Notas iniciais
Meses depois...

O salão já está enchendo de gente, eu e meus pais que não são um casal sentamos numa mesa e logo depois Luiz chega com sua mãe e seu irmão mais velho, eles parecem não querer estar aqui, mas Luiz não liga, ele senta ao meu lado e começamos a conversar sobre tudo e sobre nada.

Depois a cerimônia se inicia e a diretora começa a falar, não consigo me concentrar pra ouvir nada do que ela diz apenas me lembro de uma comemoração que teve na escola mês passado onde ela dançou até o chão, pois bem, depois Robson é chamado, ele foi escolhido para fazer o discurso, e está muito nervoso por sinal.

“Chegar aqui não foi fácil, quem disse que seria?

Desde quando colocamos os pés na escola, esse momento foi muito esperado, o momento da formação, o momento de dizer adeus.

Professores que nos marcaram estão aqui e queremos dizer a todos vocês: muito obrigado. Obrigado por construírem conosco uma história única, por nos repassarem o conhecimento que vocês têm, pelas cobranças... e por marcarem nossas vidas.

Obrigado a todos que nesta escola contribuíram para o nosso crescimento, como estudantes e cidadãos.

E agora, alguns de nós já está com os pés na universidade, outros já encaminhados para o curso técnico, alguns pensando em trabalhar, alguns pensando em construir uma família, mas a questão é que não importa pra onde você vai, de onde você veio, o porquê ou o onde, a questão é quem você é, quem você será.

Um dia nos perguntaram “O que você quer ser quando crescer?” então, agora é a hora de responder.

E ser.

Seja quem você é. Mesmo com problemas ou cicatrizes da vida, mesmo com obstáculos, corra atrás dos seus sonhos, lute pelo que você quer, faça por você.

Ninguém mais fará, por que uma fase já se passou e a fase da vida real se inicia.

Sejam bem-vindos.”

***

Depois de o salão irromper em aplausos e eu me ver de olhos marejados nós nos abraçamos, e me senti feliz por isso, fazia muito tempo que não sentia isso, então abraçar toda a minha turma foi bom pra compensar todo aquele tempo sem sentir calor humano.

Robson estava belíssimo aquela noite, ele era metido as vezes, mas muito inteligente, não foi à toa que ele passou em Administração. Lauane foi pra um curso da área da saúde, ela estava empolgadíssima em ter que mudar de cidade, não nos tornamos amigas embora tenhamos passado muito tempo juntas ultimamente mas éramos companheiras de certa forma e meu desejo é que ela conseguisse tudo que desejasse, ela era ambiciosa, eu sabia, mas era muito esperta.

Luiz conseguiu ser aprovado em um curso de Engenharia, ele disse que esse seria o primeiro, eu ri.

Perto do final fui abraçar minha professora de História e lhe contei sobre a aprovação do meu curso e que o escolhi por causa dela, sim, eu seria professora de História, e escreveria livros também, porque todos os tipos de história me rodeavam. Ela amou. E me disse que eu poderia ser o que sonhasse, bastava ser persistente, todos temos potencial.

E eu acredito.

***

Meus pais já foram embora e eu não quis ir pra festa da turma, não gosto desses ambientes. Uma galera ainda vai pra lá, mas por enquanto estamos tirando fotos e eu estou tentando gravar tudo isso na minha mente, apesar de saber que as lembranças logo se vão e o que fica são apenas migalhas delas.

Gravo a bunda empinada de Lauane e as pernas finas de Robson, Luiz e seu olhar que não perde e não disfarça nada.

E eu. Eu e meu vestido cor de vinho.

Eu aqui e agora. Inconstante. Futura professora de história. Medrosa, porém persistente. Ferida, porém em processo de cicatrização.

Adolescente se tornando adulta. Mas uma eterna criança. Só que ninguém pode saber disso é claro.