'Você tem certeza, Maura?'

'Bem, para ter certeza eu tenho que fazer alguns testes.'

Jane revirou os olhos. 'Você sabe o que eu quero dizer.'

'Então, sim, mas eu vou pedir para Susie confirmar, de qualquer forma.'

Jane suspirou e cuidadosamente estudou a foto novamente.

'Se tivermos uma combinação nisso...'

'Haverá um monte de possibilidades.' Frost concluiu.

'Melhor do que nada, certo?' Korsak adicionou.

'Claro.'

'Ótimo! Finalmente temos algo no que trabalhar. Quanto tempo você acha que isso vai demorar, Maur?'

'Um dia? Suponho que Susie possa trazer os resultados amanhã. A primeira coisa na parte da manhã, Jane.'

'Fantástico!' Jane colocou a mão na parte inferior das costas de Maura.

'Eu vou dizer a ela para...' Maura estava prestes a sair, mas Frost a deteve.

'Não, doutora. Deixa que eu vou.' Ele disse. 'É o seu dia de folga e você está trabalhando aqui por uma hora já, qual é! Leve Jane lá embaixo, isso seria um grande favor pra gente. Sério.'

'Verdade, a gente já não consegue mais aguentar ela hoje. Parece que ela acordou com o pé esquerdo.' Korsak riu.

'Cale a boca, Korsak. Vocês dois, ou seus traseiros vão acidentalmente encontrar o meu pé.'

'Viu só o que eu quis dizer?'

Maura deu uma risadinha. A verdade é que Jane estava muito bem hoje, mas Korsak e Frost realmente apoiavam as duas. Maura se lembrou do dia em que elas haviam contado a novidade.

Elas os tinha convidado para jantar na casa de Maura. Era uma coisa habitual entre eles, então eles não suspeitavam de nada. Eles comeram, conversaram, beberam e logo após o jantar Maura olhou para Jane e respirou fundo. Jane se levantou seguida por Maura, todo mundo parou de falar e olhou para elas. Maura estava nervosa, Jane estava pronta para as piadas. Maura acenou com a cabeça para ela e então ela começou a falar.

'Bem, a razão pela qual Maura, quero dizer, nós convidamos vocês para vir aqui é que... Nós temos algo para dizer.'

Uma pausa.

Korsak arqueou as sobrancelhas. 'Então... você vai nos dizer ou o quê?'

'Sim, claro. Como eu estava dizendo... Nós queríamos que vocês soubessem que...' Ela olhou para Maura. Me ajuda.

Jane e eu decidimos que... 'Ela moveu as mãos no ar, tentando encontrar as palavras.

'Oh, dane-se. Maura e eu estamos juntas.'

Todo mundo estava olhando para elas. Ninguém reagiu. Jane estava ficando muito nervosa. Talvez ela não tivesse sido clara o suficiente. Ela apertou a mão de Maura na dela e a levantou.

'Queremos dizer, juntas juntas.'

E de repente todo mundo começou a rir.

'O que tem de tão engraçado nisso?' Ela perguntou na defensiva.

'A gente já sabia disso, Jane. Quero dizer... Você não tinha que fazer um anúncio.' Frankie deu de ombros.

'É, quer dizer, já não era óbvio?' Korsak brincou.

'Idiotas. O que eles querem dizer é que estamos felizes por você. Já não era sem tempo, Maura.' Frost sorriu e ergueu a cerveja para elas.

'É mesmo, Jane precisava de alguém para colocá-la na linha.'

'Totalmente, e Frankie, você me deve cinqüenta pratas.' Frost apontou para ele.

'Merda.' Frankie abriu a carteira e passou o dinheiro para Frost.

'Você estava apostando em nós?' Jane perguntou apontando o dedo para elas e então para eles.

'Não apenas nós, todo mundo da divisão.'

'Eu acho que nós deveríamos ficar com o dinheiro, o que você acha, Jane?' Maura arqueou as sobrancelhas para eles, um sorriso maroto cruzando suas feições.

'O Quê? De jeito nenhum!.' Frost protestou, mas a mão de Jane já estava esticada.

'Obrigada, cavaleiros.' Ela dobrou a nota de cinquenta e colocou no bolso.

No final da noite, Korsak estava colocando de volta o casaco e chegou perto de Maura, acariciando-lhe o ombro, ele disse (Maura nunca iria esquecer suas palavras): Estou tão feliz que vocês finalmente se acertaram, doutora. Vocês são perfeitas uma para a outra. Quero dizer. Eu estava realmente começando a duvidar de habilidades de Jane como detetive, mas felizmente ela provou que ela ainda é boa.' Ele sorriu para Maura. 'Eu posso ver o quanto vocês se amam. Chame-me romântico, se você quiser.'

Depois daquela noite, todos na sede sabiam que elas estavam juntas. Eles respeitavam-nas e até mesmo os idiotas — Jane os odiava — mostravam algum tipo de respeito. É claro que tinham as piadas, mas um olhar mortífero de Jane era o suficiente para calar as bocas. Maura não era mais a 'Rainha dos mortos', porque murmúrios como este tinham sido praticamente extintos — isso é, se aqueles que o faziam tinham alguma expectativa de vida. Maura era conhecida como 'a namorada de Jane' e ninguém queria mexer com ela. Ninguém.

Maura sorriu por causa das memórias e, em seguida, virou-se para Jane. 'Vamos?'

A morena se inclinou e caminhou em direção à médica, e assim que Jane deu as costas para eles, Frost pronunciou um 'obrigado' para Maura. Ela riu e Jane olhou por cima do ombro e lançou um olhar mortal a Frost. Ela não estava com raiva, mesmo. Ela gostava deste tipo de provocação entre eles. Era a coisa deles e ela sabia que as piadas, às vezes, eram a melhor coisa a se fazer para sobreviver a um dia.

Elas pegaram o elevador de volta para o primeiro andar. Quando as portas se fecharam, Jane se inclinou e beijou os lábios de Maura.

'Eu realmente gosto de ter você aqui. Mas eu acho que você deveria estar em casa descansando.'

'Jane, eu estou perfeitamente bem.'

'Eu sei que você está, mas sério Maura, ultimamente você tem trabalhado muito por causa deste caso estúpido.'

'Já se passaram três dias, Jane. Este é o terceiro e eu não estou trabalhando.'

'Você supostamente não está trabalhando. Ainda sim, aqui está você. E, ok, não é só este caso. Lembre-se na semana passada? Você foi tarde para a cama toda a semana, Maura. Eu não quero que você fique sobrecarregada.'

'Eu não estou entendendo por que você está tão preocupada.'

'Porque você tem uma rotina de Maura. Se você não está dormindo bem, algo está errado.'

Direto ao ponto, Rizzoli. Maura arqueou as sobrancelhas, mas olhou para seus pés.

'O que está acontecendo, querida?'

As portas se abriram de repente. Jane segurou a mão da doutora na dela antes de sair do elevador. Elas saíram, mas Jane não andou mais.

'Maura? Tem algo te incomodando?'

'Sim, tem.' Ela suspirou.

'O que é?'

'Eu estive pensando que nós... poderíamos tirar umas férias.'

'Você tem falado com a minha mãe.' Jane começou a andar novamente seguida de Maura.

'Não, eu não tenho!' Ela tentou se defender.

'Maura... Urticária.' Jane apontou para o peito da mulher.

A loira deu uma risadinha. 'Você me pegou.'

A essa altura elas já haviam chegado ao Café. Jane não estava satisfeita nem um pouco com a resposta de Maura, mas sabendo que a sede não era o lugar certo, ela iria deixar isso para lá por agora e tentar fazê-la falar em casa. Ela sabia com certeza que Maura andava inquieta ultimamente, quase distraída, e queria saber o motivo. Maura não era assim, geralmente ela não tinha nenhum problema em compartilhar seus sentimentos, mas ultimamente ela estava distante.

'Jane, Maura!' A voz da mãe a tirou de seu transe.

'E aí, mãe. O que tá rolando?'

Angela revirou os olhos. Algumas coisas em Jane ela jamais conseguiria mudar — o vocabulário, por exemplo.

'Você conhece aquela menina? Ela apontou para pequena figura sentada à mesa.

Harriet.

'Meio que conheço. Nós conversamos mais cedo hoje. Por quê?'

'Jane, ela me disse que sua mãe pediu-lhe para esperar aqui, mas olha... Algo não está certo. Ela está aqui mais de duas horas.'

'Alguém sabe quem ela é?' Maura perguntou, a voz preocupada.

'Ninguém. Quando eu perguntei a alguns policiais achavam que ela estava aqui com Jane e você, você sabe, porque vocês estavam falando com ela.'

'Isso não está certo mesmo. Eu acho que ela veio sozinha, então?' Jane murmurou olhando para a menina, sua mente já trabalhando rápido.

'Parece que sim.'

'Vamos falar com ela, mãe. Obrigada.'

...

'Hey Harriet. Você ainda está aqui, uh?

A menina era todo sorrisos quando viu Jane e Maura caminhando em sua direção. Ela estava sentada em uma mesa, bebendo chocolate quente novamente.

'Pois é.' Ela balançou as pernas que nem alcançavam o chão.

'Uhm... Harriet, por acaso você veio até aqui sozinha? 'Jane sentou-se ao lado dela.

'Sim!'

'Mas você me disse que sua mãe disse que você deveria esperar aqui por ela.' Maura se sentou em frente a ela e Jane.

'Uhum, isso mesmo.' Aparentemente ela estava gostando de passar um tempo na estação policial, tanto que ela não se incomodava com a longa espera.

'Você sabe onde ela está?'

'Claro, ela está em casa. Ela disse que eu deveria vir aqui e esperar por ela, e que ela levaria alguns minutos para me encontrar aqui.' Ela disse naturalmente.

Jane lançou um olhar para Maura e depois retornou a atenção para a menininha. 'Onde é a sua casa, querida?'

'Jane?' Maura interveio.

Jane olhou para ela novamente e balançou a cabeça na negativa. Ela conhecia aquele olhar: algo não estava mesmo certo. A menina não respondeu porque ela havia se distraído com a voz de Maura, por isso Jane tentou novamente:

'Ah, Harriet, a sua casa?'

'Três quarteirões daqui.'

'Qual é o endereço?'

'Eu não sei. Eu sou nova na cidade.'

Nova na cidade... Jane sentiu a raiva crescendo dentro dela. Que tipo de mãe deixava uma criança de seis anos de idade andando sozinha pelas ruas de Boston?

Jane respirou. 'Você quer dizer que você acabou de se mudar?'

'Uhum.'

'Você pode nos mostrar onde você mora?'

'Claro.'

'Maura vá pegar o seu carro. Nós vamos fazer um passeio.'

Jane segurou a mão da menina e ambas estavam fora do prédio antes que ela pudesse notar. Talvez isso fosse apenas um grande mal entendido, ou talvez algo terrível tivesse acontecido. Elas caminharam até o carro de Maura na rua, Jane colocou a menina dentro e colocou o cinto de segurança, então ela mesma entrou e Maura deixou a menina mostrar-lhe o caminho.

Tinha sido uma viagem curta, demorou menos de cinco minutos do momento em que elas deixaram a estação até o momento em que Maura desligou o motor.

'Ok, então esse é o seu prédio?' Jane olhou para trás para ver a menina.

'Sim!'

'Qual é o número do apartamento?' Jane perguntou mantendo a voz calma, mas no fundo ela se sentia um pouco nervosa.

'É... 409?'

'O quarto andar?'

'Sim.'

'Maura, fica com ela, tá? Eu vou dar uma olhada.' Jane saiu do carro e fechou a porta.

'Jane...' Maura a chamou. Ela não achava que era uma boa idéia Jane ir sem reforço, ainda mais porque elas não tinham idéia do que estava acontecendo. Poderia não ser nada significante, mas poderia ser algo... Maura balançou a cabeça, descartando a possibilidade.

'Não. Só fica, ok?' Ela inclinou-se para falar com ela, suas mãos sobre a porta do motorista apoiando seu peso. 'Se você ver algo errado... Você sabe o que fazer.'

Maura balançou a cabeça que sim, ainda que não aprovasse. Mas discutir com Jane era algo inútil, ainda mais quando se tratava de seu trabalho.

'Me dê dez minutos.' E ela partiu depois disso.

A detetive entrou no prédio com facilidade, um distintivo poderia fazer milagres. Ela pegou o elevador, apertou o número quatro e esperou impacientemente para chegar ao piso. Ela estava ficando nervosa, ansiosa. Talvez ela devesse ter chamado Frost. Ela sabia que não era para estar sozinha, mas tecnicamente ela estava com Maura. Tecnicamente. De jeito nenhum que ela iria trazer Maura e uma criança com ela. O Quê? Não, pare com isso, Rizzoli. Você está exagerando. Talvez não há nada lá. Era simplesmente algo automático. Ela estava habituada à caça. Era sempre assim que se sentia quando estava espreitando. Nervoso, ansiedade. Frio na barriga. Mas era algo que ela gostava.

As portas se abriram e ela saiu do elevador. Número 409. Vamos ver.

Ela passou por três portas, olhando e ouvindo atentamente. Nada irregular. Então ela pegou a próxima porta. O número 409 incrustado estava quase gritando para ela. A porta estava fechada. Ela chegou perto dela e tentou a maçaneta. Ela estava destrancada. Ela empurrou a porta, abrindo lentamente, já apontando a arma para dentro. Sem ruídos.

Um passo para dentro do apartamento. Um monte de caixas abertas. Fazia sentido, Harriet disse que tinha acabado de se mudar. Jane viu uma foto da menina e uma mulher que ela adivinhou era a mãe da garotinha.

Uma porta bateu com força. Jane pulou ao som e segurou firme a arma na mão. É apenas o vento, idiota.

O vento... Ele a trouxe um cheiro que ela conhecia bem, mas odiava. Sangue.

Ela correu para dentro do local, de armas em mãos firmes agora. Ela chutou a primeira porta. O quarto de uma criança. O quarto de Harriet, ela se deu conta. Nada de errado lá. Tentou a porta ao lado. Um banheiro. Limpo, nada ali também. Tentou na porta ao lado.

Droga.

Ela não teve que ver para realmente saber que havia um corpo lá. O forte cheiro de sangue denunciou que alguém havia se machucado mortalmente. Ela entrou hesitante no quarto, apontando a arma para os lados, mas ninguém mais estava lá. Ela deu uma olhada no corpo, tentou encontrar uma pulsação, mas já era tarde demais. Ela engoliu o nó na garganta e ligou Maura.

...

Maura estava muito quieta, e Harriet também. Ela sabia que poderia não ser nada sério, mas ela odiava quando Jane estava sozinha. Era perigoso e, embora ela não tinha nenhuma razão para acreditar que Jane estava em apuros, ela não podia evitar de estar preocupada. Ela suspirou profundamente, tamborilando os dedos no volante. Ela já havia se passado quase dez minutos. Jane não estava sendo literal, mas...

'Maura, você acha que a minha mãe me esqueceu lá?'

Harriet perguntou em voz baixa. Foi a primeira vez que ela mostrou alguma preocupação em relação à sua mãe.

'Eu não acho que tenha, Harriet. Tenho certeza de que Jane vai encontrá-la.'

Silêncio novamente. Talvez a menina estivesse sentindo a tensão de Maura. A loira olhou por cima do ombro e abriu a boca para dizer algo, mas se assustou com seu celular.

Pegou-o imediatamente.

'Jane?'

'Maura, volta para a sede. Eu estou chamando a polícia, temos um corpo aqui.'

'É...?'

Não diga a ela quem é. Maura não pode mentir. 'Não. Não é. Não assuste a menina ok?'

'Sim.'

'E não volte aqui, fique com ela. Envie Susie, ok?'

'Ok.' Ela fez uma pausa. 'Jane, você está bem?'

A morena sabia o que a pergunta significava. 'Tô, Maur. Sério. Não tem mais ninguém aqui, ok? Juro.'

'Tudo bem.' Maura respirou um pouco mais aliviada.

'Maura, mais uma coisa. Quando você chegar lá eu preciso que você pergunte para Harriet o que aconteceu a partir do momento que ela deixou a casa dela até quando ela chegou na estação, peça para Frost estar com você, tá?'

'Sim.'

'Ok, querida. Falo com você mais tarde.'

'Tchau.' Maura encerrou a ligação. 'Estamos voltando.' Ela murmurou de volta para Harriet.

'E a minha mãe?'

'Nós ainda estamos procurando por ela, não se preocupe.' Maura engoliu o nó na garganta. O dia tinha começado bem demais para rumar para tamanha confusão e incertezas.