado de que tinha alguém que lhe seguraria ao menor sinal de tormenta.
—Ah... – ainda assim, precisava de uma desculpa, e acabou optando por uma meia verdade – Deve ser porque eu acabei cochilando de tarde e vim fazer a janta em cima da hora... nem percebi.
—Nossa, cochilos não programados são os piores, ou você acorda renascido ou parece que foi atropelado. – concordou a mais velha, e não tinha certeza se ela acreditara no que disse ou apenas decidira não insistir
—Nem fala. Mas então, o que você ia contar?
—A galeria tava cheia hoje! – ela começou a arrumar a mesa enquanto contava – O que é ótimo, mas foi meio incomum, e comentei com a Yoo... e aí, lembra aquelas duas garotas ontem que eu disse que eram muito bonitas?
—Você diz isso de várias garotas. – provocou Seonghwa, e a irmã revirou os olhos, mesmo que seu sorriso concordasse
—Okay, não posso rebater essa. Mas esse casal chamava a atenção mesmo, eu até brinquei que elas poderiam ser modelos, lembra? – ele terminou de colocar seu prato antes de assentir – Pois bem, elas são. E uma delas postou que tinha visitado a galeria no insta... você já pode imaginar o resto.
—Caramba. Tá famosa.
—Estarei fazendo uma sessão de autógrafos amanhã. – ironizou a mais velha, rindo ao fim da frase – Ah! E sabe quem apareceu por lá hoje?
—Um cantor muito conhecido? – Seonghwa não resistiu à brincadeira, e a garota prontamente entrou nela
—Esse tá agendado pra próxima semana. – ela deu uma risada antes de realmente responder – O Hongjoong!
Foi inegável como aquele nome acendeu uma faísca em seu peito, mas tentou conter a animação que sabia que Siyeon identificaria muito fácil.
—Ah, legal ele ter ido bem num dia movimentado...
—Né? Ele ficou bem contente com isso. – e, talvez, poderia prever o que viria em seguida pelo sorriso que delineou os lábios dela, mas nunca esperaria pelas próximas palavras – Ele perguntou de você.
O híbrido não teve como represar sua reação, a surpresa dando espaço para a alegria brilhar em seus olhos.
—Perguntou?
—Uhum. – confirmou a mais velha – Foi uma das primeiras coisas que ele me falou. Perguntou se você tava por lá e pediu pra mandar um oi quando eu disse que não.
Como algo tão casual podia significar tanto para seu coração? Porque Seonghwa tinha certeza que não tinha parado de sorrir durante o jantar todo só por aquele comunicado.
A manhã estava pela metade quando o porteiro anunciou uma visita a seu apartamento, e foram poucos minutos até que Siyeon ouvisse aquela conhecida voz grave lhe dando bom dia. Mingi era um dos lobos com quem tinha crescido junto na alcateia, e, mesmo sendo mais novo, ele era consideravelmente mais alto que ela, então sempre sumia em seu abraço. Ele morava relativamente perto, então não era tão raro encontrá-lo naquele apartamento – assim como geralmente aparecia na manhã do início da semana de lua cheia, indo junto com as irmãs para o refúgio da vez, o que era o caso no momento.
Seonghwa só não apareceu na sala no mesmo momento em que a porta abriu porque estava ocupado reorganizando sua estante de legos – a mais velha tinha conseguido uma nave rara de presente de aniversário para ele, e o garoto tentava arrumar espaço para sua nova aquisição –, mas em poucos instantes o híbrido estava ali, sempre feliz em ver Mingi. Como ambos tinham quase a mesma idade, ele foi um dos primeiros de quem seu irmão tinha se aproximado depois de ser adotado, e até o presente se davam muito bem.
—Então, como está nosso gato preferido? – indagou o recém-chegado – Algum plano pra semana sozinho aqui?
Lobos adultos não precisavam passar uma semana inteira na forma lupina, mas pelo menos três noites conectados com sua natureza era essencial. Claro, uma alcateia ocasionalmente tinha lobos mais novos ou recém-transformados sob sua tutela, e estes exigiam as sete noites vividas de verdade, o que automaticamente fazia com que ao menos alguns dos mais velhos ficassem responsáveis por tomar conta deles. Para não exigir muito de ninguém, quem ficava era rotativo, e Siyeon era uma das que ficaria acompanhando os mais novos naquele mês.
Mas, independente se ela ficasse três ou sete dias longe, toda semana de lua cheia Mingi fazia aquela mesma pergunta, e em toda semana Seonghwa tinha a mesma resposta.
—Cuidar da casa. Conferir como a Haseul tá mantendo a galeria, dia sim, dia não. Maratonar alguma série nova. Você sabe, o de sempre.
E toda semana, o mais novo revirava os olhos com aquela resposta.
—Você realmente precisa de planos novos. – resmungou – Quando você vai arranjar um amigo que pode te fazer companhia em noite de lua cheia?
—Eu posso ir com vocês também.
—Não pode, não. – interviu Siyeon – Sinto muito, mas detesto a ideia de deixar a galeria sozinha por tanto tempo.
—A Haseul é fantasma agora? – brincou seu irmão
—Você entendeu. Confio demais nela, até porque se não já tinha demitido... mas a galeria é meu bebê e prefiro que fique pelo menos alguém da família por perto.
O híbrido riu, sem palavras para discordar, até por saber que ela ainda daria uma última passada por lá para conferir tudo. As horas passaram voando – como se seu corpo não estivesse sentindo cada instante mais próximo da lua cheia renascer –, e quando viu seu celular apontou uma mensagem de Hyeju. Antes de sair, repassou com o irmão se ele realmente não precisava de mais nada e tudo que ele precisava saber caso acontecesse alguma emergência, porque cuidado nunca era demais, e se despediu com um apertado abraço, como sempre. De qualquer maneira, logo estava seguindo para o carro parado logo à frente de seu prédio, seguida de perto por Mingi, e ambos entraram no banco de trás, visto que o banco da frente já estava ocupado.
Dois meses antes, uma colega de trabalho de Hyeju fora mordida por um lobo sem controle, e foi sorte que a alcateia estava por perto para cuidar dela. Chaewon não trabalhava há muito tempo na empresa que a loba administrava, mas, ainda assim, o instinto de Hyeju falou mais alto e ela se determinou em guiá-la por aquela nova vida, e portanto ela tinha sido acolhida pela alcateia. Sua adaptação não estava sendo das piores, mas ela ainda era bem tímida e desalinhada com os demais – mas ao menos a amizade com Hyeju estava florescendo, pelo que sua irmã contava.
—Então, prontos pra mais uma semana de uivos? – comentou Siyeon, em tom enérgico
—Espero o mês todo por isso. – a mais nova rebateu, com um largo sorriso, mas amaciou a voz para falar com a amiga – Vai ser mais fácil dessa vez, tudo bem? Você até já tava controlando a transformação nos últimos dias! Isso é ótimo, de verdade.
Chaewon assentiu com um sorriso discreto, e permaneceu quieta o resto do percurso, um nítido contraste com o animado trio.
Seonghwa terminava seu jantar quando recebeu uma mensagem de Haseul, comentando que tinha atualizado algumas fotos do site da galeria, aproveitando as que tinham sido tiradas nos dias com maior movimento. Uma ótima ideia, não só pela boa propaganda, mas também dava mais vida às imagens da exposição.
Decidiu dar uma checada em como estava, até para propriamente elogiar a atualização, e se pegou fitando certas obras por um instante a mais do que o necessário. E, antes que pensasse demais, abriu a aba de seu twitter, digitando o username que já estava salvo em suas procuras recentes e mandando a mensagem que sentia que precisava.
Fale com o autor