Sobre Youkais e Gueixas
2 Okiya
Notas iniciais
Era uma noite tranquila. Estava um tempo fresco e soprava uma brisa agradável. A lua cheia brilhava, e se eu ficasse olhando por muito tempo, o brilho começava a ficar sinistro.
Senti o cheiro da chuva distante, e parecia que minha matilha também, pois estavam todos indo em direção a uma pequena caverna para passar a noite. Vi ao longe alguns ningen preparando-se para deixar o parque e avisei aos meus companheiros que estava indo me despedir deles. Porém, no meio do caminho, minha visão começou a ficar turva e eu comecei a ficar tonta. Pensei em voltar para a caverna, mas já estava um pouco distante e os ningen já me viram e estavam me chamando.
Ouvi gritos. Depois, apenas o silêncio.
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Acordei na caverna onde minha matilha havia passado a noite. Acredito que eu tenha dormido bastante, pois o sol já estava se pondo novamente e sua luz alaranjada passava pela entrada da caverna. Estava sentindo que meus pelos estavam sujos. Quando olhei, eles estavam cheios de alguma substância marrom-escura. Sangue seco, talvez? Estava pensando no que eu havia caçado antes de dormir quando me veio uma náusea muito forte, e quando botei para fora o conteúdo do meu estômago, minha pergunta anterior fora respondida, e da pior maneira possível.
Junto do que parecia com um bolo de carne qualquer, havia alguns pedaços de pano colorido, que me lembravam as roupas que os ningen usavam quando fui cumprimentá-los, antes de desmaiar. Quando me dei conta do que eu havia feito, tudo que eu conseguia fazer era uivar e chorar. Como eu estava enojada, envergonhada! Tentei correr para fora da caverna, porém quando estava quase conseguindo sair, alguma coisa me acertou e eu caí. Pouco antes de perder a consciência novamente, eu consegui ver meus pais ao longe, eles estavam com um ar tristonho, estavam conversando com alguém... não era um dos nossos, parecia ser... uma raposa?
O som do vento ecoou na caverna, e então tudo ficou escuro novamente.
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Dessa vez eu acordei em um lugar que nunca havia visto. O chão era liso, parecia ser feito de madeira, não havia grama ou terra nele. As paredes eram de uma cor suave de areia, não sabia dizer do que eram feitas. O ambiente era bem pequeno. Uma única lâmpada iluminava o local.
Havia algumas mulheres junto comigo no quarto. À minha frente estava uma moça magrinha, com longuíssimos cabelos negros lisos, e olhos castanho-escuros. Ela usava aquilo que os ningen chamavam de kimono, era cor-de-rosa, e a faixa que o mantinha fechado era de um branco-pérola. Mas ela não era uma mulher comum, pois no topo de sua cabeça estavam duas orelhas grandes e triangulares, com pelos laranja e branco, e apenas alguns fios pretos na ponta. Uma cauda peluda das mesmas cores balançava de um lado para o outro atrás de si. Ela estava ajoelhada e me olhava com uma expressão meio vazia.
Ao seu lado direito havia outra moça, mais jovem. Ela tinha a pele muito pálida, era quase branca como a neve, seus olhos eram de um vermelho vivo, e eu poderia até dizer que ela era albina, se não fosse pelos seus cabelos, que não eram brancos, eram turquesa, uma cor não muito comum para cabelos de um ningen, mas pela aparência da moça a seu lado, tinha certeza de que nenhuma delas era humana. Além disso, seu cabelo não estava solto como o da outra moça, estava arrumado de uma forma diferente, mas bonita, com um topete, duas formas volumosas dos lados e um coque alto atrás. Uma fita vermelha estava amarrada atrás do topete e um pente estava acomodado entre seu coque e seu couro cabeludo. Usava um kimono branco puro com uma faixa azul marinho. Ela tinha um olhar triste, e me olhava como se estivesse preocupada comigo.
A moça que estava à esquerda da kitsune com certeza chamava bastante atenção para si. Ela tinha cabelos vermelhos volumosos, que pareciam fogo, pareciam se mexer por si só. No topo de sua cabeça havia duas orelhas compridas, de pelo amarelo claro, que ficavam quase o tempo todos eretas, como se prestassem atenção em tudo à sua volta. Em sua testa havia um magnífico chifre prateado, parecia uma espada, mas diferentemente desta, era curvo em seu comprimento. Uma cauda escamosa verde saía de seu kimono lilás e descansava a seu lado. Na ponta havia um tufo de cabelos tão vermelhos quanto os que cresciam em sua cabeça. Seus olhos alaranjados me olhavam como se tivessem pena do estado em que eu estava.
As três fizeram uma reverência diante de mim e então a mulher raposa se pronunciou.
“Bem vinda à esta okiya, jovem loba. Eu me chamo Tamabi, esta moça à minha direita se chama Yukihana, e à minha esquerda está Akairin. Como você pode ver, nós não somos pessoas comuns. Aliás, não somos pessoas.” Ela deu uma risadinha. “Bem, eu suponho que ninguém te contou o porquê de você estar aqui.”
Eu não conseguia articular palavras com meus lábios de loba, então apenas inclinei minha cabeça para o lado, na esperança de que conseguissem me entender.
“Sua família nos disse que Houkou manifestou-se em você, fazendo você assassinar humanos e comer sua carne. Para que sua vida fosse preservada, eles decidiram tirar você do parque e nos contataram. A partir de hoje você será nossa shikomi, será como um empregada para nós por um ano, e receberá aulas de como se portar na sociedade humana, assim como todas as aulas necessárias para torna-se uma das gueixas prestigiadas da okiya Hikai.”
Eu estava meio atônita com tanta informação nova, e ainda estava me perguntando o que era uma gueixa quando ouvi barulhos vindos do que parecia ser o andar de baixo da casa. Logo descobri o que era, quando a porta de correr se abriu. A moça que a abriu estava ajoelhada, mas logo levantou-se e entrou no quarto, seguida de mais duas moças. Logo elas ajoelharam-se novamente e fizeram uma reverência em direção à kitsune, dizendo “Okini, okaa-san” em uníssono.
Aquelas moças também usavam kimono, mas não estavam vestidas de modo simples como as três que já estavam no quarto, elas eram deslumbrantes, com suas faces pintadas de branco puro e seus lábios de vermelho vivo. A moça que abriu a porta usava um kimono azul-claro que arrastava no chão, com lindos desenhos de leques amarelos e pretos abaixo da cintura. A faixa que mantinha o kimono fechado era preta, também com desenhos de leques, mas em dourado e branco. A amarração lembrava um quadrado simples na parte de trás. Logo acima da amarração, podia-se ver seu pescoço à mostra, o pedaço de pele nua delimitado pelo colarinho branco também era pintado, assim como sua face. Seu cabelo preto estava arrumado num estilo similar ao de Yukihana, mas ao mesmo tempo era bem diferente deste. Havia um pente dourado enfeitando o penteado. Seus olhos verdes me fitavam de um jeito misterioso.
A moça que veio atrás dela chamava muito mais atenção. Seu kimono era azul como o da moça à sua frente, mas tinha muito mais detalhes, era todo decorado com desenhos de redemoinhos de água em um azul mais vivo. Suas mangas eram muito longas, quase tocavam o chão. A faixa que ela usava era laranja com desenhos de carpas ornamentais, e a amarração era bem diferente da amarração da moça à sua frente, com as extremidades da faixa caindo por suas costas de forma similar a uma cascata. Seu cabelo preto estava arrumado num estilo parecido com o cabelo de Yukihana, mas estava muito mais enfeitado, com pequenas cascatas de folhas de salgueiro e flores cor-de-rosa acima de sua cabeça e logo acima de sua têmpora esquerda. Acima de sua têmpora direita havia um enfeite metálico, com pequenas franjas que tilintavam conforme ela se movia.
A última menina se vestia de forma parecida com a que estava à sua frente, com um kimono de mangas longas, porém este era de um azul marinho com desenhos de fogos de artifício, e sua faixa era branca, com desenhos de barquinhos intercalados com ondas azuis. Seu cabelo estava tão enfeitado quanto o da moça à sua frente, mas no lugar da coroa de plantas acima de sua cabeça, havia um pente simples, nas cores verde e rosa.
As três se aproximaram das moças que estavam no quarto comigo e fizeram uma reverência, dizendo “Konbanwa” em uníssono. Tamabi apresentou as três na ordem em que chegaram. Seus nomes eram Tamaryuu, Suitama e Sorahina.
Feitas as devidas apresentações, Tamabi ordenou que Yukihana me levasse à casa de banhos, enquanto as outras se dispersavam, provavelmente para tirar a maquiagem e dormir. Seria um pouco estranho, porém, alguém levar um lobo a um lugar onde humanos tomam banho.
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