Notas iniciais
Nem sempre os “finais” são felizes.
Na verdade, seria incoerente dizer que o que tinha acontecido era o fim. Claro, os responsáveis por trás de tantos atos controversos tinham sido desvendados e castigados, mas ao custo de corações partidos o suficiente para que o efeito fosse o contrário de alívio. Mesmo para Wei Wuxian e Lan Wangji.
Isso não queria dizer que eles não estavam mais felizes do que já estiveram a maior parte de suas vidas — apenas queria dizer que nem todos ao redor deles tiveram a mesma sorte. Os mortos não poderiam ser trazidos de volta (Wei Wuxian era uma exceção), e algumas feridas nunca param de doer.
A partir de certo ponto até o final de sua vida passada, era impossível para Wei Wuxian dormir sem ter pesadelos. Seu antigo corpo aguentava passar noites em claro, e dormir durante alguns breves períodos de tempo quando aquilo se tornava difícil demais. Naquela nova vida, entretanto, ele teve poucas noites para se acostumar antes que Lan Wangji o encontrasse novamente, e descobriu que dormir com ele era tão simples quanto respirar.
Mesmo assim, Wei Wuxian ainda tinha pesadelos, de tempos em tempos. Às vezes, sonhava com a energia vingativa da Colina Sepultura o engolindo vivo. Às vezes, sonhava com campos de batalha, com marionetes que saíam do seu controle, com sua irmã morrendo em frente aos seus olhos por uma espada que o devia ter atingido. Sonhava com o Pier Lótus destruído após o massacre, com o silêncio aterrorizante de Yiling depois de todos os Wens se sacrificarem por ele.
Às vezes, Wei Wuxian acordava sufocado pelos seus próprios pesadelos. E sempre, Lan Wangji estava ao seu lado para fazer com que ele respirasse novamente.
Mas seu Lan Zhan também tinha pesadelos. Ele não acordava gritando ou se sacudia incontrolavelmente, como Wei Wuxian fazia — como tudo em Lan Zhan, era sutil o suficiente para que apenas aqueles que o conhecessem soubessem identificar; não que ele abraçasse qualquer um que não fosse Wei Ying enquanto dormia. Entretanto, era fácil saber quando acordava no meio da noite com os braços de Lan Wangji o apertando mais forte que o normal, uma mão em seus cabelos que o acariciava como se fosse a primeira vez que o encontrasse depois de mais de uma década morto. Quando isso acontecia, Wei Wuxian o abraçava com mais convicção e sussurrava “eu estou aqui” até que os olhos de Lan Wangji se suavizassem e o tremor de seu corpo passsasse.
Viver no Recanto das Nuvens, ao contrário do que o seu eu adolescente pensava, era bom: Wei Wuxian facilmente encontrou conforto na rotina imaculada dos Lans, mesmo com a comida sem gosto (que Lan Zhan sempre melhorava para ele); com os horários absurdos para se deitar e acordar (que Lan Zhan, mesmo seguindo-os, não obrigava Wei Ying a fazer o mesmo — ele sempre acordava mais limpo do que tinha se deitado e com comida preparada para ele); com as atuais mais de quatro mil regras que ele tentava ao máximo seguir, agora que era o parceiro de cultivação de Lan Zhan (mas sempre acabava quebrando algumas, e Lan Zhan não se importava).
Bem, talvez ele só gostasse de viver com Lan Wangji. Eles achariam conforto em qualquer lugar do mundo enquanto estivessem juntos.
Entretanto, Wei Wuxian gostava de estar perto dos Juniors, principalmente de Lan Sizhui, depois de ter perdido tantos anos importantes do seu crescimento. Ele tentava não pensar muito sobre isso, porque doía demais imaginar Lan Zhan aprendendo a cuidar de uma criança enquanto passava pela dor do luto.
Se Sizhui percebia quando Wei Wuxian decidia passar mais tempo com ele, fosse por pesadelos ou quando sentia culpa demais, não comentava. Era especialmente melhor quando Lan Zhan se juntava a eles, vivendo o que fora roubado deles por anos.
Ele se perguntava se Sizhui sabia das trinta e três cicatrizes nas costas do pai. Ou se ele mesmo tinha seus próprios pesadelos, agora que recuperara as memórias de quando era uma criança. Por vezes, tinha o impulso de perguntar como era o Hanguang-Jun daqueles primeiros anos, mas tinha uma noção da resposta e não era forte o suficiente para ouvi-la.
Havia também Lan Xichen, que estava saindo aos poucos da reclusão. Wei Wuxian sabia, sem que Lan Wangji precisasse falar, que ele às vezes se cobrava demais ao oferecer ao irmão o mesmo conforto que ele tinha oferecido anos atrás, quando a situação estava invertida. Só que algumas jornadas precisam ser enfrentadas sozinho, e ambos sabiam que Lan Xichen estava em uma dessas; logo, Lan Zhan não podia fazer muito mais do que estar presente. Podia não ser o suficiente para que ele melhorasse instantaneamente, mas era um suporte que facilitaria ao longo do caminho.
Não pela primeira vez, Wei Wuxian se perguntou como seria se as coisas tivessem acontecido de forma diferente entre ele e Jiang Cheng. Ele conhecia-o mais do que ninguém, sabia que ele não o odiava (provavelmente?); mas também sabia que a mágoa crescia em Jiang Cheng desde muito antes do dia de sua morte. Sabia que não tinha nada que pudesse ser feito para que eles voltassem a ser o que eram antes. E, bom, ele já estava praticamente conformado com isso.
Não significava que, por vezes, ele não sonhasse que era uma criança novamente, nadando nos lagos do Pier Lótus, muito antes de ter que se preocupar com guerras e mortes.
A segunda vez que visitou Yunmeng depois de ressuscitar, ele estava com Lan Zhan, antes de voltarem ao Recanto das Nuvens. Da primeira vez, quando ele precisou ir para o Pier Lótus, durante a preparação dos líderes dos clãs para o contra-ataque a Jin Guangyao, Jiang Cheng o expulsara. Na segunda, os dois estavam apenas passando por Yunmeng, já semanas depois do ocorrido, então ele pensou que, talvez, não faria mal fazer uma visita breve. Lan Zhan, é claro, nunca iria contra sua vontade.
Acontece que aquele Pier Lótus não era o Pier Lótus da sua infância e adolescência. Mesmo além das novas construções, feitas após sua destruição, o ar era diferente. Os discípulos não pareciam ser tão alegres quanto na sua época, e havia menos rostos familiares. Não se encontrava tantos jovens brincando no lago, comendo sementes de lótus roubadas.
Assim como na primeira vez, Wei Wuxian sentiu um misto de alegria e de tristeza, de saudade e melancolia. Nada nunca seria o mesmo. Quando Lan Wangji perguntou se ele queria ficar, respondeu que preferia ir, antes que Jiang Cheng descobrisse que estavam ali.
O que ele não esperava é ver o próprio Jiang Cheng observando-os, de longe, a mesma expressão de incerteza que a do último encontro deles. Ele não fez um convite para ficarem, mas também não disse para irem embora. Wei Wuxian foi, mesmo assim.
Isso aconteceu mais algumas vezes: Wei Wuxian usava a desculpa de estar em Yunmeng, ou por perto, para visitar o Pier Lótus. Fosse com Lan Zhan, com os Juniors, ou mesmo sozinho. Nem sempre via Jiang Cheng. Às vezes, se deparava com ele assistindo de longe. Sempre, eram visitas breves: dava algumas voltas, comprava algo para comer, prestava seus respeitos aos mortos.
Até que chegou o dia em que Jiang Cheng conversou com ele. Quer dizer, o dia em que ele gritou do seu jeito característico:
— Já que fica indo e vindo toda hora, por que não fica de uma vez?!
Wei Wuxian pensou que, talvez, tivesse falado aquilo por Jin Ling, o sobrinho em comum que era uma das coisas que mantinha o vínculo deles ainda existente, por Yanli. Tendo crescido com o tio, Jin Ling não era bom em expressar o que sentia, mas Wei Wuxian soube ver sua alegria com a “sugestão” de Jiang Cheng, então ficou até o dia seguinte, que foi quando a tensão das refeições silenciosas entre os três foi demais.
Wei Wuxian passou um tempo mais longo do que o costume para voltar ao Pier Lótus depois disso. Quando finalmente foi, estava na companhia de Lan Zhan, e depois de uma hora caminhando sem rumo, um dos discípulos do Clã Jiang os encontrou, dizendo que estavam terminando de preparar um quarto para eles. Jin Ling nem estava lá.
Jiang Cheng, Lan Wangji e Wei Wuxian jantaram em silêncio naquela noite, assim como tinha sido a refeição da última vez. Quando terminaram, Jiang Cheng disse, baixo o suficiente como se ele não tivesse certeza que queria que eles ouvissem:
— Você demorou para voltar.
Ele podia muito bem ter esfaqueado Wei Wuxian de novo — ele sentiria menos coisas do que sentiu naquele momento.
Lan Zhan voltou para o quarto mais cedo, usando sua hora de dormir como uma desculpa para deixá-los sozinhos. Assim, passaram algumas horas bebendo e tentando manter uma conversa. Era estranho, mas ao mesmo tempo, bom. Era diferente.
Era um começo.
Dois dias depois, eles se despediram. Wei Wuxian começou a manter sua rotina de visitas sempre que podia (e ele se esforçava muito). Jiang Cheng se esforçava do seu jeito. Não era perfeito: eles ainda brigavam, e diziam coisas que não queriam dizer. Às vezes saíam magoados. Entretanto, se desculpavam. Jiang Cheng se desculpava. Sempre com aquele olhar de incerteza, como se sempre quisesse dizer algo a mais, mas nunca dizia.
Talvez, um dia, ele falasse.
O Pier Lótus não era o mesmo. Eles também não eram os mesmos.
Mas era um começo.
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