Notas iniciais
Para Luanna, que pediu por mais um capítulo com mais de quatro mil palavras ;) Vocês arrasam, gente! Muito obrigada por lerem e comentar. Espero que gostem desse também, iluminem me com suas idéias/opiniões! Obs: como poderia deixar de oferecer para você, Hannah? ;)

Maura acordou com a luz do sol aquecendo seu rosto. Ela esfregou os olhos e jogou a mão para o lado na esperança de encontrar o corpo quente de Jane lá. Foi em vão; ela não encontrou nem Jane nem o calor que estava esperando. Confusa, ela olhou para o relógio e franziu a testa para os números vermelhos.

'O Quê?' Ela disse enquanto os números 08:19 zombavam dela. 'Não posso estar tão atrasada!' Seus pés encontraram o chão e ela colocou o roupão em volta da cintura. 'Jane, onde está você? Estamos atrasadas!' Ela jogou as mãos no ar quando nenhuma resposta veio. Ela olhou para o travesseiro de Jane, reprovando a atitude de sua esposa por não acordá-la, e quase não percebeu um pedaço de papel branco que estava lá. Ela o pegou e leu o bilhete de Jane:

Querida, eu pensei que seria melhor se nós ficássemos em casa com Harriet hoje. Fico com o turno da tarde, ok?

Ps: Você é tão linda dormindo, não tive coragem de te acordar.

Ps2: Eu te amo incondicionalmente.

Jane

Maura não poderia deixar de sorrir para o pequeno pedaço de papel. É claro que Jane deveria ter perguntado primeiro antes de tomar todas as decisões, mas no fundo ela fez isso por uma boa causa, ela estava pensando em Harriet. Falando nisso... Maura virou em seus calcanhares e saiu da sala. Era cedo e provavelmente a menina estava dormindo, mas ela queria checá-la de qualquer maneira. Ela estava cansada, de tal maneira que nem sequer acordou no meio da noite. Surpreendia Maura que a menina...

'Harriet?' Maura parou de repente quando viu a cama vazia. Ela correu os olhos pelo quarto; a menina não estava lá. Maura tentou ouvir alguma coisa, qualquer coisa que indicasse que a garota estaria ao redor, mas o silêncio que veio em seguida foi quase ensurdecedor. 'Harriet?' Ela chamou mais uma vez. Nenhuma resposta.

De repente ela se sentiu fraca. Harriet deveria estar na cama. E se ela tivesse despertado enquanto Maura ainda estava dormindo e tivesse saído de casa?

'Harriet?' Ela começou a andar de novo, a preocupação crescente em seu peito.

Experimente a cozinha.

'Harriet? Onde você está?' Ela correu para a sala agora, seu coração batendo tão rápido que ela podia ouvi-lo em seus ouvidos. Quase desesperadamente ela começou a procurar o seu telefone celular. Talvez ela devesse chamar Jane. Finalmente ela o encontrou no balcão da cozinha, ela desbloqueou e estava prestes a discar quando viu Joe Friday cruzando a sala de estar, vindo encontrá-la. O pequeno cão sentou-se no chão de madeira e agora estava abanando o rabo pacientemente para ela.

Joe. Maura franziu a testa. É claro. Por que ela não pensou nisso em primeiro lugar? Bass! Maura sentiu uma pequena centelha de esperança iluminando o coração. Ela caminhou pela casa de novo, seu corpo tremia de medo e expectativa, e logo quando ela estava passando pela sala de yoga, ela viu a menina de joelhos, de costas para Maura, e a tartaruga na frente dela.

'Harriet!' Ela chamou firmemente, aliviada demais para se preocupar com seu tom de voz, a palavra enchendo o ar silencioso. Ela se sentiu culpada imediatamente quando viu a menina saltar de medo.

'Ah!' Ela suspirou e encolheu antes de virar-se para Maura.

'Desculpa, querida, eu não queria assustá-la.' Ela baixou a voz, tomando de volta o controle que, aparentemente, ela tinha perdido antes.

A menina não disse nada, ela só ficou olhando para Maura, as sobrancelhas erguidas em alerta, como se espera de uma reprimenda. Maura deu alguns passos e sorriu para a ela, queria que ela soubesse que estava tudo bem.

'O que você está fazendo? Eu estava procurando por você.'

'Eu estou alimentando o Bass.' Ela mostrou para Maura um morango que tinha na mão. Só agora Maura percebeu a tigela cheia de morangos no chão ao lado de Harriet, a boca e as mãos da menina estavam sujas com suco vermelho da fruta. 'Jane me disse para ficar aqui e cuidar de você.'

Maura abriu um sorriso. 'Aposto que ela pediu. Você está comendo isso também?' Ela perguntou enquanto ela se sentou ao lado de Harriet e apontou para a fruta.

'Tem problema?' Ela perguntou timidamente.

'Claro que não.'

A menina sorriu para ela e mordeu metade da fruta, uma nova onda de água vermelha escorrendo de seus lábios.

'Você dormiu bem neste pijama?' Maura colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha de Harriet.

'Uhum. Macio.' Ela comeu a outra metade da fruta e parou para ver Maura. A loira sabia que ela queria saber o que ia acontecer agora, mas isso, até mesmo Maura não sabia.

A loira viu Harriet se encolher quando Bass começou a andar para longe delas; a menina riu, achando engraçado a maneira como ele se arrastava no chão.

Quando ela voltou os olhos para Maura, a loira se perguntou se o céu poderia ser tão azul quanto os olhos daquela menina, a mancha vermelha em seus lábios contrastando-os ainda mais. Ela parecia em paz, tanto quanto uma criança poderia depois de passar por tudo o que ela tinha passado, ou talvez ela estava apenas deixando de lado seus sentimentos — isto é, se ela sabia como fazer isso. De alguma forma, ela parecia ser forte. Mas seus olhos... Eles estavam segurando a dor, um tipo de dor que Maura sabia que levaria tempo, e paciência, e noites de choro e Deus sabe o que mais para desaparecer. Não era apenas um estado de espírito, a dor na maioria das vezes parecia real, como se alguém estivesse esmagando seu coração — ela já tinha experimentado isso. E Harriet era apenas uma criança, uma doce garotinha que agora estava chupando os dedos cobertos de suco.

Maura riu com a visão. Era adorável, muito doce para se perder no tempo ou até mesmo em sua memória. Segurando seu celular, ela perguntou: 'Harriet, posso tirar uma foto de você?'

'Sim'. Ela disse calmamente.

'Ok, você pode me dar um sorriso?'

Um dedo ainda em sua boca, ela sorriu seu melhor sorriso para a loira e segundos depois a foto foi exibida na tela do celular de Maura.

'Olha como você é linda.' Maura lhe mostrou a foto.

Harriet sorriu e levantou as sobrancelhas.

'Oh! Agora eu e você, Maura?'

'Você quer tirar uma foto comigo?'

'Por Favor?'

'Venha aqui.' Ela estendeu o braço e Harriet entrou em seu abraço, sentando-se em suas pernas cruzadas e descansando as costas contra seu peito.

'Pronta? Aqui vamos nós.'

Um riso mais tarde e a imagem estava lá.

'Deixa eu ver!'

Maura suspeitava de que ela não estava em sua melhor aparência, mas, em seguida, as palavras de Harriet disseram que ao contrário.

'Oh! Você é linda. E eu sou a sua tartaruga.'

Maura riu e deu um beijo em sua bochecha. Se ao menos fosse verdade...

'Você é uma tartaruga muito bonita. Agora vamos te alimentar.'

'Jane já voltou?' Harriet olhou para ela.

'Ainda não, mas ela vai estar aqui na hora do almoço. Oh! Vou enviar para ela a nossa foto, o que você acha?'

'Legal!' Ela esperou pacientemente enquanto Maura enviava à Jane as fotos e digitava alguma coisa.

Maura sentiu uma pequena mão pressionando suavemente seu joelho, dedos pegajosos acariciando sua pele — ela sabia que Harriet estava perdida em pensamentos agora — traçando padrões como se uma maneira de ajudá-la a organizar sua mente.

'Você a ama.' Ela murmurou baixinho, Maura quase não escutou.

Foi uma observação simples, no entanto Maura sabia que ele iria levar para outro lugar. Ela decidiu não perguntar nada, deixando a menina livre para concluir sua linha de pensamento, de modo que ela só respirou, 'Muito.'

'Você acha que a minha mãe me ama?'

Lá estava. A pergunta feita no tempo presente quase partiu o coração de Maura. 'Eu tenho certeza que ela amava muito você, Harriet.'

'É? Ela me deixou.' A dor na voz de Harriet chegou aos seus ouvidos. Maura presumiu que talvez Harriet estava tentando enfrentar a realidade em que ela se encontrava agora. Ela estava sozinha, porque a pessoa que ela confiava e mais amava havia abandonado ela.

Ou pelo menos era o que a loira tinha entendido, considerando o tom doloroso em sua voz. Se essa foi a conclusão prematura que Harriet tinha alcançado, era errado e mesmo que Maura não conhecesse a mãe de Harriet para fazer um julgamento de caráter — ela acreditava que manter boas lembranças era uma maneira saudável de superar o sofrimento — Harriet ficando com raiva de sua mãe não iria ajudá-la no caminho, só iria piorar as coisas; ódio funciona como um bumerangue, você o joga contra o vento e quando ele volta, ele bate em você com todo o seu poderio. E dói mais do que antes. E então você quer jogá-lo novamente, porque você começa a ficar com mais raiva, até que isso se torna um círculo vicioso maldito. Maura não permitiria isso, ela guiaria Harriet para o caminho certo.

'Ela não abandonou você, querida. Tenho certeza que ela teria ficado se tivesse a chance de escolher. Algumas coisas estão fora de nosso controle, você entende? Como o tempo. Hoje temos um dia de sol, e até mesmo se quiséssemos um dia chuvoso, bem... não podemos controlar o tempo, podemos?'

'Não...' E ela ficou em silêncio por um tempo. Então... 'Maura... O que você faria se Jane morresse?'

Eu morreria junto. Mas ela não disse isso. 'Eu...' Ela não sabia exatamente o que dizer. Ela tinha lido uma vez que as pessoas acreditavam na vida após a morte porque isso trazia consolo, esperando que um dia elas seriam capazes de encontrar os seus entes queridos novamente. Ela verdadeiramente entendida esta fé agora, agora que tinha uma criança nos braços, pedindo-lhe ajuda, proteção. Poderia não ser verdade — ou pelo menos em sua crença — mas entre estar errada e fazer Harriet chorar, ela acabou escolhendo a incerteza da fé.

'Eu tentaria pensar que ela estaria em um lugar bonito, feliz, esperando por mim. Por que você não tenta isso?'

'Como o céu?'

'Sim, garotinha.' Maura disse mais uma vez quando grandes olhos azuis seguraram seu olhar, e a loira encontrou algo novo dentro deles: um redemoinho de dor e, agora, esperança. 'Como o céu.' Ela apertou os lábios em um beijo na testa de Harriet para reafirmar as palavras.

...

'E essas somos nós. Essa é você, o peixe vermelho. Essa é Maura, a sereia. E eu sou a tartaruga. Bass é esta tartaruga aqui, e o peixe amarelo é Joe.' Harriet apontava cada figura para Jane. Ela estava mostrando a ela o desenho que ela tinha pintado nos últimos minutos. Foi uma opção divertida que Maura descobriu que iria distrair a menina enquanto ela tinha um par de artigos para estudar. Ficar em casa não significava nada para fazer, mesmo. Então ela tinha dirigido até a loja mais próxima que ela poderia encontrar um livro para colorir e lápis de cor. Harriet adorou a idéia. Principalmente porque algumas das páginas (especialmente a que ela estava mostrando Jane) tinha tartarugas e peixes para ser colorido.

'É lindo, Harriet. Realmente. Vamos colocar na geladeira. O que você acha?'

'Legal!'

'Ainda bem que você está indo para a cozinha, Jane', disse Maura reaparecendo na sala de estar de novo, agora toda arrumada,' talvez você queira lavas os pratos.'

Jane sorriu. 'Sim, querida, por que não? Harriet pode secá-los.'

'Abuso!' A menina protestou, apontando com o lápis de cor vermelho para Jane, olhando para Maura em absoluta indignação, como se estivesse dizendo 'olha o que ela está fazendo comigo'. 'Eu sou uma convidada!'

Maura e Jane trocaram olhares e começaram a rir da menina. Ela tinha uma mente afiada e estava geralmente pensando rápido.

'Boa tentativa, Harriet, mas acho que Maura não vai comprar isso.'

'Na verdade, Jane... Ela está certa. Ela é uma convidada.' Maura deu de ombros enquanto verificava seus brincos.

'É, é... Ponto para você, tartaruguinha.' Jane sorriu para a menina enquanto ela se aproximava de Maura. Ela queria que a mulher ficasse em casa com elas. Elas tiveram um bom tempo juntas na hora do almoço, ela desejava que o momento durasse um pouco mais. Tinha sido um dia leve, até agora, mesmo com um monte de coisas para fazer no trabalho, sabendo que sua esposa estava em casa com a criança deu-lhe um pouco de paz. Ontem tinha sido um dia difícil; elas tinham ficando emocionalmente esgotadas e, ao final do dia não havia mais nada senão pura exaustão. Mas hoje era um novo dia, e até mesmo Harriet parecia um pouco mais confortável, disposta a falar. Jane era todo sorrisos quando ela recebeu o texto de Maura com suas fotos: a imagem de Harriet, sozinha, fez um sorriso inconsciente surgir em seu rosto, e na próxima foto, aquela em que Maura estava segurando a menina, fez Jane se apaixonar ainda mais pela loira. Ela tinha acabado de acordar, mas estava tão linda.

'Então, você também quer que eu molhe suas rosas?' Jane perguntou sarcasticamente assim que passou os braços ao redor da cintura de Maura, mas é claro que a loira não iria notar o sarcasmo.

'Não se atreva. Você sempre acaba aguando demais.'

'Foi apenas uma vez, Maura!' Jane se defendeu.

'Você absolutamente não sabe como cuidar de flores, Jane.' Maura riu quando Jane fez beicinho.

'Pelo menos eu sou capaz de cuidar de você.' Ela encolheu os ombros indiferentemente.

'Isso você sabe como fazer muito bem.' Maura deu-lhe um beijo. 'Eu tenho que ir agora.' Ela olhou de Harriet — que estava novamente colorindo — para Jane. 'Vocês vão ficar bem?'

'Uhum. Não se preocupe.'

'Bem, se ela precisar de alguma coisa...'

'Maura', Jane a cortou, 'nós vamos ficar bem, eu prometo.'

Maura sabia Jane estava disposta a fazer isso por ela. Mesmo que ela não tivesse concordado com isso a princípio, tinha se tornado sua batalha. Ela se ofereceu para cuidar de Harriet sabendo que Maura poderia fazer isso por si mesma; a loira poderia tirar umas férias curtas, se quisesse, mas Jane tinha organizado os seus horários para que as duas pudessem ir trabalhar e passar o tempo com a menina. Elas sempre acabavam por balancear as coisas; um equilíbrio justo para o tipo de relação que elas desejavam levar: leve, não-turbulenta e amigável. Maura podia contar com Jane e Jane com ela. Simples assim. Tornava a vida mais fácil e prazerosa. Aliás, nos últimos anos tudo o que Maura conseguia pensar era em quão boa sua vida tinha se tornado, por causa de Jane, é claro. Reuniões em família nunca fora seu forte, até ser apresentada para os Rizzolis. Gente gritando e se batendo com guardanapos na cozinha? Antes só em filmes. Agora Angela assumia o papel de cozinheira, e praticamente todo domingo era dia de família reunida em torno da mesa — o que as vezes acrescentava um TJ fofo sentado em seu colo no sofá, depois da refeição.

E quase não sobravam resquícios da sua vida anterior. Solidão lhe parecia uma palavra estranha atualmente e ataques de pânico por estar no meio de pessoas (vivas) nunca mais aconteceram. Até a relação com Constance tinha melhorado por causa de Jane, e Hope... Bem, não era o tipo de relação que ela esperava ter — afinal, ela já tinha uma mãe — então a relação ficava sempre nas entrelinhas de maternidade e amizade, sempre vacilando E de quebra acabou sendo interessante ter uma meia-irmã, outra coisa que Maura não tinha tido a oportunidade de vivenciar quando criança.

Sim, a vida dela tinha mudado significantemente para melhor por causa de Jane. E agora ela pensou no que teria acontecido, ou no que não teria, se ela não tivesse aceitado o emprego em Boston, se ela não tivesse dado abertura — como costumava fazer com as outras pessoas — para Jane se aproximar. Um calafrio lhe percorreu a espinha enquanto as palavras de Harriet invadiram sua mente sem permissão. O que você faria se Jane morresse? Ela sinceramente não tinha idéia. Suas vidas tinham se tornado uma, e era tudo tão intenso que parecia que Maura nunca tinha estado sozinha antes. Ela não se lembrava muito bem como era viver sem Jane ao seu lado. Pela segunda vez neste dia, ela teve medo da possibilidade. Ela suspirou, tentando limpar a mente.

Para Jane, a loira parecia um pouco insegura olhando a pequena silhueta de Harriet. 'Maur...'

'Eu te amo. Tanto. Não me deixa.' Ela disse do nada, voltando a atenção para Jane.

'Eu não estou pensando em deixar.' A risada de Jane desapareceu no ar quando Maura sorriu timidamente para ela, abaixando a cabeça.

Desentendida, a detetive colocou as mãos nos ombros da loira. 'O que está acontecendo, Maur?'

'Não é nada. Mas promete?' Os olhos verdes brilharam com expectativa para ela.

'Eu prometo.' Jane não insistiu, às vezes era simplesmente difícil de acompanhar o raciocínio da médica.

Maura sorriu satisfeita e lhe deu um beijo lento. 'Eu vou voltar por volta das seis.'

'Eu vou estar aqui esperando por você.' Jane disse assim que ela soltou sua esposa. Maura caminhou até a porta e abriu-a, mas antes que ela tivesse a chance de sair Jane a chamou novamente. 'E Maur? Eu também te amo.'

...

'Ok,' Jane disse girando a bola laranja entre as mãos, 'Eu vou primeiro.' Ela se posicionou, mirando a bola para o aro e com um movimento gracioso lançou-a diretamente no cesto. 'É!' Ela levantou os braços, comemorando. 'É a sua vez agora, Tartaruga.' Ela agarrou a bola que estava pulando em sua direção e atirou-a para Harriet.

A menina segurou a bola com as duas mãos. Era muito grande para ela, e Jane se perguntou se ela seria capaz de jogá-la para cima. Ela assistiu atentamente sua primeira tentativa, que foi um fracasso completo enquanto a bola, a meio caminho para o aro, começou a cair em direção ao solo.

Harriet olhou para Jane e deu de ombros. 'Sou muito baixa.' Ela disse naturalmente.

'De Fato. Eu acho que posso te ajudar. Venha até aqui.' A menina caminhou até ela e, uma vez que ela estava perto o suficiente, Jane agarrou-a pela cintura e levantou-a, fazendo-a gritar de prazer, e a colocou em seus ombros. 'Tem uma vista melhor daí?'

'Pode apostar!' Ela disse toda animada. Ela nunca tinha sido colocada sobre os ombros de alguém antes. Ela se sentia gigante.

'Ótimo. Então pegue essa bola e faça uma cesta, ok?' Jane lhe entregou a bola.

'Sem promessas.'

'Apenas tente.'

E ela tentou, mas pela segunda vez a bola não chegou ao seu destino. Harriet apoiou as mãos sobre os joelhos e suspirou. 'Eu acho que eu não sou tão boa quanto você.' Ela olhou para baixo, para Jane, e torceu os lábios para baixo, pensativa.

'Ah, qual é, você só tem que praticar. Vamos tentar mais algumas vezes.' Mais uma vez, ela entregou a bola para a menina. Jane caminhou para a frente para chegar mais perto do aro, e assim que ela parou, Harriet jogou a bola para cima... e ela acertou na cesta desta vez.

'É!' Ambas gritaram de alegria.

'É isso aí, Tartaruga, eu sabia que você conseguiria!' Ela jogou as mãos para o ar e Harriet bateu as dela na da morena, fazendo um duplo high-five.

'Quero fazer de novo! Posso, por favor?'

'Cacete, claro que sim! Você pode!' Jane franziu a testa e levantou a cabeça para olhar para ela. 'Só não diz para Maura que eu disse aquela primeira palavra.'

'Pode deixar.' Ela deu uma risadinha.

Elas passaram mais de uma hora jogando a bola para o aro, Jane estava se divertindo com a garota — ela estava esperando ansiosamente para quando TJ fosse grande o suficiente para jogar basquete com ela. Isso sempre tinha sido uma coisa que ela queria fazer — compartilhar esta coisa tradicional que teve com seus irmãos com seus filhos, sobrinhos e sobrinhas. Especialmente com suas crianças. Se Frankie estivesse em seu dia de folga, ela com certeza o chamaria para jogar com elas, ele iria adorar. Havia um bom tempo desde que ela e ele não jogavam assim, e fora de prática, Jane e Harriet teriam lhe dado uma surra. O pensamento a fez rir. O melhor de tudo seria provocá-lo depois por perder por duas mulheres. Bem, uma mulher e meia.

Harriet estava ficando muito boa nisso, mas quando seus braços começaram a ficar dormentes — porque ela se recusou a desistir quando começaram a doer — ela disse à Jane que tinha treinado o suficiente por aquele dia. A morena colocou-a no chão e satisfeita com a brincadeira, ela descansou a bola em uma cadeira próxima e segurou a mão de Harriet.

'Isso foi realmente ótimo. Que tal um lanche agora? Estou morrendo de fome.'

'Eu também!'

E foi assim que saíram do quintal e entraram novamente em casa. Jane jamais deixaria que a criança ficasse o tempo todo lá dentro, só colorindo e assistindo televisão. Talvez Maura apoiasse essa coisa de arte e criatividade, mas Harriet tinha que aprender um esporte. E não é como se Maura fosse reparar no vaso quebrado logo de cara, afinal Jane tinha montado ele de novo e singelamente colocado atrás de outro maior. Qual é Rizzoli, até parece. Vai ser a primeira coisa que ela vai notar quando colocar o pé no quintal. A quem você quer enganar? Ela torceu o nariz. Bem, ela sempre poderia colocar a culpa em Joe Friday.

Ela fez um sanduíche para as duas, ambas se sentaram no sofá — ela fez uma nota mental de que precisaria limpar o farelo depois de comer — e Harriet escolheu um desenho qualquer. Até o final da tarde as coisas tinham sido rotineiras, de certa forma. Foi só quando o relógio marcou seis horas que Jane pediu para que Harriet tomasse um banho para ficar pronta para quando Maura chegasse em casa, e trinta minutos depois e muitos 'Harriet, você vai secar o chuveiro' a menina finalmente tinha aparecido com seu pijama de tartaruga de novo, pedindo para que Jane fechasse os botões — os buracos fogem de mim!, ela alegou — e as duas cansadas, Jane por estar trabalhando desde cedo, e a menina pelo exercício físico, afundaram no sofá e encararam a televisão sem realmente vê-la.

...

'Jane?' Maura chamou enquanto entrava em casa. Ela notou a tv ligada e franziu a testa em concentração. Porque Jane tinha deixado a tv ligada se não estava na sala assistindo? Suspirando, ela colocou a bolsa delicadamente na mesinha do hall e tirou os sapatos — talvez devesse levar em conta as sugestões de Jane e começar a usar saltos mais baixos. Os pés cansados tocaram a madeira do chão frio, e decidida, ela andou até o sofá. A cena que viu diante dos olhos aqueceu seu coração.

Jane estava deitada ali, uma mão em baixo da cabeça, o outro braço em torno do corpo de Harriet que estava deitada de barriga para baixo, em cima da detetive. O capuz estava na cabeça, mas Maura ainda conseguia ver os dedos dentro da boca, metade do rosto escondido no peito de Jane que subia e descia lentamente, os pés vestidos agora pelo pijama, um pendurado para fora e outro colocado contra o encosto do sofá. Parecia extremamente confortável, convidativo, e ela desejou que tivesse um espacinho a mais para ela. Decidindo que, já que ficara de fora, nada mais justo do que ter algo para ela. Ela sacou o celular do bolso e tirou uma foto. Talvez um dia ela pudesse usar como chantagem contra Jane, e depois de estudar a visão mais uma vez, riu consigo mesma em pensar que uma garotinha pudesse cansar tanto a detetive. Ela se inclinou e beijou a testa da morena.

'Jay?' Ela chamou baixinho, agora alisando com o polegar a linha do cabelo da mulher. A morena franziu de leve as sobrancelhas e Maura tentou de novo. 'Jane?'

Lentamente a morena voltou a si, e sonolenta, ainda tentava entender a situação. Ela não lembrava de ter caído no sono, muito menos de ter escoltado Harriet no seu colo. Talvez ela estivesse ficando velha. 'Hey.' Ela disse olhando para Maura, mas não se moveu um centímetro.

'O que vocês fizeram?' Maura perguntou divertida com a situação.

'Nós... Hum... jogamos basquete?' Ela murmurou.

'Espero que meus vasos estejam inteiros.' Maura advertiu antes de encontrar seus lábios com Jane.

'Devidamente, minha senhora.' Ela disse inocentemente, rezando para que Maura não fosse checar.

'Melhor acordar Harriet também, senão ela não dorme a noite.'

Jane se remexeu no sofá e passou o outro braço na menina em proteção. 'Qual é, Maur. Deixa a menina dormir.'

'Deixo. Mas é você quem vai levantar no meio da noite para cuidar dela.' Maura levantou uma sobrancelha sugestivamente.

'Harriet?' Jane chamou imediatamente, Maura riu. A garotinha se encolheu e escondeu o rosto inteiro no peito de Jane, murmurando algo ininteligível.

'Harriet, hora de acordar.' Maura tentou e chacoalhou suas costas de leve.

'Nãaaaaaao.' Ela reclamou e apertou os braços em volta de Jane.

A morena segurou suas costas e sentou no sofá, imediatamente pernas passaram por sua cintura e braços no seu pescoço. 'Ok, tartaruga, hora de jantar.' A criança não disse nada, só continuou descansando a cabeça em seu ombro, o rosto escondido no pescoço.

'Tudo bem, eu faço os pratos.' Maura ofereceu. 'Angela disse que congelou nhoque. Não estou com vontade de cozinhar hoje.' Ela agora estava na cozinha.

'Bom, eu também não tô com vontade de lavar louça.' Jane deu de ombros enquanto uma indignada Maura se voltava para ela, apontando a louça suja ainda do almoço.

Ela balançou a cabeça em desaprovação e suspirou.

'Ok, eu te ajudo com a comida. Melhor?' Ela disse e tentou desenroscar Harriet de si. A menina resmungou e se apertou ainda mais nela. 'Ahn... Maura?' Ela ergueu os braços, a criança pendurada firmemente. 'Acho que agora temos um bicho-preguiça.'

A loira se virou e deu uma risada. 'Harriet, querida, não podemos transformar essa casa num zoológico.' Ela tentou tirar a menina de lá, mas protestos de 'não, não, não!' a fizeram recuar.

Jane lançou um olhar de desculpas para ela. Ela o dispensou com um abano de cabeça e indicou que Jane a deixasse preparar a comida sozinha, sem problemas, afinal, quão difícil poderia ser esquentar um prato? Nada mais fácil. Empolgada, ela preparou e serviu os três pratos na mesa, e quando tudo estava pronto — milimetricamente organizado — ela chamou por Jane e Harriet. À essa altura a menina já tinha se largado da morena, e veio caminhando sonolenta até mesa, onde sentou e sem prestar atenção particularmente em nada, suspirou e murmurou, fazendo biquinho.

'Não quero.'

Maura olhou para ela, Jane se sentava na mesa.

'O que você não quer Harriet?' A loira perguntou, colocando um prato a sua frente.

'Comida.'

Jane ergueu a sobrancelha para Maura. 'Talvez você não devesse ter acordado ela.'

Maura inclinou a cabeça, sabendo melhor do que discutir com Jane. 'Harriet, querida, apenas um pouquinho e você pode voltar a dormir.' Ela insistiu.

A garota, mal humorada, pegou o garfo e comeu menos do que deveria. Lição aprendida: nunca acorde uma criança depois de um dia tão cansativo. Ela levantou da mesa sem dizer nada, e sumiu pelo corredor. Jane deduziu que estivesse no banheiro, e sua hipótese foi confirmada quando a garota voltou para a sala mostrando os dentes, como se dizendo 'pode verificar, tá tudo certo.' A detetive apenas fez sinal de positivo com a cabeça, arregalando os olhos e não querendo comprar briga. Maura segurou o riso. Harriet tinha uma personalidade tão forte quanto a de Jane.

'Jane?' A voz da garota soou vindo da sala de estar e ambas as mulheres voltaram o rosto para lhe dar atenção.

'Oi, tartaruga?'

'Você pode voltar a ser meu travesseiro?' Ela bateu a mãozinha no sofá, os olhos pequenos de sono.

Como crianças tinham a capacidade de serem tão chatas e tão fofas ao mesmo tempo?

Como Jane iria recusar a esse pedido? Ela sorriu — orgulhosa — para Maura e depois para a menina. 'É claro que sim.' Ela se levantou e antes de ir para a sala plantou um beijo na cabeça da médica. 'Por que não se junta a gente?'

A loira sorriu com o convite e concordou, pedindo apenas um momento para retirar a mesa. E no final da noite, estavam as três no sofá: Harriet deitada novamente em cima de Jane, seu travesseiro; a detetive deitada com a cabeça apoiada no colo de Maura, recebendo carícias da mulher, embalando-a ao sono — ela dormiria logo, e depois Maura teria de colocar a menina na cama, e acordar Jane com um milhão de beijos — e Maura, sentada no canto do sofá, assistindo Jane enquanto a morena assistia TV, sentindo a mão de Harriet segurando firmemente na bainha de sua blusa, fechando a conexão entre as três. Maura suspirou fundo: poderia ter sido assim, uma tomando conta da outra, sempre.