Joan:

Havia balões coloridos. E um gosto amargo da ausência. Eu me irritava de ficar tão sensível ao assunto Alex. Eu queria descobrir onde ela estava e arrasta-la pelos cabelos, depois abraça-la bem apertado e dizer que ela era uma idiota e nunca mais soltá-la. Depois eu gritaria com ela sobre não estar presente no aniversário do Liam. Principalmente por me deixar sozinha no aniversário dele tendo que lidar com todos esses convidados irritantes e nem estou falando das crianças. Enchi o copo até a metade de refrigerante morno e discretamente puxei da minha bolsa uma garrafa cheia e recém comprada de vodca. Preenchi o restante do copo e bebi com prazer. Comecei a sentir a ansiedade diminuir. Continuei nesse ritmo até a hora dos parabéns, mas agora eu colocava mais vodca que refrigerante. Foque em Liam. Ele parece feliz. Eu repetia para mim diversas vezes tentando me manter alerta. Não consegui levantar para cantar parabéns. Bati palmas em ritmo descoordenado e lento.

—Você não vai tirar as fotos? – Ellen me pergunta.

—O que? – Ah sim, as fotos, eles esperavam que eu tirasse fotos. Não havia parado para pensar nisso. – Aqui. — Entreguei a câmera.

—Joan você está bêbada? – Ela falava baixo, mas indignada.

—Não. Não, não, não. Estou feliz por ver Liam fazer 9 aninhos e ser A única irmã que se importa com ele. Um brinde a Alex aquela vaca egoísta! — E desatei a chorar. Depois disso só consigo lembrar de acordar na minha cama. Carl estava ao meu lado sentado em uma cadeira mexendo no celular.

—Pai?

Ele me olhou sério.

—Eu não sei se brigo com você ou tento te consolar. Eu sinto que devo as duas coisas, só não sei por qual delas começar.

—Ah nao. Estou com muita dor de cabeça.

—Eu não tenho dúvidas disso. Você pode até estar sentindo falta das festas da faculdade, mas isso não é desculpa para ficar bebendo desse jeito em casa.

—Grite logo comigo e vá embora.

—Eu não vou gritar. Vou deixar você com a culpa de ter feito escândalo no aniversário do seu irmãozinho. Sorte que só tinha gente da família. Ah, e antes que eu me esqueça, todas as fotos ficaram horríveis e a culpa é sua, por que eu e seu tio que tiramos. – E saiu batendo a porta com força.

Ele acertou em cheio. A ressaca moral doía mais. Eu me odiava por ser assim. Como eu desejava poder voltar no tempo e ter me impedido de beber aquela primeira taça de vinho. Podia ter evitado tanta coisa.

Com a crise imobiliária de 2008 Carl estava ameaçado de perder o emprego. As vendas da Ellen despencaram e as dívidas com a casa que havia acabado de ser construída, estavam se acumulando descontroladamente. Eles brigavam sem parar. Todos os dias, as vezes várias vezes ao dia. Eu tentava contornar a situação, levava Alex e Liam, que na época não tinha mais que um ano, até o parque para que eles ficassem longe dos gritos.

Porém aquela vez não havia como sair. Era tarde, passava das dez da noite, eu já estava na cama quando eles começaram. Ouvi o choro de Liam do meu quarto, mas isso não os parou. Não demorou para Alex aparecer no meu quarto assustada com Liam no colo. Ficamos os três ouvindo a briga que iam desde palavrões até pedidos de divórcio, Liam, assustado, gritava muito então os levei até a cozinha, o mais distante do quarto deles dentro da casa. Então os vi descendo as escadas discutindo em um tom mais baixo. Eu queria ouvir tudo o que eles falavam. Pulei a janela da cozinha e fiz a volta por de trás da casa até chegar a porta do estúdio, onde eles estavam. Espiei pela porta de vidro Carl agarrar alguns enfeites prontos para irem à loja e joga-los no chão com força. Ellen mandou que ele parasse. Ele não parou. Ela então pegou um vaso e atirou em direção a parede bem do lado dele, quase o acertando. Ainda lembro do som da cerâmica indo contra a parede.

—VOCÊ QUASE ME MATOU!

—PENA QUE EU TENHO UMA MIRA RUIM.

Nesse momento eu sai correndo. Voltei a cozinha e nos tranquei ali. Eu mal conseguia respirar e chorava descontroladamente. Os gritos agudos de Liam ecoavam em meus ouvidos me tirando no sério. Sentei no chão encostada na parede tentando tapar os ouvidos quando observei que em cima do balcão havia uma taça cheia até a metade. A garrafa estava ao lado. Sempre ouvia-os falando que uma taça de vinho ajudava a relaxar. Levantei e peguei a taça com as duas mãos, virei o liquido de uma vez, a ardência na garganta, a queimação no estômago e o calor. Tudo ao mesmo tempo me envolveram de tal forma que me senti anestesiada de tudo. Servi mais um pouco e bebi mais rápido que da primeira vez. Repeti mais duas vezes o processo até não aguentar mais a queimação. Sentei no chão e esperei. Alex sabe-se lá como conseguiu acalmar Liam que agora brincava com colheres de pau e uma luva de forno. Ouvi barulho de carro. Alguém estava saindo. Esperamos, mas ninguém nos procurou. Quando subimos de volta ao meu quarto eu já estava tropeçando sozinha. Nos aninhamos na minha cama, Liam queria brincar, mas eu estava sonolenta e irritada demais para isso. Apaguei.

É engraçado que foi em meio desse pesadelo de brigas sem fim que Alex começou a correr. Em uma das inúmeras idas ao parque, havia um evento. Uma academia estava promovendo uma corrida infantil com os pais. Ela não parava de olhar. Não conseguia se concentrar em mais nada. Nem no balanço. Nem na caixa de areia. Convenci o organizador a deixa-la participar contando meias verdades e com toques na manipulação emocional. Que nossos pais brigavam muito e que nenhum deles viria correr com ela. Ele por fim, deu permissão para que ela participasse, mas não poderia concorrer ao prêmio. Ela chegou em último, porém feliz, e fiquei feliz por tabela. Comecei a notar que Alex corria ao redor da casa as vezes quando estava entediada. As vezes corria quando voltava da escola. E as vezes no recreio. No ano seguinte ela convenceu Ellen a correr junto com ela na edição seguinte da corrida. Esse foi o último ano do evento, mas ela continuou correndo periodicamente. Não raro me acordava cedo aos finais de semana para leva-la ao parque e assisti-la correr mesmo depois que as brigas acalmaram. Aos 14 ela corria todos dos dias. Aos 16 sumiu. Gosto de pensar que ela cansou de tanta merda e fugiu correndo, me deixando aqui. Talvez eu deveria ter fugido também. Há muito tempo.