Sobre amor, tartarugas e novas chances
12 Capítulo XII
Notas iniciais
5:20 a.m.
Jane acordou e logo percebeu que estava sozinha na cama. O dia anterior não tinha sido fácil, não tinha sido um dos melhores. Até onde Jane se recordava, para falar a verdade, ela não se lembrava de ter vivido um dia tão ruim como o de ontem durante... um tempo. Ela colocou a mão no lugar da cama onde Maura deveria estar deitada e pensou por um minuto.
A noite tinha sido difícil também. Nem ela e nem a mulher tinham conseguido dormir bem. Maura rolava pela cama a todo momento, e a morena passou horas olhando para o teto, tentando não pensar em nada, esperando pelo sono que só apareceu nas primeiras horas da madrugada. E de novo, lá estava ela acordada. E agora, onde estaria Maura?
Ela se levantou com um suspiro e checou o relógio. Cinco e vinte. Apertando os olhos, quase sem acreditar que já era tão cedo — e que ela não tinha dormido nem três horas — ela se levantou relutantemente da cama. No mesmo instante que os pés tocaram o chão um celular começou a vibrar. Não era o dela, ela notou. Ela contornou a cama e imediatamente atendeu o celular de Maura, não se importando com os limites.
'Rizzoli.' Ela disse, a voz rouca de sono.
'Ahn...' A voz veio incerta da outra linha. 'É a Susie aqui, detetive.' A mulher disse sem demora, aparentemente sem achar estranho Jane atender o celular da mulher.
'E aí, Susie? Ainda tá trabalhando?' Jane franziu as sobrancelhas.
'Sim. Passei a noite aqui.' Uma pausa. 'Dr Isles está melhor?' Ela perguntou quase timidamente.
Jane suspirou. Como ela poderia dizer? Ela ponderou a resposta. 'Bem, ela... não está tão nervosa como antes.'
'Oh. Ótimo. Desculpa ligar tão cedo, só queria que ela soubesse que achamos o erro nos exames e já consertamos. Ela... vai ficar feliz em saber, eu imagino.'
Jane sorriu por conta da consideração de Susie. Ela ficara no turno da noite trabalhando para resolver algo por Maura. Talvez fosse só sua obsessão nerd falando mais alto, mas se fosse apenas isso, ela não teria ligado.
'Susie, essa notícia vai fazer o dia dela. Muito obrigada.'
'Desculpa por tê-la acordado, detetive.'
'Não acordou, Susie.' Jane sorriu.
'Ótimo. Até mais.'
'Até.'
Jane desligou o celular e o jogou na cama. Ela ainda precisava encontrar Maura, agora ela tinha pelo menos uma boa notícia para dar. E decidida, ela estava disposta a levar um dia leve. Sem correria, sem choro. Apenas ela e Maura relaxando. Elas mereciam isso. E essa notícia iria começar toda essa leveza. Ela arrastou os pés para fora do quarto, cruzando a casa até chegar na sala. A TV estava ligada num volume baixo, algum documentário sobre algas marinhas — argh! — estava passando. Não querendo assustar a mulher com sua presença, ela lentamente contornou o sofá e se fez notar antes de se sentar, ou de tocá-la.
'Ei.' Ela disse quando Maura olhou para ela. A loira, que estava deitada, se remexeu no sofá e abriu um sorriso fraco para ela.
'Ei.'
'O que você tá fazendo aqui? É tão cedo, Maur.' Jane se sentou perto de sua barriga e colocou a mão em sua cintura.
Ela deu de ombros. 'Não consegui dormir. Achei que poderia usar o tempo acordada para aprender algo de útil.'
'Um documentário sobre algas marinhas? Sério, Maur?' Jane fez uma careta, não querendo parecer muito julgadora, mas falhando de qualquer forma.
'É muito interessante, Jane. Por exemplo, você sabia que as algas podem se reproduzir de forma sexuada ou assexuada? E que...'
'Maur. Muito cedo pra uma aula de biologia, ok?' Ela acariciou o quadril da loira.
'Ok.' Ela disse simplesmente. Jane nunca parecia disposta a aprender algo novo. Ainda que fosse tão aleatório. E nada relacionado com a área dela.
'Susie acabou de ligar. Encontraram o que havia de errado nos exames, já corrigiram.'
'É mesmo?' Maura pareceu mais interessada agora. 'O que era?'
'Ela não me falou exatamente o que era, talvez pelo motivo de que... Eu não ia entender nada e você teria que ligar para ela e ela teria que repetir tudo de novo.' Jane sorriu e balançou a cabeça como se dissesse 'não faz sentido?'.
Maura riu baixinho. 'Eu retorno mais tarde.'
E para Jane ela parecia mais aliviada. Jane ergueu o cobertor em que Maura estava enrolada e se colocou em cima da loira, apoiando o peso do corpo nos cotovelos. Maura acolheu a morena em seus braços.
'Gorjeta.' Jane disse.
'O que?'
'Gorjeta.'
'Como assim?'
'Eu acabei de concluir um serviço. Tô esperando minha gorjeta. Aceito em beijos, só para você saber.'
Maura riu. 'Eu não pedi por esse serviço. Não sou obrigada a pagar por ele.' Ela deu de ombros, indiferente.
'Maura, deixa de ser mesquinha!' Jane provocou.
A loira abriu a boca em um 'o', fingindo estar ofendida. 'Jane Clementine Rizzoli, não se atreva! Caso contrário serei obrigada a lhe cobrar pelo vaso que você quebrou.'
Ops.
'Eu? Não fiz tal coisa.' Ela mentiu sem se sentir culpada. Bem, talvez um pouquinho. Ela segurou os braços da loira acima de sua cabeça, prendendo-a no sofá. 'Isso é difamação, Dr Isles. Talvez eu devesse te prender.' Ela segurou o riso.
'Ah, me desculpa. Não foi você então?' Maura perguntou ingenuamente — fingindo.
'Claro que não. Foi Joe Friday.' Ela virou a cabeça para o lado e chamou numa voz autoritária. 'Joe?'
A cachorrinha apareceu instantes depois, colocou as patas dianteiras no sofá e encarou Jane.
'Quantas vezes preciso te avisar para não mexer com os vasos?' Ela disse séria. O animal sentou-se no chão e abaixou a cabeça, arrependida por algo que não tinha feito. 'Cachorro mau! Muito mau!' O bichinho grunhiu para ela, como se pedisse desculpas.
'Viu como ela parece culpada, Maura? Foi ela.'
A loira riu a balançou a cabeça. 'Você é incorrigível, Jane.'
'Gorjeta?' Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu, igual criança arteira.
Maura riu de novo. 'Você sabe que eu pagaria qualquer coisa para ter você aqui comigo.' Ela passou os braços em volta do pescoço de Jane e a puxou lentamente até si. Jane roubou um beijo.
'Exceto que você não precisa.' A morena pressionou seus lábios nos de Maura e beijou-a lentamente. Quando se afastou, ela estudou o rosto de Maura por um momento, correu os polegares pelas sobrancelhas da mulher e depois depositou um beijo em seu queixo. 'Hoje nós vamos ficar em casa.'
'Jane, não há moti...'
'Maur, olha pra você. Olha pra mim.' Jane balançou a cabeça. 'A gente precisa desse dia de folga, ok?'
'Eu prefiro continuar trabalhando, Jane. Francamente...'
'Maur, ontem você vomitou no trabalho, pelo amor de Deus! Eu não te vejo estressada assim...' Ela não terminou a frase. Nem precisava. 'Você tá sobrecarregada, Maur. E tentar esconder isso atrás de trabalho só vai te deixar mais sobrecarregada.'
'Jane, nós estamos no meio de dois casos.'
Era verdade, mas Jane não estava fugindo do trabalho, ela nunca faria isso. Na verdade, ela não ficaria em paz até resolvê-los, mas ela não permitira que Maura fosse trabalhar hoje. Não depois de vê-la sob tamanha pressão, tamanho estresse. Não depois da partida de Harriet. Deus, ela parecia esgotada, pálida. Jane se perguntou se ela parecia do mesmo jeito — ela nem tinha se checado no espelho ainda. Tudo o que ela queria era ficar por perto, ter certeza de que estava tomando conta de Maura, de fazê-la se sentir melhor, de que a loira iria comer e dormir direito. E a médica definitivamente não faria nada disso enquanto estivesse trabalhando. Ela recusaria a idéia enquanto pudesse, entretanto, Jane tinha uma carta na manga.
'Praticamente um. Com os novos resultados teremos um nome, Maur. E é só questão de tempo até Korsak bater na porta do cara e prendê-lo.'
'Jane...' Ela pareceu incerta agora.
'Qual é, Maur? O que você diz sobre um cérebro cansado?'
'Não produz muito.' Ela disse em voz baixa. 'Sem descanso, os neurônios são privados da quantidade ideal de oxigênio, o metabolismo desacelera e a produtividade cai.'
Jane ergueu as sobrancelhas sugestivamente. 'Seu cérebro anda bem oxigenado com, o que?, duas horas de sono?'
Maura sorriu. 'Eu duvido.'
'Entramos num acordo, então.' A morena segurou o rosto dela e beijou-lhe os lábios, selando o acordo. Maura não discordou, mas também não parecia muito feliz ainda. Ela manteve os olhos fechados por um tempo e quando pareceu longo demais, Jane a chamou num murmúrio. 'Maur?'
Quando Maura abriu seus olhos verdes, eles estavam marejados.
'Maur...' Jane disse, acariciando a bochecha da mulher com o polegar, algo apertando seu coração.
A loira balançou a cabeça e desviou o olhar. 'Esse dia não deveria ter começado assim.' Ela murmurou, como se a voz baixa significasse lágrimas contidas, mas elas acabaram por escapar do mesmo jeito.
'Não, não deveria.' Jane disse honestamente. 'Mas a gente pode tentar melhorar isso, não pode?'
Maura balançou a cabeça em sim, as mãos deslizando das costas de Jane para os ombros.
'Eu tô aqui com você, Maur.' Ela beijou o rosto da loira carinhosamente. Uma, duas, três vezes.
Um suspirou tremido escapou dos lábios da loira.
'Ela vai ficar bem. E nós vamos ficar bem.' Jane assegurou e Maura a trouxe para mais perto de si.
'E você vai ser uma ótima mãe.'
Lábios macios beijaram sua testa e depois seus lábios. Maura segurou a mulher ali e devolveu o beijo com a mesma paixão, a mesma delicadeza. E se traduzido em palavras, Jane saberia dizer o que o gesto significava: faça eu me sentir melhor; cuide de mim; fique comigo, eu preciso de você.
A morena já planejava isso de qualquer maneira. E ela iria fazer desse dia um dia melhor. Iria aliviar o sofrimento de Maura, o dela mesma. Caramba, ela iria as compras com Maura, compraria um vestido rosa, assistiria um filme francês tedioso e longo, comeria salada e leria Shakespeare em voz alta para Maura se a somatória de todas essas coisas colocasse um sorriso no rosto da mulher ao final do dia.
E com o segundo beijo — lento, apaixonado, com seu corpo pressionando levemente o de Maura como se reafirmando sua presença ali, com as mãos da morena segurando carinhosamente o pescoço da loira, a tensão pareceu finalmente abandonar o corpo da médica, e ela se entregou aos cuidados de Jane, se derretendo com cada gesto de amor.
E os gestos de Jane diziam tanto sobre ela. Maura a conhecia tanto.
Adoração.
O jeito como os lábios da morena pressionavam gentilmente sua pele. No pescoço, nunca muito demorado e sempre tão delicadamente. E ela sabia que Jane estava adorando cada centímetro de sua pele. Cada sarda pintada ali, principalmente as que tinham formatos de alguma coisa. Ela sabia as posições conforme Jane colava os lábios no seu peito: hoje tinha começado na linha da clavícula esquerda, ali estava a 'bota da Itália'. Maura nunca checou no espelho para conferir as semelhanças porque ela acreditava em Jane. Mais abaixo, um pouco mais a direta, três sardas lado a lado definiam o 'cinturão de Orion', e Jane sempre plantava três beijos ali. Ao centro, agora bem reto à linha central do pescoço, um conjunto de quatro sardas montavam a pegada de uma pata de cachorro, e era onde ela estava beijando agora. E o próximo lugar: mais abaixo, na linha dos seios, novamente três sardas aparentavam ser a cabeça do Mickey — e essas Maura teve que checar, e teve que admitir, em seguida, a semelhança. E em seguida, um pouquinho abaixo da clavícula direita, um conjunto de sardas desenhavam uma flor — e quando Jane descobriu, maravilhada, fez questão de contar 'as pétalas' e visivelmente aliviada suspirou quando a contagem terminou em 'bem-me-quer'. Maura sempre sorria com essa lembrança, do mesmo jeito que estava sorrindo agora. E para finalizar, a mais doce de todas, a sarda que parecia um pequeno coração do lado direito. E a morena impressionada apontou para ele em sua descoberta e perguntou se aquele pertencia a ela também. E Maura disse que sim, e Jane a pediu em casamento no momento seguinte, depois de dizer que não tinha um 'segundo coração', mas que o que tinha era inteiramente de Maura, e que Jane definitivamente poderia amá-la mais do que a si mesma. E a lembrança agora parecia tão vívida pela similaridade da situação: um momento íntimo, confortável, no qual Jane devotadamente a adorava.
Desejo.
Porque era inegável e às vezes quase incontrolável. Porque agora os lábios de Jane desciam a linha dos seios, sedentos — e isso nem sempre terminava em sexo, às vezes só fazia parte do 'amasso', como dizia Jane — e Maura lhe daria acesso como em todas as outras vezes, mas a onda de prazer que corria pelo seu corpo era sempre nova e diferente das outras. E antes de ir além, Jane afastou os lábios e olhou para ela, pedindo permissão, e uma vez concedida a morena afastou o kimono com uma mão e seus lábios encontraram quase que imediatamente a pele nua, e quando Maura sentiu uma chupada gentil ela fechou os olhos e se esforçou para não fazer barulho. E logo depois uma mão apertou seu outro seio e dessa vez um gemido — de prazer e dor — escapou-lhe os lábios.
'Jane!' Ela exclamou olhando para a morena. E antes que a outra pudesse falar, ela adicionou, 'TPM.' E então Jane já sabia que seu corpo estava sensível e dolorido, porque em seguida todos os gestos foram gentis, firmes sim, mas sempre tão gentis e cuidadosos. Com Jane era sempre tão diferente. Diferente de todas as pessoas, as mãos que corriam em seu corpo não eram para prazer próprio. Eram sempre para conhecer, sempre para agradar, sempre para oferecer. E isso era recíproco. Maura tinha um mapa do corpo de Jane em sua cabeça, mas incansavelmente ela corria suas mãos pelo corpo da morena, tentando achar novas curvas, depressões, pontos sensíveis. E parecia tão certo, tão familiar, tão confortável. Suas mãos pareciam se abrigar no corpo quente da detetive e Maura não queria removê-las dali. Não queria que Jane se afastasse dali, porque de outro jeito ela se sentiria exposta ao mundo. E por isso, quando a morena afastou os lábios de seus seios, Maura a puxou para cima, oferecendo um beijo que, ela esperou, dissesse tudo o que sentia. Algumas palavras nunca significariam tanto como gestos, e vice-versa. Maura se certificava de que ela oferecia os dois na mesma medida, para não desbalancear, para a relação se manter sempre estável.
Possessão.
As mãos de Jane deslizando para seu quadril e puxando seu corpo para si. 'Oh!' Maura exclamou entre o beijo porque agora a coxa de Jane estava firmemente pressionada contra seu centro. Por um instante Maura quase se perdeu. Ela passou um braço em volta do pescoço da morena enquanto o outro pressionava na parte baixa da coluna, indicando que ela ficasse ali porque ela poderia tirar vantagem da posição agora. Enquanto o corpo da morena se mexia, consequentemente mexendo a perna e roçando-a contra si, ondas de prazer corriam seu pelo corpo. E sua própria perna dobrou num ângulo em que ficou pressionada contra o sexo de Jane e a morena não conseguiu evitar o gemido que soltou, vibrando dentro da boca de Maura. E a loira segurou com firmeza a cintura de Jane, pressionando-a para baixo e o gesto tão similar ao da morena não passou despercebido. E elas tinham chegado na linha. Um passo a frente significaria sexo. Tudo o que bastava era um olhar, o balançar de uma cabeça.
Maura não tinha idéia de quanto tempo estavam fazendo isso porque era tudo tão lento, atencioso, carinhoso e afetuoso que o tempo não parecia se registrar nos atos, e seu corpo definitivamente trabalhava diferente quando as mãos de Jane eram a razão de tais estímulos. E que controle ela tinha sobre seu corpo agora? Era quase ridículo a maneira como ela se perdia em Jane. A única coisa que ela sabia é que elas estavam lá, no momento de seguir em frente ou recuar, porque agora sua calcinha estava molhada, e ela soube que Jane sentia isso em sua coxa porque, 'Oh Deus, Maura.' Ela sussurrou enquanto segurava o quadril da loira para si, num gesto de posse que causava a Maura arrepios, que a desmanchava e a fazia se sentir fraca, dominada.
'Cama?' Jane lhe perguntou, o que necessariamente significaria sexo se a resposta fosse sim.
Maura não tinha certeza. Ela queria continuar no sofá, ela estava confortável ali. Ela poderia usar outra palavra — excitada — também.
'Amasso?' Ela sugeriu, sabendo que Jane entenderia em uma única palavra. Ela tinha traçado um limite ali. Um limite que nem ela saberia se conseguiria seguir. Não do jeito como ela estava queimando, do jeito que seu quadril se recusava a ficar parado, insistindo no encontro com o corpo da mulher.
Jane concordou com a cabeça e voltou a lhe beijar, e Maura dessa vez correu seus dedos pelas suas costas, pressionando e sentindo cada osso ali. Os da coluna, cada curva até o pescoço. E depois mais para a lateral, contando os ossos da caixa torácica de cima para baixo. C4. C5. C6 e adiante. E de alguma forma ela não conseguiu parar suas mãos. Ela desceram até o cós do shorts da morena e seus dedos deslizaram para dentro, pressionando carne macia e quente, tirando de Jane um suspiro. E ela segurou no quadril da mulher porque uns centímetros afastados dela — que Jane tinha se distanciado, porque ela claramente não conseguiria lidar com tamanha excitação para ficar só no amasso — custou Maura calor. E Maura precisava de calor.
E agora era a vez de Jane de pisar em cima da linha e segurar com firmeza o pescoço de Maura, e pressionar seu corpo contra o dela novamente. E ambas respiravam pesado agora, tentando resistir — mas para quê? — àquilo que estavam prestes a fazer. E a resistência não durou mais do que um segundo.
Reivindicação.
Porque entre todas as coisas que eram certas e claras para Maura, essa era uma delas: Ela era de Jane. Jane era dela. E o jeito como a morena a beijava agora, como exigia seu espaço no próprio espaço de Maura, como se por demanda clamasse por cada parte de seu corpo, de seu coração, era a forma como Maura sabia. Jane reivindicava por ela. No trabalho: a médica legista, companheira de Jane. No círculo de amigos: Maura Isles, mulher de Jane. Em casa: Maura, esposa de Jane. De Jane e de ninguém mais. E na cama: Maura, ou Maur, ou Oh, Deus, Maura: sua mulher. Apenas sua, toda sua, inteiramente e possessivamente. Cada traço que ela não queria repartir com ninguém, cada gemido que era destinado a ela, e só ela. Cada aperto e cada investida: dela. Cada palavra, dela. Se Maura implorava, era por ela. E quando o corpo de Maura tremia, era nos braços dela, por ela. Minha Maura. Minha, minha, minha. Ela dizia frequentemente. Minha. E Maura não podia concordar mais. E agora que Jane clamava por ela, fisicamente, ela não poderia fazer outra coisa senão ceder. Não. Ela podia fazer outra coisa. Maura sorriu entre o beijo e deslizou a mão para a barriga de Jane, os dedos facilmente entrando por dentro da calcinha e Jane gemeu em sua boca e depois se afastou para encará-la, aparentemente chocada com o ato, e depois de uma exata batida de coração, Maura deslizou seus dedos para dentro de Jane sem aviso, e o grunhido da morena nunca lhe pareceu tão gutural quando sua cabeça tombou pra frente num ato de redenção e prazer, a voz rouca vibrando no pescoço da loira e ecoando um próprio gemido na garganta.
'Maura!' Ela exclamou enquanto tensionava o corpo, e a médica a beijou para lhe calar. Ela também sabia como reivindicar. E Jane não precisava mais de muito. Apenas algumas investidas, apenas alguns gemidos roucos. Maura sabia que ela estava tão próxima porque ela descansou o queixo em seu ombro, e depois perto da curva do pescoço, e porque seu corpo tensionava e relaxava, e ela sabia que Jane queria durar mais um pouco, e Maura a fez durar, porque hoje era sobre gentileza e carinho, e ela queria retribuir tudo o que Jane oferecia à ela.
E então Jane mais uma vez apertou o seio exposto de Maura, e o gemido da loira foi o último estímulo para alcançar o orgasmo. E seu corpo tremia, e os dedos Maura continuavam entrando e saindo de seu corpo — agora com mais dificuldade — e ela se entregou, porque Maura estava lhe segurando, e só a loira podia fazer isso com ela, e era por isso que 'Maura' saía de sua boca repetitivamente, porque era dela, era para ela, e era Minha Maura. Quem lhe tirava a respiração. Quem fazia ela se perder e se encontrar. 'Maura', ela disse uma última vez quando a onda maior de prazer havia se passado. E seus braços quase não conseguiam sustentar mais o peso do seu corpo, mas eles tinham, porque ainda tinha Maura, e ela esfregava seu sexo contra a perna de Jane, exigindo pelo próprio prazer.
'Jane?' Ela pediu, e não precisava de mais nada. E foi porque há muito elas estavam ali, ou porque ela já tinha alcançado seu limite, que bastou o toque de dedos longos no seu clítoris inchado para perder o controle. E o corpo se tensionou, as costas arquearam, e o orgasmo atingiu seu corpo com força máxima, tirando-lhe o ar dos pulmões, apagando os outros sentidos. E 'Jane' foi a única coisa que conseguiu dizer, num murmúrio baixo, do tipo que se faz quando se vê algo extremamente belo, com o poder de deixar alguém atônito, e embora seus olhos estivessem fechados agora, ela podia sentir Jane, o que era ainda mais bonito, mais comovente, mais encantador.
Ela arfava agora que os pulmões voltaram a funcionar. Ela segurava Jane, que jazia em cima de si tão sem ar quanto ela, e Maura beijou-lhe o topo da cabeça. Ela sentiu o corpo da morena balançar, como se estivesse... rindo.
'Maura.' Ela disse ainda durante a respiração irregular. 'Você disse... amasso.' Ela levantou a cabeça para encará-la e quando olhos negros encontraram com os seus, Maura viu o que habitava la dentro.
Amor.
Sempre terminava em amor.
'Não tô reclamando. Isso é mais: eu amo você.' Jane riu, a voz rouca arrepiando Maura. Ela se ajeitou em cima da mulher menor e acariciou seu cabelo.
Maura sorriu e fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás no momento em que Jane beijava o pé do ouvido. Ela ainda tentava respirar corretamente, e era difícil falar, um pouco por causa do peso de Jane em cima de si. E enquanto Jane admirava seu rosto, suas bochechas agora vermelhas, e beijava carinhosamente uma de cada vez, Maura deslizava a ponta de seus dedos — ainda úmidos — nas suas costas. A sensação fria do rastro deixado para trás em sua pele lhe arrepiou. Quando ela se deu conta, Maura estava desenhando ali. Não. Ela estava escrevendo. Em letra cursiva.
Minha.
Jane.
Minha.
'Sua. Eu sou sua, meu amor.' Jane acariciou seu rosto e depois a beijou apaixonadamente. 'Minha Maura.' Ela beijou-lhe os lábios. 'Minha' , beijo no queixo, 'Maura', beijo no pescoço. 'Minha, minha, minha.' E entre cada palavra um beijo plantado em um lugar diferente. Na bota da Itália. No segundo coração. No Mickey. Minhas sardas, a morena pensou.
E mais uma vez Maura escreveu em sua pele.
Amor.
Jane balançou a cabeça enquanto sorria. Deus, os olhos de Maura, eles estavam tão carregados de amor, de paixão, de vida. E essa coisa nova de escrever em suas costas, Jane queria amá-la de novo e de novo e mais uma vez. Como ela podia amar Maura nesse tanto? Ela não conseguia se expressar por inteiro.
'Você sabe, Maur, o quanto eu te amo?' Ela perguntou e a mulher sorriu.
Dedo escrevendo em suas costas.
Seu ar?
Porque era uma das coisas que Jane falava sempre para ela: te amo, você é o ar que respiro, não vivo sem você. Era brega, fazia Maura rir, mas era a coisa delas. Jane riu e balançou a cabeça.
'Não.'
Maura tentou de novo.
Alma?
'Não.' Veio a resposta da morena de novo.
Maura franziu as sobrancelhas intrigada e escreveu de novo.
?
'Sabe as estrelas, Maur? As grandes estrelas?'
A loira balançou a cabeça em sim.
'Lembra que você me disse que elas brilham, mesmo depois de mortas?'
Outro sim, os olhos mais abertos agora.
Jane fez uma pausa. Ela esperou que Maura entendesse a comparação. 'Ela brilham eternamente, não é? Porque o espaço é infinito, então elas continuam brilhando, a luz correndo por toda direção. E nós vemos a luz delas daqui, não vemos? A luz queimando eternamente, numa continuação infinita de expansão, por todos os lados, por todo o sempre. Brilho infinito. Todo o sempre.'
Ela olhou Maura nos olhos e ofereceu humildemente. 'Meu amor por você é o brilho das estrelas grandes.' Ela acariciou o rosto da loira com as últimas palavras.
'Oh, Jane.' Maura sussurrou com a voz trêmula, os olhos se enchendo de água. Ela abraçou a mulher firmemente, como se estivesse se certificando de que toda aquela eternidade se comprometesse com elas através do gesto. Ela chorou, porque Jane fazia isso com ela. A fazia se sentir extremamente feliz, extremamente amada, extremamente sortuda. Adoração. Ela beijou os lábios da morena demoradamente. Possessão. E segurou-lhe o pescoço firmemente enquanto a beijava. Reivindicação. Para quando seus lábios se separaram e ela disse, 'minha doce Jane'.
'Oh, Maura! Não chora.' Jane limpou as lágrimas do rosto da mulher. 'Qual é, sem chorar.' Ela beijou seguidas vezes lábios macios.
'Eu posso, Jane?' Ela disse pegando ar, ainda chorosa.
'Pode o que, Maur?'
'Eu posso brilhar com você?'
Amor.
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