Sobre amor, tartarugas e novas chances
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Jane passou os dedos pelo cabelo antes de entrar no escritório de Maura. Droga, que dia longo. Ele parecia não ter fim para ela. Tudo o que ela queria fazer era ir para casa, beber uma cerveja gelada e cair de sono, mas primeiro ela tinha que fazer uma última coisa. Harriet. Ela tinha que levar a menina para Christine, a assistente social que provavelmente já estava lá. Sem bater, ela empurrou a porta e encaminhou-se para dentro do quarto. A primeira coisa que viu foi Maura, sentada ao lado da mesa, lendo algumas notas. No momento em que Maura notou sua presença, ela fechou o arquivo e sorriu para Jane.
'Ei'. Foi tudo o que ela disse. Ela parecia tão cansada como a morena.
'Ei, Maur. Onde está...' Ela parou quando viu Harriet dormindo no sofá, toda aninhada no casaco de Maura.
Por um momento, Jane se permitiu pensar nela como uma garotinha fofa. Se ela e Maura tivessem insistido um pouco mais, talvez elas teriam tido a sua própria criança dormindo no escritório, à espera de sua mãe para ir para casa. Por um momento aquele pensamento quase, quase, a pegou. Essa menina não era dela, e ela não era sua filha. Para ser honesta, ela mal a conhecia. Ela se recusava a passar por isso novamente. Uma vez tinha sido o suficiente para ela aprender a lidar com este tipo de situação. Não se envolva. Não faça promessas. Não torne isso pessoal.
'Oh...' Ela acrescentou baixando a voz. 'Bem, é hora de ir. A assistente social está aqui.'
Maura se levantou e lambeu os lábios. 'Jane, sobre isso... Você acha que...' Ela agora estava girando seu anel de casamento.
Espere, ela estava inquieta? Jane franziu a testa.
'O que, Maur?' Ela deu um passo para a frente.
'Eu acho que ela está muito chateada. Você acha que você poderia nos dar mais algum tempo?'
'Para que? Conversar?' Tinha sido na defensiva, Jane não queria que soasse assim, mas acabou sendo. Por que Maura estava pedindo mais tempo? Realmente, uma hora ou duas não faria qualquer diferença. Maura não era nem mesmo uma psicóloga ou qualquer coisa do tipo.
'Sim. Ela precisa entender que ela não vai para casa de novo, que ela nunca mais vai ver a mãe outra vez.'
'Eu pensei que você tinha dito a ela isso.'
'Eu disse, mas ela é uma criança, Jane. Leva tempo para...'
'Maura, olha, eu acho que Christine pode fazer isso, ok? Quero dizer... Qual é o ponto de gastar uma hora aqui com ela? Você disse que é preciso tempo, quero dizer...' Ela encolheu os ombros. A conclusão era muito óbvia e em sua opinião ela nem sequer tinha que explicar.
'Na verdade, eu estava pensando... dois dias, talvez três?' Ela sugeriu timidamente.
'O Quê?' Jane tinha sido pega de surpresa agora. Ela tinha escutado isso mesmo? Ah, não. 'Droga, Maura. Você não se envolveu, não é? '
'Não, não me envolvi. Mas, Jane olha para ela! Ela é muito nova e ela está sozinha!' Os olhos verdes encararam os dela esperançosamente.
Merda. Merda, merda! Isso sempre começava assim. Primeiro você sente alguma empatia, você se importa, mesmo que você pense que é apenas compaixão e nada mais que isso. Então você se envolve em aspectos da vida pessoal. Você quer fazer algo mais, porque aquele garoto está desesperado pelos pais, porque ela foi abusada, ou porque ela estava sozinha. Não. Não de novo, não com ela, não com Maura.
Jane passou a mão pelo cabelo e suspirou. 'É por isso que eu odeio trabalhar em casos como estes. Todos eles nos afetam de alguma forma.'
'Eu sei o que você acha de...'
'Maura,' Jane a interrompeu, chegou mais perto dela e acariciou seus braços. Ela não deixaria Maura fazer isso consigo mesma. Ela conhecia o efeito colateral de trabalhar em casos assim. Ela pensou que Maura fosse mais esperta do que se envolver, talvez Jane deveria ter avisado a ela, mas, no fundo, talvez, a morena sabia que isso era algo que você não vê se metendo, e você só percebe que você se está machucada quando é tarde demais para sair ilesa. 'Querida... Ela não ... ela não é nossa responsabilidade, você sabe disso, né?'
'Eu sei, mas Jane...'
'Maura...' Jane a interrompeu mais uma vez. 'Olha, eu gosto dela também, ok? Eu gosto. Mas se você se envolver com cada pessoa, cada família no trabalho... Isso vai te levar a loucura.'
'Jane, ela está sozinha. Ela não tem mais ninguém.' Maura insistiu.
'A assistente social vai cuidar dela. Ela vai estabelecer a menina com uma família.'
'Ela não pode levá-la agora. Ela está com o coração partido, Jane. Ela acaba de perder sua mãe e ela confia em mim. Não seria justo simplesmente deixar alguém que ela nem conhece levá-la para fora daqui.' Maura jogou as mãos no ar para depois deixá-las cair ao lado do corpo.
'Se esse é o problema, você só tem que apresentá-la a Christine.' Foi frio, mas ela preferia ver Maura chateada agora do que devastada mais tarde.
Maura olhou fixamente para ela. Jane conhecia aquele olhar, embora ela tivesse visto apenas algumas vezes. Realmente, ela não queria ser rude. Ela estava apenas tentando ser protetora. Ela era quem ela era, era parte de sua alma. E essa Jane protetora não era apenas no seu trabalho — é claro que ela precisava se proteger, enquanto lá dentro, havia uma série de riscos que envolvidos, ela sabia melhor do que ninguém. Hoyt tinha deixado cicatrizes reais nela, um lembrete de quanto mais vulnerável ela fosse, maiores seriam as chances de se machucar. Sim, havia muito do que se proteger. Quando não era sobre o trabalho, com certeza era sobre as pessoas. Ela não permitiria que ninguém a machucasse, ou a sua família e, especialmente, Maura. Proteção, mantinha ela segura; eles seguros. Ela estava apenas fazendo o que ela era boa, mas a julgar pelo olhar do rosto de Maura, a loira não considerava suas últimas palavras como proteção. Não. Jane viu um relance de ressentimento em seus olhos.
'Você realmente disse isso?' Maura perguntou perplexa.
'Maura...'
'Não.' A loira respondeu rispidamente.
Jane nem tentou se desculpar. Era inútil agora.
'Você nem sequer tentou manter distância, não é?'
'Eu estava ciente, Jane. Mas ela é uma criança, ela merecia mais do que apenas palavras. Eu não sou tão fria assim.' Maura afirmou. É claro que ela não era. Ela poderia ser um pouco estranha quando se tratava de habilidades sociais e tudo mais, mas ela não era fria. Ela se preocupava com as pessoas.
'Não, você não é.' Jane replicou. 'Eu não deveria ter deixado você fazer isso.' Ela murmurou, balançando a cabeça.
'Você não tem o direito de escolher isso. Foi a minha escolha.'
'E olhe para esta confusão, Maura.' Ela estendeu a mão, apontando toda a sala. 'E que diabos? Por que você está descalça?'
'Não importa.' Ela disse curtamente.
'A assistente social está chegando. Se você acha que não pode fazer isso, deixa que eu faço.'
'Jane, eu posso. Eu só não acho que isso é certo. Você não consegue entender?
'Maura... Eu só estou tentando te proteger. Eu não quero ver você triste. Confie em mim quando eu digo te isto: casos como estes ferem, eles nunca cicatrizam Maura, porque continuamos cutucando ora ou outra, se perguntando como eles estão, o que estão fazendo, se eles estão seguros. Dói, porque não podemos controlar o futuro deles, e nem é o nosso lugar para fazer isso também. Eu sei como é, Maura. Eu estou lhe dizendo para escapar enquanto você puder .'
'Eu acho que é tarde demais, Jane. Além disso, ela pode ajudar a resolver este caso, você mesma disse que ninguém tem uma pista nele. Talvez ela saiba algo que possa ajudar, mas não sabe ainda como.'
Maura tinha razão nisso e Jane sabia que ela estava certa. Ainda assim...
'Então, nós apenas temos que chamar assistente social, se alguma coisa acontecer.'
'Estudos mostram que indivíduos que passaram por um trauma como este são mais propensos a lembrar de detalhes desse período traumático quando eles estão em um ambiente livre de estresse, confortável o suficiente em torno de pessoas que eles se sentem seguros.'
Outro ponto. Jane odiava quando Maura usava sua ciência contra ela, porque ela sabia que ela poderia argumentar contra Maura, mas definitivamente não podia contra a ciência. Merda.
Derrotada, Jane resmungou.
'Jesus. Espero que você esteja ciente de onde você está se metendo.' Ela virou as costas para Maura e olhou para Harriet. Isso não ia ser bom.
'Jane?' A voz frágil de Maura chamou.
'Sim, Maur?' A morena virou-se para sua esposa novamente.
'Se eu precisar de sua ajuda sobre isso, você me daria?'
Jane sorriu tristemente para ela. Ela sabia que Maura não iria desistir, ela era tão teimosa como Jane. Maura estava pedindo a ela para ser sua cúmplice nisso. Ela estava pedindo à Jane, a pessoa que sempre escolheu caminhar em terreno seguro, para pisar em uma areia movediça. Maura seria sugada por ela. Jane iria junto.
'Por Favor?'
Jane hesitou no início, mas Maura parecia tão indefesa, engajada e decidida ao mesmo tempo, que ela não teve coragem de dizer não. Maura precisava dela e para seu próprio bem, a detetive preferiria estar ao seu lado em caso de algo sair errado. O botão de pânico tinha sido pressionado e uma voz constante gritava dentro de sua mente 'perigo, perigo, perigo', mas ela estava seguindo Maura, porque, merda!, ela não iria deixá-la fazer isso sozinha.
'Você sabe que eu tô do seu lado, Maur.' Ela finalmente respondeu, quase se arrependendo das palavras.
'Uma das razões pelas quais eu amo você.' Maura sentiu a tensão indo embora. Ela sorriu timidamente para Jane.
'Eu também te amo, querida. Agora junte suas coisas e acorde ela.'
'Jane?'
'Você não tem que falar. Eu sei o que você está pensando.'
'Você sabe.' Era quase uma questão.
Jane quase deu uma risadinha. Como se ela não conhecesse Maura tão bem. Ela caminhou até a esposa e segurou suas mãos 'Eu sei, e eu vou me odiar se algum dia eu te ver chorando por isso. "
Jane estava realmente preocupada com ela, Maura podia dizer pelo jeito que a morena estava estudando seu rosto, a forma como os olhos a observava. Ela apreciava toda a preocupação, no entanto, ela era uma mulher crescida, ela sabia o que estava fazendo. Certo?
'Vamos torcer para que eu não chore.' Ela sussurrou e deu um beijo na boca de Jane.
'Então, aqui vai outra coisa: prepare-se. Como eu lhe disse, eu já passei por isso antes.'
...
Não tinha sido nada fácil convencer a assistente social que a menina tinha que ficar com elas. Elas tiveram um momento complicado de discussão. De um lado da sala, a mulher se recusava a deixar Harriet lá, e do outro lado, Harriet (agarrada nas pernas de Maura) gritava para a mulher que 'de jeito nenhum que eu vou com você, eu não te conheço, não me toque!' Jane descobriu que uma Harriet irritada poderia se tornar em um monstrinho.
Depois de muita discussão, depois de Cavanaugh ter aparecido na sala para interferir, após promessas de Jane de que ela certamente iria informá-la sobre a situação de Harriet no caso, depois de tentativas de Maura para acalmar a menina e prometerem à assistente social que cuidariam dela, a chamaria se alguma coisa desse errado, para atualizar-la, pelo menos, três vezes ao dia, elas haviam feito um acordo.
A garota iria ficar com Maura e Jane.
Sob a responsabilidade delas.
Durante três dias.
'Vocês duas. Não me decepcionem.'
'Temos certeza que não queremos fazer isso.' Jane disse entre dentes, mas sorrindo.
Harriet fez uma cara zangada para a mulher antes de ela sair. Ela estava feliz que ela iria ficar, mas ela tinha que deixar claro: ela não gostava de Christine. Ela a odiava. Por uma única razão: ela estava tentando afastá-la das duas pessoas de qual ela dependia agora. No momento em que a mulher virou as costas para elas, ela sorriu para Jane e Maura. Um rostinho de anjo.
'Obrigada.' Ela sussurrou.
Ambas sorriram para ela.
'Então...' Jane começou. 'Qual é o ponto de quase matar uns aos outros para deixar você ficar em casa com a gente, se nós não estamos indo embora?'
'Certo.' Harriet tentou caminhar em direção a Jane, mas o casaco de Maura estava tornando a missão realmente impossível. Ela tropeçava toda vez que tentava dar um passo em frente.
'Ok, espera.' Jane levantou a mão. 'Maura, por que você não a leva para casa? Eu tenho que terminar algumas coisas aqui. Eu chego lá em uma hora mais ou menos.'
'Você tem certeza? Podemos esperar.'
'Não, sério. Vá. Você tá cansada. Ela tá cansada.' Jane colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha de Maura. Alguns policiais estavam olhando, mas ela não poderia se importar menos.
'Tudo bem, então. Te encontro em casa.'
'Quer que eu compre alguma comida?' Ela perguntou enquanto Maura colocava Harriet novamente em seus braços.
'Isso seria ótimo. Chinesa?'
'Chinesa!' Harriet levantou os braços, em votação.
'Chinesa será.' Jane deu de ombros.
...
'Vocês estão levando essa menina para casa, Jane?' Sua mãe perguntou casualmente, quando ela parou no Café para dizer adeus. Jane sabia o propósito por trás da pergunta.
'Sim, estamos.'
''E Maura vai ficar bem com isso?' Aí, lá estava. Sua mãe sempre tinha começado conversas assim. De vagar, até chegar ao ponto. Angela não era tão ingênua. Perguntas simples como este sempre levavam a algo em que Jane normalmente não queria falar.
'Foi decisão dela.' Ela respondeu um pouco incomodada.
'Entendo. Você não parece concordar com isso.' Uma observação sutil.
'Pode apostar que não.'
'Jane...'
'Mãe, pára. Eu não deveria ter deixado ela falar com Harriet. Agora, ela pediu três dias, mas mais cedo ou mais tarde a criança vai para outro lugar, não importa o quê.'
'Ela só quer ajudar, Jane. Ela tem um grande coração e Harriet é apenas uma garota que precisa dele agora.'
'Ela não deveria ter se envolvido, ela passou do limite.' Ela estava acusando Maura, porque, honestamente, o que diabos ela estava pensando? E ela também estava com raiva de si mesma, porque concordando com ela sobre isso tinha sido uma decisão idiota. Ela estava irritada.
'Você fez isso uma vez também, não é?'
'Sim, exatamente! É por isso que eu sei como isso vai acabar.'
Sua mãe sorriu tristemente para ela. Ela queria dizer que ela não sabia com certeza. Às vezes a vida nos surpreende. Mas conhecendo sua própria filha, ela não iria insistir.
'Esteja do lado dela, então.'
'Eu vou, mãe.'
'Eu preciso ir agora, desculpa Jane. Falo com você quando eu chegar em casa, ok? Não faça nada estúpido!'
'O que, um encontro quente?' Jane riu.
Angela castigou Jane batendo a bolsa em seu ombro.
'Ouch! O que é isso?' Ela fingiu estar com dor, esfregando o lugar.
'Mostre algum respeito pela sua própria mãe, Jane Clementine Rizzoli!'
'Não...' Tarde demais, Jane. Ela olhou em volta e rezou para o bom Deus que ela acreditava que ninguém tivesse escutado seu nome completo.
Sua mãe tinha ido embora agora, antes que ela pudesse repreendê-la. Para seu próprio bem, ela decidiu sair daquele lugar, antes de qualquer outra coisa decidisse acontecer naquele dia. Era o suficiente por agora.
Fale com o autor