Sobre cores e horas
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Alex:
A melhor hora para correr era de manhã. Era fresco e eu gostava do cheiro que as ruas tinham. Mas chovia, uma pessoa normal voltaria a dormir, mas minha ansiedade não permitia isso. Era mais que um desejo, era uma necessidade. Joan me chamava de drogada. Talvez fosse mesmo uma droga. Eu não conseguia mais ficar sem. Liam gostava de ir comigo. Ele corria dois minutos e depois ia para os brinquedos. Mesmo que não tivesse quase que nenhuma criança naquele horário. Ele gostava de poder escolher onde brincar antes que o parque ficasse cheio. Acordar cedo também significava que eu conseguiria ver meus pais antes que eles sumissem cada um para seu posto. Minha mãe já estava no estúdio, eu podia falar com ela, mas normalmente ela não prestava atenção quando estava ali dentro. Encontrei meu pai sentado calmamente tomando café. Normalmente ele engole em pé qualquer coisa e sai.
—Por isso está chovendo. -Eu disse.
—Só preciso chegar as nove hoje. Tome café comigo.
—E a mãe não já comeu?
—Ela nem dormiu, passou a noite acordada trabalhando. Acho que a corrida vai ficar para mais tarde. – Ele disse apontando com a caneca para a janela embaçada da chuva.
—Ah nem me fale. – Nesse momento Liam se suja com o chocolate. Justamente a nova camiseta. Justamente na frente do pai.
Começamos a conversar e então o celular tocou. Ele precisava sair naquele momento. mal se despediu. Ellen apareceu na cozinha com as mãos nas costas reclamando de dor. Perguntou se eu podia receber Tony. Disse que sim.
Perto do meio dia Joan surgiu na sala com cara de sono e mal-humorada como de costume após acordar.
—Vocês estão surdos?
—Bom dia para você também.
—Isso que dá acordar cedo. -Ela se jogou no sofá cobrindo o rosto com uma almofada.
—É quase meio-dia. Já está quase de tarde.
—Acordou junto com a Alex, Liam?
—Sim.
—Veja o tipo de criatura você está transformando o Liam. Daqui a pouco ele começar a gostar de salada e aí é um caminho sem volta.
Depois do almoço, a chuva finalmente havia dado uma trégua e eu resolvi sair antes que começasse novamente. Liam decidiu ficar porque o parquinho estaria todo molhado. Fico me perguntando se teria mudado alguma coisa se ele tivesse ido comigo. Será que ele veria o rosto deles, diminuindo meu sofrimento para um grande susto? Ou então teria sido igual, ou talvez pior, se o levassem junto.
Quando finalizei a última volta parei no meio da pista ofegante. Havia mais pessoas pelo parque agora. Mas só eu na pista. Comecei a caminhar lentamente em direção a minha casa quando senti algo pontudo encostar em minhas costas.
—Não grite ou vai ser pior. – Senti os pelos da nuca ficarem arrepiados.
—Pode levar meu celular. Mas eu não tenho dinheiro. — Uma mão encostou em meu ombro e senti a ponta do que poderia ser uma faca encostar mais.
—Não olhe para mim ou eu te mato. – O braço direito dele envolveu minha cintura firmemente de forma que foi difícil até mesmo de andar. Ele tinha um cheiro nauseante. Caminhamos alguns metros até um carro depois apaguei. Acordei amarrada, vendada e nua e já com a audição comprometida. Primeiro eles me deram água. Passou um tempo até que voltassem. Me enfiaram a máscara e então eu senti que mãos percorriam meu corpo, eu mal posso descrever o profundo mal-estar que eu senti. Eu sabia o que ia acontecer a seguir e sabia que seria horrível. Senti que a mesma mão áspera que havia colocado a máscara, me puxar pelos ombros para trás, minhas costas direto ao chão áspero do carpete sujo e me segurou enquanto o outro subia em cima de mim. Tentei soltar minhas mãos com toda a força, mas não surtiu efeito, tentava soca-lo com as pernas, mas foi tudo em vão, desisti de lutar e tentei focar em outra coisa. E comecei a contar 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21,22,23,24,25,26,27...Foquei todas as minhas forças para me concentrar no numeral que viesse na sequência e ao mesmo tempo tentando encontrar uma posição que me causasse menos dor. Continuei assim até que ele finalizasse, suspirei e então senti que o outro estava sobre mim. Não aguentei e desmaiei.
Na sequência, comecei a aprender o funcionamento das coisas. Primeiro eles me usavam, depois eu podia comer e ter uma das mãos livres. Se eu lutasse era espancada. Era um treinamento. Me treinavam igual um cachorro, ou melhor uma cadela. Perceber isso fosse talvez a coisa mais dolorida de toda a situação. Meus dias eram preenchidos com a dor e o tédio. Eu continuava tentando libertar minhas mãos, principalmente o pulso esquerdo que nunca estava livre. Mas puxei tanto que senti meus pulsos ficarem assados, possivelmente sangrando. E eu me sentia cada vez mais vazia, por mais que eu tentasse me agarrar a algum pensamento qualquer para tentar me distrair, eu logo era sugada de volta. Então começaram os delírios e era o único momento que eu tinha alguma espécie de paz.
Um tempo depois, dado a minha alimentação precária, comecei a achar que estava doente, o que no final das contas era uma coisa boa por que quando eu havia perdido a esperança de uma melhora em meu estado geral. Percebi que a morte era a única coisa que poderia me libertar. Já não pensava em nada da vida que havia sido obrigada a deixar. Iniciei então o caminho inverso ao "treinamento" que eles haviam me ensinado rumo a minha liberdade. Quando eu tinha a boca livre, eu gritava. Espancamento, definhar de sede e fome eram atalhos para meu objetivo final. Eles ficaram mais categóricos nas punições quando eu comecei a me revoltar e gritar; como se isso pudesse me parar, eu não tinha absolutamente nada a perder, eles arrancaram tudo de mim e mal sabiam que isso era minha maior arma. Três dias eu pensava, três dias sem água é o limite humano e meu estado de saúde. Só mais três dias, e quando percebi que estava desesperadamente desidratada eu comecei a ser tomada por uma alegria estranha. Estava no fim. Estava curiosa em saber o que haveria do outro lado. Estava começando a ver a luz. Meu Deus, o céu é absolutamente barulhento.
—Qual seu nome, querida? -Uma mulher perguntou. Anjos não deveriam usar branco? Por que ela usava preto? Que barulho é esse? Que horror. Coloquei as mãos no ouvido. Minhas mãos estavam livres? Me encolhi e fechei os olhos.
Acordei e senti que havia alguém muito próximo a mim, tentei abrir os olhos, mas a luz parecia que os queimava. Meu impulso fez com que eu tentasse afastar a pessoa de mim. Por fim acabei me agarrando suas roupas e quando senti suas mãos tentando soltar mordi seu braço.
—Alex, sou eu seu pai! Acorde.
Forcei a abertura dos olhos para me certificar que não era outra alucinação. Impossível, a luz era insuportável.
—Estou acordada. – Como é estranha a sensação de poder ouvir minha própria voz...
—Abra os olhos... Está tudo bem agora.
—Não consigo... – Tentei levar as mãos ao seu rosto numa tentativa de reconhecimento. Mas não lembro de ter tocado muitas vezes no rosto do meu pai para reconhece-lo no tato. Mas a voz, ah sim, a voz era a mesma.
—Pai? – Eu mal podia acreditar. Me agarrei nele. O perfume ainda era o mesmo, a textura do cabelo, a maneira que os braços pressionavam meu corpo, sem dúvidas, era ele.
—Como você está querida? Está sentindo alguma dor?
—Sede... -Disse depois de longos minutos pendurada nele.
Ele ajustou a cama para que eu ficasse sentada e me estendeu um copo de água que engoli de uma vez.
—Quer mais? – Se eu quero mais? Nossa eu queria muito, me senti emocionada de poder repetir.
—Sim, por favor. – Que sensação indescritível não sentir a garganta e a boca tão seca. -Mais. – Tomei só por que podia.
—Consegue abrir os olhos agora?
—Não.
Então senti algo enroscar minha cabeça. Gritei e agarrei o pano e o joguei longe.
—Desculpe, eu só queria fazer sombra para seus olhos. – Ele disse.
Relaxei na cama e fiquei saboreando o conforto de ter algo macio sob o corpo novamente. E de estar livre. Toquei meus pulsos, enfaixados. Talvez fosse melhor não conseguir ver o estado deles agora depois de todo esse tempo preso... Tempo... Quanto tempo?
—Que dia é hoje?
—Não se preocupe com isso agora.
O quarto estava quente, mas meu pai usava um suéter, o verão já deve ter acabado.
—Que dia é hoje?
—Dia 10 de dezembro. – Ele disse relutante.
—Que? – Quatro meses?! Eu perdi o último mês de férias, o aniversário de Liam, meu aniversário, a ação de graças, tudo porque estava enfiada naquela porcaria daquele lugar de merda. Minha respiração começou a acelerar. Fui tomada por uma raiva somada de uma enorme frustração e um mal-estar generalizado. Eu não sabia se eu me encolhia, corria, gemia ou gritava, ou talvez tudo junto.
Carl:
Após ver a Alex deitada na cama, senti minhas pernas amolecerem. Era como se eu pudesse respirar ar fresco de novo, mesmo naquela sala fechada da enfermaria. E eu me senti leve como uma pena.
Ellen havia desmaiado, Liam estava confuso e haviam muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Mas nada me incomodava, eu estava completo. Na verdade, eu me sentia transbordando uma sensação de tranquilidade que eu não experimentava há anos. Abracei Ellen e tive que convencê-la que era Alex, por que ela se negava a acreditar. Joan e Liam conversavam animosamente com Peter e meu pai sobre os preparativos para uma festa de boas-vindas/aniversário para Alex. Quando as coisas começaram a se acalmar convenci Ellen a ir para casa dormir. Ela não estava digerindo bem a onda de emoções e o médico do plantão lhe receitou algo para dormir. Minha mãe iria passar a noite com ela e eu ficaria com Alex. Mesmo contrariada ela aceitou.
Quando me vi sozinho no quarto com minha filha que comecei a digerir a situação como ela era. Entendi o choque de Ellen. Alex estava terrivelmente magra. Não que ela não fosse antes, mas agora tinha uma aparência meio cadavérica, com ossos demais a mostra. Seus braços tinham hematomas grandes e a pele do rosto estava inchada, vermelha e descascando. As unhas quebradas e ao examinar a ponta dos dedos, percebi que estavam em carne viva. Seu cabelo tinha falhas grotescas e além de pálido, estava em um tom diferente do normal. Gritantemente diferente do seu aspecto saudável de antes.
Foi uma noite agitada, ela passou a noite gemendo e balbuciando coisas, e o máximo que eu podia fazer era acordá-la e tentar passar um pouco de conforto. Joan com a história de fumar, acabou reativando meu antigo vício e por duas vezes tive que sair do quarto e andar muito para encontrar um lugar onde pudesse fumar logo após Alex retomar o sono.
Na manhã seguinte, Ellen e as crianças apareceram cedo. Ela me cumprimentou com um abraço e aquilo teria me enchido de alegria se eu não estivesse tão afogado na nova realidade, passei a noite repassando a conversa que tive com os médicos, policiais e enfermeiras sobre cada notícia amarga que recebi . Ellen pediu para ficar um tempo a sós com Alex.
—Papai quando a Alex vai para casa? – Liam me perguntou enquanto andávamos por dentro do hospital.
—Acho que não vai demorar muito.
—Como sua mãe passou a noite Joan?
—Bem de certa forma. Acho que foi a noite mais tranquila que tivemos em meses. E vocês?
—Agitada. Muito agitada.
Eu deveria falar novamente com os responsáveis pelo resgate, ouvir atentamente dessa vez. Será que ela passou todos os meses naquelas condições? Como eu pude ser tão idiota de tentar cobrir seu rosto novamente? Ela deve estar traumatizada. Fiquei enjoado ao começar a lembrar de toda a descrição da condição médica que ela se encontrava: a desnutrição, as feridas, as marcas de abuso, meu deus. Como eu falaria isso para Ellen? Em que condições mentais Alex se encontra? Tive um pressentimento nada animador de que a noite passada foi apenas o começo.
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