Apenas agora, depois da aula de hoje, estou conseguindo ligar para o número, até tentei ligar no intervalo na escola, entretanto ninguém me atendeu.

Tenho um pouco de receio desse numero não ter as respostas que eu procuro, afinal já são mais de 5 anos da morte do meu pai, esse suposto primo pode até mesmo ter falecido.

A ligação cai duas vezes na caixa postal, eu ainda espero meia hora para tentar ligar novamente. Dessa vez alguém atende.

— Olá. Quem fala?

— Oi, aqui é a Sophia. Eu sou a...

— Eu não conheço nenhuma Sophia, e sou um homem muito ocupado, espero que seja algo importante.

— É importante sim. Pelo menos para mim é. Eu sou a filha do Jacir.

— A filha de quem?

— Do seu primo.

— Aquela Sophia. O que você precisa? Nunca esperei uma ligação sua, principalmente após a morte do seu pai, eu nunca tive muito contato com a sua mãe.

— Eu sei disso. Minha mãe falou que nunca te conheceu.

— Mas ela conheceu sim. Eu visitei sua casa uma vez – estranho demais, minha mãe não costuma mentir.

— Quando?

— Meses antes da morte do seu pai. Eu fui até ai procura-lo, eu precisava conversar com ele sobre uma coisa.

– O que vocês conversaram naquele dia?

— Apenas sobre nossa família, e sobre alguns problemas que infelizmente estamos envolvidos.

— Eu sou da família, eu tenho o direito de saber.

— Acho que você pode estar certa. Mas não posso falar sobre isso pelo telefone, e também não consigo ir até ai essa semana.

— Onde você mora?

— Em Bragança.

— Passa o endereço, eu dou um jeito de ir até você – ele me passa o endereço, e fala para eu pedir para conversar com o Moacir. Eu prometi ir amanhã, só preciso conversar com meus amigos, para saber se consigo carona para ir mesmo.

— Sophia, por que você está aqui essa hora? Sua mãe já saiu daqui faz uns 10 minutos.

— Eu sei, encontrei-a no caminho para cá. Mas eu precisava vir aqui pedir um favor para você Miguel.

— O que você precisa?

— Amanhã você pode pedir para o Antônio me levar até Bragança? Se não for incomodo é claro.

— Tenho quase certeza que ele está livre sim. Eu combino com ele certo e te falo amanhã na escola.

— Obrigada. Você pode ser meu novo melhor amigo.

— Obrigado pela honra. Agora me responde por que você vai para lá?

— Eu conversei com minha mãe sobre a morte do meu pai. Ela ficou estranha e não quis me falar nada, comentou apenas a respeito de um primo do meu pai que pode saber de algo.

— Eu reparei mesmo que ultimamente sua mãe está menos alegre, mais séria, nem mesmo corresponde as minhas piadas.

— Talvez por que elas sejam ruins.

— Lógico que não. Eu sou ótimo piadista, agora continua me contando.

— Eu liguei para esse primo, ele falou que precisa conversar comigo sobre assuntos da minha família, mas que precisa ser pessoalmente. Ele mora em Bragança, e pediu para eu ir encontra-lo.

— Entendi. Então quarta a gente pode se encontrar no lago, nós quatro, assim você conta para a gente sobre o encontro com esse seu parente, e se não descobrirmos nada sobre a Inaiê podemos continuar procurando.

— Até que quando você pensa consegue ter boas ideias, em?

— Não enche Sophia.

— Agora eu preciso ir embora, antes que minha mãe comece a enlouquecer.

— Amanhã então eu te falo sobre o que combinei com o Antônio.

— Ok. Obrigada mimado.

— Até mais rabugenta.

O Antônio me buscou em casa às 14 horas da terça feira, como eu havia combinado mais cedo com o Miguel. Já estou a caminho para Bragança, e confesso que muito ansiosa para esse encontro.

Quando cheguei o Moacir esperava por mim no escritório da casa dele, uma empregada me levou até ele. Ele é um homem peculiar, velho, mas aparentemente ativo ainda, estava sentado concentrado em papeis a sua frente, sem perceber minha presença.

— Boa tarde, desculpe atrapalhar.

— Você deve ser a Sophia, não é? Eu que peço desculpas, estava concentrado no meu trabalho, nem percebi sua presença. Pode sentar. Sua mãe deixou você vir hoje? Espero não ter causado nenhum problema entre vocês.

Na verdade eu nem conversei com ela, provavelmente ela não teria gostado dessa minha vinda até Bragança, muito menos para conversar com o primo de meu pai. Eu apenas falei que iria passar a tarde com o Murilo.

— Fique tranquilo, minha mãe não deu nenhum trabalho.

— Certo. Acho que você não está aqui para papo furado, então vou direto ao assunto.

— Meu pai...

— Isso seu pai, mas mais do que isso nossa família. Você sabe algo sobre os Tibiriçás?

— Não meu pai morreu eu era muito pequena, por isso nunca conversei com meu pai sobre isso.

— E para ser sincero seu pai não sabia muita coisa sobre o assunto também. A minha parte da família possui mais contato com a tradição.

— Só sei que meu pai era filho único, e seus pais não tinham irmãos, portanto eu sou a única da linhagem Tibiriçá da parte do meu pai.

— Eu não tenho certeza se o que vou dizer é verdade, afinal eu estou apenas transmitindo informações que meu pai passou para mim antes de falecer. Os Tibiriçás é principalmente uma linhagem masculina, até você é claro, antigamente nossa família tinha uma mulher poderosa, que tinha muita ligação com a terra, ela que é a verdadeira matriarca da nossa família, com o passar dos anos um dos filhos de seus descendentes era o Tibiriçá, ele teve dois filhos, mas morreu jovem, sem passar a diante a informação sobre esse dom. Seus dois filhos tiveram cada um deles um filho homem, e assim por diante, sem nunca mais haver mulheres entre a nossa linhagem. Eu descendo da linhagem de um dos filhos, e seu pai de outro.

— Como seu pai descobriu então? Sobre esse dom?

— Meu pai não gostava muito de Bragança, por isso decidiu passar um tempo em Tuiuti, ele decidiu quando jovem estudar sobre nossos antepassados, mais como um passatempo do que qualquer outra coisa. Ele então foi em uma antiga casa onde ele viveu com seus pais em Tuiuti quando jovem, lá ele encontrou registros de uma arvore genealógica, e um mapa, que o levou até uma caverna, que provavelmente era onde o Tibiriçá vivia, ele encontrou nessa caverna livros, um desses livro sobre o dom da terra, ele trouxe para casa, e antes de morrer ele contou para mim, e pediu para eu prometer passar para frente essa informação, principalmente para meus descendentes. Entretanto eu nunca casei, nunca tive filhos ou filhas, analisando a linhagem eu consegui descobrir o descendente mais próximo da sua parte da família, o seu avó, com isso eu descobri seu pai e fui até ele, a gente marcou o encontro aqui em casa porque eu falei que tinha uma herança de meu pai para você, sua filha, a descendente da família. Ele não acreditou totalmente nessa história, mas veio até aqui conversar comigo, ele pegou os livros que meu pai achou na caverna para levar para você ler quando mais velha. Infelizmente ele sofreu o acidente no caminho para casa, eu consegui recuperar os livros com a polícia no local do acidente.

Ele levanta da cadeira, indo em direção a uma estante de livros atrás dele. Ele retira dela três livros.

— Esses são os livros. Eles são seus agora, leve para casa, leia-os, só assim minha promessa para o meu pai estará sendo cumprida.

— Obrigada Moacir. Eu acredito em você, nessa história, e eles vão ser muito bem utilizados, sua promessa está cumprida – e provavelmente a minha também.

Eu entro no carro do Antônio em um turbilhão de emoções, sem saber no que de fato confiar. Essa viagem mudou minha vida provavelmente de um jeito irreversível. E eu não sei nem por onde começar a enfrentar essa nova realidade.

O Antônio entra na estrada cheias de curvas que conduz até Tuiuti, apesar da reforma recente o percurso continua perigoso, principalmente nesse horário em que o sol começa descer, e com isso acaba afetando a visão do caminho.

Eu estou com tantas coisas na cabeça que não consigo focar em nenhum pensamento, por isso prefiro observar a paisagem, e aos poucos meu pai vem a minha cabeça, seu rosto, seu sorriso. Eu não costumo pensar muito na sua aparência, afinal eu não me recordo de muita coisa, mas agora eu o vejo, bem claramente.

Minha atenção repentinamente é desviada para um animal que pula em direção à estrada, e em questão de segundos ele se choca contra o nosso carro. O Antônio consegue freia, mas tarde demais, o coelho cai na pista, provavelmente morto, enquanto o carro vai em direção ao acostamento, derrapando , chocando-se contra uma árvore velha, com a madeira apodrecida, que acaba caindo sobre o carro. Essa é a última coisa que vejo.