A garota quase morreu de vergonha enquanto baixava o vestido, percebendo que estivera completamente exposta para Percy. Seu vestido e sutiã estavam completamente amarrotados e fora do lugar. Nem queria pensar em seu cabelo. Tocou seus lábios e os sentiu inchados e tentou imaginar como estaria parecendo. Qualquer um que a visse naquele momento a imaginaria como uma vagabunda.

Olhou para Percy. O terno dele estava completamente desalinhado e havia marca de seu batom na camisa branca dele. Agradeceu mais uma vez a Merlin, dessa vez por o terno escuro dele ser bem cortado o suficiente para ocultar o volume que ela havia sentido tão bem contra seu ventre. Céus, ela estivera prestes a transar com ele. Que loucura.

– Que amasso gostoso – falou uma garota da porta da sala – fiquei até com inveja.

Só então Hermione recuperou a sanidade o suficiente para olhar para as intrusas. Eram duas garotas bonitas que entraram na sala aos risinhos. A garota ficou envergonhada, mas aliviada. Não era um professor ou alguém assim. Poderiam espalhar boatos sobre a garota que se agarrara com o garoto-problema na sala de música, mas como diria Letty, ela não era de lá mesmo. Tudo bem.

As duas deram alguns passos para dentro, divertidas, andando de um jeito estranho. Hermione tentou examiná-las com mais atenção, mas estranhamente, não conseguia focar direto no rosto das duas. Estranho.

– Veja só, amiga, se não é Perceu Jackson que encontramos aqui – a outra falou, com um sorriso maldoso. – Gostei de ver, me deixou excitada. Fiquei até molhadinha.

– Porque brincar com uma menina só, Perseu Jackson, — continuou a outra, com a mesma cara maldosa, enquanto se aproximavam mais – se pode ter nós três para se divertir. Você come a garota e nós comemos você.

Hermione sentiu o sangue ferver, a excitação e vergonha dando lugar a raiva. Como Percy podia ficar ali, parado, olhando para elas como se estivesse hipnotizado pela sacanagem da proposta?! Garotos! Estava prestes a ralhar com ele quando a garota mais próxima, já á dois metros deles, passou a língua nos lábios, num ato claramente sexual para excitá-lo.

E Hermione quase gritou.

Se a britânica não fosse uma bruxa e estivesse acostumada a ver qualquer tipo de bizarrice, teria mesmo gritado, porque a língua da menina era bifurcada, igual a de uma cobra.

O mais incrível, é que apesar da bizarrice daquele fato, Percy mordeu o lábio inferior parecendo realmente excitado pela atitude dela. Ninguém seria tosco a esse ponto. Ele a olhava com tanto desejo e prazer como se tivesse sido hipnotizado pelas duas intrusas.

Oh, droga!

Hermione levou a mão a bolsa e puxou a varinha imediatamente. Aquelas garotas, aparentemente alunas dali, não deviam ser humanas realmente. Mione não conseguia pensar em nenhum tipo de feitiço que pudesse hipnotizar alguém sem uma palavra mágica ou uma varinha, como elas haviam feito com Percy, mas ele era trouxa e estava em perigo. Precisava fazer alguma coisa.

– Vem cá – disse uma das garotas levantando uma mão com unhas estranhamente afiadas como garras na direção de Percy – soube que gosta de água. Vou te mostrar o que me deixa molhada.

Percy piscou, como se tentar-se sair da hipnose.

– Não toque nele – Hermione exclamou, erguendo a varinha.

As duas olharam para Hermione como se a menina fosse um filhote de explosivin, ligeiramente repugnante. Percy balançou a cabeça e apertou os olhos, antes de olhar para Hermione confuso, parecia ter saído do transe.

– Vejam só, a safadinha acha que pode nos enfrentar – uma delas falou, se aproximando mais. – Vamos matar essa, primeiro. Depois nos divertimos com ele.

– Hermione, é melhor... – Percy começou, mas Hermione o interrompeu.

– Afaste-se, Percy, elas são perigosas – Mione falou, erguendo a varinha, pronta para defendê-lo de fosse preciso. Todos os seus extintos diziam que aquelas garotas não eram humanas. – Fique atrás de mim.

– Sim, nós somos perigosas, — continuou a que se aproximava, sorrindo cheia de maldade – e nós vamos matar você, vadia.

A garota ergueu as mãos, e “garota” já não era o termo certo. Dessa vez, Mione podia vê-la bem. As unhas na verdade eram garras, e as pernas diferentes uma da outra; uma pata de burro e uma perna de bronze. Aquela não era uma bruxa. Aquela não era sequer uma pessoa.

Era um monstro.

E o mostro saltou sobre Hermione.

– ESTUPEFAÇA! – Hermione lançou, acertando a criatura em cheio e a jogando do outro lado da sala.

Percy a olhava admirado, segurando uma caneta, só Merlin sabe por quê. Ele não olhava a criatura ao lado dele ou a que a garota havia atacado. Não. Ele olhava Hermione como se ela fosse de outro planeta.

Ah, droga, o único garoto por quem ela se interessava em anos agora a achava uma aberração.

A criatura que ela havia atacado começava a se erguer do chão, parecendo muito mais furiosa, agora. A outra, de pé ao lado de Percy, mostrou as garras demoníacas para ela. Ótimo. Devia manter a atenção delas longe de Percy, ele não teria como se proteger.

– ESTUPEFAÇA! – lançou pela segunda vez quando a segunda criatura pulou, mas essa conseguiu desviar e acertou a parede onde a bruxa estava encostada ainda a pouco, a direita da garota. Ela insistiu. – ESTUPEFAÇA!

Acertara de raspão, mas fora o suficiente para derrubar a segunda criatura. Nesse momento, a outra havia se erguido e saltava sobre ela de novo, e mais uma vez a garota a estuporou, mas claramente não estava adiantando. A criatura quase desviara e não ficara desorientada mais do que alguns segundos antes de pular sobre ela de novo.

A bruxa saiu andado pela sala, jogando feitiços nas duas criaturas de forma aleatória, não conseguindo sequer cansá-las. Num dos saltos, a primeira criatura passou tão perto que para desviar, ela teve que cair de joelhos, a coisa caindo a um metro de onde ela estava, quando a outra a atacou por trás com presas e dentes a mostra. Mione mal teve tempo de apontar para a criatura quando gritou.

– SECTUMSEMPRA!!! – e lançou a maldição. A criatura explodiu em pó quando foi atingida, finalmente vencida.

Hermione gritou quando sentiu as garras da criatura perto dela agarrarem seus ombros e os dentes dela se cravarem em seu pescoço. A dor quase a cegou. Tentou agarrar os cabelos da coisa, apontou a varinha para ela, mas a dor não a deixou pronunciar o feitiço bem o suficiente. A criatura afastou o rosto e Hermione a viu, as presas afiadas como as de vampiro, a boca cheia de seu sangue. A bruxa achou que fosse morrer quando a coisa tentou morde-la de novo.

Uma lâmina afiada e brilhante atravessou a nuca da coisa e saiu por sua boca, a matando. Em segundos, a criatura a soltou e explodiu em pó ao lado dela.

Hermione tentou se virar, levando a mão ao ferimento no pescoço. Percy estava parado ao lado dela, de pé, segurando uma longa espada brilhante e uma expressão muito séria.

– Jackson... – Hermione conseguiu falar, a dor a consumindo. Não sabia como ele tinha arrumado uma espada naquela sala, mas fora muita sorte. Inclusive fora muita sorte ele não ter fugido, assustado com a luta que vira. Eram raros os trouxas que conseguiam presenciar eventos assim sem surtarem. –Escute... está tudo bem. Solte isso, me ajude.

Instintivamente, os dedos dele seguraram mais forte o punho da espada. Ele não se moveu.

– Percy... não precisa ter medo – Mione falou, sentindo gosto de sangue. Pressionou mais forte o ferimento. Sabia que devia ser difícil para ele ser forçado a crer que a magia existia, mas não tinha tempo para explicar nada. – Acho que aquela coisa era venenosa... solte a espada, preciso de sua ajuda.

O americano olhou para a espada e olhou para a garota, de joelhos no chão, em frente a ele. Ferida. Em vez de soltar a espada, ele apontou a ponta da lâmina para o rosto de Hermione.

A garota gelou.

Uma lembrança veio a sua mente: ele espancara uma líder de torcida com a qual estava transando, na sala de música. Fora isso que Lucy dissera. Hermione ainda segurava a varinha com a mão trêmula de dor, mas não conseguira pronunciar o feitiço da forma certa quando a coisa a mordeu. Duvidava muito que fosse conseguir agora.

– Percy... não precisa ter medo...

– O quê você é?! – ele perguntou e seu tom não era nada amigável.

– Eu, bem, er... – Hermione não sabia o que responder. Não sabia como ele iria reagir a idéia de que magia pode existir em seu mundo, de que bruxas podem existir. Pelo brilho da espada apontada para ela, ele provavelmente reagiria mal. Talvez se conseguisse desarmá-lo.

– Nem ouse se mover – ele falou, indicando a mão dela com a varinha. Ele teria notado seu movimento mínimo?! – ou mato você.

A menina engoliu em seco. Ele parecia falar sério.

– Eu posso explicar... – ela começou, mas ele a interrompeu.

– Você não se aproximou de mim a toa, não é? – ele falou, com uma pontada de desapontamento. – O que você é, afinal?

– O quê?! Eu não me aproximei de você com segundas intenções, eu... – a dor começava a deixá-la um pouco tonta, não conseguia fazê-lo compreender. – Aquelas criaturas...

– Empousai – ele completou, automaticamente, sem desviar a espada.

– Empousai? – ela repetiu sem entender o que ele queria dizer. – Não sei o que elas queriam, mas elas podem voltar. Você precisa soltar a espada e me ajudar a sair daqui.

– Elas queriam me matar – ele comentou como se isso não fosse importante. – Assim como você.

– Eu não quero matar você – ela falou, incrédula. Então era isso que ele achara ao vê-la lutando? Que ela também era perigosa? – Acabei de salvar você.

– Você me seduziu – ele continuo, sem dar atenção a ela. – Me manipulou. Devia ter imaginado que uma garota bacana como você nunca se aproximaria de alguém problemático como eu. Eu não sei que raios de criatura você é, mas...

Ele parou de falar de súbito, como se tivesse tido uma idéia. A garota tentou engolir, sentindo cada vez mais gosto de sangue. Em que fora se meter? Ele nunca ia compreender o que vira acontecer naquela sala.

– Bruxa – ele falou, mais para si do que para ela.

– O quê? – Mione murmurou, achando não ter ouvido bem.

– Você me perguntou o que eu sabia sobre bruxas na biblioteca – ele falou ligando as coisas. – Você é uma bruxa.

Por Merlin, Hermione esperava mesmo que ele conseguisse lidar com isso.

– Sim , eu sou uma bruxa – ela falou, tentando manter a calma, sentindo-se perder as forças e os dedos mal conseguirem segurar a varinha. – Você tem que lidar com isso. Pode aceitar que sou uma bruxa boa, e me ajudar. Ou pode ficar ai parado e me ver morrer. Eu realmente quero acreditar que você vai escolher a primeira opção.

Por alguns longos segundos, ele pareceu ter escolhido a segunda opção.

Então a porta se abriu.

Hermione não precisou ver a criatura de perto para saber que era mais um mostro. A coisa em forma de aluna, entrou na sala mancando e mostrando os dentes. A bruxinha tentou erguer a varinha mais seus dedos vacilaram. A dor e o veneno estavam tomando conta de seu corpo e ela não poderia mais lutar. Por um instante, se perguntou se a escola trouxa daria aulas de luta aramada com espadas medievais a seus alunos, ou tudo que ela poderia fazer era ficar ajoelhada vendo Percy morrer pateticamente sem poder fazer nada.

Mas sua dúvida foi respondida de forma bem rápida.

A coisa saltou sobre eles e Percy girou a espada de forma tão rápida que Hermione mal viu quando a lâmina cortou a roupa da criatura que se afastou bufando.

– Vejam só, o peixinho não vai se render, — a coisa falou, usando toda sua sedução ao se dirigir a Percy, enquanto andava para trás, o atraindo para longe de Mione. – Vamos lá, quero te ver mergulhar na morte, peixinho.

Ela atacou de novo, presas e garras a mostra, mas dessa vez a hipnose não tivera nenhum efeito. Ele só desviou uma, duas, três vezes. O monstro nem conseguia tocá-lo. A coisa saltou para longe dele, grunhindo feito um animal enfurecido, e ficou o observando a cinco metros de distância, como se escolhendo a melhor forma de atingi-lo.

E então soltou sobre Hermione.

O garrafão de água no filtro do outro lado da sala explodia e a água atingia a criatura a meio metro de enfiar as garras na bruxinha. A água a atingiu com a força de uma pedra e a criatura caiu no chão, aos pés dela. A água se ergueu do chão e formou uma espécie de tornando ao redor do rosto do monstro que começou a se debater como se estivesse se afogando, enquanto Percy se aproximava devagar.

– Isso não é o oceano – a coisa grunhia em meio ao afogamento. – Não pode me matar com alguns poucos litros de água, Perceu Jackson.

– Não preciso de água para matar você – ele respondeu cravando a espada nas costas da criatura que se debatia no chão. Em segundos, o monstro explodiu em cinzas.

Mais uma vez, Hermione e Percy estavam frente a frente; ela ainda no chão, ferida, ele ainda segurando a espada.

– O que você é?! – Hermione exclamou apontando a varinha trêmula para ele. – Quem diabos é você?!

Ele deu mais um passo e se ajoelhou na frente da garota no chão, a varinha dela quase encostando no peito dele.

– A mordida que levou é venenosa. Deixe-me olhar o ferimento – ele ergueu a mão livre para o rosto dela.

– Não toque em mim – ela falou firme, tentando fazer a varinha parar de tremer. A dor começava a deixar seus olhos turvos. – O que diabos você é?! Nunca vi ninguém dominar a água de mãos vazias como você fez. Você é um bruxo?! Ou um monstro?!

– Nenhuma das duas coisas – ele respondeu e encostou algo de metal na ponta de sua espada, que se transformou em uma caneta esferográfica. Ele a colocou no bolso como se não fosse nada demais. – Eu sou um semideus. Você pode aceitar isso e receber minha ajuda, ou pode ficar ai e sangrar até morrer. Eu realmente espero que escolha a segunda opção.

Ele deu um pequeno sorriso cínico como se a desviasse a sangrar até morrer. Diabos. De todos os garotos de Nova York, ela tinha que se envolver justo com esse?!

A menina baixou a varinha, derrotada, e ele levou os dedos até a mordida no pescoço dela. Não ficou contente com o que viu e colocou a mão dela sobre a ferida, de novo.

– Continue pressionando, vou te tirar daqui.

Xxx

Ele a ajudou a andar até a quadra, a abraçando pela cintura e a mantendo próxima a ele. Por sorte, o vestido vermelho de gola alta ocultava o sangue e quase ninguém reparou neles quando chegaram a quadra, já bem vazia. Assim que entraram ele fez uma prece baixinha agradecendo aos deus e a levou a um canto mais afastado, onde se podia ser a garota ruiva com cara de quem tivera o natal cancelado. Assim que os viu, seus olhos se encheram de vida.

– Ah, oi, Percy. Eu estava mesmo pensando em você e... – ele a interrompeu, impaciente.

– Rachel, você veio em algum carro de seu pai?

– Sim, meu motorista está lá fora, me esperando – ela olhou para Hermione percebendo que a garota precisava se escorar nele para ficar de pé. – O que houve com ela? Vomitou a bebida? Está com uma cara horrível.

– Fomos atacados – ele falou rápido, querendo sair logo dali – monstros.

Os olhos da menina ruiva se arregalaram de horror.

– Aqui?! De novo?!

– Rachel, podemos pular essa parte e ir direto para o carro?! – perguntou impaciente. A ruiva se apressou e foi na frente guiando os dois.

Os três sentaram no banco de trás de um Mercedes de luxo, o motorista não perguntou nada. A ruivinha soltou uma exclamação quando percebera a gravidade do ferimento de Hermione e segurou sua mão, com carinho, murmurando que havia visto um aura nela quando estava sentada com Percy e tinha certeza que Hermione era alguém especial. Mione estava sentada no meio, sentindo o mundo girar, e quando não teve mais forças de apertar o ferimento, Percy colocou mão sob a dela apertando para manter o sangramento fechado.

Hermione pensava em muita coisa. Pensava em Hogwarts, em Harry e Rony, em poções e antídotos e uma parte de sua mente se perguntou se era possível se comprar benzoar em Nova York. Algo lhe dizia que não.

– Empousai – ela falou, sentindo seus olhos quase fecharem. Percy a olhou. – São criaturas das trevas com poder de seduzir homens para devorá-los. Pata de burro, perna de bronze. Elas... – tossiu, um pouco de sangue saindo de seus lábios.- Elas saíram da caixa de Pandora.

Percy sorriu um pouco e a fez encostar a cabeça no ombro dele.

– Descanse um pouco – ele falou, gentil. – Você está certa.

Rachel se despediu deles na porta do apartamento dele enquanto destrancavam a porta. Era madrugada e ele não queria alarmar ninguém, mas quando entraram a Sra. Jackson e o professor estavam sentados abraçados no sofá vendo um filme legendado com o áudio no mínimo, provavelmente esperando o filho dela voltar do baile. Quando os viram notaram logo as mãos sujas de sangue e correram para a ajudar a sentar no sofá.

– Ah, pelos deuses, vocês foram atacados – a Sra. Jackson falou levando as mãos a boca enquanto o professor Paul sentava ao lado de Hermione e examinava o ferimento.

– Mãe, traga a ambrosia. Tem uma garrafa no meu quarto, na minha mochila – Percy falou indo a cozinha e voltando rápido com um copo de água, mas em vez de dar a garota para que bebesse, despejou um pouco na própria mão e fez com que a água se concentrasse ali como uma gelatina. Em seguida levou ate o pescoço de Mione, como se fosse limpar o ferimento.

A menina gemeu.

– A água está doendo – ela falou, trincando os dentes para não gritar.

– É o sal, é água do mar – ele informou continuando seu trabalho. Passava a água sobre a pele dela como se fosse um lenço úmido.

– O que diabos você é?! – ela indagou, a dor a fazendo esquecer a educação. – Como é possível que controle a água de mãos vazias?!

– Você não contou a ela, meu filho?! – a mãe dele ralhou trazendo uma garrafinha com um líquido dourado dentro, parecia um pouco a poção Felix Felicis. – A pobrezinha foi atacada por um monstro e você nem se dá ao trabalho de explicar a ela por quê?! Podia pelo menos ter inventado alguma coisa.

– Não precisa. Hermione é uma bruxa. – O professor e a Sra. Jackson pararam no ato, como se de repente notassem que a gatinha que estavam ajudando era na verdade um filhote de leão. – Não preciso inventar nada. Eu sou um semideus.

Hermione engoliu em seco e isso doeu muito, sua boca ainda com vestígios de sangue. Era difícil se manter consciente, era mais difícil ainda compreender o que ele dizia.

– Você já disse isso antes – ela reclamou mal humorada. Havia contado a ele claramente que era uma bruxa, mas ele ficava falando por meio de códigos. – O que exatamente você é?

– Sou filho de Poseidon – ele explicou, afastando a mão e fazendo a água (agora vermelha de sangue) girar na palma de sua mão, como um pião. – Sou um meio-sangue, meio homem, meio deus. É o que chamamos de semideuses e a mitologia muitas vezes chamou de heróis. Tenho poderes sobre os elementos do reino de meu pai, como a água. Sou mortal, mas não morro facilmente.

Por Merlin, tinha que ser brincadeira.

A bruxa ficou olhando para a água que girava na palma da mão dele procurando uma resposta mais plausível, um feitiço ou algo que já tivesse lido que justificasse aquilo. Ele não usava varinha ou pronunciara palavras em outra língua. A água o obedecia unicamente porque ele queria.

– Ela não é perigosa, é? – a mãe dele perguntou aflita, sem saber mais se dava ou não o remédio.

– Espero que não – ele comentou sorrindo e deixou a água se derramar num jarro de plantas ali perto. Pegou o frasco das mãos da mãe e se virou para a garota. – Isso aqui é ambrósia, é o néctar divino, tem o dom da cura. Nunca usei isso para mordida de empousai, mas acredito que funcione.

Hermione não questionou quando ele encostou a garrafa em seus lábios e a fez beber alguns goles pequenos. Ainda estava muito ocupada tentando processar a informação que os deuses existiam e podiam fazer filhos por ai. A bebida era morna e tinha o mesmo gosto do achocolatado de Hogwarts.

– Venha deitar um pouco, querida, vai levar um tempo para fazer efeito. – Sally Jackson falou, oferecendo as mãos para a garota se apoiar.

Percy a ajudou a se erguer e a levaram para o quarto dele. A Sra. Jackson o expulsou de lá e trancou a porta, para em seguida ajudar Hermione a tirar o vestido sujo de sangue e fazer um curativo no ferimento. Em dez minutos estava deitada, vestida num baby-doll da Sra. Jackson e começando a se sentir melhor. Aparentemente, a ambrósia funcionava sim para venenos.

A mãe dele abriu o guarda roupa e tirou um edredom limpo e o colocou sobre a menina deitada confortável na cama do filho dela. Mione se sentia cansada e queria dormir um pouco. Vagamente, lembrou que suas primas acabariam deduziam que ela saíra do baile com Percy para passarem a noite juntos e fez uma careta de imaginar a reação de seus pais. Tudo bem, amanhã podia contar toda verdade a eles. A senhora Jackson alisou o edredom sobre ela sem a menor necessidade e o que falou em seguida a surpreendeu.

– Me perdoe por ter tentando sabotar o encontro de vocês.

A menina franziu o cenho se sentindo incrivelmente desperta.

– A senhora o quê?! – perguntou, incrédula.

– Você sabe, no carro – a mulher falou, parecendo se sentir horrível. – As coisas que falei. Achei que se você tivesse uma má impressão sobre ele, não ia querer continuar o encontro.

A bruxinha não conseguia acreditar. O que levaria uma mulher a querer passar uma impressão ruim do próprio filho?

– Coisas ruins acontecem com Percy o tempo todo – a mulher continuou, sentando na cama, ao lado da menina. – Podemos lutar contra elas, mas não podemos evitá-las. Se Percy ficar com uma garota mortal, ela pode correr riscos muito graves. Já basta essa menina, Rachel, que ele não pode afastar. Rachel pode ver coisas que não compreende, monstros em sua verdadeira forma, e acha que ele pode ajudá-la. Mas ele não pode.

Hermione queria responder alguma coisa, mas não sabia o que dizer. A mulher realmente achava estar ajudando ao filho o fazendo se isolar das garotas?! Seu amigo Harry já tivera pensamentos bem parecidos quanto ao fato de por as pessoas em perigo ao gostar delas, mas isso era completamente insano. Ninguém estava melhor sozinho.

Deixou seus olhos vagarem pelo quarto desatentos, enquanto pensava em como as pessoas podiam ser cruéis por amor.

O quarto era até arrumado para ser o quarto de um garoto. Não tinha nada sobre esportes, filmes ou vídeo-game, nada mesmo. Uma fonte de água ao lado de um prisma, um colar de contas de argila em destaque sobre o criado mudo, algumas fotos, uma mochila cheia de roupas, uma blusa laranja pendurada atrás da porta, alguns livros de arquitetura em baixo de um porta-retrato e só. Parecia um quarto de visitas que estava sendo ocupado pelo mesmo visitante há algum tempo, mas ele não pretendesse ficar ali para sempre.

Então Hermione percebeu.

O quarto tinha meia dúzia de porta-retratos e todos eles mostravam Percy e a mesma garota, e não era a Rachel. Era uma garota loira, de olhos cinzas, usando uma trança e uma blusa laranja igual a dele. Em uma das fotos aparecia abraçada a um livro de arquitetura; o mesmo livro que estava sobre a cômoda.

– Não é o único motivo – Hermione falou, – quem é a garota nas fotos?

– Annabeth Chase – a mulher falou com um meio sorriso. – Ele gosta dela. Só não percebeu isso ainda.

– Ela é igual a ele – a bruxinha deduziu.

– Sim, é filha de Atena. Vão ficar juntos um dia.

Hermione não questionou. Entendia bem de amores que as pessoas não percebem que amam.

Xxx

Quando a menina acordou,na manhã seguinte, ficou surpresa ao se olhar no espelho e perceber que não havia ficado sequer cicatriz de onde a coisa havia mordido seu pescoço e anotou mentalmente que precisava pedir uma garrafa daquele néctar dos deuses antes de partir. Com certeza era muito útil. A sra. Jackson havia lavado seu vestido e o secado com um secador de cabelo. Percy e o professor Paul haviam ficado acordados na sala até o nascer do sol, preocupados, e agora dormiam tranqüilos na cama de casal de Sally, o que era um alívio, pois a menina podia sair sem ter que se despedir deles. A mulher pegou as chaves do carro do namorado e deu uma carona a menina.

Hermione não teve problemas em contar a verdade aos pais que a ouviram com atenção e não ralharam com elas, só ficaram preocupados. Ficaram admirados em saber sobre deuses e monstros em Nova York. Já as duas primas entenderam tudo errado e acharam que ela tinha ido para cama com Percy, já que ela não dera maiores explicações de porque fora dormir na casa dele. A britânica estava muito cansada para explicar e deixou que pensassem o que quisessem.

Os últimos dias se passavam e ela não o viu mais. As vezes queria procurá-lo, queria pedir mais detalhes sobre os deuses e o sobre tudo. Se os deuses existiam e os mitos eram verdadeiros, devia supor que todos os monstros e inimigos também. Quantos monstros e seres mitológicos malignos podiam estar vagando por aquelas terras naquele momento?! Mas Hermione já tinha problemas demais em sua própria guerra.

A guerra de Voldemort. Um garoto como ele, que poderia dominar a água sem precisar de truques, palavras mágicas ou sequer uma varinha, teria um valor inestimável se ajudasse em sua guerra. Se ele usara alguns litros de água como arma, o que poderia fazer com o oceano?! Com um lago?! Hermione sentia vontade de ir até Percy Jackson e tentar alistá-lo na luta contra Voldemort. Levá-lo a Hogwarts e apresentá-lo a Dumbledore e McGonagal, apresentar seu dom e fazê-lo lutar pelo lado certo.

Mas então, a bruxa percebia que estava agindo como Rachel Dare. Agarrando-se a idéia de que ele podia afastar os monstros em sua vida, mas ele não podia. E ele com certeza tinha sua própria guerra. Na noite de Natal, quando todos haviam acabado a ceia, Sally Jackson ligou e perguntou se Hermione podia subir até o terraço do prédio, em cinco minutos. Nevara aquela manhã e devia estar bem frio lá fora, mas ela não questionou e subiu.

Nova York era linda a noite. Do apartamento onde estava, podia ver o rio Hudson passando lentamente, com sua ponte ricamente iluminada. Em instantes, uma sombra negra como um pássaro gigante, voando próximo ao rio, cruzou o ar até o prédio em que Hermione estava e um pegasus completamente preto pousou trotando no chão seco.

Percy desceu. Seus cabelos bagunçados pelo vento e um agasalho bem reforçado para voar naquele frio. Se era possível, pareceu ainda mais bonito que da última vez. Assim que soltou as rédeas, o cavalo alado levantou vôo, mas ele não pareceu se importar.

– É um belo pegasus – Hermione falou, apesar de não estar impressionada. Para quem voara em um trestrálio, um pegasus era algo bem comum.

– Soube que vai embora essa semana – ele falou se aproximando dela na amurada e olhando para o rio também, sem dar importância ao comentário, como se chegar aos lugares montado num pegasus fosse a coisa mais normal do mundo.

Ela não perguntou como ele sabia. Não tinha importância.

– Daqui á dois dias volto para a Inglaterra – ela informou.

Ficaram em silêncio um tempo, só observando o rio e sentindo o vento frio ferir a pele.

– Eu freqüento um Acampamento de verão para garotos como eu. Vou todos os anos. Acampamento Meio-Sangue. É bem legal. – Ele falou baixinho, olhando o rio, em vez de olhar para ela. – Lá temos um costume: todos os anos, gravamos um emblema com o acontecimento mais importante daquele ano em uma conta de argila e usamos num colar.

Ele puxou o colar que usava para fora da roupa e o tirou, mantendo-o seguro em sua mão, e Hermione viu quatro contas de argila. Era o mesmo colar que havia visto quando dormira no quarto dele.

– Nunca fui muito bom em artes, mas, bem, fiz uma conta nova para o meu. – O garoto colocou a mão no bolso e tirou uma pequena conta de argila e mostrou para Hermione. Gravada com bastante esmero, havia o desenho de uma bruxa voando em uma vassoura. A garota não conteve um sorriso. – Esse ano, a coisa mais importante que me aconteceu em Nova York foi encontrar você.

Hermione abriu a boca, mas não soube o que responder. Ficou olhando enquanto ele abria o colar e colocava a conta com a bruxinha desenhada junto as outras e em seguida colocou o colar de volta no pescoço. E pensar que, quando o conhecera, seu plano era voltar para a Inglaterra e o esquecer. Agora, a menina sem sabia se conseguiria superá-lo.

– Eu, bem, nem sei o que dizer – ela respondeu. Mais sincera que isso, impossível.

– Não diga nada, — ele falou dando de ombros. – Hey, trouxe uma coisa para você.

Ótimo, como se ele não já tivesse a encantado o suficiente, ele trazia um presente de Natal. Hermione não sabia como reagir. Dessa vez, ele tirou do bolso uma grande moeda de ouro, com palavras em grego.

– Uma moeda? – ela perguntou a segurando. Estava fria.

– Uma dracma de ouro – ele explicou. – Dinheiro dos deuses.

– Então deve valer muito – ela falou, sem saber o que comentar.

– Não estou lhe dando pelo valor financeiro – ele disse e fez um aceno para a escuridão. Em instantes, o pegasus preto pousou de novo no terraço. – Se um dia quiser me ver de novo, jogue essa moeda em um arco-íris. Pode ser um arco-íris de verdade ou um pequeno, feito por um raio de luz ou por um prisma. Jogue a moeda num arco-íris, faça uma oração de agradecimento a deus Íris, deusa das mensagens, e diga meu nome. Onde quer que eu esteja, eu escutarei você.

Então ele a beijou.

O que foi bom, porque ela não saberia o que dizer a ele. Foi um beijo calmo, com gosto de adeus. Sem dizer mais nada, Percy Jackson montou no pegasus e saiu de sua vida para nunca mais voltar. Hermione continuou ali, calada, por mais alguns minutos. O nó que se formava em sua garganta não permitiria mesmo que ela falasse.

Dois dias depois, a garota voltou para Inglaterra e para Hogwarts, para sua vida.

No começo, achara que seria impossível esquecer Percy Jackson, mas estava enganada. Logo, o cheio do mar deixou de ser o cheiro dele; os olhos verdes voltaram a pertencer somente a Harry. Nunca contara a ninguém de Hogwarts o que aconteceu, e nunca voltara a Nova York.

Os deuses voltaram a ser mitos.

Exceto quando via um arco-íris. Hermione nunca usou a moeda, mas a guardou por toda sua vida.

Fim

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