Sobre cores e horas
1 Capítulo 1
Alex:
As cores sempre fizeram parte da minha vida, desde meus primeiros brinquedos super coloridos e chamativos até meu primeiro kit de pintura. Nunca poderia imaginar minha vida sem as cores, por que eu estava tão profundamente ligada a elas, desde as telas, dos vasos, das esculturas e das minhas próprias roupas. A lembrança era forte e quase achei que poderia tocar nelas agora.
Estiquei meus dedos buscando algo que eu sabia que não estava lá. Simplesmente não havia mais cores. Tudo o que eu via se resumia a um breu tão profundo que achei que fosse morrer.
As músicas alegres e bobas que eu dançava com Liam não tocavam mais. Não havia mais som. Por mais que eu arranhasse o chão, não conseguia extrair nada. Achei que fosse morrer.
Lembrei da lareira tão quente com as brasas estalando e tudo o que eu podia sentir agora era frio. Achei que fosse morrer.
Ellen:
O dia amanhecia cinzento e pouco a pouco as luzes de casas e prédios começaram a se misturar a fina garoa que encobria as ruas cada vez mais agitadas. Antes eu tinha plena certeza que ela estaria sentada atrás de nós nesse momento e que tudo não passava de um susto.
—Você acha melhor deixar o Liam em casa hoje? — Perguntei a ele. — Pensei em deixa-lo com seus pais.
—Não.
—Pare aqui. Eu preciso de um café.
—Você precisa dormir. E eu também.
—Não tenho a menor pretensão de dormir, pare ali por favor!
Ele se inclinou na direção e permaneceu olhando para frente ignorando meu pedido. As mãos apertando firme o volante.
—Eu tomo em casa.
Eram 6:54 e meu corpo implorava pela cama, Carl estava certo. Ao passar pela sala nos deparamos com Joan dormindo sentada no sofá e Liam com a cabeça apoiada em seu colo. Uma meia de dinossauro para fora do cobertor. Fiz carinho em seu pé e ele acordou, quando me viu pulou em meus braços. Joan acordou em seguida. Sem falar nada ela buscou pela sala alguma novidade e me olhou angustiada. Me limitei a esticar o braço e inclui-la no abraço com Liam. Carl se juntou a nós.
Os dias se pareciam irritantemente iguais. Olhava pela janela. Colocava o telefone para carregar. Ligava para os hospitais. Joan me trazia comida. Eu não tirava o olho da janela. Cada detalhe daquele dia ficou fixado e repetitivo na minha cabeça.
Eram cerca de oito horas da manhã e eu não havia pregado o olho tentando finalizar sozinha alguns vasos, meus auxiliares precisavam dormir e foram pra casa por volta das 2 da manhã.
—Eu mal acreditei quando acordei e não te achei. Vá dormir Ellen, que qualidade isso vai ter com você desse jeito? – Carl massageava meus ombros.
—Achei que daríamos conta, mas está quase finalizado.
—Vá dormir!
As 13 horas Alex me acordou falando em almoço e de ligações perdidas. Eu me sentia exausta e com as costas aos pedaços.
—Os vasos estão prontos? — Perguntei sem abrir os olhos.
—Sim, eles vieram aqui lá pelas 9 e terminaram agora. Estão empacotando tudo.
—Ótimo. Agora eu vou dormir. Não me acorde, a não ser que seja urgente.
—Mãe eu vou correr ok?
—Uhum. – E virei para o lado. Não me despedi. Não olhei para ela o tempo que ela falou comigo. Se eu pudesse voltar no tempo...
Acordei as 19. O estômago queimando do excesso de café e ausência de comida da noite anterior. Ao sair do quarto ouvi os sons do videogame de Liam, abri a porta e ele continuou concentrado.
—Há quanto tempo você está aí?
—Umas duas horas.
—E sua irmã?
—Não sei. Ela prometeu que iria jogar comigo e até agora nada.
—Ela não voltou?
—Não.
—Ela saiu para correr que horas?
—Depois do almoço.
—E ela não disse se ia para algum lugar depois?
—Não.
Bati no quarto de Joan. Ela não a via desde o almoço.
—Mandou mensagem para ela?
—Não, nem me liguei. – E ao tempo que falava, digitava. – Estou fazendo isso agora.
Chamei seu nome na casa toda e nada, ela não havia voltado. Me deparo com Carl chegando no momento que começo a ficar desesperada.
—E ela não atende o telefone!
Não demorou muito para prestarmos queixa na delegacia. E a saga começou.
***
Carl perguntava se eu precisava de algo, eu não respondia. Tinha alucinações de vê-la passando pela rua. No começo eu corria para fora, agora tentava me segurar desde o dia que vi uma silhueta que se parecia muito com ela, olhava para os lados assustada. Sai correndo encontrá-la. Era só uma menina procurando a casa de uma prima. Sai deixando-a falando sozinha. Ela gritou que eu era mal-educada. Mandei ela sair da frente da minha casa ou chamaria a polícia. Tudo isso aos berros. Os vizinhos saíram para olhar e senti que me alguns olhares me julgavam, outros sentiam pena. Quando voltei vi que Liam assistia a tudo.
—Pare de me olhar e entre!
Ele saiu correndo provavelmente para seu quarto por que não o vi pelo resto do dia. Imaginei ele aos 15 anos falando que tinha vergonha de mim desde que sai gritando como uma louca no meio da rua e é claro, que fiz da vida dele um inferno, e que me odeia, o que é de praxe, Joan teve essa fase, mas ela nunca me viu descontrolada desse jeito. Ele agora pelo menos tem argumentos. Mas por outro lado, já terei ficado louca de verdade até lá e nem vou ligar.
Mudei de ideia ao ver que ele me acompanhou no dia seguinte a vigília da janela. Ele vai me acompanhar na loucura. Vai ser o esquisitão da escola e vai me culpar por isso. Ah, paciência. Pelo menos acertei com duas. E lembrar dela foi como se uma faca entrasse em mim. Chequei o telefone. Não havia nenhuma chamada perdida.
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