Sobre eu, você e nossas coisas
7 Capítulo 7
Naquele mesmo dia mais tarde, Camila me mandou um áudio de mais de dois minutos. Fiquei com preguiça porém ouvi. Era ela falando que a galera tinha ido pra casa dela, todos bêbados, além de que estavam com o Kauê, um menino aleatório da escola e com a Bruna O. que tinha um passado com a Alice (elas eram melhores amigas há alguns anos porém a Alice se aproximou do pessoal e se distanciou um pouco da Bruna O. e ela criou raiva do grupo inteiro, por ser uma pessoa ressentida, só que estava começando a deixar tudo nos eixos). Todos tinham ido pra casa da Alice inicialmente, que é uma casa muito pequena, todos ficam extremamente apertados lá dentro. Beberam pra caramba e Alice, Renata e Bruna M. ficaram com o Kauê, ou seja, foi o dia de sorte dele. O Martim disse que não iria beber, mas bebeu... Bebeu o suficiente pra sair falando que queria pegar no pau de alguém, que gostaria de beijar a Renata ou a Bruna M. e vomitar um monte. A Maju ficava repetindo na mesa "caralho mano, eu sou uma merda... eu tenho que ir cuidar das crianças!" e pra terminar jogou o celular no chão e amassou com o pé, gritando que odiava o capitalismo e foi pra casa, bêbada e sozinha.
Depois desse furdunço, Alice arrastou a "trupe" toda pra casa da Camila pra fazer não-sei-o-quê lá e o pior de tudo é que a mãe da Camila estava em casa. Camila deu água pro Martim por que ele estava vomitando muito, Alice quis ir no banheiro dela e Renata ficava gritando que queria deitar. Bruna M. e Bruna O. ficavam só observando e Kauê se sentindo o intruso que obviamente era. Camila disse que se sentiu muito mal vendo tudo aquilo.
[voz de Camila no áudio]: Eu me senti tão mal, Jessie... Sabe quando você se sente incapaz? Eu sei que foi escolha deles ir beber e eu sei de tudo que eles fizeram mas, se eles sabiam que eu não gosto de ver ninguém assim, por que diabos apareceram no meu portão? A minha mãe ta fazendo perguntas até agora e eu simplesmente não sei o que respondo. Não sei como responder por que nem eu sei o que foi isso. Eu sei que sou uma pessoa exagerada, sei que sou mais sensível do que o convencional e que não devia ficar mal por algo assim mas, poxa... Sabe? Eu to sem palavras até agora. Só queria dizer isso pra você por que você deve entender pelo menos um pouco do que eu sinto em relação à isso... Porra, o Martim disse que não ia beber e foi o que apareceu pior aqui. To sem estrutura emocional pra ver meus amigos acabarem com eles mesmos.
Eu sabia como era se sentir da forma como ela estava se sentindo, mas eu também entendia que eles estavam querendo descobrir a vida e que aquilo era só o começo. Por ter me acostumado com a ideia de que se tornaria algo frequente, eu não estava tão mal, só estava puta por que eles tinham ido até a casa dela sabendo que ela não gosta de ver ninguém bêbado demais. Fui conversando com ela até que o dia acabasse e não falei com mais ninguém além do meu namorado sobre.
No dia seguinte, eu coloquei minha cadeira do lado da mesa dela e fiquei fazendo cafuné na aula vaga. Enquanto isso, estava o grupo inteiro dando risada de toda a situação que tinha acontecido entre eles e ja queriam mais uma vez. Fiquei quieta sem opinar e a Camila fez o mesmo.
Quando subimos para a quadra, por que eram duas aulas vagas, eu fiquei encostada no muro da quadra sem cobertura, o tempo estava um pouco frio por causa do vento, então fiquei onde tinha sol. Eu e Camila tínhamos vindo na frente e o resto das pessoas atrás, isso contando com a Bruna O. Eles vieram na nossa direção e o Martim disse:
— Vamos lá pro outro lado sentar e conversar meninas!
— Vou ficar aqui por causa do sol... — eu disse.
— Por que vocês estão com essa cara de bosta que secou no sol?
— Por que eu acho um desrespeito com a Camila vocês irem bêbados até a casa dela depois dela ter avisado vocês que não queria ver ninguém bêbado.
— Desrespeito?
— Orra, Martim! A mãe dela tava em casa, "vei"! Vai tomar no cu, né?
— Vocês duas são muito chatas! — ele soltou.
— Mano, quer beber? Bebe! Bebe até ter uma cirrose mano, só não envolve quem tá quieto na bagunça! Ninguém ta pedindo pra vocês pararem de se embebedar, vão em frente! Só estamos pedindo pra ter consciência com as pessoas que se importam com vocês. Se enxergam isso como chatice, o problema não é meu.
— Então fica aí, besta.
— Vou ficar. Vai lá.
Ele deu as costas e saiu. Deu pra perceber que estavam falando sobre a gente e naquela época, eles realmente achavam que eu estava sendo a tiazona que corta o barato, que tira o pirulito da boca das crianças. Mas na verdade, eu só queria que ninguém se magoasse por pouca bosta.
A Ásia veio falar com a gente.
— Oi meninas!!! To agitada hoje!
— Você sempre ta agitada, Ásia!
— Isso é verdade! Sabe o que eu soube? Que vai ter projeto esse ano, tipo projeto de dança. Lembra que 2015 a gente ganhou?
— Ô se lembro, — Camila disse — a Jessie tava linda de rainha da primavera e o Martim criou uma dança muito amorzinho pros dois também. Nossa, foi muito massa.
— Ah, mas eu acho que esse ano o projeto deve ser mais difícil. Vocês viram o professor Edson dizer que ele e o pessoal da coordenadoria estão vendo isso, a professora Luciana também. Eles achavam o projeto primavera muito coisa de fundamental, sei lá. Na moral, eu também acho. — eu falei.
— Bom! Só sei que estou animada! A gente ta no começo do ano e isso tudo só acontece lá pra fim mas eu sou ansiosa demais!
— A gente sabe, a gente te conhece amore! — eu disse.
— Por que vocês estão longe do grupo de vocês?
— Por que ta todo mundo de palhaçada nessa porra e a gente não quer se matar por que todo mundo se ama.
— Você é engraçada, Jessie! Bom, eu vou jogar vôlei, alguém vem?
— Eu vou sim, vamo Jessie? — Camila perguntou.
— Ah não, não gosto.
— E vai ficar sozinha?
— Livros são bons amigos! — disse, mostrando o livro que estava na minha mão.
E lá se foram elas. Fiquei ali no solzinho, lendo e sem muitos pensamentos circundando minha cabeça.
Quando deu 12h20, famoso horário de libertação, eu só fui. Não me despedi de ninguém por que estava brava e seria um pouco grossa. Não gosto de descontar a raiva nas pessoas, apesar de, de vez em quando isso acontecer. Só fui pra casa pensando e cantando Do I Wanna Know na cabeça.
Quando cheguei em casa e conectei o wi-fi no celular tinha um "boa tarde, amor" do Rogério, um aviso de minha mãe dizendo que eu precisava fritar frango e um grupo aleatório que tinham me adicionado chamado "aqui só tem otário". Fui ver quem estava. Camila, Isabelle, Bruna O., Thiago, Felipe e o Paulo. Dali, tecnicamente falando, eu só conhecia bem a Camila por que tinha trocado umas palavras com a Bruna O. e o Thiago e a Isabelle, o Felipe e o Paulo eu nunca tinha conversado.
Na foto de perfil, Isabelle era muito bonita e eu a reconheci como sendo uma amiga da Camila de outra sala. O Paulo eu ja tinha visto em 2015, nós éramos alguns dos poucos alunos que foram pra escola durante a greve de professores, mas não nos falamos ou coisa do tipo. O Felipe tinha uma foto do Bart Simpson no perfil, então eu nem fazia ideia de quem era. A primeira mensagem era assim:
Paulo: Oi Jessie, te coloquei aqui por que a Camila pediu pra eu te colocar e a Camila é muito gente boa pra pedir pra eu por uma pessoa chata em algum lugar, então presumo que você seja foda pra cacete. Seja bem vinda a esse grupo de otário.
Felipe: Eu sou o Felipe, mas pode chamar de Bart ou Felps. Ah e a gente não usa emoji.
Bruna O.: Você sabe quem eu sou então é nois.
Jessie: ah gente, pau no cu de vocês que tem preconceito com emoji, eu uso vários e inclusive falo gíria como top, se for ter preconceito com isso eu vou dar um socão! e eu não uso letra maiúscula na internet por que do país de onde eu venho (mais conhecido como twitter) até nome próprio fica em minúsculo. não conheço vocês mas só vamo. avisinho: eu falo merda demais então acostumem.
E ficamos ali falando de coisas super nada a ver. Criamos um vínculo num dia e mal esperávamos pra falar merda pessoalmente no outro dia.
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