Sobre doar e crer
1 único
Quando Zoro conheceu Sanji no restaurante à deriva no mar, ele sentiu que aquele sobrancelhudo estava preso por correntes imaginárias. O sorriso ladino, os lábios habilidosos que seguravam o cigarro com maestria, o olhar maçante, os sapatos lustrados, o ar debochado e as mãos nos bolsos do terno, davam um ar maneiro àquele idiota. Mas Zoro sentiu que havia potencial sendo deperdiçado ali, talvez por conta das correntes imaginárias que o impedia de crer no impossível.
E o espadachim também sentiu que o encontro de ambos afetou muito Sanji. Na Vila Cocoyashi, após a revolta, o cozinheiro buscou falar com ele na festa, e as correntes já não existiam mais. Antes de partirem, Usopp diria que Sanji havia ficado preocupado com o ferimento no seu peito. O narigudo nem precisava comentar isso, porque Zoro viu num vislumbre o idiota desesperado assim que foi derrubado por um shichibukai. E não entendeu na hora por que as mãos do cozinheiro tremeram, haviam acabado de se conhecerem, na verdade, nem trocaram palavras...
O espadachim compreendeu isso melhor quando Sanji saltou na água para salvar Luffy sem pensar duas vezes. Ele lutava com um homem-peixe e arriscou sua vida por entrar num ambiente favorável para o inimigo. Nesse momento, Zoro não sabia o porquê de ter ficado preocupado, já que não ia muito com a cara dele, mas quando o viu retornar para a superfície são e salvo, o esverdeado sentiu que poderia confiar nele quando o assunto seria proteger o bando. E, claro, sentiu um grande alívio no peito.
Porém, com o tempo, ele sentiu um instinto materno exagerado em Sanji. Cuidava da alimentação de todos, a base para manter um homem vivo e forte, e voltaria a fazer loucuras como aquela de mergulhar na água.
Zoro sabia que Sanji não parava de se doar ao proteger Usopp e Nami. E era gentil demais para dizer a Chopper que Luffy também era um monstro. Pensava tanto nos outros, que não pensou duas vezes de largar o bando para salvá-lo de seu pai e de uma yonkou.
Dessa forma, o espadachim do bando pensava que Sanji não confiava em seus companheiros. Não do jeito de acreditar em suas forças como Zoro confiou nele. Até mesmo quis se sacrificar no seu lugar, será que não acreditava que o marimo não se permitiria morrer? Como quando sobreviveu ao desafiar o maior espadachim do mundo por conta de uma mera promessa que fizera ainda criança? Ainda não acreditava no impossível?
Era noite e Zoro acordou, olhou para a rede ao lado e viu que estava vazia. Lembrou-se que o sobrancelha enrolada fazia a vigia e resolveu se levantar. Fazia frio lá fora, o vento estava um pouco forte, em seus braços carregava um cobertor.
Bocejava e andava a passos lentos, sentia sono. Olhava ao redor depois de ter coçado o olho bom, e nada. Pensou em ir na cozinha, mas o espadachim o encontrou na proa do navio, sentado e fumando. Se aproximou e viu que o idiota estava de olhos fechados, será que meditava? De qualquer forma, não pensou muito e abriu o cobertor para envolver aquele tarado por completo.
Sanji levou um susto e revirava o pano até conseguir colocar a cabeça pra fora. — O que está fazendo??
Zoro já havia descido da proa do navio e continuou andando. — Se você pegar um resfriado, Luffy terá que cozinhar para nós.
O cozinheiro estalou a língua com desprezo, pensou que o marimo estava cada vez mais doido, e só podia estar mesmo doido por ter conseguido acordar a essas horas. — Eu cozinharei mesmo doente.
Então, Zoro parou o passo e se virou para fitá-lo. — Não gosto disso em você.
O olhar carregado fez Sanji corar imediatamente, mas piscou os olhos, voltando a realidade, e se enfureceu. — Tô nem aí do que você gosta ou não em mim!!
Zoro fez um gesto desdenhoso com a mão, deixando aquele histérico de lado, e voltou a andar em direção ao dormitório masculino. Sanji ficou mais aborrecido com o seu jeito debochado, mas tentava entender o que o marimo queria dizer com aquilo, ele parecia sério. Depois de pensar por uns minutos, resolveu deixar pra lá e passou a curtir o cobertor quentinho. Zoro definitivamente estava doido lhe trazendo um cobertozinho no meio da noite. O que era agora? Virou sua mãe?
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