Sobre amor, tartarugas e novas chances
32 Capítulo XXXII
Notas iniciais
Algum tempo depois
Harriet estava ansiosa. Ela já havia tentando de tudo para fazer os ponteiros do relógio da parede da sala se mexerem logo, mas aparentemente nada adiantava o tempo. Suspirando, ela colocou as mãos acima dos olhos e depois na janela, como se tivesse observando algo a distância. Como se o simples gesto pudesse fazer a convidada aparecer repentinamente. Mas tudo o que ela via além do vidro eram os flocos de neve caindo preguiçosamente ao chão. Rodopiando, se erguendo com uma rajada de vento, rodopiando de novo e deslizando para se juntar aos flocos similares já aterrissados. Ela bateu o pé no chão e virou-se impaciente para suas mães.
'Tá levando uma eternidade!' Ela reclamou para Maura e Jane que estavam sentadas no sofá, abraçadas uma na outra com canecas de chocolate quente nas mãos.
'Harriet, querida... Se você se distrair o tempo passa mais rápido. É uma questão de relatividade — ' Maura começou mas Jane a cortou.
'Tartaruga, vamos assistir um filme?' Ela convidou a menina com as mãos.
...
Harriet tinha finalmente dormido. O dia tinha sido longo e cansativo, e agora a menina tinha a cabeça apoiada no colo de Maura. A loira deslizava seus dedos entre o cabelo escuro da criança, lenta e carinhosamente, observando enquanto mechas se desprendiam do conjunto para caírem separadas em seu joelho. Frankie era um bom tio, e Harriet se divertia tanto com ele, assim como Tommy. Maura se sentia abençoada por ter a menina em sua vida, e ela esperava que Harriet se sentisse tão feliz quanto ela. Em dias que os irmãos da detetive apareciam pela casa, Maura tinha certeza de que aqueles seriam as mais doces e felizes memórias da menina. Harriet brincando de baseball com os tios e Jane. Harriet gargalhando ao ser jogada para o ar apenas para aterrissar nos braços de Frankie, e depois o policial iria jogá-la para Tommy e o mais novo fingiria que a menina iria escapar de sua pegada, apenas para fazê-la rir ainda mais antes de ser levantada de novo nas alturas. Harriet apresentando seus bichinhos de pelúcia para os dois, e Tommy pacientemente servindo o chá para todos eles. Era adorável e a lembrança colocava um sorriso inconsciente nos lábios de Maura, e seus olhos estavam perdido na distância assim como seus pensamentos.
'Maur?' A detetive a chamou quando percebeu que a loira estava prestando atenção em qualquer coisa, menos nela.
'Perdão?' Ela virou o rosto para encarar Jane.
'Eu perguntei se você quer uma taça de vinho agora.' Ela mudou o peso dos pés enquanto esperava pela reposta.
'Eu... Não.' A loira chacoalhou a cabeça.
Isso surpreendeu Jane. 'Okay...?' Ela se sentou no sofá ao lado da mulher e franziu o cenho em pensamento. 'Hoje foi um dia ótimo.' Ela acrescentou enquanto descansava as costas no sofá e olhava de relance para a loira. Se Maura estava pensativa, ela estava disposta a escutar o que tanto prendia sua atenção.
'Foi. Harriet está exausta, mas eu acho que são esses dias que ela gosta mais.' Ela virou o rosto e sorriu para Jane, e como se quisesse participar da conversa também, a menina suspirou em seus sonhos, fazendo-se notar ao se virar e esconder o rosto na barriga da mãe.
'A gente deveria considerar em contratar Tommy como nossa babá.' Jane riu divertida e Maura revirou os olhos.
'Eu tenho pensado em outra coisa.' Ela admitiu.
'Ilumine-me com seus pensamentos, Dra. Maura.' Jane a provocou e escapou de um beliscão.
'É só que... Eu vejo você e seus irmãos, Jane, e tudo o que eu consigo pensar é o quão sortuda você é por tê-los.' Ela balançou quando a morena bufou em sarcasmo. 'Jane, você precisa admitir. Vocês são diferentes em várias maneiras, mas vocês se amam assim mesmo, e vocês estão sempre unido não importa o quê.'
'Bem...' Ela deu de ombros. Era verdade, ela e os dois mais novos sempre foram conectados, e suas brigas e caras feias não duravam mais do que uma hora, duas no máximo. Um sempre estava lá para defender o outro; abrir os olhos um dos outros. Sim, eles eram unidos. 'Não é completamente ruim. Quer dizer, eu posso beber de graça na casa de Frankie, por exemplo. É, é vantajoso.' Ela curvou os lábios e balançou a cabeça como se ponderando as opções.
Maura sorriu para ela, não disposta a comprar a provocação. Ela encostou a cabeça no sofá e olhou para a morena. 'Eu quero que Harriet tenha isso. Que ela possa contar sempre com alguém da idade dela. Quer dizer, ela brinca na maior parte do tempo com adultos, Jane. E o contato que ela tem na escola é suficiente, mas não é... família.'
Jane se remexeu no sofá e virou-se para ela. Sua mão esquerda pousou no rosto da loira e ela inclinou para beijar-lhe os lábios. 'Vamos ter um bebê.'
...
Ela pareceu suspeita a princípio, mas quando a palavra 'Frozen' saiu dos lábios de Jane, ela correu empolgada para a pilha de DVDs e agarrou o filme. Contentemente ela saltitou até a morena e numa melodia ensaiada cantou o trecho 'let it go', segurando o 'o' do final com um bico. Maura riu e se levantou, colocando a caneca delicadamente em cima da mesa de centro. Crianças davam trabalho. Sua rotina só não era mais cansativa porque elas podiam contar com a ajuda de Angela, e embora Harriet fosse uma criança obediente que cooperava na maior parte do tempo, ela ainda tinha muita energia para ser queimada.
Tão logo Jane se aproximou da tv e Harriet se jogou no sofá, a loira parou ao lado da detetive e estudou enquanto ela lutava com a capa do dvd. 'Você tem certeza que podemos fazer isso?' Ela perguntou insegura. Ela estava ansiosa também. A festa natalina de algumas noites anteriores tinha proporcionado tanta alegria para elas. Principalmente porque todos acolheram seus novos planos quando eles foram anunciados. Harriet era visivelmente a mais empolgada de todos, e ela mostrava. Fora ela quem dera a notícia tão logo abrira a porta da sala para... bem, todos os convidados. 'Vamos ter um bebê!' E ela jogava o braços para cima em comemoração, deixando Jane e Maura sem graça quando os convidados olhavam especuladores para elas, esperando por uma confirmação, sem saber se deveriam dar, de fato, os parabéns ou não.
Jane deu uma risada em sarcasmo enquanto mostrava o dvd para ela. 'O que? Assistir isso pela milionésima vez? Qual é, eu não me canso do Sven.'
A loira revirou os olhos. 'Jane, você sabe que não me refiro a isso.' Ela cruzou os braços.
...
Maura se olhou no reflexo do espelho. Os olhos verdes pareciam nublados, e ela diria que poderia ser apenas o cansaço, mas ela sabia melhor do que mentir para si mesma. A dor no baixo ventre não a deixava esquecer os pensamentos sombrios que circulavam em sua mente, apenas esperando o momento certo para dar o bote, para assustá-la, fazendo com que ela se encolhesse de medo. Ela levou a mão na barriga e lembranças se materializaram na sua mente. Ela não se perdoaria se perdesse outro bebê, se seu corpo falhasse com ela novamente. Apenas a suposição fazia suas mãos tremerem. Ela estava ficando ansiosa, e isso não era nada bom para o momento.
'Maur, você sabe onde deixei minhas chaves? E droga, não consigo encontrar o par de tênis de Harriet. Ela se recusa a colocar qualquer outro. Você tem — ' A frase morreu no meio do caminho quando a morena pegou a imagem de Maura parada dentro do banheiro, mão na barriga, se olhando do espelho. 'Maura?' Ela chamou pela loira de novo que parecia desconhecer sua presença ali.
'Sim, Jane?' Ela se virou e apoiou uma mão na pia.
'Você tá bem?' Jane olhava desconfiada para ela.
'Sim. É apenas uma cólica.' A mulher informou e as bochechas se enrubesceram imediatamente. Ela passou por Jane enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha, dispensando o olhar preocupado da outra. 'O que você precisa?'
Jane a segurou pelo braço antes que ela saísse de seu alcance. 'O que é, Maura?'
A loira sorriu um sorriso triste e balançou a cabeça. 'É apenas uma bobagem.'
'Então me diz.' Ela pediu pacientemente.
'Eu tenho medo. Tenho medo de engravidar e... e perder de novo. E tenho medo do que isso pode causar para nós, Jane, para Harriet. E tenho medo de, de não ser capaz de gerar outro bebê, de não poder dar irmãos para ela. E se demorar Jane? E se isso acontecer só daqui dois anos? Ou três? Quer dizer...' Ela suspirou, abalada.
'Uma bobagem?!' Jane exclamou. Ela pousou as mãos na cintura da loira e suspirou também, enquanto pensava. 'Maura, se você quer ter um bebê, você vai ter um bebê. E eu vou me certificar de que isso aconteça, porque eu vou fazer tudo ao meu alcance. Mas se o que te preocupa é o tempo... Um recém nascido só chegaria aqui dentro de o quê?, um ano, se fossemos contar com todo o processo que você já sabe... A outra opção funcionou bem da outra vez.' Ela sugeriu e ergueu a sobrancelha para a loira.
Maura abriu a boca em surpresa e juntou as sobrancelhas. 'Jane. Nós não podemos simplesmente decidir isso assim, tão rápido, como se fosse tão simples.'
'É claro que podemos.' Ela viu Maura balançar a cabeça em descrença e adicionou. 'O plano de ter o bebê ainda continua. Nós só vamos...'
'Jane! Você ficou maluca?' E agora ela estava realmente surpresa, porque Jane estava falando sério.
'Maura, olha para Harriet, nós! Funcionou perfeitamente!'
...
Conhecendo bem Maura, Jane apenas deu de ombros. 'Maur, nós podemos, ok? Nós já conversamos sobre isso. Eu sei que você quer engravidar. E eu sei o que essa situação toda significa.'
'E se for muito? E se de repente...' Ela começou a argumentar, mas Jane já estava balançando sua cabeça em não.
'Por que você tá soando tão insegura? Quer dizer, olha para minha mãe. Se ela conseguiu, nós vamos tirar de letra.'
Bem observado. Aliás, Jane tinha toda a razão. Angela tinha sido uma ótima mãe, e o fato de ela estar sempre ao redor, de um jeito acolhedor, acalmava Maura. 'Certo.' Ela cedeu, passando as mãos nas dobras invisíveis do vestido de inverno.
...
'Dra. Isles, os resultados dos exames toxicológicos que você pediu. Eles acabaram de chegar e parecem em ordem. É claro que sei que você gostaria de conferir por si mesma. E devo acrescentar que os níveis de ferro estavam elevados, como você previu.' Susie tinha entrado no seu escritório e entregara em suas mãos as pastas. Prestativa, a mulher esperava enquanto Maura passava os olhos pelos números e siglas.
'Como previ.' Ela suspirou e ergueu os olhos para Susie. 'Muito obrigada. Agora posso concluir o relatório.'
'Não por isso. E... Dra Isles?'
'Sim, Susie?' A loira apoiou a mão na mesa enquanto esperava pelas palavras da médica mais nova. Os olhos de Susie vagaram de sua barriga para seu rosto.
'Ouvi dizer que você... está grávida?'
Maura arregalou os olhos. 'O quê? Quem te disse isso?'
A mais nova pareceu confusa. Era para ser um segredo? Ela não deveria ter falado nada? Ela só tinha intenção de dar-lhe parabéns. 'Eu, ahn... Ouvi Angela dizer.'
'Não. Eu posso te assegurar de que não estou, Susie.' Ela disse apressada. 'Se você me der licença, agora eu preciso resolver outra coisa.' Ela sorriu educadamente e subiu ao andar de cima para se encontrar com Angela. O elevador parecia mais lento do que todos os outros dias, e Maura se perguntou o que a mulher estava espalhando por aí, sem seu consentimento, ou o de Jane. Coincidentemente, quando ela saiu do elevador sua mulher estava a dez passos de distância. Ela se apressou em alcançá-la e pegou-lhe o braço. Maura lançou um olhar para ela e depois para a cafeteria. Ela entendeu imediatamente.
'Ah não, o que minha mãe fez agora?' Ela parecia derrotada.
...
'E nós sempre podemos contar uma com a outra. Quer dizer...' Ela apertou o play do controle remoto ao mesmo tempo que a campainha tocou.
'Ela está aqui!' Harriet pulou e correu até a porta, e freneticamente pulava para tentar tirar a trava que Jane fora obrigada a colocar, caso contrário a menina estaria esperando pela visita do lado de fora. Quando Maura finalmente destrancou a porta, Harriet foi mais rápida do que a loira e puxou-a com tudo, escancarando-a.
'Oicomovai?' Ela disse rapidamente porque sua mãe dissera que era educado. E não esperando nenhuma resposta, ela acrescentou. 'Você trouxe minha encomenda?'
...
'Jane e Maura!' A voz de Christine soou alegremente quando elas se aproximaram de uma das mesas da cafeteria. Angela e a mulher estavam no maior conversa antes disso. Aí tinha sido a causa do pequeno mal entendido. Susie provavelmente tinha escutado apenas uma parte da conversa, uma que dava a entender que Maura iria ter uma criança, o que não significava necessariamente que ela estava grávida. 'Ouvi dizer que vocês querem adotar novamente?' A assistente social se levantou e apertou a mão das duas.
'Nós ahn...' Jane olhou para Maura que balançou a cabeça significativamente para ela, e depois para a outra mulher. 'Sim, nós queremos.'
'Não é ótimo? Harriet vai ter uma irmã, ou irmão! Você precisa ver como ela está feliz!' Angela bateu palmas em empolgação e Jane desconfiou de que na verdade a mãe estava dizendo em como ela estava feliz.
'Vocês já começaram um novo processo? Se se interessarem... Eu posso ser a responsável por vocês. Posso ajudá-las.'
As mulheres trocaram olhares e pareceram inseguras. É claro que elas já tinham decidido que elas iriam adotar mais uma criança, elas apenas não tinham decidido quando começariam o processo. Obviamente fazia mais sentido se elas iniciassem logo, considerando que a idéia era trazer um bebê o mais rápido possível para casa, para Harriet finalmente tê-lo como irmão, ou irmã.
'Nós ficaríamos muito agradecidas.' Maura disse educadamente.
'Eu conheço vocês e sei o quão boa são para Harriet. Ficaria feliz em saber que mais uma criança receberia o tipo de cuidado e amor que vocês oferecem.' Ela estendeu um cartão para as mulheres. 'Vamos marcar um horário e assim começamos com a papelada. Contratem um advogado.' Ela disse por cima do ombro enquanto deixava as três mulheres para trás.
Angela radiando de felicidade.
Maura perplexa, segurando o cartão na mão, acenando um tchau com a outra...
E Jane já agarrando Angela pelo braço. 'Nós precisamos conversar, mãe.'
...
Christine piscou os olhos para a menina, impressionada em quão rápido ela conseguia falar, e mais ainda em quão ligeira ela era em movimentar os pés de um lado para o outro. Em seus braços ela carregava um embrulho de cobertas, e pendurada nos ombros havia uma grande bolsa branca. 'Eu, ahn...'
'Harriet, vamos deixar que ela entre primeiro, certo?' Maura segurou os ombros da menina e a virou delicadamente para dentro, sinalizando para que Christine a seguisse. Jane veio a seguir, fechando a porta atrás delas, impedindo que o ar gelado esfriasse a casa.
'Me deixa ver!' A menina pediu em exigência. 'Eu quero ver!' Ela ergueu a cabeça para Christine, os olhos pintados com empolgação e curiosidade.
'Harriet, você precisa se acalmar.' Jane lançou um olhar para ela, e conhecendo bem sua mãe, a menina consertou a postura e concordou com a cabeça.
'Sinto muito pelo atraso.' Christine começou. 'As ruas estão impossíveis. A tempestade chegou antes do que prevista e... O resto vocês sabem.' Ela arrumou o bolo de coberta em seus braços apenas para passá-lo para Maura. A loira estendeu os braços em completo nervosismo. Um frio na barriga e um leve tremor de mãos acompanhava a imensa curiosidade, os sentimentos pintavam traços de um dia que Maura, tinha certeza, se lembraria para sempre. Quando ela finalmente ajeitou o peso — que não era muito — nos braços, ela afastou a coberta rosa claro para revelar um pequeno rosto ali.
...
'Eu tenho uma criança para vocês. Quando bati os olhos nela não consegui pensar em ninguém mais.' A assistente dizia calmamente enquanto se sentava no sofá da casa de Maura e Jane. 'A situação dela é... Bem, o pai morreu num acidente de carro. A mãe não tem condições de criá-la. O bebê sempre viveu com o pai, a mãe nem se importou com a guarda.' Ela mostrou a foto da criança para as duas.
'Ela é linda.' Maura murmurou enquanto passava o polegar sobre a foto, desejando poder segurar a pequena criança nos braços.
'Sim, de fato. O nome é Elle. Está sob meus cuidados desde ontem a noite quando o pai veio a falecer. Eu teria ligado, mas... Achei melhor conversar pessoalmente.'
'Obrigada por ter se lembrado de nós.' Maura agradeceu honestamente.
Christine sorriu para elas. 'É verdade que me comprometi em ajudá-las com o processo, mas devo confessar que, em partes, me lembrei de você, Dra. Isles. Ela está internada no hospital em que Harriet ficara internada antes. Ela estava no mesmo carro que o pai, mas não se preocupem. A menina não tem sequer um arranhão. Ela está apenas em observação.'
'Oh.' Maura e Jane disseram em uníssono.
Jane balançou a cabeça para a mulher e depois estudou novamente a foto. Ela sorriu com a delicadeza da imagem, de quão serena e delicada ela parecia. E então algo lhe ocorreu. 'Quantos meses ela tem, Christine?'
'Cinco meses.'
'Cinco...' Maura murmurou de novo e apertou a foto levemente nas mãos. Seria um desafio. Mas era um que ela queria enfrentar de qualquer jeito.
'Maura.' Jane colocou a mão em suas costas. 'Você sabe que eu tô dentro.'
'Você tem certeza, Jane?' Ela ergueu os olhos para a mulher. Jane olhou para a foto mais uma vez e sorriu antes de retornar o olhar para Maura. E eram nesses momentos que Maura amava a morena um pouco mais. Os olhos carregaram o compromisso, a dedicação, e a determinação de embarcar em uma nova fase da vida delas.
'Sim. Ela é nossa.'
'Me deem um par de dias. Ela precisa receber alta do hospital. Assim que ela estiver pronta para sair eu aviso vocês. E se preparem nesse meio tempo. Bebês dão muito mais trabalho do que vocês podem imaginar.'
...
'Maura, Jane, Harriet... Essa é Elle.'
A bebê se remexeu levemente nos braços da loira. De repente todo o nervosismo tinha ido embora, e em seu lugar um sentimento de proteção e carinho preencheu o peito dela. Ela poderia nomear os nomes dos hormônios correndo pelo corpo agora, mas aquele pequeno bebê... Aqueles pequenos olhos escuros como a noite — como os olhos de Jane — e aquele cabelo loiro, ainda curto... Ela não conseguia fazer nada senão observar e registrar cada traço minúsculo, bonito, delicado. A forma como o roseado das bochechas se espalhavam na pele clara. O modo como as pequenas e fofas mãos se apertavam em punhos e se soltavam. A combinação do rosa claro da manta, destacando suavemente o dourado dos fios de cabelo.
'Harriet.' Maura sussurrou. Ela se ajoelhou no chão e inclinou o bebê de cinco meses para que a garotinha pudesse vê-la. 'Essa é sua irmã.' Olhos verdes e marejados se ergueram para os azuis de Harriet, e depois para os olhos carregados de emoção de Jane. 'Essa é sua irmãzinha.' Ela repetiu, a voz falhando dessa vez. Tantos sentimentos tomavam conta da mulher agora. Ela estava assustada. Ela saberia como cuidar de um bebê? Ela nunca tivera experiências com um antes. E ela estava feliz. Ela queria um bebê, do mesmo jeito que ela queria Harriet. Ela queria que a menina tivesse irmãos, algo que ela mesma não teve, e embora Jane dissesse que ela tinha sido sortuda, ela sabia que era mentira toda vez que a morena e seus dois irmãos se encontravam. Jane tinha sido a sortuda, não ela. Medo também fazia parte da mistura. Harriet se sentiria tão amada quanto antes? Ela saberia que mais uma criança não diminuiria o amor das mães por ela? E o bebê se adaptaria à casa, à nova família? Maura se deu conta de que ela estava praticamente se fazendo as mesmas perguntas quando Harriet chegou ali. Ela olhou para a menina que tinha as duas mãos apoiadas no joelho e corpo inclinado para frente. Ela parecia encantada, conquistada imediatamente pela fofura da pequena criança.
'Eu posso tocá-la?' Ela perguntou incerta, o que arrancou um sorriso ainda maior de Maura.
'É claro, querida. Apenas tome cuidado.' Ela balançou de leve a neném no colo quando ela se contorceu, agitada.
'Oh! Ela é fofa.' A menina observou enquanto corria os dedos levemente pela bochecha. 'Você acha que ela vai gostar de Frozen? E de tartarugas?' Ela perguntou sem tirar os olhos da criança.
'Bem, eu acho que sim. Você vai deixar que ela brinque com a Dorothea?' Maura especulou.
'Pode apostar! Mas eu sou sempre a piloto.' Ela respondeu e as mulheres riram.
...
'Ela é linda. Não consigo parar de pensar naquele rostinho.' Jane disse enquanto puxava a coberta até o queixo e abraçava Maura por trás.
'Nem eu. Entretanto eu confesso que... Me assusta. E se ela não se adaptar a nós, Jane?' A loira suspirou na noite escura.
'Maur, qual é. Ela vai. Ela é só um bebê, e se Harriet conseguiu, quer dizer...'
'Harriet é uma criança, Jane, mas ela sabe falar, se expressar. Não tem bem quanto nós, é verdade, mas ainda assim sabe. Ela sentia falta da mãe e aquilo se manifestava de alguma forma. Mas e esse bebê? Ela tem cinco meses e eles sentem, Jane. E se tudo o que ela fizer for só chorar pelo pai? E se ela sentir tanto a falta dele a ponto de não se conectar com a gente?'
'Maur, qual é! Agora você só tá sendo neurótica.'
Maura arfou indignada e se virou de frente para ela.
'Como é?'
Jane riu. 'Eu só quis dizer que não há motivo para se preocupar tanto assim. Se ela só fizer chorar, nós ficamos de guarda, okay? Harriet começa, vai ser tudo culpa dela de qualquer jeito.' Ela brincou e resmungou quando um tapa estalou em seu braço. 'Ow, Maura! Você sabe que eu tô brincando. E você sabe,' ela beijou demoradamente os lábios da mulher, 'que somos eu e você, contra o resto do mundo se for preciso.'
Maura sorriu, e mesmo no escuro Jane sabia. Ela se inclinou e beijou os lábios da morena. 'É por isso que amo você.' Ela murmurou.
'É pelo meu charme, eu sei.' Ela riu e apertou os braços em volta da loira. 'Agora dorme, amanhã é ano novo e nós temos tantas coisas para preparar.'
...
Elle se remexeu de novo, e dessa vez Maura se levantou. Jane se inclinou para perto e estudou mais uma vez a criança. Ela era bonita. Parecia pequena e frágil, assim como Harriet. Os olhos a encaravam com curiosidade e delicadeza, e essa foi a primeira diferença que ela distinguiu entre o bebê e a garotinha. A criança seria definitivamente mais paciente do que a irmã mais velha. Quando a boca se abriu numa expressão de incômodo, Jane soube que ela seria exigente como Maura. A morena se inclinou e beijou a cabeça da criança antes de se afastar, e depois lançou um olhar para Maura. Elas estavam fisgadas. Desde o momento em que Christine mostrara a foto dias anteriores, mas agora não havia dúvidas de que elas haviam tomado a decisão certa: adotar um bebê só duplicaria aquela alegria intensa que elas estavam vivendo com Harriet. O rosto de Maura estava iluminado de um jeito que Jane sabia que apenas confirmava sua hipótese; ela tinha apostado que no momento em que a loira segurasse o bebê, todos os medos seriam colocados de lado, e a determinação de ser uma mãe tão boa quanto era para Harriet a moveria dali para frente.
A menininha se remexeu irritada no colo de Maura e começou a chorar. Quase desesperada, a loira balançava lentamente a criança, esperando que o movimento a acalmasse. Mas nada mudou. Ela lançou um olhar para Jane, um pedido de ajuda, e a morena quase sorrindo, levantou as sobrancelhas para e indicou com o queixo o bebê. Quando Maura checou, a pequena cabeça estava voltada ao seu peito por puro instinto. Mãos fechadas em punhos — uma delas em seu vestido, perto do decote — se moviam furiosamente. 'Oh.' Ela entendeu. 'Ela está com fome.'
'Morrendo de fome, eu diria.' Christine adicionou. 'Ficamos presas na estrada por mais de uma hora, e nesse tempo ela não foi alimentada. Você sabe como bebês mamam o tempo todo.' A mulher finalmente retirou a bolsa dos ombros e a depositou em cima da mesa da cozinha.
'Maur, eu seguro o bebê. Você prepara a formula?' Jane disse já esticando os braços. Ela ainda não tinha segurado sua nova filha, e ela definitivamente queria.
...
'Jane você pode pegar uma cerveja pra mim?' Frankie tinha perguntado quando Jane se levantou da cadeira para tirar o seu prato.
'Qual é? Você não tem mãos? Levante sua bunda e pegue você mesmo.' Ela rebateu impaciente.
Ele revirou os olhos e bateu as cartas na mesa. Frost segurou o riso — não, ele tentou segurar — e aproveitou a pausa do jogo para se virar na direção de Jane, que agora já estava se acomodando na cadeira novamente.
'Esse ano foi...' Ele suspirou e ergueu as sobrancelhas. Lá vinha Frost, ficando todo sentimental na noite de ano novo. 'Um ano que só mediu dois extremos. Coisas boas e coisas ruins.'
Jane lançou um olhar para Maura e Harriet que estavam sentadas no sofá da sala em uma calorosa conversa com Angela. 'Nem precisa me dizer. Aliás...' Ela apoiou o queixo nas mãos antes de continuar. 'Eu nunca cheguei a agradecer vocês, por tudo que vocês tem feito.' Ela olhou significativamente para Frost e Korsak.
'Qual é, Jane. Eu só fiz o meu trabalho.' Frost sorriu simpaticamente para ela, e Jane nunca se sentiu tão agradecida por ter requisitado um parceiro novo, anos atrás. É claro, ela admirava e respeitava Korsak da mesma forma, e era justamente esse o ponto. Seus dois parceiros eram pessoas boas, amigos — parte da família.
'Você sabe tão bem quanto eu que não é só isso.' Ela bateu com a mão no ombro dele.
'É uma pena que... Nós nunca conseguimos pegar o responsável pela...' Korsak se certificou de que ninguém tava ouvindo antes de dizer 'morte da mãe de Harriet.'
Jane encolheu os ombros e esfregou as mãos uma na outra. 'É, é uma pena. Às vezes eu me perguntava se... Se Harriet não tivesse ido para a delegacia... Se tivessem levado ela... Me perguntava se todos eles sairiam impunes.'
A risada da menina ecoou alta pela casa, e cabeças se viraram para sua direção. Maura estava tampando a boca de Harriet gentilmente enquanto ela mesma ria.
'Mas quer saber? Já me cansei dos 'e se'. Parece que devo tanto à Anna. E das coisas que estão fora do meu alcance, nada posso fazer, agora eu entendo. E é por isso que eu me comprometo a manter essa família assim, do jeito que nós sempre quisemos.' Ela apontou um dedo para a direção de Maura e Harriet.
'E por falar em 'sempre quisemos'', Frankie se sentou ao lado deles, novamente. 'Como andam os planos para o bebê?'
Droga. Elas ainda tinham que contar as novidades para todos eles. A detetive limpou a garganta e se movimentou inquieta na cadeira. Frankie ergueu as sobrancelhas para ela, do mesmo jeito que ela fazia para ele quando ela sabia que ele estava escondendo algo. Caramba, Maura iria matar ela, mas ela precisava contar agora. Ela se inclinou para frente e sorrindo colocou um dedo esticado na frente da boca.
'É segredo. Era para contarmos juntas, mas... A adoção deu certo. A bebê chega na semana que vem.'
'Aaaaaaaawn!' O coral de vozes masculina ressoou pela casa inteira e Maura mais do que depressa lançou a cabeça na direção de Jane.
A morena revirou os olhos e jogou as mãos para cima, para depois deixá-las cair ao seu lado. O que ela tinha dito sobre ser segredo?
Os olhos de Maura estavam aniquilando ela. 'Você contou, não contou?'
Jane deu o sorriso que geralmente a livrava de problemas.
'Contou o quê?' Angela parecia, pela primeira vez, perdida. Como se de alguma forma ela compreendesse através do silêncio, ela abriu a boca em completa descrença.
'Jane Clementine Rizzoli-Isles!'
...
'É claro.' Maura passou o bebê com cuidado para Jane, e já familiarizada em como lidar com eles, a morena ajustou a criança facilmente em seu colo.
'Olá, pequenininha.' Ela beijou a cabeça da criança mais uma vez e sorriu quando a menina abriu a boca e se remexeu no colo dela, estudando tudo o que conseguia enxergar ao seu alcance. 'Vamos nos sentar.' Ela indicou o sofá com a cabeça, e as três caminharam até lá — Harriet colada em seus pés.
Depois de acomodadas, Christine retirou uma pasta e a colocou em cima da mesa de centro. 'Aqui estão os últimos documentos que vocês precisam assinar, depois disso, ela é definitivamente de vocês.'
'Certo.' Jane concordou com a cabeça enquanto ajeitava a menina em seu colo. Harriet se sentou sobre os joelhos ao seu lado, e segurava a mão da irmã.
'Como vocês sabem, algumas visitas são costumeiras, pelo menos nos primeiros meses.'
'Sem problemas.' E o bebê começou a chorar novamente, irritada pela fome. Ela levantou a criança e apoiou os pequenos pés nas pernas, balançando-a carinhosamente... O que só a fez a chorar mais. 'Maura? Como estão as coisas aí?' Ela perguntou por cima do ombro.
'Mais uns minutos.' A loira respondeu.
'Ela é barulhenta.' Harriet parecia incomodada com a criança mais nova. Ela se soltou da mão da pequena, e de nariz torcido pulou do sofá e foi se sentar ao lado de Christine.
'E aí? Você gosta de Frozen?' Ela mordeu o lábios inferior enquanto esperava interessada pela resposta da mulher.
Jane revirou os olhos, desacreditada em quão rápido ela tinha perdido o interesse no bebê. 'Sério?'
A menina deu de ombros para ela. 'Você também gosta.' Ela disse em alta defesa, perdendo o real motivo da pergunta de Jane. 'O favorito dela é o Sven.' Ela contou em voz baixa para Christine, quase em segredo e depois encolheu os ombros como se dissesse 'quem é que entende?'
'Oh.' E foi tudo o que Christine disse antes de rir.
Para sua salvação, Maura estava voltando com uma mamadeira em mãos. Ela esticou os braços para Jane, mas a morena abraçou a criança e se virou para ela. 'Eu alimento o bebê, Maura.'
A médica abriu a boca, perplexa. 'Jane!' Ela protestou.
'Você tem que assinar os papéis.' Ela se justificou em voz baixa, sabendo que não era um argumento válido.
A médica entregou a mamadeira para ela e assinou toda a papelada. Quando terminou, ela esticou a caneta para Jane, e a outra mão pedindo pela criança. 'Sua vez agora.'
Derrotada, a detetive fechou a cara e entregou o bebê.
'Vocês vão ter muitas oportunidades para isso a partir de agora. Não se preocupem.' A assistente disse quase rindo, achando engraçado a disputa entre as duas. 'Se vocês me dão licença, eu preciso ir.' ela pegou a pasta com documentos e se levantou.
'Você tem um encontro?' Harriet perguntou curiosa.
'Harriet!' As duas mulheres chamaram a atenção da menina. Jane realmente tinha que parar de dizer isso para sua mãe toda vez que ela dizia que ia sair. Harriet estava copiando tudo o que elas falavam.
'Não é da sua conta.' A morena disse para ela.
'Desculpa.' Ela balançou as pernas no sofá, não parecendo muito arrependida.
'Tudo bem, Harriet.' Christine disse sorrindo, e levantou as sobrancelhas para Maura e Jane. De seu ponto de vista, aquilo tudo parecia certo. Como profissional ela se sentia realizada por ter encontrado uma família para aquelas duas crianças. Como pessoa, ela ficava ainda mais feliz por saber que a detetive e a médica estavam felizes — e ela sabia que estavam. Christine conhecia a médica e a detetive por dois anos agora, e apesar de antes só ter tido contato profissional, ela sempre teve a impressão de que ambas eram boas pessoas.
'Obrigada, mais uma vez.' Maura agradeceu.
'Você tem que assistir Frozen comigo!' Harriet gritou do sofá, pulando empolgada.
Ela sorriu ainda mais. 'Pode apostar, Harriet. E Jane, Maura?'
'As duas seguraram o olhar da assistente. 'Eu sei que já fazem três dias, mas... Feliz ano novo.'
Jane balançou a cabeça e retribuiu o sorriso. Ela olhou para Maura com a criança no colo e Harriet ainda pulando no sofá. Sim, o ano que estava começando seria por pura definição novo. Em todos os sentidos — e em todos os olhares, e mais novos amores. E definitivamente feliz.
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