Sobre amor, tartarugas e novas chances
10 Capítulo X
Notas iniciais
Mamãe?
A voz veio de algum lugar da escuridão, penetrando em seu sono. Maura se revirou na cama e pousou a mão em algo macio, que poderia ser a barriga de Jane.
Mamãe!
A voz veio mais alta dessa vez e ela não estava sonhando. O corpo de Jane também se mexeu enquanto ela se sentava na cama. Um choro baixinho — mas sofrido — flutuou no corredor e Maura em um pulo saiu da cama. Harriet. A casa estava toda escura, a garotinha provavelmente tinha acordado por alguma razão e se sentia desorientada. Maura passou pela porta e conhecendo tão bem o caminho da própria casa se apressou para o quarto de hóspedes com as luzes apagadas mesmo.
'Harriet?' Ela chamou sem hesitação, com a voz baixa.
'Mamãe?'
O estômago de Maura apertou. A pequena figura de Harriet estava parada na porta, chorando dolorosamente, as pernas cruzadas e uma mão apoiada no batente.
'Ei, tá tudo bem.' Maura tentou acalmá-la, mas a garota ao ouvir sua voz chamou por 'mamãe' de novo, e agora mais parecia um pedido de ajuda.
A loira se apressou até ela, o coração apertado por presenciar tamanha vulnerabilidade, e tentou alcança-la com os braços. 'Tudo bem querida, sou eu. Maura.' Mas a garotinha recuou, se desviando.
'Mamãe!' Ela exigiu. Não era Maura quem ela queria.
A médica se sentiu desapontada. O que ela estava esperando, afinal? Harriet não estava chamando por ela, mas sim pela mãe. E Maura não era a mãe dela. Ela tentou pensar em algo enquanto a menina limpava os olhos.
'Harriet, eu posso te ajudar?' Ela perguntou cuidadosamente, e sentiu uma pontada de dor quando a garotinha mexeu a cabeça em não e suspirou novamente 'mamãe', de um jeito infantil.
'Sua mamãe não está aqui agora, querida.' Ela disse, e embora as palavras foram ditas em voz suave, não deixavam de ser duras. O que mais doía é que era verdade, e Maura não podia deixá-la ali, esperando a noite toda por uma mãe que não viria socorrê-la. 'Porque você não deixa eu te ajudar? Talvez eu possa.' Ela viu a menina travar uma batalha interna, e ela esperou pacientemente pela resposta. Ela veio em forma de um abano com a cabeça.
Maura se aproximou e a pegou no colo como se fosse um bebê, Harriet não mostrou mais nenhuma resistência, deixando-se afundar nos braços gentis da mulher.
'Escuro, banheiro.' A menina resmungou apertando um braço em volta do pescoço de Maura. 'Desculpa, desculpa, desculpa.' E só quando a loira sentiu a umidade da roupa de Harriet em seus braços, é que ela entendeu o que havia acontecido.
'Querida, tá tudo bem.' Maura assegurou, andando para dentro do quarto e acendendo a luz. A garotinha enterrou seu rosto no pescoço de Maura, envergonhada. 'Quer me contar o que aconteceu?' Ela disse enquanto abria a porta do banheiro e segurava Harriet com um braço só.
'Não é meu quarto.' Ela disse baixinho, uma mão agora na boca. 'E-eu queria fazer xixi e não sabia...' Ela fungou, deixando a frase morrer pela metade.
Maura já tinha entendido. Era normal, afinal de contas. Era a segunda noite dela ali, e era absolutamente normal de que ela se sentisse desorientada durante a noite, numa casa que conheceu a apenas dois dias, num quarto que certamente não tinha sido designado para crianças — num quarto que certamente era muito diferente do quartinho rosa do apartamento dela.
'Ah, Harriet, sinto muito. Eu deveria ter deixado a luz acesa.' Ela disse enquanto colocava a menina no chão, e agora desabotoava o pijama de tartaruga.
Ela fungou mais uma vez e não disse nada, os olhos caídos para baixo em vergonha.
'Isso acontece com todo mundo.' Maura ofereceu, tentando fazê-la se sentir melhor.
A menina olhou curiosa para ela. 'Você faz xixi na cama também?'
A loira não conseguiu conter o riso. 'Não, já sou crescida, vê? Mas posso te assegurar de quando eu tinha sua idade... Bom, acidentes acontecem.' Ela deu de ombros, ainda sorrindo.
'Oh.' A menina disse, aparentemente melhor. 'Não molhei a cama.' Ela alegou dando de ombros, como se tivesse alguma vantagem a mais do que Maura.
'Ótimo. Viu? Não precisa se preocupar. Vamos lavar você e escolher um pijama novo.' Maura disse enquanto ligava o chuveiro e corria água pelo corpo da menina.
'Não conta pra ninguém?' Ela pediu timidamente e Maura teve que se conter para não beijar sua bochecha vermelhinha.
'Prometo que não conto.' Ela disse e desligou a água, levantou-se e agarrou a toalha e ao se abaixar para enrolá-la no corpo de Harriet, a menina levantou os braços e depois passou-os em torno do pescoço de Maura. 'Pronta?'
'Pronta.'
'Aqui vamos nós.' Maura disse e a levantou no colo, carregando-a de volta para o quarto e colocando em cima da cama. 'Enquanto você se enxuga, vou colocar seu pijama na máquina de lavar.'
Harriet assentiu e começou a tarefa de se enxugar. Ela difícil de ficar em um pé só em cima da cama, e ela teve que fazer malabarismos para secar bem as pernas sem cair. Depois de pronta, ela colocou a toalha vermelha em cima da cabeça, e a segurou em baixo do pescoço enquanto esperava por Maura. Quando a loira entrou de volta, ela disse, 'Hey, Maura, sou a chapeuzinho vermelho.' Ela apontou o dedo para o capuz improvisado na cabeça.
Maura chacoalhou os ombros com a risada e segurou a toalha com as duas mãos, logo embaixo das mãos pequenas de Harriet e beijou-lhe a testa. 'O passeio na floresta terminou, garotinha. Hora de voltar para a cama.' Maura vestiu a calcinha na menina e abriu a primeira gaveta da cômoda para pegar uma camiseta, e Harriet, querendo decidir o que vestir, esticou o corpo para frente e apontou uma roupa para Maura.
'Aquela!' Ela disse, um tanto quanto empolgada para quem estava em lágrimas minutos antes. 'Eu quero aquela vermelha e branca!'
Maura franziu o cenho e puxou a peça de roupa. 'Essa?' Um sim com a cabeça. 'Harriet, essa blusa é da Jane. Ficaria imensa em você.'
'Eu posso, por favor?' E aqueles olhos de filhote, grandes, azuis e apelativos desarmaram Maura.
Ela deu de ombros. 'Se você insiste.' Ela ajudou a menina com a roupa e quando terminou se afastou para estudá-la.
As mangas vermelhas cobriam muito além dos braços de Harriet, e barra da camiseta branca descia praticamente até os pés. Na frente se lia 'Boston Homicide' em um círculo, uma arma no meio. Era uma camiseta de manga longa, velha, desbotada, que Jane sempre insistia em usar em casa. Maura observava enquanto Harriet ajeitava o cabelo para fora da roupa, as ondas caindo levemente pelo ombro, o preto contrastando o vermelho, os olhos azuis esperando algo dela. Um pensamento se formava em sua cabeça, sem a pretensão de ser real: aquela poderia ser sua garotinha, a julgar pelo modo de como a roupa de Jane lhe caía tão bem. Seria quase um insulto negar que ela tinha suas semelhanças com a morena. Mas então ela piscou os olhos rapidamente e o pensamento se perdeu, porque era tão fácil construir algo assim quanto frágil: só funcionava em sua imaginação.
'Como ficou?' Ela perguntou batendo os braços ao lado do corpo.
'Ficou... linda.' Maura sorriu para ela. 'Agora, é melhor que você volte a dormir.' Ela se apressou em puxar as cobertas mas Harriet segurou seu braço.
'Eu... Eu posso ir com você?' Lá estava aqueles olhos de novo. Como Maura podia resistir a eles? Era golpe baixo. Ela hesitou.
'Harriet... Você já...'
'Por favor.' A menina quase implorou, as mãos apertando levemente o braço dela.
'Querida, e se eu ficar...' Mas a sentença morreu na metade, porque Maura teve de focar toda sua atenção no gestos seguintes, já que Harriet havia pulado para seu colo e agora estava apertando os braços e pernas em volta dela.
'Te peguei, não solto mais!'
Ótima hora para brincadeiras, Maura pensou, calculando quanto tempo de sono ela já tinha perdido.
'Por favorzinho, Maur. Não quero ficar sozinha.'
Maur. O apelido que Jane havia lhe dado. Isso era golpe baixo. Ela sabia que a garota gostava dela, e estava sendo honesta e pedindo de todo coração. O sentimento de solidão após a perda da mãe era real, talvez assustador. A loira olhou a menina nos olhos e levantou as sobrancelhas.
'Já que não tenho escolha.' Ela balançou a cabeça enquanto Harriet ria, os olhos apertadinhos por causa do choro e do sono. Contente com a conquista, ela descansou a cabeça no ombro da mulher e se aquietou. Maura apagou a luz do quarto e caminhou de volta para o seu, deitando cuidadosamente na cama para não acordar Jane. A garotinha se ajeitou ao lado dela, a cabeça deitada no seu ombro, uma perna em sua barriga e um braço jogado em volta do pescoço, a mãozinha segurando uma mecha de cabelo, os dedos enrolando e desenrolando em volta dos fios preguiçosamente.
Maura inclinou a cabeça e sentiu o cheiro fraco do shampoo vindo da menina, o mesmo shampoo de Jane. Era torturante como alguns aspectos continuavam perfurando seu coração. Em menos de um dia ela teria que dar adeus à garotinha que estava tão bem aninhada em seus braços. Dar adeus aos desenhos de peixes e tartarugas colados na geladeira, cada um marcado com uma letrinha caprichada em cima, H, ou M, ou J, designando qual desenho era quem. Dar adeus as batidas da bola de basquete, às teorias incoerentes e ainda assim tão belas. Maura respirou fundo, ela não queria chorar. Os dedos da garotinha já não se moviam mais, e ela teve certeza de que ela estava dormindo.
Ela decidiu por fechar os olhos e meditar, mas todos os pensamentos avançaram a outro nível. Para qual família Harriet iria? Ela seria bem cuidada? Ela ficaria bem? Alguém deixaria a luz acesa para ela no meio da noite? Jane me avisou, ela se lembrou. Agora não era hora, definitivamente, de dar uma de chorona. Não era hora de se lamentar por algo que ela sabia que aconteceria. Ela deveria ter sido mais cautelosa, não ter abaixado as paredes de proteção. Jane estava tão certa ao dizer que a partir do momento em que ela se envolvesse ela sempre iria se perguntar como Harriet estaria. Quando pensava na partida da menina, ela podia ver a ferida se formando no seu coração. E elas nunca cicatrizam. Talvez se ela só pudesse encontrar uma outra saída...
E elas nunca cicatrizam. Jane estava certa, ela pensou com um leve desespero. Ela gostava tanto de Harriet que jamais deixaria de pensar nela. Se ela soubesse que a menina ficaria com uma família boa, ela ficaria pelo menos mais tranquila. Ainda assim, as chances de controlar isso... Jane tinha dito isso também, não tinha?
Irritada, ela fechou os olhos com força e obrigou que todos os pensamentos sumissem. Sem mais disso por hoje.
Ela se assustou quando Harriet se retraiu involuntariamente, provavelmente sonhando. Maura acariciou-lhe as costas até sentir sua respiração diminuir novamente, focando sua atenção somente na menina, aceitando toda a escuridão silenciosa — graças a Deus — em sua volta. Às vezes o meio da noite era o melhor momento para fingir que o mundo não existia.
Quando Harriet suspirou em seu ombro, ela plantou um beijo em seus cabelos. A garotinha tinha voltado a dormir tranquilamente, o corpo pequeno pesando contra ao corpo de Maura, e a loira decidiu que também era hora dela mesma voltar ao mundo do sono.
'Boa noite, tartaruguinha.' Ela sussurrou e finalmente fechou os olhos no mesmo instante em que Harriet sussurrava 'mamãe', perdida em seus sonhos.
...
Jane esticou os braços e se espreguiçou enquanto entrava na cozinha. Quase trombou com a parede porque os olhos estavam fechados, mas a sorte a poupou do encontro, salvando um palavrão para outra ocasião. Maura ainda estava deitada, Jane não iria levantá-la porque a mulher ficaria em casa na parte da manhã tomando conta de Harriet novamente. Ela sabia que a loira tinha acordado no meio da noite, e julgando pelo modo como estava dormindo na cama — mãos em baixo do rosto, cabelo espalhado no travesseiro, pernas juntas ao peito — confortavelmente, Jane sabia que que a mulher precisava daquele sono.
Finalmente quando abriu os olhos, quase soltou um grito quando encontrou Harriet se levantando do chão para ela, segurando uma folha do que ela imaginou ser alface para Bass. Mas o que fez o grito morrer em sua garganta foi o modo como a garota tombou a cabeça para o lado, o modo como o cabelo caiu para baixo nas mangas vermelhas da blusa que era... dela. Ela sorriu imediatamente diante da imagem e nem notou. Era fofo. Absolutamente fofo. Absolutamente gracioso o modo como a blusa lhe caía até os joelhos; o modo como as mangas estavam desajeitosamente puxadas para cima até a metade do braço; o jeito que aquele sorriso meigo e ao mesmo tempo travesso cruzava o rosto da menininha.
'Ei, bom dia.' Jane disse, os olhos ainda grudados na figura.
'Dia.' Ela disse simplesmente, sorrido. 'Alface?' Ela ergueu a mão para Jane.
'Não, valeu. Acredito que isso seja para o Bass?' Ela adivinhou.
'Uhum.'
'Vou ter que recusar então, mesmo. Não quero que a tartaruga da Maura passe fome.'
'Cágado.' A garota corrigiu.
'Tanto faz, Maura.'
A menina riu divertida. Como Jane não disse mais nada — em vez disso ainda continuava estudando Harriet com a camiseta — a garota apontou para si mesma e disse, 'É sua.'
'É, é minha.'
'Peguei emprestada. Ficou legal. Eu gostei. O que você acha?'
'Ficou ótimo. O que aconteceu com seu pijama?'
A menina pareceu um pouco envergonhada e olhou para baixo, mas logo apareceu com uma resposta.
'Tive um acidente.' E abanou a mão como se não fosse nada importante, dispensando o assunto.
'Entendi. Você pode ficar. Com a blusa, quero dizer. Fica bem em você.'
'Sério?' Os olhos azuis brilharam e Jane se sentiu tão feliz quanto a garota.
'Sério. É toda tua.'
'Valeu.' A garotinha sorriu ainda mais e saltitou alguns passos. 'Vou dar café da manhã pro Bass, tá?'
'Okay.'
Ela saltitou novamente e antes de passar por Jane se virou e agarrou suas pernas, abraçando a mulher por uns instantes. Depois a saltou como se nada tivesse acontecido e saiu pro meio da casa.
Não muito tempo depois ela escutou passos vindo em sua direção. Estava pronta para fazer uma piada para Harriet sobre alface e tartarugas quando viu Maura entrando na cozinha, a garota colada em seus pés.
'Jane, você pode, por favor, vestir Harriet?' Ela disse antes mesmo de dizer bom dia.
'Por que? Achei que você iria ficar de manhã em casa.' Jane franziu as sobrancelhas.
'Me ligaram do laboratório, alguém cometeu um erro. Ou dois, ou mais.' Ela jogou as mãos para cima, irritada. 'E agora preciso ir para o trabalho.'
Jane digeriu a informação por um instante. E depois:
'Tartaruga, você vai para o trabalho.' Ela lançou um olhar para Harriet.
'Eu não quero ir trabalhar.' Harriet disse decidida.
'Você está vestida com minha camiseta de trabalho. Você vai trabalhar.' Jane provocou.
'Jane você pode, por favor, vestir a menina?' Maura perguntou de novo enquanto passava pela mulher e tirava o copo de café de suas mãos, apressando-a.
'Eu não vou trabalhar!' Harriet protestou de novo, batendo as mãos na bancada da cozinha.
'Harriet, você não vai trabalhar porque você é apenas uma criança.' Maura disse objetivamente e Jane abriu um sorriso maroto.
'Talvez eu coloque você para vender balas na frente da delegacia.' Ela disse pensativa, claramente adorando provocar a menina.
Harriet arfou. 'De jeito nenhum! Maura, fala pra Jane que eu não vou vender balas!'
'Ela não vai te colocar para trabalhar porque nesse país crianças até dezesseis anos não trabalham, ao menos não deveriam, é um direito garantido por lei.' Maura interveio.
Harriet sorriu e levantou as sobrancelhas para Jane em desafio. A morena deu de ombros tentando segurar o riso — que morreu de vez quando Maura lhe lançou um último olhar.
'Jane, por favor — '
'Eu sei, eu sei. Deixa comigo. Hora de se arrumar tartaruga.'
...
'Vanilla!' O 'a' do final soou por mais tempo do que Jane gostaria de ouvir. Ela espremeu os olhos e virando se forçou um sorriso.
'Rondo! O que me conta?'
'Que belezinha é isso aí?' O homem apontou para Harriet que agora tinha olhos estalados, encarando o homem que não conhecia ainda, tentando decidir se confiaria nele ou não. 'Não sabia que você tinha filha agora, Vanilla! Qual seu nome, Vanillinha?'
'O que? Rondo, não.' Jane se colocou entre Maura e a garota. 'Corta essa. Ela não é minha filha. Ela é... Harriet.' Ela disse o nome, porque era muito difícil dizer que a garotinha era só parte de um caso. Ela tinha se tornado mais do que isso.
'Ah, saquei. Ela é linda, Vanilla. E Dr. Isles, há quanto tempo não a vejo.' Ele dobrou o corpo para frente cerimoniosamente.
'Oi, Rondo. Como vai?' Maura sorriu educadamente para ele enquanto Harriet apertava sua mão na de Maura.
'Muito bem, minha madame.' Ele disse sorridente.
'Vanilla, adoraria ficar e conversar. Mas tenho um trabalho para fazer.' Ele piscou para Jane.
'Oh, sim Rondo. Um trabalho.' A morena disparou com o sarcasmo. Ela nem queria imaginar no que ele estava se metendo. Com um aceno, ele se distanciou das três.
...
'Você tem certeza, Angela? Eu não quero impor nada.' Maura perguntou apreensiva.
'Absoluta! Vou adorar cuidar dela. Não se preocupa, Maura. E todo mundo aqui já a conhece, não vai ser um problema.
'Muito obrigada. Eu... Vou terminar tudo o que tenho para fazer.' Ela disse já estressada com o tanto de tempo perdido em todos os exames anteriores, a preocupação com a data de entrega e o processo demorado para refazer os testes a pressionando. 'Mas qualquer coisa você pode me chamar. Ou mandá-la para meu escritório.'
'Maura, não se preocupa, querida. Vai ficar tudo bem. Tá bom? Apenas vá fazer suas coisas.' Angela sorriu gentilmente para ela. Maura parecia à beira de um ataque de nervos.
Poucas pessoas sabiam como ela ficava nervosa com erros insignificantes, e Jane, que agora observada a mulher se afastar para o elevador, considerou a idéia de lhe oferecer um calmante — mas sabiamente escolheu por não brincar com o estado atual da médica nesse momento em que a própria descreveria como crítico.
'Harriet.' Ela tentou adicionar algo para a menina antes de sair — talvez um aviso de como não deveria se portar, ou conversar com estranhos... Mas a menina era inteligente demais para isso. 'Só... Fica por perto, ok?'
'Ok.'
...
'Não! Qual é, não pode ser! Sério?!' Jane deu um tapa na tela do computador e Frost arregalou os olhos para ela.
'Jane...?' Ele perguntou cuidadosamente.
'Merda. Nenhuma combinação? Sério? Cadê os testes que pedi para Maura fazer ontem?'
'Estão todos arruinados. Ela não te disse?'
'MERDA!' De repente ela estava se sentindo extremamente irritada. Ela não tinha idéia de que os testes arruinados eram 'os seus' testes. O que havia de errado com esse dia?
'Por que você não desce lá no necrotério, Jane? Pergunta pra Maura como andam as coisas, quem sabe...'
'Quem sabe ela não me corta a cabeça?' Ela devolveu ironicamente. 'Onde está Korsak? Aquele velho disse que estaria aqui antes do almoço.'
'Jane, você tá rabugenta demais. Sério.' Frost comentou se esquecendo de que talvez isso lhe custasse... algumas partes.
'Cuida da tua vida.' Ela disse ainda irritada e enterrou a cabeça nas mãos.
...
'Harriet, cuidado com...' Mas a frase morreu na metade. Tarde demais. A estátua já estava no chão e por um milagre não havia se espatifado.
'Me desculpa.' A garota pegou o enfeite e colocou no lugar — um pouco mais para a frente, onde seu cotovelo não fosse bater novamente.
Ela tinha descido para o escritório de Maura porque a cantina ficava cheia de mais na hora do almoço, e Angela não conseguiria tomar conta da menina ao mesmo tempo em que servia tanta gente. Então Maura havia ligado para Angela e pedido para que a trouxesse até ali. Agora a garota estava desenhando em sua mesa, enquanto a médica estudava os resultados dos exames e tentava entender o que havia de errado naquilo, enquanto tentava encontrar um padrão de erros.
'O que você está desenhando, querida?' Ela perguntou sem tirar os olhos do papel.
'O ontem.'
Maura franziu a testa e ocupada demais com os papéis deduziu que era algum desenho sobre o dia passado. Como a garota não ofereceu mais nada, e como ela tinha muita coisa a fazer, apenas deixou a menina em paz com a pintura e focou toda sua atenção no trabalho.
...
'Onde está Jane?' A loira perguntou para Angela que agora conseguia lhe dar atenção por bons longos minutos.
'Saiu, parece que ela e Korsak foram interrogar alguém. Não sei direito.' Ela disse num tom preocupado.
Maura apertou a mão de Harriet inconscientemente. Ela se preocupava sempre quando Jane fazia esse tipo de coisa. Algo inesperado e perigoso poderia acontecer. Da última vez tinha sido uma bomba, sorte da morena que ela estourou antes da detetive alcançar o lugar.
'Nada ainda, pelo que sei.' Maura disse, suspirando.
'Quero esse, Maur!' A menina sorriu para ela.
'É seu, docinho.' Angela pegou o cupcake e entregou a Harriet.
'Muito.Obrigada.' Ela disse as palavras enfaticamente, lembrando tanto Maura quanto Angela de como Jane fazia isso ás vezes.
...
Casa. Casa. Casa. Casa.
Era tudo o que Jane conseguia pensar naquela altura do dia. Depois de ter arrombado uma porta com o ombro — que agora estava terrivelmente dolorido. Depois de ter corrido por metros e metros atrás de um traficante. Depois de ter descoberto que tinha tudo sido em vão, que o cara não estava conectado com o homicídio. Depois de terem pego a sua vaga do estacionamento e ter que estacionar o carro a quase quinhentos metros de distância da delegacia. Depois de ter tomado um banho de chuva por conta disso.
Korsak parecia feliz demais para ela. Quem ligava se ele tinha um novo cachorro? Dane-se o cachorro. Jane chutou a poça de água. Dane-se esse dia ridículo. Ela choramingou em pensamento. Ela empurrou a porta da delegacia com as duas mãos e passou direto até o elevador, sem olhar para os lados. Apertou o botão várias vezes, impacientemente até que as portas se abriram e ela se jogou lá dentro.
Maura talvez tivesse alguma boa notícia.
Ela rezou para que sim. Por favor.
...
'Susie, cadê a Maura?' Jane perguntou enquanto entrava no escritório, a morena virou-se para ela com cara de que preferiria não responder a pergunta. Em vez de falar, apenas apontou para o banheiro.
Jane fez um sinal com a cabeça como se dissesse 'eu não leio pensamentos'. Susie mostrou a pasta com alguns exames para ela.
'Vieram todos trocados agora. Alguém fez algo muito errado, Jane.'
'Ah, não...' Ela suspirou porque sabia como Maura era.
'Dr Isles vem tentando descobrir se o erro é no sistema que combina toda hora esses resultados com o da outra vítima, ou se as amostras foram contaminadas na hora da coleta.'
'Merda.' Jane murmurou.'Deixa.. que eu lido com ela, ok, Susie?'
'Certo, Det Rizzoli.' Jane chacoalhou a cabeça dispensando a formalidade.
Um minuto depois Susie tinha desaparecido e Maura saia do banheiro parecendo miserável. Jane sabia até que ponto ela tinha chegado.
'Você vomitou, não é?' Ela fez uma careta enquanto Maura balançava a cabeça em sim e levava as mãos ao rosto.
Esse era definitivamente um dia daqueles.
'Maur, qual é. Não é culpa tua que alguém anda ferrando com os testes. Você quer se acalmar?'
'Jane, eu...' Ela parou de falar enquanto uma nova onda de náusea lhe atingiu. Sua mulher estava certa, não havia razão para estar tão nervosa desse jeito. Não, havia razão, mas ela tinha que controlar seu nervosismo. Ordem. Ela precisava muito de ordem no seu ambiente de trabalho de novo. Ela pediria novos exames, e esses demorariam pelo menos oito horas até ficarem prontos, mas era o melhor a se fazer. Ela respirou fundo. 'Eu acho que preciso ir para casa.'
'Somos duas.' Jane disse e a abraçou. Troca de carícias ou gestos durante o trabalho não era algo que as duas praticavam muito, mas esse dia estava sendo pesado. E nada melhor do que a presença, o contato uma da outra para aliviar isso tudo.
...
Harriet estava aos prantos no piso de cima. As duas descobriram logo que a porta do elevador se abriu. Primeiro ouviram o choro, e acompanhando o som encontraram a menina de joelhos no chão, boca aberta numa pura expressão de dor. Jane andou à passos duros até ela e encarou cada policial perto da menina. Quem é que tivesse feito a menina chorar iria pagar por isso. Maura estava em sua cola, o rosto preocupado.
'O que aconteceu aqui?' Jane perguntou para dois policias que estavam perto da menina.
'Na-nada. Quer dizer...' O mais novo disse quase fugindo da detetive.
'É só que...' O outro adicionou.
'Que o quê?' Jane pressionou.
'Acho que a TV.' O policial mais novo deu de ombros. 'Ninguém sabe. Ela só começou a chorar.'
Maura estava agachada ao lado da menina agora, tentando confortá-la de alguma maneira, mas entre as arfadas de choro a menina só repetia algo parecido com 'mamãe' e apontava para a pequena TV do refeitório que exibia algum tipo de desenho. A menina apontou o dedo para lá e de novo choramingou, mas Maura a pegou no colo e todo o volume diminuiu para a metade quando a criança escondeu o rosto no seu pescoço.
'Acho que ela tá só cansada.' Jane disse se desculpando com os homens. Eles concordaram com a cabeça e se afastaram. Angela agora vinha as pressas com um copo de água na mão.
'Graças a Deus! Ninguém sabia mais o que fazer. Ela só começou a chorar e...'
'Mãe, tudo bem. A gente resolve isso.'
'Eu trouxe água, quem sabe ela...'
Mas quando Angela encostou a mão nas costas da menina ela gritou em protesto e se segurou firme em Maura.
Casa. Elas definitivamente precisavam ir para casa.
...
O caminho de volta não tinha sido o dos melhores. O transito estava infernal. Maura estava no banco de trás com Harriet, que agora dormia em seu colo, porque tinha se recusado a soltá-la. Jane tamborilava os dedos no volante e respirava fundo.
Um dia que tecnicamente tinha começado bem tinha se transformado nesse caos. Sua cabeça estava pesada e ela queria muito um banho e uma cerveja. Queria ver um desenho idiota com Harriet, só pra ter o prazer de ter sua cabeça deitada no seu colo. Ser seu travesseiro. Queria que Maura se juntasse à elas, porque seu perfume seria outro elemento para desacelerar sua mente. Uma noite de paz era tudo o que ela queria. Era tudo, aliás, era a única coisa que ela pedia; que o dia terminasse bem, que rumasse para fora do caos e terminasse tão levemente quanto começou.
Ela sentiu a sensação familiar de estacionar o carro na entrada da casa. Ajudou Maura a descer pegando Harriet, que agora acordava e sonolenta descansava a cabeça em seu ombro. Respirou fundo e se arrepiou ao sentir o beijo que a loira plantava delicadamente em seu pescoço enquanto parava para abrir a porta.
Casa.
Ela precisava disso e respirou o ar lentamente, agradecendo silenciosamente pelo momento de agora.
'Tudo bem se eu tomar banho primeiro?' Ela perguntou para Maura enquanto entregava a menina para ela novamente.
'Tudo bem.' A loira assentiu com a cabeça. 'Eu preciso tomar um ar.'
A morena balançou a cabeça em compreensão. Merecidamente as duas precisavam relaxar. Maura agarrou o cobertor de cima do sofá, caminhou até o quintal da casa e se sentou com Harriet em seu colo. Estava frio, como ela já sabia, então ela se envolveu na coberta, aninhando a menina em seus braços e inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. O ar gelado acertou suas bochechas, mas ela não se importou. Precisava de ar, precisava do silêncio do quintal — o máximo de silêncio que conseguia obter numa cidade como Boston, de qualquer forma.
Foi só quando Harriet se remexeu em seu colo que ela abriu os olhos novamente.
'Se sente melhor?' Maura perguntou baixinho, a menina descansava a cabeça em seu ombro.
'Uhum.'
'Bom.' Ela beijou a cabeça da criança. 'O que aconteceu?' Maura arriscou, temendo que a menina fosse se fechar novamente.
'Eu gosto de você.' Ela ofereceu e a Maura pareceu um comentário aleatório.
'E eu de você, querida.' Maura sentiu a necessidade de abraçá-la mais forte.
'Eu vou... ter que ir embora?' Ela perguntou num sussurro, como se temendo a resposta de Maura.
'Bem... Vai.' Porque embora seu coração se partisse, honestidade era sempre melhor.
A menina suspirou. E ergueu os olhos para Maura estudando suas feições. 'Eu gosto de você.' Ela disse de novo. 'E minha mãe também gostava de mim.'
Maura balançou a cabeça acompanhando o raciocínio da menina. Ambas gostavam de alguém e foram obrigadas a partir. Seu estômago revirou horrivelmente. Maura começou a tremer agora, e o frio nada tinha a ver com isso. Era maravilhoso e terrivelmente doloroso como Harriet vinha elaborando sua situação. Ela abraçou um pouco mais apertado a menina para esconder o tremor das mãos.
'Hoje?' A menina perguntou incerta.
'Não, Harriet. Amanhã.' Maura adicionou num sussurro, sentindo a garganta apertar a cada palavra. Doía.
'Oh.' Foi baixinho.
'Você vai ter uma nova família.' Maura ofereceu, talvez para tentar acalmar o próprio coração que batia em protesto dentro do seu peito.
'Eu gosto de Jane também.' Ela murmurou.
'Talvez você queira dizer isso à ela, já que ela gosta de você também.' Maura disse gentilmente.
'É. Ela me deu a blusa dela. Talvez eu dê o meu pijama de tartaruga, se ela gostar.'
Maura mordeu o lábios inferior para não deixar escapar nada: nem ar, nem choro, nem soluço.
'Um vagalume!' A menina disse empolgada, esquecendo o assunto momentaneamente. Um dedo apontado para o inseto.
'Oh. É algo incomum nessa época.' Maura disse quando viu a luz brilhar e se apagar.
'Por que você acha que eles brilham, Maur?'
'Esse fenômeno é conhecido como bioluminescência, Harriet. É um processo que produz luz através de reações químicas dentro do inseto.'
'Ah.' Ela disse juntando as sobrancelhas e olhando para Maura como se olha para um manual complicado demais para ser entendido. Ela esticou um dedo para cima e disse como se sua conclusão fosse muito mais óbvia e aceitável do que a da loira, 'Acho que é porque eles comem estrelas.'
Maura se encontrou à beira das lágrimas com a conclusão da menina. Ela estava extremamente sensível hoje, e a perspectiva de Harriet partindo no dia seguinte não ajudava em nada — talvez esse fosse até o motivo de tanta sensibilidade.
'Isso...' É tão você, Harriet. 'Faz realmente mais sentido.' Ela disse enquanto corria as mãos nas costas da menina.
'E depois quando eles morrem as estrelas voltam pra casa?' Ela perguntou, incerta.
'Possivelmente?' Maura respondeu mais incerta ainda.
Harriet balançou a cabeça pensativa, e Maura observou enquanto a menina mordeu o lábio inferior, e depois pousou as mãos em seus ombros.
'Maura, depois que eu for embora... Eu posso vir aqui às vezes?'
A pergunta deixou a médica sem ar. Ela simplesmente passou os braços em volta da menina e a trouxe para perto, o gesto feito para principalmente esconder as lágrimas que escorreram dos olhos. 'É claro que pode.' Ela respondeu numa voz que esperou ser firme o suficiente. Quando braços apertaram sua cintura, Maura teve certeza de que não saberia lidar com o que estava por vir. Será que Harriet realmente entendia o que iria acontecer? Será que ela entendia que não era apenas um passeio que iria fazer no dia seguinte e que depois voltaria para casa quando decidisse ser a hora? Será que ela ficaria bem se ela e sem Jane. Será que elas ficariam bem sem Harriet?
Maura limpou as lágrimas do rosto e se levantou com a menina no colo. Mais um momento ali sozinhas ela começaria a chorar incontrolavelmente. Para sua sorte, assim que entrou dentro de casa novamente, Jane apareceu do corredor, parecendo renovada depois do banho, mas seu sorriso desapareceu quando Maura entregou Harriet para ela.
'O que aconteceu?' Ela disse quando notou a expressão no rosto de Maura.
'Não.' A loira disse num murmúrio enquanto se encaminhava para o banheiro.
'Maura?' Jane chamou de volta, mas o que a parou foi o som da campainha.
Quem poderia ser naquela hora? Elas não estavam esperando ninguém. Jane já tinha colocado Harriet com a coberta no sofá e se dirigido a porta. Quando a menina disse 'não' em cima do sofá e Maura viu a figura parada do lado de fora, suas pernas quase cederam ao peso do corpo.
Não essa noite.
Por favor, não.
...
'Nós tínhamos combinado três dias.' Jane disse quase desesperada. 'Amanhã, isso seria amanhã.'
'Jane, você precisa entender que eu finalmente encontrei a família que ela precisa. São boas pessoas, moram num lugar seguro, são financeiramente estáveis. Eles são foster parents* há algum tempo, são confiáveis. Mas eles querem instalar a menina agora, e é o mínimo que posso fazer.'
Maura estava atônita. Ela tentava elaborar algo mas seu cérebro estava falhando com ela. Amanhã, é o que elas tinham combinado. Esse dia estava todo errado. O que tinha acontecido? Se ela fosse criança ainda, acreditaria que tinha pisado nas linhas da calçada, cometido algum ato supersticioso para causar tamanho azar. Era difícil respirar. Ela deveria fazer alguma coisa.
Reagir. Maura, você precisa reagir.
Harriet estava assustada, para dizer o menos. Maura tinha mentido para ela? O que estava acontecendo?
'Christine, você... Eu... Nós fizemos um acordo. Qual é? A menina fica até amanhã.' Jane disse decidida.
'Rizzoli, você não tem nenhuma autoridade sobre ela. Eu gostaria de te lembrar disso, embora eu acho que não preciso.'
'Você não poderia ter avisado antes? Isso... É repentino demais. Quer dizer...' Jane jogou as mãos para cima sentindo-se desolada.
'Tentei te ligar algumas vezes na ultima hora.'
'Na última hora? Grande vantagem.' Ela resmungou.
'Detetive Rizzoli, eu realmente preciso levar a criança.' Ela disse num tom sério, tão sério que parece que o universo calou todas as outras coisas e um silêncio ensurdecedor se instalou na sala.
Jane lançou um olhar para Maura. Ela estava pálida, aflita. A mão no encosto do sofá provavelmente segurava o peso de seu corpo. Harriret em pé, nas almofadas olhava de boca aberta e olhos arregalados para as duas na porta. Quando ela entendeu o que aconteceria a seguir, seus lábios se curvaram para baixo e ela começou a chorar.
O choro mais dolorido que Maura ouviu desde que lhe contara sobre sua mãe. O choro que ela mesma poderia reproduzir se não estivesse tão impotente no momento. E foi só quando Jane caminhou-se para dentro da casa — para preparar as coisas de Harriet — foi que ela agarrou a menina no braço e a segurou com todo amor que sentia, com toda dor. A menina abraçou seu pescoço e chorou. 'Amanhã', ela murmurou enquanto Maura acariciava suas costas. 'Amanhã', ela disse de novo e Maura fechou os olhos na esperança de que quando abrisse de novo, Christine teria sumido de lá. Mas as coisas permaneceram iguais, e a única mudança a seguir foi Jane entrando na sala de novo, trazendo a pequena mochila de Harriet com suas roupas e seu pijama.
Maura se ajoelhou no chão e esperou até que a menina firmasse os pés. 'Amanhã, Maur.' Ela disse quando olhou para a loira, os olhos implorando para ficar.
'Eu sinto muito, minha garotinha.' E o minha nunca foi tão mal usado. Porque se Harriet fosse dela, ela definitivamente ficaria ali. E era demais, Maura agora também chorava. 'Você vai ficar bem, ouviu? E eu vou sentir tua falta.' Ela deu um beijo na testa da menina, e outro abraço foi lhe oferecido.
'M-Maur... ta-tar-taruga.' Ela disse, as palavras tropeçando uma nas outras.
'Isso mesmo. Você é minha tartaruga.' Maura tremia tanto que talvez devesse se sentar de vez no chão.
'Harriet', Jane se ajoelhou também, e agora virou a criança para si. 'Foi... Eu vou sentir tua falta, tartaruguinha.' Jane abraçou a menina antes que a criança o fizesse. Um abraço demorado. Jane não queria soltá-la e o fato de Christine estar presenciando tudo isso a irritava demais. Não era pra ser assim. Não era pra elas parecerem tão frágeis.
Jane se afastou e mostrou um cartãozinho para a menina. 'Esse é o meu número. Vê? Muito bem.' Ela colocou o cartão dentro do bolso da calça da garota. 'Você pode me ligar quando você quiser. A qualquer hora do dia. E para Maura também. Se você perder, você só precisa pedir um novo para a Christine. Ok?' Jane olhou para a mulher e ela afirmou com a cabeça em simpatia.
'O-k-kay.' Ela jogou os braços em volta do pescoço da mulher de novo e Jane a abraçou e Maura abraçou as duas.
Nunca tinha sido tão difícil.
Nunca tinha sido tão angustiante.
O dia nunca pareceu tão errado, distorcido, desfigurado como esse.
E de repente tudo estava desabando.
E Maura soltou Harriet pela última vez. E Jane a liberou de seu último abraço.
E a menina colocando a mochila nas costas seria algo tão triste que Jane jamais esqueceria.
E o olhar dela para Maura, ainda implorando por amanhã atormentaria a loira por um bom tempo.
E tudo tinha começado bem e acabado tão mal. E quando a porta se fechou, separando a criança das duas mulheres definitivamente, Bass cruelmente apareceu na sala, talvez curioso pela movimentação, endossando a amargosa realidade para as duas mulheres: só restara agora uma tartaruga ali.
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