Notas iniciais
Seis meses antes da Triste Decisão

Eu queria algum dia, acordar e ouvir os pássaros cantarem, assoviar junto com eles uma melodia harmoniosa, queria apenas cantar e me preocupar só com o que escolher pra tomar no café da manhã. Eu gostaria de acordar e não lembrar dos golpes que eu sofri, eu gostaria de não ver os fantasmas “amigáveis”, eu gostaria de sorrir com vontade e de não pensar em me matar como faço toda a manhã. Toda a maldita manhã.

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O meu pai saiu de casa quando eu tinha quinze anos. Um dia antes do meu aniversário. Olha só que lindo presente.

A casa onde morávamos foi alugada e o valor do aluguel era transferido pra mim. Meu sustento. Eu, fruto daquela desgraça de relacionamento.

Ás vezes eu o encontro pela rua ou nos meus sonhos, (ou seriam pesadelos?) mas ele não é o mesmo. Nos meus sonhos ele parece aquele homem que fazia tranças nos meus cabelos quando eu era criança, com um lindo sorriso, que dizia toda noite que me amava antes de eu dormir e brincava dizendo que nunca me deixaria ir embora. Eu não falava nada mas queria muito dizer que meu futuro era viajar.

Hoje quando eu o vejo enxergo apenas um fantasma. Ele não é mais aquele homem que fazia promessas pra mim. E pra quem não queria me deixar ir embora... ele foi o primeiro a partir.

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É engraçado essa coisa de amor. Você gasta um dinheirão pra fazer uma festa onde você jurará amar e viver com a pessoa até que a morte separe vocês, então, no outro dia você já deseja a morte.

Mas uma coisa eu sei, o amor é uma plantinha que tem que ser regada todos os dias, caso contrário... ela murcha.

O amor dos meus pais não só murchou como morreu, uma vaca veio e arrancou a planta. E foi com essa vaca que o meu pai foi embora. Deixou minha mãe e eu destroçadas.

As raízes da minha mãe voltaram a se firmar, agora as minhas... bem, elas tentaram. Mas nem todos que tentam conseguem.

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Um dia desses eu viajei de ônibus, olhando as formas das nuvens no céu eu pensei que talvez valesse a pena viver. Crescer e casar, ter filhos, construir um futuro e esquecer o passado. Mas então eu lembrei o que os casados fazem e percebi que nunca esqueceria meus pesadelos. E eu lembrei o que aconteceria depois que eu casasse, eu amaria um ser que viria de mim, daria minha vida por ele e o que ele faria depois? Me daria às costas. E o que aconteceria em seguida, meu marido me trairia com a primeira que aparecesse, a primeira, boa o bastante para fazê-lo esquecer quem ele tinha deixado em casa. E meus dias se resumiriam em cuidar de uma casa, lavar roupas de pessoas que me amavam por interesse, fazer comida pra sobreviver, dormir e acordar, até que enfim, morrer.

Pra quê trilhar todo esse caminho se já sabemos o fim? Já basta os sofrimentos de agora, eles já bastam pra que eu possa morrer com boas histórias deixadas sobre a terra.